Antes de mais nada, peço licença para discorrer brevemente sobre a Fundação Cristalino e sua mantenedora, a Sra. Vitória da Riva.

A Sra. Vitória da Riva é uma daquelas pessoas que fazem a diferença, com espírito preservacionista e empreendedor, buscou no começo da década de 90 alternativas econômicas ao modelo de “progresso” vigente.

Foi severamente criticada, pois era consenso que manter a floresta intacta impedia o desenvolvimento da região.

A despeito de todas as dificuldades, seguiu convicta de seus ideais e hoje a Fundação Cristalino é um modelo de sucesso, conquistando inclusive o reconhecimento dos seus primeiros críticos.

Pois bem, uma das frentes de atuação da Fundação é o ecoturismo, e aí se destaca o Cristalino Eco Lodge, hotel de selva premiado internacionalmente e considerado um dos melhores do mundo pela National Geographic Travelers.

O Cristalino (assim chamaremos o Eco Lodge daqui em diante) está inserido numa RPPN de 12 mil hectares, contígua ao Parque Estadual do Cristalino, que por sua vez possui mais de 180 mil hectares, e a outras áreas de preservação ainda maiores.

Estamos falando de um “mundo’ de floresta primária amazônica, numa região especialmente agraciada por uma variedade de ambientes que confere grande biodiversidade local. Para se ter uma ideia, na região já foram registradas cerca de um terço das espécies de toda avifauna brasileira!

Não há dúvidas de que, seja pela quantidade de espécies sensacionais, seja pela história de preservação local, o Cristalino é um destino obrigatório não só para birders, mas para todos amantes da natureza.

Mas não é só isso!

Desde nossa chegada, muito bem recebidos, diga-se de passagem, pela Sra. Vitória (com direito a drinks de boas-vindas), até nossa partida, tudo foi maravilhoso!

Os luxuosos bangalôs, pensados ecologicamente; a comida saudável e muito saborosa; a excelência dos super experientes guias locais; a infraestrutura para observação de aves, enfim, não há o que reclamar, pelo contrário, só indicar.

E é assim que termino esta introdução, convidando a todos os colegas que ainda não conhecem, a visitarem o Cristalino, um lugar irresistível!

Então, vamos lá!

 

O voo é até Alta Floresta/MT, e daí por diante a equipe do Cristalino se encarrega de tudo.

Uma rápida passagem pelo Floresta Amazônica Hotel para fazer o check in (“de quebra”, se o ninho de harpias estiver ativo, há uma pausa para fotos. Mais detalhes em: http://virtude-ag.com/vg-gaviao-real-jba/) e continuamos viagem até o rio Teles Pires, onde barcos nos esperam para a reta final.

Rapidamente já adentramos o rio Cristalino, que por ser relativamente estreito, é ótimo para observação, pois a vista alcança as duas margens. E a passarinhada já começa aí mesmo, antes de chegarmos ao hotel.

Os experientes guias de observação de aves é quem pilotam os barcos e nada passa desapercebido. É incrível a facilidade que eles têm de encontrar os bichos!

Enfim chegamos ao charmosíssimo deck e uma breve trilha nos levou à requintada sede do hotel, onde se encontram refeitório, espaço de convivência, auditório, loja de souvenirs, biblioteca e bar. Tudo construído em perfeita harmonia com o lugar, uma homenagem ao bom gosto.

O Cristalino é um lugar acolhedor, charmoso, “sustentável” e com uma atenciosa e prestativa equipe, enfim, realmente faz jus aos prêmios conquistados.

Na construção do hotel preconizou-se o mínimo de impacto ambiental possível, o que propiciou um ótimo “consolo” aos birders de plantão.

Explico: a mata circundante oferece grandes chances para lifers, o que é muito interessante, pois quase todo dia chove na floresta amazônica, e não raramente temos que esperar o tempo firmar para começar os passeios.

Algumas espécies sensacionais registradas nestas condições: gavião-ripina, caracoleiro, anacã, japuaçu, saíra-de-cabeça-azul, saíra-de-cabeça-castanha e a família residente de mutuns-de-penacho, que deram um show, com seu filhotão cheio de personalidade.

O Cristalino oferece aos birders 3 principais opções de passeios (sempre guiados): as torres de observação, as trilhas na mata e os passeios de barco pelos rios Cristalino e Teles Pires.

O passeio de barco é sempre uma agradável opção, principalmente quando se está fazendo muito calor.

Às margens do rio Cristalino encontramos: garça-da-mata, garça-real, martim-pescador-da-mata, martinho, peitoril, maria-da-praia, gavião-preto, coró-coró, pato-do-mato, picaparra, pavãozinho-do-pará, biguatinga entre outras espécies.

No início da noite o raro socoí-zigue-zague pode ser encontrado, além dos excêntricos arapapás.

Surpreende também a mansidão dos bichos, geralmente permitindo ótimas aproximações.

Além deste passeio há outros mais específicos, como o que se sobe o rio Cristalino cerca de 20 km até um local onde ocorre a fantástica cigana(espécie de ave “pré-histórica”), o que vai até umas pequenas ilhas no rio Teles Pires onde se encontram a acurana, o bacurau-de-lajeado e a andorinha-de-coleira e ainda o que leva o visitante à ilha do incrível anambé-preto.

Quanto às trilhas, as recomendadas para quem curte fotografia são as mais abertas, já que a predominante floresta de terra firme é muito escura. A exceção é a trilha do uirapuru, onde você pode ter a inenarrável sensação de ficar frente a frente com uma verdadeira lenda e ainda ouvir uma das grandes maravilhas da natureza, o seu extraordinário canto(neste caso a falta de luz não é empecilho algum e o jeito é abusar do ISO). Como muito bem disse um dos amigos que compartilharam desta inesquecível experiência conosco, o Bruno Boni, só aquele momento já valeu a viagem.

Ainda fizemos a trilha da Serra, onde os buconídeos são a maior atração, para se ter uma ideia registramos três formidáveis representantes: o macuru-de-testa-branca, o rapazinho-estriado-do-leste e o rapazinho-carijó.

Mas não foi só, registramos anambé-de-coroa, benedito-de-testa-vermelha, maitacas-de-cabeça-azul no ninho, um bando de arirambas-do-paraíso, piuí-verdadeiro (primeiro registro para o Wikiaves), saí-de-perna-amarela, gaturamo-verde, entre outros.

Outro local com muita luz onde se tem boas condições para fotos é no “Limão”. Lá registramos: urubuzinho, amarelinho, ferreirinho-estriado, choca-d’água, curió, choquinha-estriada-da-amazônia, sanhaçu-da-amazônia, cardeal-da-amazônia, solta-asa entre outros.

E por fim o que, na minha opinião, são as maiores atrações do Cristalino, as torres de observação (são duas).

O grande lance das torres é que você tem acesso ao local com maior biodiversidade da floresta, o dossel.
Subindo os 200 e tantos degraus, acessamos a melhor plataforma para fotografar aves, a de 40 metros. Continuando, ainda temos a de 50 metros, ideal para fotos panorâmicas.

Não tem como não se maravilhar com as belezas cênicas e com as extraordinárias espécies de copa, praticamente inacessíveis do chão da floresta.

O alvorecer é um espetáculo único e ao longo da manhã você assiste de camarote a um desfile impagável, com a presença de astros de peso, como capitão-de-cinta, marianinha-de-cabeça-amarela, anambé-azul, surucuá-de-cauda-preta, macuru-de-testa-branca, além de diversas saíras multicoloridas, as chamativas araracanga, arara-canindé e arara-vermelha-grande, entre tantos outros.

Um acontecimento foi especial: tivemos a oportunidade de presenciar a revoada de cupins alados, seguidos por várias espécies de aves que se banquetearam com o valioso suprimento de proteína.

Araçaris-mulatos protagonizaram um espetáculo, capturando acrobaticamente os cupins que saiam do tronco de uma árvore seca.

Estes araçaris eram presença constante, mas outras estrelas também deram o ar da graça no banquete, como chincoã-de-bico-vermelho, um bando de bicos-de-brasa-de-cara-branca, além de bandos de sovis e de anambés-pombos, que como esquadrilhas, precipitavam sobre os cupins que alcançavam maior altitude.

Bem pessoal, fico por aqui agradecendo ao experiente Jorge e ao Olivier, nossos grande guias nesta memorável viagem. E ao excelente grupo que foi muito mais do que uma ótima companhia, foram valorosos amigos que tornaram esta viagem muito especial.

Otacílio, Bruno, Tavinho e Cica, Clézio e Lilian, Marcelo, Geraldo, muito obrigado por tudo, vocês são demais!

Algumas dicas que podem ser úteis:

No curto período de seca, cujo auge é agosto, os excelentes guias do Cristalino usam uma estratégia infalível: eles criam poças d’água que atraem espécies normalmente muito difíceis de fotografar. (Lembrar também que a estação chuvosa, no verão, não é a mais indicada, por razões óbvias).

E para quem nunca foi ao Cristalino, a dica é participar do workshop do professor João Quental. Além de conseguir um desconto muito bem vindo, você terá a luxuosa assistência de um dos mais renomados fotógrafos de aves do Brasil. Imperdível!

 

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