Há mil histórias dentro de uma aventura. Nosso olhar, nossos pensamentos, nosso humor moldam o mundo – no mínimo a forma como vemos o mundo e como os acontecimentos ficam gravados na memória, que é outra coisa moldável e mutável. Assim como a foto é uma ilusão da realidade – porque escolhemos um enquadramento, um momento, um estilo, e depois até um tratamento da imagem, um relato é um souvenir de algo vivido, mas sempre incompleto.

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  • Texto e fotos: Claudia Komesu
  • Câmeras: Canon 7D e lente Canon 100-400, e Nikon D800 com Nikkor 105 f2.8
  • Overdose Ornitológica na Reserva Guainumbi 18-20 de janeiro de 2013. Rafael Fortes como guia. Participantes: Claudia Komesu, Daiane Barros, Demis Bucci (a Aline e a Sofia também foram), Jarbas Mattos, Murilo Coda, Nathalia Yamauti, Silvia Linhares. O João Marcelo estava na Guainumbi, e andou um pouco com a gente no domingo de manhã.

Tudo isso para explicar que seria possível fazer dezenas de relatos sobre o fim de semana na Guainumbi, e não está fácil escolher um. Talvez eu deva começar explicando que foi um fim de semana diferente, de um jeito que eu nunca tinha passarinhado.

Quem passarinha com dedicação conhece a rotina e o ritual: roupas e equipamento separados na noite anterior, acordar cedo, tomar café ou pegar um lanche, estar na mata na primeira luz da manhã, ouve, procura, playback, fotografa, olha, observa, pega sol, chuva, ou poeira, insetos, anda anda anda, às vezes para pro almoço às vezes não, às vezes fica um tempo em área de comedouro fazendo fotos lindas, às vezes não, o dia inteiro andando, buscando, a câmera às vezes parece uma cruz pelo peso, mas carregada com todo o orgulho e carinho, no fim do dia ainda pode decidir ir atrás das aves noturnas, que é sempre uma caçada incerta, mesmo com o corpo todo moído de cansaço a alma vai na frente, com alegria.

Fizemos tudo isso e um pouco mais. Acordar às 4h20 na sexta, pegar a galera, quase 4h de estrada contando uma parada no Frango, passarinhar o dia todo, corujada em que vimos a coruja-do-mato cantar, voar de lá pra cá, mas nada de pousar em lugar pra foto, ouvir a listrada mas ela não chegar perto, voltar pra pousada depois das 22h30, ainda ir tomar banho, depois acordar no dia seguinte às 6h, fazer trilha do Ipiranga anda anda anda…

As aves? Não sou a melhor pessoa pra falar, acho que no relato dos outros vocês poderão ver. A mata estava bem silenciosa, mesmo assim apareceu zidedê, papa-formiga-da-grota, choquinha-de-dorso-vermelho, surucuá-de-barriga-amarela, surucuá-variado, tororó, joão-botina-do-brejo, caneleiro-preto, verdinho-coroado, juruviara, caneleiro-verde. Minha atenção estava dividida, ou talvez mais do que dividida, com a fotografia macro, que vai ganhar um post só para esse assunto, porque é extenso demais.

Não vou descrever tudo que vimos, mas queria contar alguns momentos:

– numa curva da estrada, uma fêmea de tiê-preto atacando algo numa folha, provavelmente um inseto. Interessada o suficiente para não fugir quando os carros se aproximaram, e ainda dar umas duas investidas contra o bicho, mesmo com um monte de gente em volta dela. Então ela se afastou e fomos olhar: um gafanhoto grande, sem uma ou duas patas, mas ainda preso à folha, um herói de guerra.

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– vimos um macho de saíra-amarela na beira da estrada. O Murilo nunca tinha passarinhado, a Nathalia há muito tempo, então queríamos mostrar tudo. “Querem fotografar uma saíra-amarela de perto?”, Mas quando abaixamos o vidro do carro, eles olharam direito e viram que o macho estava lá porque havia um filhote, caído do ninho. E toca descer no meio da chuva fina, a Daiane pegou o filhotinho, depois entregou nas mãos do Murilo enquanto procurávamos o ninho, e nada de achar o ninho, depois de um tempo o carro com o Jarbas, o Rafa e a Silvia voltou, o Will (filho do Josiel) apareceu – estávamos em frente ao núcleo, disse que a saíra ficava numa árvore do outro lado da estrada, o Rafa foi olhar e achou o ninho, a Dai intrépida subiu na cerca, na árvore, e conseguiu colocar o filhotinho de volta, que virou afilhado.

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– na volta da corujada, algo branco cruza a frente do carro e fica parado na beira da estrada por alguns segundos, uma das asas para cima, a cabeça escondida na vegetação. Nos aproximamos devagar, sem saber se ia de carro ou descia do carro. Então ela tirou a cabeça da vegetação e olhou pra gente: uma suindara mesmo. Não sei o que tinha no bico, se tinha algo e largou, foi muito rápido, já foi embora. Mas foi lindo vê-la.

– show do canaleiro-verde, macho. O Rafa chamou, o bichinho pousou, pula de um lado, pula pro outro, até que enfim desceu no aberto e todo mundo fotografou.

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– casal de matracão. Fêmea atormentando um casal de tucão, que provavelmente estavam com um ninho, macho avistado numa curva mais pra frente. É um bicho muito arredio, mas quando o grupo desistiu, o Murilo decidiu ficar mais um tempo na área e conseguiu uma foto da fêmea, corpo inteiro no limpo. Quem consegue isso na primeira passarinhada?

– na sede da Guainumbi, de repente olhar e ver a Daiane sentada no chão, conversando com a câmera, ou melhor, provavelmente conversando com as aves registradas na câmera. Como é legal ver alguém realizado em conhecer um lugar tão famoso, cuidado com tanto carinho, construído com a dedicação e sacrifício de pessoas que amam a natureza.

Enrolei, e ainda não contei o que torna esse final de semana diferente de outras passarinhadas. Foi o sábado à noite. No domingo era aniversário do Jarbas e da Daiane, e o Jarbas tinha pedido permissão pro João Marcelo pra levar carnes pra um churrasco. Levamos vinho, a Silvia levou uma pinga para o Jarbas. Nessa noite choveu, nem precisamos escolher entre ir corujar ou começar o churrasco. E depois do churrasco teve um campeonato de truco, que tinha sido motivo de provocação durante a semana entre o Jarbas e a Daiane. O Demis também entrou nas bravatas, e fez dupla com o Jarbas. A Daiane fez dupla com o Rafa, que nunca tinha jogado, não sabia as regras, e já estava bêbado, então eu sentei do lado dele pra ajudar.

E rimos muito. Todos concordam que os motivos de tantos risos eram dois: a Daiane e o Rafa, os dois fazendo muitas palhaçadas. A Daiane no teatro do truco, a ponto de uma hora subir no banco, o zap colado na testa, o braço erguido “agora vocês vão ver a Estátua da Liberdade”, e o Rafa, aquele jeito manso, mas na primeira vez que falei “agora você pode chamar truco”, levantou devagar do banco, foi até o Jarbas, abraçou-o pelo pescoço e gritou “TRUUUUUUCO” na orelha dele, dá pra imaginar?

Eu tinha levado um chocolate de presente de aniversário pro Jarbas, mas quando chegamos na sexta, ele estava distribuindo chocolates, disse que tinha comprado na Argentina, mas que não gostava de chocolate. Pensei “bom, já era o presente”. Então no churrasco, durante o jogo, abri e coloquei na mesa. Bombons trufados Língua de Gato da Kopenhagen. Eu não comi, mas os outros disseram que estava uma delícia, e o Rafa adorou, a ponto de falar várias vezes pra todo mundo “Meu aniversário é dia 23 de fevereiro, vocês já sabem o que me dar de presente”.

Num churrasco, chega aquela hora em que as pessoas precisam ir ao banheiro. Acho que há um banheiro externo, os meninos estavam indo nele, mas quando a Daiane tentou ir eles falaram “não. Vai no banheiro dentro da sede. É perigoso ir no outro, pode ter cobra no caminho”, “ué, mas vocês estão indo nesse aí” e, acho que foi o Rafa, de novo “mas é que a gente tem pinto-do-mato, você não tem”.

E o Rafa também cantou e dançou alguma música de rap, e também conseguiu errar o banquinho numa das vezes que foi sentar, e caiu no chão. Já estávamos na quarta garrafa de vinho, depois da caipirinha inicial. Nessa altura, só o Jarbas e o Rafa estavam bebendo. Perguntaram pro Rafa se tinha machucado, ele falou que se ficasse roxo, o problema seria explicar pra Eli “vou ter que falar que foi um carrapato”, “ou pode falar que foi o chupa-cabra”. Quando falamos que todo Overdose tinha que ter bebida assim, e que o Rafa devia beber sempre porque fica muito engraçado, ele imitou uma voz de muito bêbado e falou “maishh o probleeema é acordar noutro dia”.

E o Mr. Tobson! (um beagle lindo) Estava sentado ao lado da Nathalia. A Daiane começou a cantar uma música em ritmo de rap e bater palmas, ele levantava e abaixava o corpo, esfregando o traseiro no encosto, como se estivesse dançando. Quando ela parava de cantar, ele parava de dançar, juro. Ela fez isso várias vezes, e o Mr. Tobson na sincronia perfeita da música. Coisa pra Youtube.

Rimos muito. E o Murilo filmou, não sei se vai mostrar ou não. A Silvia foi a primeira a ir dormir. Ainda ficamos um bom tempo, Depois o Rafa foi, o Demis, o Murilo e a Nathalia, eu, e logo depois a Daiane e o Jarbas. Era mais de 1h30. O Rafa tinha falado “amanhã, às 10h30?”, mas acordamos cedo. O João Marcelo disse que ia participar do churrasco, mas não apareceu. No domingo, chegou no café da manhã, explicou que teve um telefonema chato de 1h30, e quando terminou eram 22h30, achou que o churrasco estaria no final e por isso não subiu. Mas quando contamos sobre o churrasco, ele lamentou muito não ter aparecido “ah, que pena, eu precisava tanto beber assim….”.

Pela primeira vez na vida vi o Rafa não chegar cedo. Mas falamos pro JM “não vai brigar com ele, foi a gente que o incentivou a beber tanto, e foi muito divertido”. Ficamos papeando um tempo, por fim o JM pediu pro Josiel ir chamar o Rafa que, se estava de ressaca, disfarçou. Fomos passarinhar na estrada do parque, teve o show do caneleiro, rendeira apareceu mas não teve foto, pegaram a fêmea do tangarazinho, tororó, tucano, tucão, o casal de matracão.

Na hora do almoço, cantamos parabéns. E depois de irmos embora, ainda apareceu uma espécie nova para Guainumbi e pra cidade de São Luiz do Paraitinga: um casal de tietingas no comedouro da Guainumbi. O Demis saiu um pouco depois da gente, e foi ele que viu.

E não é que dá samba misturar duas coisas improváveis: birdwatching + churraso-bebida-truco? Foi um fim de semana muito divertido, recomendo.

 

 

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