A região de Salto-Itu, a apenas 1h30 de São Paulo, reúne belezas naturais únicas e raridades geológicas.

Colhereiros e pernilongos-de-costas-brancas nas margens do Rio Tietê, num dos trechos que vai desaparecer com a construção da ponte estaiada.

 

  • Texto: Claudia Komesu, com informações de Flavio Garcia e José Alberto Bauer
  • Fotos: Flavio Garcia durante a III Saída Fotográfica do Grupo de Fotógrafos Saltenses & Cia, em 3/06/2012, na Fazenda Pedra Branca, um dos locais que vai desaparecer com a construção da represa. E algumas fotos de Claudia Komesu e Cristian Andrei em 18/08/2012.

A lista de aves da região de Salto está em torno de 160 espécies. Se contarmos as cidades em um raio de 50km de Salto (o que incluiria Jundiaí e Sorocaba), a lista vai para 375 espécies. É uma região em que você pode aproveitar os espaços abertos, luz, a tranquilidade das cidades e a beleza da paisagem.

No município de Itu fica um trecho impressionante do rio Tietê, que pode ser observado percorrendo a Estrada Parque, também conhecida como Estrada dos Romeiros. A água ainda é  poluída devido à proximidade com São Paulo, mas em alguns trechos há árvores altas, encosta íngreme de um lado, o rio alguns metros abaixo da estrada, curvas graciosas ou bem fechadas. É um rio muito bonito em seu desenho, e mesmo com a sujeira e os plásticos pendurados nos galhos dá para imaginar os bandeirantes descobrindo esse percurso.

Em um trecho perto de Itu, em um espaço com árvores altas, há espaços com churrasqueiras e local aplainado para estacionar os carros. Um pouco mais para frente, uma lanchonete e dezenas de bancos ao lado do rio. Passamos por esses trechos no sábado de manhã, estava tão vazio que uma maitaca-verde veio e pousou numa árvore. Quando fomos embora no domingo à tarde, nem parecia o mesmo local: incrível a quantidade de carros, motos, pessoas aproveitando a beleza do cenário e a oportunidade de um passeio ao ar livre.

A cidade de Salto guarda uma raridade geológica: a Rocha Montonnée, uma formação de granito cujo formato peculiar comprova a glaciação que ocorreu no hemisfério sul durante a Era Paelozóica. A rocha mesmo fica num parque que está fechado para reformas, mas um parque próximo, o de Lavras, tem uma placa que diz que a Montonnée é muito rara, e só há registro de outra semelhante na Austrália. O Parque de Lavras tem um cenário bastante diferente, com rochas grandes e cactos típicos da Caatinga.

Na cidade de Salto também há o Parque do Lago, um parque pequeno mas muito agradável, onde você pode ficar sentado na beirada do lago e buscar fotos boas de jaçanãs, frangos-d´água-comuns, irerês, garças. Em volta do lago, freirinha, príncipe (durante a primavera e verão), bicos-de-lacre, pica-pau-do-campo. Esse parque abre às 6h. Em nenhum local fomos abordados por seguranças pedindo autorização para fotografar (uma prática infelizmente adotada em parques nacionais e vários parques urbanos em cidades como São Paulo ou Belo Horizonte).

Na entrada de Salto há trechos do Rio Tietê onde é possível ver colhereiros no verão.

Próxima de Salto, a Fazenda do Chocolate, em Itu, é outra atração. Fomos no dia 18 de agosto e encontramos uma árvore com flores maravilhosas, que atraía saí-azul, fim-fim, gaturamo-verdadeiro, saíra-amarela, tié-preto, sanhaçu-cinzento, sanhaçu-do-coqueiro, beija-flor-preto, beija-flor-de-papo-branco, beija-flor-de-banda-branca, beija-flor-tesoura. Provavelmente a floração começou no início do mês, e deve durar no máximo até o final de agosto. Fora da época da floração, parece que ver as aves vai depender mais da sorte. Há passeios rurais e lanchonete na Fazenda, mas a comida não parecia muito apetitosa. Mesmo assim local é um sucesso: passamos por lá no domingo à tarde, havia fila de carros para entrar.

Toda a região é muito bonita e tranquila. É incrível pensar que em 1h30 você sai de São Paulo e chega num local com outra sintonia. Mas há perspectiva de muita coisa mudar nos próximos meses. Moradores de Salto me falaram que infelizmente há planos para construção de duas represas: uma na região das fazendas banhadas pelo Ribeirão Piraí e outra na região da Estrada Parque. A represa da região do Piraí vai submergir diversas fazendas e sítios que possuem um grande potencial de diversidade de espécies (inclusive a Pedra Branca, onde foi o passeio dos fotógrafos no álbum deste post). Segundo o Flavio Garcia, funcionários da CPFL encontraram até um casal de onças-pardas vagando pela região. Parece não haver estudo sério e aprofundado sobre os impactos ambientais da construção das represas. Também há planos para construção de uma ponte estaiada, que vai acabar com o local que hoje é habitat de colhereiros e pernilongos-de-costas-brancas.

Aproveite para conhecer a região antes das obras. Se não podemos impedir o tal progresso, que geralmente subestima os impactos ambientais e não coloca nas contas milionárias da obra a ideia de compensação ambiental, pelo menos podemos guardar as lembranças de quando a terra tinha outro formato e havia mais aves e outros bichos ao nosso redor.

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Notícias sobre a construção da ponte estaiada, obra orçada em R$ 23 milhões: http://www.salto.sp.gov.br/index.php?id=2836&area=24

Sobre a construção da hidrelétrica: http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/barragem-no-rio-tiete-pode-inundar-area-tombada-em-porto-feliz-20110905.html “A PCH (Pequena Central Hidrelétrica) de Tietê vai inundar uma área de 980 hectares – equivalente a 980 campos de futebol  (…)Embora no nome sejam pequenas hidrelétricas, na prática o impacto delas é enorme. (…) As fortes corredeiras, que oxigenam o rio e reduzem a poluição, serão eliminadas.”