As fotos acima são alguns destaques. Mais fotos dentro de cada tab do post.

  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: Claudia Komesu e Cristian Andrei. Claudia com Nikon D800, Nikkor 300 f4 e tele 1.4, e Cristian com Nikon D800 com Nikkor 70-200 e 300 2.8 com tele 2x. Também usamos Olypmpus TG3 3 e Iphones.
  • De 19 a 23 de novembro. Fotografia dias 20, 21 e 22 e poucas horas no dia 19 e 23.
Somos desconectados das atualidades, é verdade, e desta vez pagamos um preço. Tínhamos nos programado pra passar a semana do 19 a 24 de novembro no fishwatching em Curaçao (Antilhas Holandesas, mas como se fosse uma parte do Caribe). Três dias antes, por acaso, descobrimos que a Chikungunya assola o Caribe. Sou uma das pessoas mais atrativas que conheço pra pernilongo, então não foi difícil ir pro “vamos cancelar tudo e ir pra outro lugar”, e assim fomos pra Canastra.

A região da Canastra é um lugar fabuloso pra quem gosta dessas paisagens e tem um pouco de super-poderes de birdwatcher. Preciso dizer isso porque lembro bem como foi conhecer o parque antes de ser birdwatcher, em setembro de 2005, quando dormi no carro por um bom tempo, e as únicas aves que vi foram caracará, coruja-buraqueira e um bandinho de periquitos, que depois soube que eram periquitos-rei.

Voltei pra Canastra em agosto de 2011, com o Geiser Trivelato, o Mathias Singer, o Luiz Ribenboim e o Rafael Fortes, uma viagem muito boa. Mas ainda não tinha voltado com o Cris.

O tempo todo eu me perguntava “esses bichinhos estava mesmo aqui em 2005? Como é que eu não via nada?” Eu não via nada… E agora é tão fácil ver. Como eu queria que todas as pessoas pudessem passar por um pequeno treinamento de birdwatching, e ter olhos não só pra lifers e aves impressionantes, mas pra todas as formas de beleza, as grandes e as pequenas, as espécies raras e as comuns.

Decidimos a viagem em cima da hora. Pedi algumas informações pro Geiser, mas não fiz questão de contratar um guia. Sei que com guia a gente vê muito mais bichos, mas eu também gosto do tipo de viagem menos focado, com abertura pro acaso. Como meu encontro com a Long-eared Owl no Sunset Park, que só conheci porque não tinha tudo programado.

E assim passei alguns dias pela Serra da Canastra na companhia do amor da minha vida, como há 9 anos atrás, mas com muito mais olhos, e equipamentos.

Guias

– o parque só abre às 8h, mas se você contratar um guia local, pode entrar às 5h e sair bem tarde. Sei que o Zé Maria http://www.wikiaves.com.br/perfil_zemaria tem credencial, e possivelmente o Alessandro Abdala http://www.wikiaves.com.br/perfil_alessandroabdala.

– Ficamos no Hotel Chapadão da Canastra http://www.chapadaodacanastra.com.br/. O pessoal é muito simpático e com certeza sabem indicar outros guias que também podem entrar cedo.

– O Geiser Trivelato http://geisertrivelato.webs.com/ conhece tudo da Canastra. Já fui com ele pra Canastra, pro Pantanal, pra Jacutinga, recomendo muito. Mas acho que ele não tem a credencial, que talvez dependa da pessoa ser residente na região…

O ingresso pro parque é de R$ 7,50 por pessoa para brasileiros, R$ 15 para estrangeiros. O guia cobra uma diária, varia entre uns R$ 120 e uns R$ 250, depende do guia (sem contar os mais famosos, como Edson Endrigo ou Ciro Albano). A maioria dos guias que conheci são pessoas extremamente dedicadas, competentes e ótimas companhias. Se você quer ver mais bichos, vale a pena contratar um guia.

As aves

Chegamos na quarta no fim do dia. No caminho pra Canastra, perto da bifurcação pra Capitólio, naquele posto de gasolina em frente à represa havia um movimento de garças. Fomos olhar mais de perto e encontramos um ninhal bem na beira da pista, com muitas garças-vaqueiras, algumas garças-brancas-grandes e savacus.

Na quinta fomos pra parte alta. O parque abre às 8h, mas saímos do hotel antes das 7h para passarinhar na estrada, vale a pena. Um bando de jandaias-de-testa-vermelha, periquitão-maracanã, taperuçus.

A portaria do parque é um local movimentado, em que vale a pena ficar um pouco pela manhã ou no fim do dia. Às vezes aparece o sanhaçu-fogo, saíra-douradinha, a águia-chillena. Em 2011, com o Geiser, vimos a águia-chilena umas três vezes, inclusive na portaria (mas desta vez, nada).

O galito é o príncipe da parte alta, e neste época ainda está com a plumagem nupcial, que são essas penas mais compridinhas no rabo. Na quinta ainda havia menos movimento de carros, e vimos muitos galitos. Contamos mais de 70, estávamos quase começando a desprezar “ah. Mais um galito”. Na sexta já havia mais carros e bem menos aves. Uma grande diversão da viagem foi tentar pegá-los em voo, especialmente o voo de display em que ele exibe aquela cauda maravilhosa.

Também vimos várias vezes o papa-moscas-do-campo, a noivinha-branca, patativas, sporophilas que pareciam ser baianos e coleirinhos, caminheiros (o grande, acho), canários-da-terra-verdadeiros, corujas-buraqueiras com filhotes, lindas na luz do fim do dia. Avistamentos de emas, codornas umas três vezes. João-bobo, taperuçus – inclusive rasante de taperuçus-de-coleira-branca, andorinhas-de-sobre-branco.

Não vimos águia-cinzenta ou a chilena, só o gavião-de-rabo-branco, mas em dois momentos emocionantes: na primeira passou a menos de 10m do nosso carro, quando subíamos pra portaria. “uau, o que foi isso??”, encostamos o carro, e depois de uns minutos procurando o Cris localizou-o pousado. Ele estava me falando algo elogioso sobre a diferença entre mim e as outras mulheres, como é bom eu ser um tanto desmiolada, mas com o susto do gavião, esqueceu o assunto e não conseguiu retomar. E no outro momento, quando fomos passear na região da parte baixa, vimos um melânico que nos fez pensar em águia-cinzenta. Longe, escuro. Também vimos uma interação entre caracará e um sabiá-do-campo. O caracará não chegou a voar, mas se resignou a ser enxotado.

Tive uma visão de um rapinante, possivelmente a águia-chilena, apanhando de uns três pássaros, relativamente baixo. Foi num momento em que desci do carro só com a Olympus, pra fotografar flores, e tinha decidido deixar a Nikon no carro. Saí desesperada, correndo até o carro, me xingando muito, mas até pegar a câmera e mirar o rapinante era uma silhueta de costas pequena demais no horizonte.

O Cris passou a viagem toda mentalizando urubu-rei. Nesse dia da parte baixa vimos, mas a alguns quilômetros de distância, só vi porque peguei o binóculo, talvez nem devesse ter contado pra ele.

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Tantas aves. E eu pensando o tempo todo “jura que todas essas aves estavam aqui em 2005?”.

Sobre os mamíferos

– topamos com Marco Sarti, que estava produzindo um vídeo pro ICMBio sobre o lobo-guará e o pato-mergulhão. Ele estava lá há uns 10 dias, e teve bons encontros com os bichos. Mas estava com um dos guias favoritos do Pró-carnívoros, um tal de Marcelo, nos horários especiais, e pegou o parque antes do feriado. Nós não vimos… pra não dizer que não vi nenhum mamífero, tive um encontro com um lindo tatu, bem de perto, naquela situação de estar parada na estrada olhando a paisagem, ver uma movimentação entre as folhas, e de repente o bicho cruza a estrada na sua frente.

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– o Marco disse que os lobos-guarás gostam do Curral de Pedra ao amanhecer, lá pelas 7h30. Se você quer vê-los, fica a dica de contratar um guia local e tentar.

– Um tamanduá só num fim de dia, e bem longe… já me falaram que durante os feriados, os animais se afastam da beirada das estradas devido ao aumento do fluxo de carros.

A Canastra em flor

Na subida já vimos muitas flores, e também nos primeiros quilômetros após a portaria. Mas o trecho que mais nos impressionou foi a estrada pra Cachoeira do Rolinho. Tudo incrivelmente florido.

Tentamos registrar a beleza dos campos em flor, mas é bem complicado, sei que as cores ficam alteradas, o problema de tenta balancear céu e terra. Mas dá pra ter uma ideia.

O fim da estrada para a Cachoeira do Rolinho também é linda, e tem esse poço cheio de peixes. O Cris foi dar um mergulho, eu não. Sou do tipo que não quer tirar nem a bota, pensando na tristeza que é ter que voltar a calça-la.

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As Olympus são à prova d’água, até uns 12 metros. Eram pra viagem pro Curaçao. Mas tivemos o luxo de aproveitá-las por alguns minutos na Canastra, e é por isso que tem fotos de peixes neste post. É muito legal ter uma câmera que fotografa paisagem, macro, e quando você chega num laquinho ou rio, ainda pode enfiá-la embaixo d´água.

Estradas e carros

– A subida para a parte alta está bem ruim. O pessoal do hotel queria saber que tipo de carro estávamos, não recomendam carros baixos. Mas devo dizer que cruzamos com alguns carros que não eram 4×4 ou caminhonetes, então acho que com alguma paciência e habilidade dá pra subir, bem devagar.

– Dentro do parque a estrada não está tão ruim, o pior trecho é pra subir mesmo. Mas a estrada pra Cachoeira do Fundão não é recomendada. Tentamos ir, mas começou a ficar tão ruim – e a chuva estava pra começar, que pedi pro Cris voltar.

– Para ir à parte baixa do parque, sem problemas. Lembrar que na parte baixa, a vegetação é mais de Mata Atlântica, com terreno íngreme, e você só anda a pé, deixa o carro na portaria.

– Há postos de gasolina na cidade.

Comida, hospedagem

– O restaurante mais famoso pra jantar é o Zagaia. Na primeira noite comemos um frango com quiabo ótimo, depois de uma espera de 50 minutos. Na segunda noite, pedimos uma carne na panela com mandioca, que veio salgada e dura, isso depois de 1h30 de espera.

– Felizmente há uma alternativa: o Recanto Surubim, a uns 10 minutos de São Roque na direção de Vargem Bonita (exatamente 1,5 km da saída, do lado direito, é fácil ver). Comemos uma tilápia aperitivo muito boa, linguiça caseira com mandioca (tudo muito bom, ainda que tenhamos passado mal depois por ser fritura demais pra uma noite. É a idade). Ótimo atendimento e tudo chegou rápido. No dia de ir embora almoços o buffet de lá. Não estava tão bom quanto os pratos a la carte, mas era prático.

– Também experimentamos o Malibu, quem tem uma aparência pouco convidativa. Mas tínhamos a dica do espeto de lombo. Muito bem feito, saboroso. Só os acompanhamentos podiam ser melhores.

– Na parte alta não há restaurante, lanchonete. Você tem que levar sua água, seu lanche. O hotel podia preparar um lanche de trilha, ou você mesmo podia levar um lanchinho pegando coisas do café da manhã. O café costuma ser servido às 7h30, mas se você pedir antes, eles fazem às 6h.

– Há vários supermercados na cidade. Passamos num dele e compramos água, frutas, queijo, pães. Se você for contratar um guia e quiser estar no parque às 5h pra tentar os lobos, a melhor opção seria tomar o café da manhã no parque.

– Em Vargem Bonita, para almoço, há uma pousadinha simples em frente à igreja, a Pousada São Francisco, que serve comida caseira. Infelizmente não vi mais os beija-flores do sr. Dominguinhos.

– Ficamos no Chapadão da Canastra porque foi onde fiquei em 2011, quando fui com o Geiser. São quartos simples mas confortáveis, pessoal muito simpático, bem disposto, sem frescura. Mas tivemos uma noite terrível de sexta pra sábado – um grupo na área da piscina que não entendia que estavam atrapalhando, a ponto de eu ter que descer à meia-noite pra pedir pra eles falarem mais baixo ou saírem de lá. Só consegui dormir depois das 3h, por isso no sábado não conseguimos sair cedo. E de sábado pra domingo um clube que fica ao lado do hotel resolveu reabrir, e os quartos mais próximos desse clube tiveram uma noite terrível (não foi nosso caso, nós conseguimos dormir).

– O Chapadão é um lugar legal, amigo de birdwatchers, mas se for reservar, acho que seria bom checar se a questão com o clube foi resolvida. Sobre o grupo barulhento, a dona do hotel me pediu muitas desculpas, e disse que nunca mais vai deixar o pessoal usar a área da piscina à noite, que eles prometem que vão se comportar, mas conforme vão bebendo, vão esquecendo o decoro.