Península Valdés — um lugar fantástico para quem gosta de contemplação e fotografia de natureza

  • Texto e fotos: Claudia Komesu, com Nikon D750 e Sigma 150-600; Sony RX 100 III e Olympus Tought TG5
  • Viagem de casal, com Cristian Andrei, 5 a 14 de outubro de 2018

A Península Valdés é um destino comparável ao Pantanal brasileiro e aos safáris da África do Sul. Na alta temporada, de setembro a início de novembro, você terá a oportunidade de ver baleia-franca-austral, lobo-marinho, leão-marinho, elefante-marinho, pinguim-de-magalhães, talvez toninhas e golfinhos, e com um pouco de sorte a orca, além de diversas espécies de aves.

Apesar de estarem no mesmo patamar de oportunidades incríveis, eu destacaria algumas vantagens da Península Valdés:

  • O cenário é espetacular. Se você é o tipo de gente que se impressiona com águas de um azul maravilhoso, encostas de pedra, cenários amplos, você vai adorar a Península.
  • Gosta de frutos do mar? Além de vários restaurantes interessantes, você terá a oportunidade de fazer algo como nós fizemos: alugar uma casa com cozinha, comprar os frutos do mar e cozinhar. Comemos vieiras maravilhosas.
  • Já tínhamos feito dois passeios pra Califórnia, para ver baleias e golfinhos. Bom, depois de conhecer a Península e a Playa Las Canteras, em Doradillo, concluímos que se o objetivo for baleias, o lugar certo é a Argentina.

Melhor época para ir à Península Valdés

Alguns bichos são residentes, outros migratórios. Os meses de setembro e outubro são a alta temporada porque é a oportunidade de ver todos de uma vez. As pinguineras ainda não estarão lotadas, e em março e abril também é possível ver orcas. Mas em setembro e outubro é o período de maior concentração de espécies.

Esta tabela da Whales Argentina http://www.whalesargentina.com.ar/ (a agência que a gente foi e gostou, falo mais deles abaixo) mostra o período em que é mais provável ver os bichos:

Atenção: dia 12 de Outubro é o maior feriado da Argentina, o Dia da Diversidade. Os dias ao redor dessa data são a época mais concorrida na Península. Reservamos essa data por causa do feriado no Brasil, sem saber do feriado deles, e quase ficamos sem carro. Se você pensa em ir nesses dias, deve se programar com pelo menos 4 meses de antecedência, recomendo até checar se tem carro pra alugar antes de comprar as passagens.

O que esperar de um passeio na Península Valdés?

Em qualquer lugar de atrativos naturais, se você só viu livros ou documentários pode ficar com a impressão errada de que há um desfile interminável de bichos. Mas esses são apenas os momentos mais especiais. Em qualquer um desses passeios há muitas horas de cenários vazios, ou bichos fazendo nada. Não é algo ruim. Pra quem gosta de contemplação, os cenários amplos, céus grandes, mesmo sem nada fotografável trazem uma sensação de paz e privilégio. Mas achei importante explicar, porque li na internet, e os colegas argentinos comentam que muitas pessoas vão pra Península e se sentem entediados.

Eu diria que esse tipo de viagem é melhor aproveitado por pessoas que não se sentem incomodadas de passar um bom tempo só observando um cenário lindo, nuvens, o céu mudando de cor. Ou o privilégio de ver uma colônia de pinguins, de leões-marinhos, ou elefantes-marinhos. Será comum os bichos não estarem fazendo nada, mas de vez em quando eles se mexem, ou interagem. Se você gosta de fotografia, é uma mistura de apreciar a paisagem e manter-se atento.

  • Área grande, com alguns pontos de concentração de animais. Nesses pontos, excelentes oportunidades fotográficas.
  • Em geral não é preciso madrugar.
  • Você consulta a tábua de marés e se programa para estar em alguns lugares na maré alta (para ver baleias ou tentar as orcas).
  • As distâncias são grandes entre uma atração e outra, em alguns casos pode ser mais de 1h de carro, em estrada de cascalho. A estrada parece boa e algumas pessoas decidem não respeitar o limite dos 60km/h, isso é um erro grave. Além do risco de atropelar algum animal, não é incomum o carro patinar, rodar ou até capotar. Nos dias que estávamos lá soubemos que um carro capotou sozinho, provavelmente por estar correndo mais do que devia.
  • Alguns entardeceres são espetaculares, e você poderá fotografar céus bem bonitos.

Quantos dias devo reservar?

Li vários roteiros em que as pessoas desembarcavam em Trelew, num dia faziam um bate e volta para Punta Tombo ver a colônia de pinguins, no dia seguinte iam pra Puerto Madryn fazer um mergulho com os lobos-marinhos, no outro dia vão para Puerto Pirámides fazer um passeio de barco para ver as baleias, a loberia, e podem voltar para Trelew, pegar um voo de volta a Buenos Aires. Algo como três dias de passeios, mais dois de logística.

Nós tivemos oito dias inteiros, mais os dois de logística, e teríamos ficado mais. Se você só tem cinco dias no total, pode ir, mas saiba que há alguns riscos. O tempo pode estar ruim, e nesses casos não há passeio de barco pra ver baleias, nem snorkeling. Dependendo dos ventos as baleias não chegam perto da praia, ou pode pegar um vento forte demais, forte mesmo, de não aguentar ficar na praia. Num dos dias o vento iria chegar a uns 58km/h, por volta do meio-dia. Quando eram umas 11h a gente não aguentou mais, não era só frio congelante, era muita poeira nas câmeras, mesmo com capa, tivemos que desistir. Por isso eu diria que dá para ir com apenas cinco dias, mas sabendo que há esses riscos das imprevisibilidades climáticas.

Caso você não esteja convencido sobre essa questão da imprevisibilidade: no ano passado fomos conhecer o Estreito de Gilbraltar, na época da migração de primavera. Eu achei que teríamos a oportunidade de ver centenas, ou talvez milhares de rapinantes cruzando o céu. Montamos o roteiro, reservei três dias para ficarmos em Tarifa. Uma idiotice. Choveu muito, e quando chove forte assim as aves simplesmente estacionam e esperam o tempo melhorar para cruzar o mar. Vimos pouquíssimas aves, talvez menos de 30, sendo que a expectativa era de ver centenas.

Só depois disso, e depois de algumas experiências difíceis com o snorkeling, consigo reconhecer que se você está indo pra um lugar longe e tem como objetivo principal observar alguma atividade da natureza, você tem que ter dias de sobra para imprevistos. Encontramos ingleses, por exemplo, que reservam mais de 30 dias pra ficar de plantão na região. Acho que não chegaríamos a esse ponto, mas na minha próxima tentativa vou estimar mais pra uma semana. Se tivermos sorte nos primeiros dias, podemos até mudar o roteiro e conhecer outras atrações, mas se tivermos azar, é preciso ter uns dias sobrando.

Hospedagem e alimentação

Em Puerto Pirámides ficamos num ótimo Airbnb, com uma dona muito simpática, a Karina, que também possui um café charmoso na cidade. Recomendo bastante. Diária de uns R$ 560 / dia porque era altíssima temporada. Fora de temporada na faixa de R$ 290.

Em Trelew ficamos na La Casa de Paula Hosteria Artesanal. Funciona, mas não sei se recomendo, teve algo um pouco estranho no serviço. Ficamos duas noites, na segunda noite, quando chegamos do jantar, entrei pela porta, tinha que apertar um botão interno pra abrir a garagem, e assim que entrei a dona veio me perguntar sobre o pagamento, de um jeito um pouco tenso. Só posso imaginar que ela estava preocupada que a gente não iria pagar, então nesse caso, o certo seria a funcionária que nos recepcionou na primeira noite já ter feito a cobrança.

Fizemos várias refeições em casa, cozinhando ótimos frutos do mar que compramos em Puerto Madryn. De destaque, pra tomar um café ou comer um doce: o El Viento. Como restaurante, o La Estacion, que tem decoração de rock inglês, atendentes alegres e um deles bem tatuado. Comida boa, com aquele clima de local internacional perto de áreas naturais. O único cuidado na alta temporada é que lota, chegue cedo.

Quanto custa?

Nesse período concorrido de outubro, estime diárias de uns R$ 560 (já contando taxas). Fora da temporada não é difícil achar apartamentos na faixa de R$ 300.

Os passeios custam em torno de R$ 140 / pessoa para ver baleias; uns R$ 300 / pessoa para snorkeling com lobos-marinhos, só 40 minutos na água; uns R$ 100 / pessoa para ver pinguins na Estancia San Lourenzo.

Há algo como uma taxa ambiental para entrar na Península, em torno de R$ 53 (520 pesos) / pessoa + R$ 8 veículo, que devem ser pagos todas as vezes que você passa pelo ponto de controle, que tem uma guarita. Se você estiver hospedado na Península, você só precisa pagar uma vez, mas precisa ter uma carta oficial do proprietário da casa ou do hotel.

Carro na América do Sul nunca é barato. Pagamos algo como R$ 270 / dia por um Pálio. Lembre de reservar com pelo menos 4 meses de antecedência.

Não lembro o preço, mas gasolina não era muito caro. Há um posto em Puerto Pirámides. Você lerá posts avisando quanto à falta de postos, mas eles estão falando que não há postos na estrada entre Puerto Madryn e Puerto Pirámides, mas nas duas cidades há postos.

Comprando no final de agosto, nossas passagens São Paulo – Trelew para outubro saíram por R$ 1.605 / pessoa. Há troca de avião em Buenos Aires. Pela Aerolineas Argentinas.

Alimentação: preços bem variados. Compramos vinho, cervejas artesanais, e cozinhamos vieiras, camarões. Mas também tomávamos café da manhã em casa, alguns almoços foram sanduíches. Fizemos compras em Puerto Madryn, mas mesmo em Puerto Pirámides há um mercadinho razoável, que tem até cordeiro patagônico. Era fraco de frutos do mar, mas tinha carnes congeladas, várias frutas e legumes.

Somando todos os custos, essa viagem custou uns R$ 13.000 no total. Ida no dia 5, volta no dia 14 de outubro. Foram oito dias inteiros de passeio, mais dois de ida e volta.

Custos detalhados para um casal: voo SP – Trelew R$ 3.200 + Hospedagem em três locais R$ 3.600 + Carro R$ 2.270 + Passeios snorkeling lobos R$ 600 + Baleias barco 2x R$ 560 + Passeio Pinguins Estancia San Lourenzo R$ 200 + Alimentação, gasolina R$ 2.500.

Fauna da Península Valdés e oportunidades fotográficas

Baleias

Baleias

Para fotografar baleias talvez o melhor seja investir na Área Natural El Doradillo, em Puerto Madryn. Fica a poucos minutos da cidade, é uma estrada de terra bem conservada e bastante cênica. O melhor ponto para ver as baleias é a Playa Las Canteras, há o estacionamento de baixo e o de cima, a cerca de uns 100 metros um do outro. Você pode andar de um local pro outro, mas recomendo tentar parar no ponto que parecer mais lotado de carros, porque provavelmente as baleias estarão por lá.

É importante ir na maré alta. Consulte uma tábua de marés.

Na maré alta, é realmente impressionante o quanto as baleias se aproximam da praia.

https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g312832-d553137-Reviews-Playa_El_Doradillo-Puerto_Madryn_Province_of_Chubut_Patagonia.html

E os passeios de barco? A gente fez com duas agências. Escolhi a Bottazzi Whale Watch porque era a mais popular no Tripadvisor, 4,5 estrelas com mais de 200 avaliações. Havia outras bem avaliadas, mas com menor quantidade de avaliações. Além disso, o site da Bottazzi descrevia algo que as outras não ofereciam: um passeio descrito como “A more personalized excursion than the regular service, as there are no much people with the patience to wait until the end of the day to have the company of few passengers and the especial colors for those kin on photography. It is about waiting for the golden colors over the cliffs and the sea and taking with you a unique memory of Península Valdés.

Foi o pior momento da viagem. Nosso barco estava lotadíssimo, quando a baleia aparecia do lado do barco que não era o seu você só conseguia ver umas cabeças. Havia uns postos mais altos, mas a equipe tinha falado pra você não sair de onde estava. E reparei que os postos mais altos estavam ocupados por pessoas que tinham tirado uma foto com a equipe da Bottazzi antes do passeio, provavelmente amigos.
O cenário era bonito e haveria boas fotos, se eles fossem capazes de cumprir o prometido. Ou então, se aqueles eram os dias mais movimentados e eles queriam ganhar dinheiro, poderiam ter pelo menos avisado no site que no período tal do mês de outubro as saídas lotam, e eles não podem garantir visão fotográfica para todos ao mesmo tempo.

Foi MUITO decepcionante.

O passeio com a Bottazzi foi assim :(

O outro passeio foi só alegria e valeu a pena. Foi uma recomendação da dona do nosso apartamento, ela recomendou a agência Whales Argentina. Na verdade, primeiro fizemos esse passeio com a Whales de manhã, e no fim do dia fomos pra tortura na Bottazzi.
Com a Whales estávamos num barco grande, lotado de gente, mas a estrutura do barco permitia que todo mundo fotografasse ao mesmo tempo. Tivemos a sorte de topar com um filhotinho branco, que passou um bom tempo brincando nas costas da mãe, foi lindo.
Na praia de Puerto Pirámides também aparecem baleias e, no dia que chegamos do passeio com a Bottazzi, bravos, ao longe vimos que havia baleias bem perto da área rochosa onde as pessoas ficam. Não deu tempo de fotografar, a luz já tinha acabado, e foi pior ainda a sensação de que se tivéssemos ficado na praia teríamos aproveitado mais do que fazendo o passeio com a Bottazzi.

Em Puerto Pirámides, a uns 10 minutos de carro do centrinho da cidade, há uma atração chamada Loberia. Também é um bom ponto para ver baleias, foi o lugar em que, num dado momento, conseguimos contar dez baleias no nosso campo de visão. Mas não dá para vê-las muito de perto.

Orcas

Orcas

A Península Valdés é o único lugar no mundo onde você poderá ver orcas caçando com aquela técnica fabulosa de sair pra terra firme. Há um outro ponto do… Pacífico, acho, onde também há um grupo que faz isso, mas não é um lugar aberto para visitação normal.
Há aquele grupo de lobos-marinhos, ou leões-marinhos, especialmente na época dos filhotes. Eles passam uma parte do dia dormindo na praia. Na maré alta as orcas aprenderam a se projetar pra praia, abocanhar algum, e voltar pra praia.

Segundo este Globo Repórter de 2013, a técnica é nova, tem algo como 70 ou 80 anos. A hipótese é de que, algumas décadas atrás, a grande matança de lobos-marinhos diminui tanto a oferta de alimentos que as orcas passaram a ousar mais na hora de caçar. A técnica é bastante perigosa para a orca, pelo risco dela não conseguir voltar pro mar e morrer encalhada.

Em 2013 havia um grupo de 22 orcas na Península, e apenas 5 fêmeas eram capazes de ensinar essa técnica para os filhotes. A orca macho chega a 9m de comprimento. Orcas, apesar da alcunha de baleia assassina, na verdade são golfinhos.

http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2013/08/orcas-cacam-beira-da-praia-na-patagonia-argentina.html

Esse Globo Repórter também mostra o pesquisador Roberto Bubas, um guarda-fauna que desenvolveu uma relação de amizade com as orcas, os vídeos e as coisas que ele conta são fantásticas. Ele disse que conforme as orcas foram ficando mais à vontade com ele, elas começaram a bater a cauda na água, projetar o corpo pra cima, como se estivessem chamando-o pra brincar. A cada dia ele chegava mais perto da água, e passou a entrar, com água até a cintura. Numa das ocasiões, uma das orcas trouxe uma coroa de algas pra ele. Ele pegou, jogou, ela pegou de volta, trouxe de novo.

Procurei mais informações, mas parece que infelizmente nunca foi feito um investimento de pesquisas com essas experiências de Bubas. Aparentemente administração dos parques não apoia essa relação, algo compreensível, devido aos tristes incidentes em que orcas cativas mataram seus treinadores.

Na Península Valdés, aberto à visitação comum, há dois pontos principais com chances de ver as orcas: a Caleta Valdés, que no Google Maps você pode ver mais facilmente pesquisando Parador La Elvira: https://www.google.com.br/maps/place/Parador+La+Elvira/@-42.512959,-63.600648,2958m/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0xbe1cd9ed033c2427:0x645eb9ed5d21aabb!8m2!3d-42.5128983!4d-63.6006796

Nesse link do Google inclusive há várias fotos de novembro de 2017, de orcas. Esse lugar é bastante cênico, o problema é que a área é ampla, e você pode ter o azar de não estar no pedaço certo da caleta no momento que as orcas aparecem.

O outro ponto em que elas costumam aparecer é a Punta Norte, e foi lá que tivemos a oportunidade de vê-las. Foi com uma pequena dor no coração que soubemos que elas tinham aparecido por lá no dia anterior, e também umas horas horas, chegando inclusive a caçar. Não vimos essa cena, mas pudemos observar uma jovem orca num momento em que ela se aproximou da praia. A geografia da Punta Norte permite que você veja as orcas na maioria das situações, mesmo que seja de longe.

O simpático guarda-fauna que conversou com a gente, Leandro, nos explicou que há uma estância particular que oferece ótimas chances para fotografar orcas. Você só precisa reservar com uns 2 ou 3 anos de antecedência. :( A Estância La Ernestina tem apenas 6 quartos, cobra bem caro, mas é uma área particular em que os clientes podem se aproximar da praia. Ela aparece no Tripadvisor, daquele jeito que não mostra os preços, só pra listar que existe, e uma das poucas resenhas é de um homem que esteve lá em 2013, disse que todos os outros hóspedes eram fotógrafos profissionais.

https://www.tripadvisor.com.br/Hotel_Review-g312828-d801304-Reviews-La_Ernestina-Province_of_Chubut_Patagonia.html

Pinguins

Pinguins

Uma pinguinera é uma área terrestre onde os pinguins se reúnem para se reproduzir. Alguns cavam um buraco na terra, outros apenas escolhem um cantinho e botam o ovo. Podem ser vistos entre setembro a abril.
Passear numa pinguinera é um privilégio, uma experiência maravilhosa! Foi algo que nos surpreendeu, não achávamos que seria tão bom.

Lendo os relatos sobre Punta Tombo estávamos meio preocupados sobre como seria a experiência, porque havia texto do tipo “os pinguins estão em todo lugar, quase chutei um”.

Talvez seja assim em Punta Tombo, mas nossa experiência na Estancia San Lourenzo foi bem diferente. A pinguinera fica dentro da propriedade e eles desenvolveram um modelo de turismo que respeita os bichos. Para conhecer a pinguinera, você entra dentro de um micro-ônibus, junto com monitores.

Após um trecho curto, menos de 10 minutos numa estrada de terra, você começa a ver os pinguins em meio à vegetação. O micro-ônibus estaciona, e você se vê numa ponta de praia linda, com aquele azul incrível do mar da Península Valdés. As trilhas estão todas demarcadas com pedras, a monitora já explicou sobre o quanto você não deve se aproximar demais, deve deixá-los passar caso queiram cruzar a trilha, para você se afastar caso ele comece a mexer a cabeça, que é um sinal de inquietação.

https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g312832-d2534162-Reviews-Estancia_San_Lorenzo_Pinguins_Land-Puerto_Madryn_Province_of_Chubut_Patagonia.html

Também tínhamos visto muitas fotos de gente posando ao lado de pinguins, então nosso receio era de uma experiência em que veríamos pessoas desrespeitando os bichos, até mesmo quase chutando-os! Mas nesse passeio na San Lourenzo o que vimos foi um esquema feito para respeitar os animais. No nosso grupo havia família com crianças, e todos mantinham distância e respeitavam as orientações da monitora.

O passeio todo dura menos de 1h, achamos curto. Há passeios mais longos, em locais que reúnem muito mais pinguins, mas é preciso contratar com antecedência com alguma agência de viagem. Aqui há descrição dos passeios: https://www.pinguinospuntanorte.com.ar/circuits/?lang=en

Não tínhamos ouvido falar da Estancia. Soubemos dela graças a uma dica de uma colega de barco, quando fizemos o snorkeling com lobos-marinhos em Trelew. Passamos por acaso em frente à entrada pra Estancia, havia um outdoor, o Cris olhou e falou “Aqui é a Estancia”.

Pra nossa sorte, estávamos próximos de um dos horários do passeio. Essa entrada fica na Rota 3, no caminho pra Punta Norte. Fora esse outdoor grande, nos mapas distribuídos na guarita da Península, nem dentro do parque há indicações de como chegar lá, uma pena. O link pro Google Maps segue abaixo. A pinguinera fica na praia, repare que após esse ponto marcado na estrada há um bom trecho até chegar perto da praia. Não lembro de cabeça os horários de visitação, mas você pode se informar no site da Estancia https://www.pinguinospuntanorte.com.ar/, e saiba que, após esse ponto marcado no Google, são mais uns 15 minutos em estrada de terra. Quando você ver uma bifurcação, como se fosse uma estrada um pouco menor alguns metros pra direita ou esquerda, pegue esse desvio. Há vários deles, construídos quando a estrada principal fica muito esburacada.

A entrada para a Estância fica aqui: https://www.google.com.br/maps/place/Estancia+San+Lorenzo/@-42.159986,-63.9828338,14067m/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x0:0x74c54b416c99e121!8m2!3d-42.1608904!4d-63.8389027 A sede da estância, olhando o Google Maps, imagino que seja neste ponto: https://www.google.com.br/maps/@-42.1521843,-63.9866327,1760m/data=!3m1!1e3 A partir desse ponto, você pega o micro-ônibus e vai em direção à costa onde ficam os pinguins.

Há uma pequena pinguinera perto da Caleta Valdés. Na beira da estrada, sem pagamento de ingresso. Mas é uma área bem pequena, que não oferece muitas oportunidades fotográficas. A Estancia San Lourenzo é uma experiência muito mais imersiva.

Snorkeling

Snorkeling com lobos-marinhos

Fizemos o passeio com a Scuba Duba. http://www.scubaduba.com.ar/. Você tem que chegar no horário combinado, vai levar um tempo até todo mundo se vestir com neoprene de 7mm, depois você recebe as instruções sobre o passeio, atravessa a rua, entra no barco. Cerca de meia hora de navegação até o ponto em que ficam os lobos.

Quando chegamos havia três barcos ancorados, tínhamos que esperar um dos barcos sair. É legal essa sensação de atividade regulamentada, com agências respeitando os animais.
A água é algo como 11 graus. Com o neoprene completo, incluindo capuz, luvas, você não passa frio. E, apesar do lobos serem bem fofos, esse é um passeio que não me entusiasmou e acho que não faria de novo. Você tem que ficar o tempo todo com o seu grupo, e prestando atenção se você não está se afastando dos outros, então não consegui ter aquela sensação maravilhosa de imersão com a natureza.

Tinha bastante gente no barco. Para cada 8 pessoas há um instrutor, estávamos com 2 instrutores. Eles recomendam você não se afastar do grupo para aumentar as chances de todos verem de perto os lobos. Talvez se fosse numa semana menos concorrida, haveria menos gente e daria para aproveitar mais.

40 minutos na água também me pareceu um tempo pequeno. É uma experiência interessante, mas não adorei.

Pra volta eles oferecem casaco, luva, gorro, então você não passa frio.

Elefantes-marinhos e leões marinhos

Elefantes-marinhos e leões-marinhos

À primeira vista eles parecem sem graça, porque estão lá na praia, dormindo. Mas se você espera durante um tempo, sempre acontece alguma coisa. Brigas, discussões, mordidas, safanões, coito.

Em outubro é época dos filhotes de elefantes-marinhos – e por isso as orcas aparecem. Os filhotes são muito fofos e simpáticos, estava meio dividida mas depois concordei com o Cris que na verdade foi bom não termos presenciado um ataque de orcas, que teria sido triste ver uma das fofuras virando comida de orca.

Vimos os elefantes-marinhos na Punta Norte e em Punta Delgada. Lobos-marinhos na loberia, na Punta Norte e também num ponto mais distante da costa, no passeio com a Bottazzi no fim do dia, mas não sei dizer o nome do local.

O Pequeno Príncipe

A Isla de los Pajaros e o Antoine de Saint-Exupéry

Saint-Exupéry, imortalizado graças a O Pequeno Príncipe, gostava muito das paisagens patagônicas. Alguns dizem que a Isla de los Pajaros era um dos seus cenários contemplativos, a ponto de receber uma menção no Pequeno Príncipe.
Não há certeza absoluta de que a ilha retratada no livro seja realmente essa, mas o fato é que lembra. O acesso à ilhota propriamente dita não é permitido, você pode apenas avistá-la de longe. Mesmo o acesso para caminhar na praia não é permitido, para não incomodar a fauna, mas o cenário todo é muito bonito, recomendo a visita.

Aves e outros bichos

Aves e outros bichos

O pontos específicos perto do mar, onde ficam os pinguins, os lobos, leões e elefantes marinhos, são conectados por estradas de terra e cascalho com paisagens amplas, mas com poucos bichos.

Você poderá ver guanacos, eventualmente tatus, aves como a Martineta Común – um tipo de codorna, às vezes o zorro (uma raposinha), e talvez até a mara (um roedor grande, de pernas longas).

Algumas aves de rapina às vezes. Com mais frequência o chimango, mas também vimos um gavião-cinza e um gavião-de-costas-vermelhas.

Na costa há muitas gaivotas, e você também poderá ver biguás, cormorão-imperial, mergulhão-grande, petrel gigante, batuíra-de-coleira-dupla, piru-piru. Na loberia, havia pombas-árticas e uma gaivota que não tem no Brasil, a Larus scorbesii. Também consegui uma foto ruim do biguá-das-shetlands. Nas áreas com arbustos o canário-andino-negro é bastante comum, mais abusado do que um pardal. Nessa áreas também fotografei um lenheiro-de-rabo-comprido. Na vilinha de Puerto Pyramides havia andorinha-do-sul nos fios. Várias Sturnella loyca.

Eu não estava passarinhando a sério, não teve nenhum dia que saí cedinho atrás das aves, isso foi o que vi durante os passeios. Em Trelew, tanto na cidade quanto na Laguna del Ornitólogo, vimos outras espécies.

Birdwatching em Trelew

Birdwatching em Trelew

Para birders que ainda tenham fotografado pouco das aves do Sul, pode haver interesse em dois pontos de Trelew:

Dentro da própria cidade de Trelew há a Laguna Chiquichano. Em outubro havia várias aves. Nas margens, colegial, Sturnella loyca, pedreiro-dos-antes. Na água, mergulhão-de-orelha-amarela, marrecão, capororoca, mergulhão-de-orelha-branca, mergulhão-grande, cisne-de-pescoço-negro – mas provavelmente eles não estarão muito perto da margem, e sim mais pro meio da laguna, não tão pertinho. E, outro grande problema: é um local urbano. Quando fomos estava cheio de gente, com música alta, um terror. Saímos de lá e fomos tentar encontrar a Laguna do Ornitólogo, que alguns posts da internet diziam que era muito interessante, mas diziam que o acesso era difícil, e que era melhor contratar alguém para te levar lá.

O Google Maps mostra a Laguna del Ornitólogo, mas não como chegar às margens. Pegamos a estrada que a circunda, prestando atenção nas estradinhas de terra. A primeira entrada que testamos terminava numa propriedade particular, a outra tentativa nos levou até uma área que parecia ser um bar, com alguns carros estacionados ao redor, um homem veio nos perguntar o que a gente queria, explicamos que estávamos lá para fotografar aves, não houve problema. Não sei se era propriedade particular, mas não havia cerca ou placa, então entramos.

Este é o ponto da entrada dessa estradinha de terra: Laguna do Ornitólogo: -43.268478, -65.194258

Era um trecho curto, estrada boa, sem risco de se perder ou danificar o carro, não sentimos nada perigoso.

Apesar do fim de tarde nublado, a Laguna era um bem bonita, mas sem grandes oportunidades. Aves ariscas, tanto de carro ou a pé. Vimos de longe flamingos-chilenos, havia muitas gaivotas. Alguns mergulhões de orelha-branca e o de orelha-amarela longe. Nossas melhores oportunidades foram com um bandinho de maçarico-de-bico-fino.

O lugar era bonito, mas em termos de oportunidades para fotografar a aves, talvez fosse melhor ter concentrado na Laguna Chiquichano – se você for do tipo que aguenta o barulho urbano. Na Chiquichano também fotografei um LBJ que me parece ser um pedreiro-dos-andes, além de boas fotos da fêmea da loica comum.

Se você não é birdwatcher, não recomendo ficar em Trelew. Você pode apenas dormir lá no dia que chegar do voo, e sair cedo, ou ir no mesmo dia para Puerto Pyramides se não no geral você não se incomoda de dirigir mais 1h30 à noite.

Dinossauros em Trelew

Dinossauros em Trelew

Na região de Trelew foram encontrados fósseis do maior dinossauro terrestre já registrado, o Patagotitan mayorum, um bicho de 37m 76 toneladas. Pra ter uma ideia, o coração dele pesava algo como 230kg.

https://en.wikipedia.org/wiki/Patagotitan

https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2016/jan/25/david-attenborough-giant-dinosaur-bbc-review

https://www.bbc.co.uk/mediacentre/latestnews/2016/attenborough-and-the-giant-dinosaur

Na cidade de Trelew há um pequeno museu arqueológico. É bem cuidado, mas bem pequeno, e um tanto decepcionante se você está acostumado com os museus de grandes capitais. Na verdade, a parte que mais gostamos da visita foi poder assistir dentro de um salão o documentário com o David Attenborough sobre o Patagotitan mayorum.

Esta foto ficou bem ruim, porque é feita do carro em movimento, mas aqui você consegue ter uma ideia do tamanho. É uma réplica do dinossauro, que fica na entrada da cidade:

Papeando com os argentinos e lendo resenhas na internet, sei que há pessoas que vão pra Península Valdés e se decepcionam porque esperavam mais ação. Eu entendo essa avaliação, mas pra gente esse cenário meio desolado é um dos grandes atrativos da Patagônia. Já fomos duas vezes pra Monterey na Califórnia, ver baleias e golfinhos. É uma região cênica, os passeios são legais, as agências que pegamos tinham barcos grandes, nenhum risco de acontecer como no passeio ruim com a Bottazzi. Mas se o objetivo da viagem fosse só baleias, eu escolheria voltar pra Península Valdés devido à atmosfera patagônica de lugar isolado. Tendo o seu carro, e indo fora da tal semana de 12 de Outubro, provavelmente na maior parte do tempo você poderá ter a sensação de área natural selvagem, ainda pouco modificada pela ação humana.

Relatos das viagens pra Califórnia:

Avistamento de baleias e um bando de 2 mil golfinhos na baía de Monterey, a elegância do relevo de Point Reyes, com direito a café da manhã com vista para os elefantes marinhos. As cores incríveis de outono em June Lake e a paisagem espetacular de Yosemite, que faz você se sentir em O Senhor dos Anéis. Nossa viagem de outubro para a Califórnia foi uma das melhores que já fizemos.

Viagens fora do Brasil (+)

 

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