Lá por fevereiro, minha esposa Mirta, professora universitária de Química Orgânica, me fala: – no feriado de Tiradentes estou pensando em ir para Fortaleza, vamos desenvolver um projetinho de pesquisa conjunto com meu colega Marquinhos da UFC, você me acompanha?  – Claro! Você fica no laboratório e eu vou passarinhar…

Faço minha lista, um monte de espécies a fazer. Busco guia, tento o Jefferson Bob, ocupado. O Caio Brito, ocupado. O Ciro? Óbvio que ocupado. Estou quase desistindo e procurando outro local para preencher a ausência de minha esposa quando o Caio sugere: tenta o Marcelo Holderbaum. Oba! Ele pode. Montamos o roteiro, são apenas 4 dias, as praianas vão ficar de fora. Paciência.

O Marcos nos hospeda em seu apartamento e papando uma lasanha acompanhada de um belo Valpolicella me pergunta: – você vai ver aquele passarinho ameaçado que só tem aqui no Ceará? – Assim espero meu amigo, o soldadinho-do-araripe é uma das estrelas da viagem!

 

17 de abril – Sexta feira

Encontro o Marcelo de madrugada, uma hora e pouco depois estamos na Serra de Baturité. Incrível pedaço de Mata Atlântica encravado no sertão cearense, local de fins de semana serranos do pessoal de Fortaleza. Primeira parada no Hotel Remanso, já no caminho de entrada encontramos Hemitriccus mirandae (o Marcelo me testa…só fala nome científico) (maria-do-nordeste)  e a tovaca-campainha, que lá canta um pouco diferente na virada final do seu canto-encantador. Responde imediatamente mas é difícil de ver e quanto mais fotografar. Entramos alguns metros na mata, atlântica clássica, escura, emaranhada, e lá está ela, num poleiro a baixa altura, limpo e cantando o tempo todo. Até vídeo faço. Vejam.

Em compensação, uma das estrelas do local, a Selenidera, saripoca-de-gould, não comparece.

Vamos até a trilha atrás do hotel, e o Marcelo alerta, faz logo o Conopophaga lineata (chupa-dente) que a subespécie daqui, cearae, já separou, e vai entrar na próxima lista do CBRO…fazemos tranquilamente a poupança de lifer…

No local também vemos o arapaçu-rajado-do-nordeste e o uirapuru-laranja, numa estranha distribuição isolada a um bom milhar de quilômetros da sua zona mais próxima no oeste do Maranhão (ali só encontramos várias fêmeas, ou jovens?) e o desejado vira-folha-cearense, endêmico do Estado, que responde bem ao PB, mas sem chance de foto, quando… começa a chover. Batemos em retirada.

Passa a chuva e vamos para outra trilha na entrada do hotel que vai dar num roçado de mandioca, ouvimos os urús cantando longe no meio da mata próxima e lá vamos. No caminho aparece o joão-de-cabeça-cinza, que como bom Cranioleuca primo dos Synallaxis, nunca para, mas dá registro. E também o pica-pau-anão-da-caatinga que dá um mole. Distraídos, não percebemos que o tempo está fechando e o aguaceiro desaba, desta vez mais pesado (e a capa de chuva devidamente protegida na mochila que ficou no carro…). Corremos e encontramos um providencial e extemporâneo “ombrellone”, todo rasgado, certamente o resguardo do senhorinho que toma conta da roça onde os três mal nos acomodamos por longos minutos ali em baixo. Logo começa a fazer água por todos os rasgos, e ai, vendo que não daria mais, o senhor nos oferece: -peguem o guarda-chuvas e voltem até o carro e deixem lá que depois eu pego. – Mas e o senhor? – Não tem problemas, estou acostumado. Isso que é hospitalidade!

A tarde está reservada para o periquito-da-cara-suja que o CBRO “rebautizou” tiriba-de-peito-cinza. Vamos para um sítio onde tenho o privilégio de conhecer um pouco do projeto de conservação da criticamente ameaçada espécie, em que o dono colabora permitindo a colocação de ninhos artificiais para a reprodução.

E aqui um parêntese para a ONG cearense Aquasis que cuida desse projeto (e também do soldadinho-do-araripe), com vários apoios entre eles a Fundação Loro Parque e Birdlife International que a declarou “entidade guardiã da espécie desde 2008 e desde 2011, declarada integrante do Grupo Assessor do Plano de Conservação oficial brasileiro.  Vários colegas cearenses são voluntários em ações do projeto, entre eles o próprio Marcelo que me guiou. Conheçam mais: http://www.oeco.org.br/convidados/28470-nova-descoberta-reforca-esperancas-para-o-periquito-cara-suja

Os periquitos dão show! E no mesmo local os lifers se sucedem: Celeus ochraceus, poiaeiro-da-pata-fina (esse está em todas..). Como ainda falta um tempo para anoitecer, quando queremos ver a murucututu (perspicillata), o Marcelo sugere irmos para um local perto, num zoológico particular, onde foi registrado o pintassilgo-do-nordeste (apenas 4 fotos no Estado). Chama e não é que aparece!! Lá em cima de uns pinheiros altíssimos…mas está valendo. Essa foi a primeira “gorjeta” da viagem.

Voltamos para a coruja e as 6h em ponto, e, como o Marcelo tinha adiantado, ela começa a cantar. Entramos na mata, chamamos, e logo vem, fica num galho bom por uns instantes…totalmente de bunda e escondendo a cabeça (a foto é um bolo de penas bem definido, não dá) e vai embora para não voltar. Fica para outra.

 

18 de abril – Sábado

Voltamos cedo ao Hotel Remanso, e nada da Selenidera gouldi. Mas o vira-folha-cearense dá uma boa chance, agora, se o fotógrafo aproveitou bem é uma outra questão, afinal quem manda deixar as pilhas de reserva do flash no carro. E o bicho, marrom, só anda na penumbra.

Vamos encontrar o amigo Thiago Silva no Parque das Trilhas, local público, bem cuidado, ele vem nos mostrar um local especial para ver o uirapuru-laranja; uma boa subida na trilha, mata adentro e não demoram quase nada. Um êxtase de beleza essa ave! Valeu Thiago!

Partimos, temos longos 600 km de estrada até o Crato.

Quase chegando em Quixadá, o Marcelo me alerta – tem biscutata voando (taperuçu-de-coleira-falha); freio, dou marcha a ré uns 50 m descemos e ainda dão boa chance de foto.

Quixadá é um lugar muito especial, imensas formações de pedra, chamados de “monólitos”, como verdadeiros Pães-de-Açúcar emergindo do sertão, se vem às dezenas no horizonte, e chegando dá para ver como são imensos mesmo.

Paramos na Pousada Pedra dos Ventos, o melhor local para ver o bacurauzinho-da-caatinga. Fica num lajeado mínimo de uns 300 m2, encravado entre o restaurante, a piscina e o estacionamento da pousada. E eles ficam ali, absolutamente mimetizados. Quando nos aproximamos com muito cuidado, o pedreiro trabalhando perto nos avisa… a “corujinha” está por aí… e está mesmo, dando um mole. Almoçamos e batemos um papo com o dono, dá gosto de ver a consciência dele com a preservação do local, orgulhoso, nos mostra uma foto com um bando de uns 20 indivíduos da Penelope jacucaca em frente à pousada… mas hoje não estão.

De saída, paramos para fazer o rapazinho-dos-velhos, impassível no poleiro, quando vem a segunda “gorjeta” da viagem: Buteo albonotatus voando bem alto! O Marcelo experimenta o PB e o gavião dá vários rasantes a uns 10 m de altura!

A longa viagem prossegue em plena Caatinga, e as vilas e cidadezinhas se sucedem: Banabuiú, Solonópole, estrada boa, radares de 60 km em todas as passagens urbanas. Num brejinho à beira da estrada o maravilhoso corrupião aparece bem distante mas com seu colorido incrível. E a rolinha-de-asa-canela a poucos metros do carro, nem precisamos abrir o vidro… para não espantá-la.

Anoitece, o trecho final, entre Várzea Alegre e Crato é um pedaço de mal caminho, só buraco. Interminável. Finalmente Crato, pizza na praça principal (como tem carro caro e zero desfilando!) e uma boa cama.

 

19 de abril – Domingo

Cedo para uma Caatinga pura, colada na FloNa de Araripe (na qual não se pode entrar, por ser área de preservação total e estrita). Solo arenoso, arbustos emaranhados, poucas árvores baixas; a choca-do-nordeste e o chorozinho-da-caatinga logo se apresentam. O Synallaxis hellmayri (joão-chique-chique) também, cada 150 metros têm um.  Luta inglória de quase 2 horas com o bicho que não sai, em vários pontos, fotos impublicáveis. Synallaxis 1 x 0 Héctor. E no meio do nada, uma cena improvável, um pelotão de ciclistas (muitos!) passando na nossa arenosa trilha.

E vamos para o soldadinho que já é tarde.

A entrada para o local do soldadinho é um muito bem montado parque aquático, o Arajara Park em Barbalha, ao pé da Chapada do Araripe. Centenas de pessoas curtindo as piscinas e tobogãs. Confesso que tinha feito uma imagem mental previa diferente, imaginei um santuário ecológico no meio da mata destinado a preservar o bichinho. E não é que não esteja, a curtíssima trilha que leva ao local dele é muito estruturada e só se vai acompanhado das guias. Entramos e pa! Já aparece, pousa rapidamente perto e faço uma quase única foto de frente. E ai aprendemos que, não sendo a época reprodutiva dele, quase não liga para o playback, vemos mas nunca perto, uma dupla de machinhos dá um show aéreo, se perseguindo voando em círculos de uns 30 m de diâmetro em volta de uma grande árvore, umas 5 ou 6 voltas. Vou ter que voltar para a foto que eu queria…Mas, ali mesmo consigo registrar o difícil garrinchão-pai-avô e o tico-tico-de-bico-preto.

Partimos para Potengi. Um pouco tarde já para aproveitar ao máximo o Sítio Pau Preto, propriedade da família do Jefferson Bob. Chegamos com a tarde caindo e nem precisamos dar satisfação aos moradores, entramos no sítio. Verdadeiro show do piu-piu, uma beleza. Golinho, as duas Stigmaturas juntas, guaracava-modesta. Tudo em poucas dezenas de metros. Incrível o local. E com o som de fundo de todas as gravações no sertão: sinos de gado batendo. Vamos para o açude (baixíssimo) já com pouca luz, mas suficiente para fazer um casal de bacurauzinhos caçando em voo. O asa-de-telha-pálido aparece ao longe mas sem chance. O corrupião de novo, um desbunde de cor contra o verde da Caatinga. E no meio do açude um improvável savacu. Apenas ouvimos o papa-lagarta-acanelado e o tiê-caburé. A luz já era. Entramos para cumprimentar o pai do Jefferson que nos recebe com uma agradável conversa e um refrescante copo d’agua.

Potengi oferece poucos recursos de alojamento e alimentação mas tudo vale a pena se a alma não é pequena.

 

20 de abril – Segunda-feira

Destino Brejinho, em Araripe. Estrada rural (ah como queria estar em minha picape e não num golzinho de aluguel). Subimos a trilha, o local é uma mata tipo cerradão, com boa luz, já em alguma altitude. E vem a segunda batalha, Synallaxis scutata, estrelinha-preta, outra pedreira, não se mostra. Synallaxis 2 x 0 Héctor. E logo depois, o ouvido privilegiado do Marcelo nos alerta: Micrastur ruficollis, falcão-caburé, vemos, acho uma janela na mata, um único click. Terceira gorjeta da viagem. Talvez o melhor local para ver o torom-do-nordeste, mole incrível, quase não cabe na minha lente e não dá tempo de abaixar a 400. E se seguem arapaçu-beija-flor, bico-virado-da-caatinga e pica-pau-anão-pintado. Com um pouco mais de tempo faríamos o Casiornis fuscus com certeza, mas temos 600 km de retorno a Fortaleza pela frente.

Boas estradas para voltar, Assaré (alguma coisa remoeu no fundo da minha já deteriorada memoria) e chegando vi o cartaz: capital da poesia popular, claro, a cidade do grande Patativa do Assaré. Planejamos parar, passando Mombaça, em um açude onde sabe ter paturi-preta, e lá estavam elas dois vultos no meio de alguns irerês a uma distância proibitiva.

Chegamos em Fortaleza já noite, morto de cansaço mas realizado. Obrigado Marcelo, um craque!

Ainda tenho forças e vontade para convidar minha esposa e meu amigo para jantar no Vojniló, um peixe soberbo.

No dia seguinte planejamos um curto passeio de buggy na praia do Cumbuco, no município de Caucaia, que ninguém é de ferro.

Chegando em São Paulo essa mesma noite, vejo os incríveis registros da perdiz-do-mar. Onde? Em Caucaia, a poucos quilômetros de nosso passeio de buggy, na mesma hora. Essa foi a quarta gorjeta que não foi.

 

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