(…) Após semanas de preparativos e muita ansiedade, pegamos estrada rumo ao Nordeste. Nossos destinos? Reserva da Vale em Linhare – ES, Itacaré – BA e a Estação Veracel, nos arredores de Porto Seguro.

saira perola virtude_Joao_Sergio

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  • Texto: João Sérgio Barros
  • Fotos: João Sérgio Barros e Angelo Bruno
  • Câmera: Canon 5D Mark III e lente Canon 300 2.8
  • Guiados por Justiniano Magnago e Leonardo Patrial (contatos pelo Wikiaves)

Em meio a um turbilhão de problemas, inevitáveis numa mudança tumultuada (agora sou um cidadão carioca rsrs), nove dias que tinha de folga poderiam me safar de um colapso mental, se bem utilizados.

Então não tive dúvidas, liguei pro Brunão, marido da minha querida prima Rosana e grande parceiro de passarinhadas, e perguntei se gostaria de me acompanhar numa excursão por nossas matas. Topou na hora e ainda sugeriu e viabilizou um roteiro que há muito desejava.

Apenas inclui a Reserva da Vale em Linhares – ES, destino obrigatório pra quem quer registrar alguns dos habitantes mais esquivos da quase totalmente dizimada Hiléia Baiana – porção da Mata Atlântica entre o norte do Espírito Santo e sul da Bahia que se assemelha à Amazônia, inclusive apresentando um elevado número de espécies em comum. Aliás, este é um dos fatos que subsidiam a teoria de que a Amazônia e a Hiléia Baiana eram uma só floresta, até serem separadas pelo Cerrado.

Após semanas de preparativos e muita ansiedade, pegamos estrada rumo ao Nordeste. Nossos destinos? Reserva da Vale em Linhares – ES, Itacar – BA e a Estação Veracel, nos arredores de Porto Seguro.

Saímos da capital fluminense ainda noite. A luz do dia descortinou uma paisagem desoladora. O norte fluminense, disse o Brunão, há muito foi devastado pela monocultura canavieira. Somente quando entramos no estado capixaba, avistamos algumas árvores altaneiras que pressagiavam o que nos aguardava.

Em Iconha, nos deparamos com o que parecia ser uma família de Sovis se alimentando de insetos que eles habilidosamente capturavam e consumiam em pleno ar (veja álbum do relato). Primeiro lifer da viagem, muito festejado haja vista minha paixão inata pelos acipitrídeos.

Mais adiante, em Aracruz, flagramos um bem-te-vi atacando um acauã que, pousado sobre um poste, provavelmente só aguardava a passagem de algum incauto ofídeo (veja álbum do relato). Lifer pro Brunão e uma cena sempre interessante de se observar.

A viagem transcorreu sem mais novidades e graças a Deus chegamos bem ao nosso primeiro destino, o maior fragmento de Mata Atlântica ao norte do Rio de Janeiro, duas grandes reservas contíguas que juntas somam mais de 56 mil hectares de floresta preservada. Lugar incrível, um dos últimos refúgios extra-amazônicos de predadores de topo como a onça-pintada e a harpia.

Para este primeiro destino de nossa viagem tivemos o privilégio de sermos guiados pelo grande Justiniano Magnago, profundo conhecedor da reserva, acostumado, junto a seu filho, o também notável guia Gustavo Magnago, a participar de expedições científicas naquela reserva, realizando os registros fotográficos.

Um parênteses para os interessados em passarinhar por lá.  A Vale mantém um hotel dentro da reserva com uma infraestrutura excelente e com preços incríveis.  Diárias com pensão completa a partir de 110 reais em quarto duplo?… eu nunca vi! Os quartos mais simples possuem ar, frigobar, TV moderna, ótimos  banheiro e armários. A comida é boa e dá até pra levar a família, pois há piscina, sauna, parquinho, bicicletas, entre outros entretenimentos.

“De quebra”, nos arredores do hotel pode-se observar raridades como mutuns-de-bico-vermelho, tiribas-de-orelha-branca e grande, papagaios-moleiro e até antas. A Neici, matriarca do clã Magnago, descobriu um ninho de benedito-de-testa-amarela no belo jardim do hotel. Depois de uma feijoada fizemos a sesta sob a sombra de uma árvore, clicando a rotina do ninho. Os dedicados pais se revezavam, ora levando alimento, ora retirando dejetos (veja álbum do relato).

Um dado importante é que o interior da reserva só é franqueado a pesquisadores autorizados, exceção feita se você está com um Magnago.

Então caríssimos leitores, aí fica a dica, um destino top, a baixo custo e muito bem assessorado pelos Magnago, guias superespecializados e prá lá de competentes.

O alvo principal em Linhares eram os tinamídeos, família de aves de solo muito ariscas e que possui representantes bem raros, como o macuco – espécie intolerante à perturbação de seu habitat. Aliás, esse animal, que na minha terra já virou lenda e nem os mais antigos conterrâneos tiveram o prazer de observá-lo em liberdade, ainda é relativamente comum naquelas matas e é só aguardar o crepúsculo que a “caçada” é certeira. Eles vão para as inúmeras estradas que cortam a reserva onde é mais fácil alçar voo para o poleiro de pernoite.  Então é relativamente fácil fotografá-los, tanto nos poleiros acima das estradas, quanto ao longo das mesmas. Só esta oportunidade pra mim já valeu a viagem.

Para conseguir um registro do tururim e do inhambu-anhangá as coisas já são bem mais complicadas. Na véspera o Justiniano armou o esconderijo no interior da mata. No dia seguinte adentramos a mata escura, apesar do sol já raiar acima do dossel. Após nos acomodarmos, permanecemos um tempo em total silencio antes do Justiniano começar a piar o inhambú, bicho tinhoso que desconfia da própria sombra. Nosso guia nos alertou que até um movimento descuidado de nossas lentes (única coisa que ficava exposta por uma abertura do esconderijo) poderia frustrar nossa tentativa de registrá-lo.

O tururim foi relativamente fácil, já o anhangá… por dois dias o bicho piou a poucos metros de nós, mas nada de dar as caras.

Apesar de não conseguirmos fotografá-lo não houve o menor sentimento de frustração. Ouvir a maravilhosa vocalização do inhambú-anhangá tão de perto foi uma experiência realmente sensacional, indescritível!

No esconderijo pudemos ainda flagrar a técnica de um tatu procurando alimento, um casal de furriel forrageando (lifer pra gente), enfim, estar na intimidade destes animais, num reality show em que uma espiadinha realmente vale a pena.

Se o tempo não fosse tão curto ficaria ali o dia inteiro, realmente uma experiência que recomendo bastante.

Algumas aves sensacionais que foram registradas:  surucuá-de-coleira, sabiá-pimenta, mutum-de-bico-vermelho, coruja-do-mato, pica-pau-bufador,  vissiá, cabeça-encarnada, cabeça-branca. E um registro inédito pra reserva, o encontro, flagrado junto a uma colônia de guaxes. Proeza do Brunão.

Não posso deixar também de mencionar um bicho em especial, que para mim é a trilha sonora da Amazônia e, depois desta viagem, da Hiléia Baiana também. O cricrió.

Com o carro em movimento, adentrando a reserva, escutei uma vocalização muito alta e familiar (a gente escuta esta ave em qualquer documentário sobre a Amazônia). Paramos rapidamente o carro e o Justiniano orientou-nos a seguir o som dentro da mata. Assim era a melhor forma de conseguirmos um registro do bicho. Não deu outra, para mim uma das melhores fotos que fiz nesta viagem (veja álbum do relato e escutem vocalização gravada em: http://www.wikiaves.com.br/1116616&t=s&s=11378&u=2818 ).

Deixamos a reserva com aquele gostinho de quero mais e com a certeza absoluta que ali não é lugar de uma só visita.

Aproveito o ensejo para agradecer ao Justiniano Magnago, que com sua generosidade, companheirismo, sabedoria e modéstia, foi mais que um ótimo guia, foi um grande amigo.

Seguimos então rumo ao nosso próximo destino, Itacaré. Lá seríamos guiados pelo nobre Leonardo Patrial, solitário defensor da natureza local. Ele nos contou cada história… e apesar de nadar contra a maré, nunca desiste de seus princípios mais elevados.

O tangará-rajado era a “espécie-alvo” em Itacaré (confidencio-lhes que é praticamente impossível não encontrá-lo por lá).

Apesar dos bichos não estarem respondendo muito bem ao playback desde Linhares, talvez por estarem ocupados com os filhotes ou fazendo ninho (observamos os dois comportamentos em várias espécies), achamos o “rajado” no último dia de buscas, numa trilha que o Patrial guarda na manga quando ele não é encontrado em outros lugares.

O famoso tangará é uma pequena joia que infelizmente passou praticamente todo o tempo que o observamos no dossel, impossibilitando um registro à altura de sua beleza ímpar. Fato que não menosprezou a relevância daquele momento tão aguardado.

Mas não foi só, ainda tivemos a satisfação de registrar pela primeira vez em Itacaré (Wikiaves) o capitão-de-saíra-amarelo e o bico-assovelado, além de um festival de lifers muito interessantes como a choquinha-de-rabo-cintado, o caneleiro-bordado,  o chorozinho-de-boné, o rabo-amarelo, entre vários outros. Ainda flagramos um gavião-de-rabo-barrado planando com um lagarto nas garras, meu primeiro encontro com este interessantíssimo acipitrídeo. No mesmo local também flagramos um urubu-rei, ave muito rara naquela região, conforme nos informou o Patrial.

Mas acho que a maior atração em Itacaré é mesmo o maravilhoso quintal mágico do Patrial. Sentados à mesa onde é servido um delicioso e farto café-da-manhã, somos surpreendidos o tempo todo por outros magníficos convidados ao desjejum. Espécies sensacionais, de beleza ímpar, como a saíra-pérola, cambada-de-chaves, saíra-beija-flor, tiê-sangue, gaturamo-verdadeiro entre outras, se revezam em um desfile de cores incríveis (veja álbum do relato).

Numa viagem destas sempre visamos lifers, espécies fantásticas, belas fotos. Mas quase sempre saímos com algo muito mais precioso, valorosos amigos que comungam da mesma paixão, a natureza. E não só contemplam, mas lutam por ela!

E assim, da mesma forma nos despedimos do grande Patrial, com a certeza de que algum dia nos reencontraremos. Valeu demais meu amigo! Bom saber que as matas itacarenses tem um combativo defensor.

Já um tanto extenuados pelos milhares de kilômetros rodados, partimos para Porto Seguro. Fomos direto para um belo hotel que recomendo demais, excelente custo-benefício, de frente pro mar, ótima localização, a poucos minutos da RPPN da Veracel e do aeroporto.  Tomem nota, Hotel Quinta do Sol.

Mesmo sabendo que o melhor mês para encontrar o crejoá era fevereiro, devido à frutificação do murici, fomos com a esperança de sempre. Outras espécies-alvo eram o raro anambé-de-asa-branca e o raríssimo balança-rabo-canela, o beija-flor mais ameaçado do Brasil, encontrado somente na RPPN da Veracel e em Boa Nova, também na Bahia.

Encontramos algumas fêmeas do anambé numa fruteira, mas nada do macho com aquela plumagem alucinante. E o crejoá, apesar de provavelmente também se alimentar daquela pequena fruta laranja, ficou pra fevereiro. Realmente, ao que tudo indica, só com a frutificação do murici tem-se boas chances de fotografar esta ave ímpar, que reúne o belo e o raro como nenhuma outra.

Outro amigo que fizemos nesta jornada foi o Jailson Santos, funcionário da RPPN e dedicado fotógrafo de aves. O Jailson trabalhou no Projeto Gavião-real, monitorando as harpias que foram reintroduzidas no PARNA Pau Brasil. Um grande trabalho!

Foi ele que gentilmente nos indicou alguns locais e ainda nos cedeu um ótimo playback do raríssimo balança-rabo-canela. Como dizem, “deu a faca e o queijo”.

Então, com a logística adequada e alguma procura, encontramos um espécime do ameaçado colibri (veja álbum do relato). Aliás, diga-se de passagem, na prorrogação do segundo tempo, pois pegaria um avião pouco depois, enquanto o Brunão seguiria para casa do Honofrófio (este tem história…), em Alcobaça.

Bem amigos, com um registro destes fechamos esta grande viagem com chave de ouro! Muito obrigado Jailson! Até fevereiro, meu caro!

É isto aí pessoal, procurei ser o mais sucinto possível, pois apesar de ser uma viagem de nove dias, parece que vivemos mil!

Finalizo agradecendo ao querido primo Angelo Bruno por ter me convidado e viabilizado esta inesquecível excursão à fantástica Hiléia Baiana.

Valeu demais Brunão!

 

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