No interior de São Paulo, a 50km do centro de Piracicaba, há um pequeno paraíso perdido, uma área alagável que segue um regime de cheias e vazantes. Esse pedaço do Pantanal surgiu a partir do represamento das águas da barragem de Barra Bonita, inaugurada em 1963, e é conhecido como Tanquã.

A riqueza do Tanquã não surgiu de repente. Décadas se passaram até que a mãe natureza conseguisse restabelecer o equilíbrio ecológico naquele pedaço de terra. Hoje o local abriga 180 espécies de aves. Há peixes o suficiente para sustentar uma comunidade de pescadores e aves como tuiuiú, colhereiro, cabeça-seca, gavião-do-banhado, diversas espécies de garças, maçaricos, biguás e biguatingas, caraúna-de-cara-branca, tapicuru-de-cara-pelada, corocoró, martins-pescadores, várias marrecas incluindo o marrecão, ave que em geral só se reproduz no Sul, mas se fixou no Tanquã.

O lugar é incrivelmente bonito e só é possível ver isso num passeio de barco. Das margens não se vê a extensão das águas, a abundância e diversidade de espécies.  Lixo humano – plástico e uma quantidade inexplicável de capacetes de motociclistas pontuam o cenário, mas não sobrepujam a beleza da paisagem, mais radiante ainda por ser em uma região tão urbanizada do Estado de São Paulo.

A beleza e a diversidade de vida serão destruídas pela construção da barragem de Santa Maria da Serra, no rio Piracicaba. Não só a fauna e a comunidade de pescadores serão afetadas: a construção da barragem prejudicará os corredores de fauna de áreas de preservação permanente, inclusive a Estação Ecológica do Barreiro Rico – um dos últimos redutos do monocarvoeiro, o maior primata das Américas, ameaçado de extinção. A barragem também aumenta a chance de assoreamento do rio, e consequentes enchentes. As áreas que serão afetadas pela barragem abrigam 218 espécies de aves, 39 espécies de répteis e anfíbios e 46 espécies de mamíferos.

O projeto, do Departamento Hidroviário do Estado de São Paulo, tem apoio estadual e federal, e as obras estavam previstas para começar no segundo semestre de 2014. Mas o Centro de Estudos Ornitológicos (CEO) e a Sociedade para Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba (Sodemap) entraram com representação no Ministério Público Estadual. A equipe liderada pelo promotor Ivan Carneiro Castanheiro examinou os relatórios do consórcio e apontou falhas e incongruências, incluindo o fato de não haver certeza sobre a sustentabilidade do negócio, não haver análise se uma ferrovia seria a melhor solução para o trecho, e o fato do consórcio prever verba insuficiente para os 31 projetos de compensação ambiental. Eles dizem que haverá R$ 25 milhões para as ações mitigatórias, mas apenas um dos programas descritos já teria o custo de R$ 62 milhões.
https://docs.google.com/file/d/0B_mkQRw2JJaKRHMzcnFJNEFUMW8/edit – página 20.

A destruição do Tanquã teve seu início interrompido enquanto o consórcio não apresenta relatórios consistentes. Os defensores do Tanquã têm muitas dúvidas sobre o desfecho. Não achamos que podemos julgar o mérito do ramal x destruição ambiental e deslocamento de todas as famílias do Tanquã. Mas temos algumas certezas:

– Está errado o descaso que o Departamento Hidroviário e o consórcio Themag /Ebei/Vetec/Umah demonstraram pela natureza, evidenciado nas declarações públicas e no conteúdo dos relatórios. É uma obra orçada em centenas de milhões de reais (às vezes falam em 670 milhões, às vezes em mais de 900, nem o próprio consórcio têm certeza), ainda em fase de planejamento. Se o consórcio e o Departamento Hidroviário agissem de forma correta, teriam proposto uma compensação ambiental à altura da destruição de um pequeno paraíso.

– A atuação da equipe do promotor Ivan Carneiro Castanheiro alimenta nossas esperanças de que casos como esse possam ser tratados com isenção e justiça.

– As manifestações populares e o apoio da imprensa contribuem para a moralidade. O caso tem ganhado espaço na mídia, e se continuar a repercutir servirá como advertência para outros projetos que menosprezam o valor da natureza.

 

Links e trechos das notícias sobre o tema

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ministerio-publico-pede-estudos-sobre-barragem-no-pantanal-paulista,1112031,0.htm

Para Castanheiro, persistem dúvidas sobre a viabilidade ambiental e econômica da obra e a melhor localização do porto. As questões ficaram evidentes nas três audiências públicas já realizadas.

O diretor do Departamento Hidroviário, Casemiro Tércio Carvalho, disse que o Tanquã já fica inundado metade do ano, durante o verão. “As aves migratórias vão buscar outros ambientes para se alimentar”, disse.

 

REFÚGIO — A professora de biologia Silvia Regina Gobbo Rodrigues, da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), explicou que há poucos refúgios de aves migratórias no Estado porque existe uma grande perturbação antrópica em suas paisagens naturais, tanto pela ocupação pelas cidades, quanto pela utilização de extensas áreas para agricultura. “O impacto pode ser grande, pois nem sempre esta população de aves que vai perder a proteção de uma área como o Tanquã vai encontrar outro espaço de refúgio, abrigo e alimentação.”

Com poucas áreas adequadas no Estado, o deslocamento da fauna para outros lugares poderá causar competição e muitas espécies poderão ser prejudicadas. “Além disso, outros refúgios não terão as características ambientais que o Tanquã tem hoje. Não há outra área com características de mini-pantanal como essa no nosso Estado. E por ser uma área alagada, atrai aves que se alimentam de peixes, por exemplo, que não serão encontradas em outro local de São Paulo”, informou a especialista, lembrando ainda que as demais áreas de preservação já estão lotadas. “As pessoas pensam que, como as aves voam, irão fugir com o alagamento da represa, mas a questão é: fugir para onde?”

 

http://blogdoamstalden.com/2013/11/12/de-novo-a-barragem-de-santa-maria-da-serra-por-eloah-margoni/

Deste texto de Eloah Margoni, vice-presidente da Sociedade para a Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba, destaco o comentário de Carlos Eduardo Magalhães:

Sou presidente da CIA BARREIRO RICO e um dos 7 (sete) proprietários dos mais de 2.400 ha de mata atlântica (ou sub conforme Paulo Nogueira Netto). A ÚNICA NO ESTADO DE SÃO PAULO (planalto) EM MÃO DE PARTICULARES.

Não sou xiita e sempre fui a favor do progresso principalmente no que tange transporte fluvial para escoamento de nossa enorme e crescente produção agrícola. Imagino que todos estejam de boa fé , assim como eu. Mas o que estão tentando fazer com a barragem é inaceitável pela falta de dados, falta de planejamento mínimo e amadorismo com que tratam a questão.

Estarei inscrito para falar na audiência pública de Piracicaba no próximo dia 10/dez/13 com dados da importantes universidades, especialistas e tantos outros competentes estudiosos além de detalhes que NINGUÉM escreve ou debate por desconhecimento. Há 50 anos recebemos mais de 20 universidades do mundo inteiro para estudos de todo tipo de assunto .
Abraço
CARLOS EDUARDO DE MAGALHÃES

 

http://m.g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2013/12/empresarios-duelam-sobre-impacto-de-nova-barragem-no-rio-piracicaba

O empresário (Carlos Eduardo Magalhães) também aponta eventuais prejuízos financeiros ao patrimônio público. “Falam que a obra custará R$ 600 milhões, mas o primeiro Estudo de Impacto Ambiental (Eia-Rima) feito em 1999 pela Universidade de São Paulo aponta um valor bem maior. Eu fiz uma correção baseada na inflação entre o período do estudo e hoje e os custos ultrapassam R$ 1 bilhão, sem contar o número enorme de desapropriações. Tudo isso para 40 quilômetros de hidrovia? Será que não seria melhor fazermos uma ferrovia?”, completou.

 

http://gerry.jusbrasil.com.br/noticias/112153663/barragem-vai-inundar-o-minipantanal

Na área a ser inundada foram encontrados cinco sítios e duas áreas de ocorrência arqueológica. Para os ambientalistas, os benefícios do projeto, como o aumento no transporte de cargas com menor custo, não compensam os danos ambientais, já que a região não dispõe de infraestrutura rodoviária e ferroviária para o escoamento das cargas. O alto custo da obra, que pode chegar a R$ 600 milhões, também foi destacado nos documentos.

 

http://m.jornaldepiracicaba.com.br/mobile/noticia.php?id=6292

O Ministério Público de Piracicaba encaminhou uma recomendação à Cetesb (Companhia Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo) para que não seja expedida a licença prévia para construção da barragem de Santa Maria da Serra enquanto não forem sanadas as omissões, deficiências e incongruências do EIARima (Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto Ambiental) sobre o empreendimento. Caso a orientação seja desrespeitada, o MP pode ingressar com uma ação civil pública na Justiça.

O Gaema (Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente), que tem um inquérito aberto para acompanhar o desenvolvimento do empreendimento, destacou 16 pontos a serem analisados pela Cetesb, com base nos princípios da motivação, razoabilidade, economicidade e eficiência. Os promotores recomendaram que a agência ambiental exija do Departamento Hidroviário a elaboração de um estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental no qual sejam analisadas outras duas alternativas à construção da barragem.

Uma delas seria a ampliação do porto de Santa Maria da Serra e extensão da ferrovia até aquela cidade (isso evitaria que a hidrovia chegasse até Piracicaba, e consequentemente, evitaria o alagamento de Tanquã e a construção do porto em Ártemis). A outra seria comparar a hipótese de não se construir a barragem em Santa Maria da Serra, mas sim o Ramal Anhembi-Salto da hidrovia, com escoamento da carga para o porto de Santos por meio do ferroanel.

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/142727-nova-barragem-ira-afogar-o-pantanal-paulista.shtml

Pelo menos 65 famílias de pescadores que moram na região vão ter que deixar suas casas, que ficarão submersas pelas águas do lago.

Os impactos ecológicos podem não se limitar ao desaparecimento da grande várzea. A estrada provisória que precisará ser criada para uso na obra e o canteiro a ser usado pelos futuros trabalhadores (serão 1.400 no pico da obra) vão ficar colados às matas da Barreiro Rico.

A região é composta de três fragmentos de mata atlântica ainda intactos, apesar de a área ser produtora de cana. O maior pedaço, de 1.451 hectares, tem apenas duas ligações com o rio Piracicaba.

São esses córregos, protegidos por áreas de proteção permanente, que serão atravessados pela estrada provisória projetada para obra.

De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, essa alteração pode prejudicar o abastecimento natural de água que a mata tem.

No local, vivem espécies de grande porte em perigo de extinção, como macacos (Muriqui do Sul), queixadas e o gato-maracajá. Além de várias espécies de aves.

A floresta é toda particular e mantida por fazendeiros, que recebem grupos de observadores de pássaros e de fauna, além de cientistas.

 

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/136018_MPE+QUESTIONA+IMPACTO+DE+HIDROVIA+NO+PIRACICABA

De acordo com o promotor Ivan Carneiro Castanheiro, a hidrovia do Tietê já passa a 45 quilômetros de Artemis, distrito de Piracicaba que deve abrigar o único porto do ramal. “Assim, poderia haver a construção de uma ferrovia, dutos e duplicação de rodovias até aquele ponto da hidrovia em Santa Maria da Serra, dispensando-se o dispendioso ramal”, escreveu o promotor em documento a que a reportagem teve acesso. O fatiamento dos projetos destinados à configuração do porto de Artemis e da duplicação da ferrovia até o porto deixa dúvida sobre se as obras sairão do papel, já que nem mesmo tiveram o edital de contratação do projeto básico publicado no Diário Oficial, segundo o promotor.

Página em construção

Este é um paraíso brasileiro ameaçado de destruição

A vida do Tanquã corre o risco de não ver mais uma primavera. A construção da barragem de Santa Maria da Serra ameaça submergir toda a área do Tanquã. O Departamento Hidroviário e os relatórios entregues pelo consórcio Themag /Ebei/Vetec/Umah menosprezam o valor ambiental da área. “Área degradada”, “apenas umas cinco espécies de aves ficarão um pouco incomodadas”, “ave voa e pode procurar outro lugar”. Em fevereiro de 2014 a decisão de autorizar o início das obras está nas mãos da CETESB, a cargo do diretor Dr. Otávio Okano. Leia mais sobre o caso abaixo.


Como fazer o passeio

É preciso reservar um barqueiro com antecedência. Recomendo o Alemão (19) 3418-7115, ótimo barqueiro e uma pessoa excelente, que realmente se importa com a natureza. Ele não tem celular, e é mais provável conseguir falar com ele bem cedo ou à noite.

O Alemão tem um barco em que cabem até 4 pessoas (fora ele), com câmeras e mochilas. Ficam sentados dois em cada banco. É tranquilo uma das pessoas estar com tripé, a outra com monopé. Se as duas estiverem com tripé fica um pouco apertado. O preço do passeio em fevereiro de 2014 foi de R$ 160 (custo total, contando gasolina), uma manhã de passeio seguindo um trajeto padrão pelos pontos onde é mais provável ver as aves.

O Tanquã é um lugar em que não há proibições sobre fotografia! Não é um parque público, então aqui não há riscos de um segurança, mal orientado por um diretor que não entende nada de fotografia, vir lhe dizer que é proibido fotografar porque seu equipamento é profissional.


Quando ir

As aves estão presentes o ano todo, mas são mais abundantes entre novembro a janeiro. O Wikiaves mostra registros feitos em praticamente todos os meses do ano (não vi registros de meados de maio a meados de julho). Se puder ir durante a semana, não pegará movimento de outros barcos de passeio ou jet skis. Em final de semana, é importante ir cedo, a partir das 10h começa o movimento de outros barcos, que afugentam as aves.

Se você for num grupo que exija mais de um barco (o Alemão pode combinar com outro barqueiro), o ideal é os dois barcos seguirem trajetos diferentes, ou o barco de traz sempre ficará prejudicado nos avistamentos.


Como chegar

Vá até Piracicaba – de São Paulo são cerca de 2h pela Bandeirantes. No GPS coloque Anhembi, logo você estará na SP 147 que liga Piracicaba a Anhembi. Do centro de Piracicaba até a entrada para a estrada de terra são 50km de asfalto e depois mais 6km de terra. Estrada boa, não precisa de carro especial. Ainda no asfalto, após os primeiros 30km você já começará a ver as placas de “Tanquã”.


Segurança

Local tranquilo e seguro. Vila de pescadores, todos se conhecem e sabem que as pessoas têm se interessado em ir lá fotografar a natureza. A renda dos passeios é importante para os pescadores.


Infraestrutura

O principal bar é o do Carlinhos. Fácil chegar, fica no fim da rua principal, à beira da água. Lá você pode tomar cerveja bem gelada, e comer tilápia aperitivo que disseram ser muito boa. O bar do Carlinhos também tem toiletes.

À beira da água há locais para estacionar o carro.


Dicas fotográficas para o local

Dentro de um barco é bem diferente de fotografar em terra firme. Você precisa ter muito mais velocidade, ou suas imagens ficarão tremidas. Regule sua câmera para ter mais de 1.000 de velocidade o tempo todo. A maioria das minhas fotos estava com mais de 2.000 de velocidade. ISO 800, e compensação de -0.7 ou -1.0, porque era um dia ensolarado, e nessa velocidade seria fácil queimar o branco, especialmente das garças. Nas áreas de sol pleno pode testar abertura 7.1 ou mesmo 8, só cheque se isso não derruba muito sua velocidade.

Se você usa uma DSLR, aqui é o momento ideal para usar a regulagem de foco contínuo. As lentes  da Nikon e da Canon foram feitas para pegar grandes objetos em movimento. Será comum a câmera não achar o foco na primeira ou segunda foto, mas logo ela encontrará a ave em voo e cravará um foco preciso.


Posts sobre o Tanquã


  • Texto e fotos desta página: Claudia Komesu
  • claudia.komesu@gmail.com
  • Todas as fotos desta página foram feita no Tanquã, em duas ocasiões: uma manhã ensolarada de janeiro de 2014, e numa manhã nublada e com vento em fevereiro de 2014. O texto é resultado de horas de pesquisa lendo notícias e conversando com os amigos que também querem evitar o prosseguimento de uma obra irresponsável com a natureza e, portanto, com o futuro.