A Ilha de Páscoa (ou Rapa Nui, como é chamada por lá) é uma ilha vulcânica no limite da Polinésia Oriental, mas que oficialmente pertence ao Chile. Extremamente isolada, para chegar lá é preciso ir até Santiago e de lá encarar mais cinco horas de voo sobre o Oceano Pacífico. Também existe um voo que parte de Lima, no Peru. Pelo menos a aterrissagem não é um problema, a pista do aeroporto é enorme, construída em conjunto com a NASA para permitir pousos de emergência de ônibus espaciais.

Moais

Moais

 

O lugar é famoso pelos moais, estátuas gigantes que representam os antepassados de seus primeiros habitantes. Ao todo, foram encontrados mais de 800! Desolador é descobrir que a grande maioria (ou seriam todos?) foi derrubada durante conflitos internos, aparentemente antes mesmo da chegada dos europeus. Hoje um grande número de moais encontram-se restaurados e atraem milhares de turistas todos os anos, movimentando a economia local.

Do ponto de vista ecológico, a Ilha de Páscoa é mais um triste exemplo da degradação causada pelo homem. Segundo Jared Diamond em seu livro Colapso (2005), a ilha já foi coberta por uma floresta tropical, onde existia, possivelmente, a maior espécie de palmeira conhecida. Atualmente as únicas árvores que crescem na ilha são exóticas, ou seja, foram trazidas pelo homem de outros lugares.

As aves terrestres hoje encontradas na ilha também foram todas introduzidas pelo homem. A diuca (Diuca diuca) e o pardal (Passer domesticus) são as mais abundantes. Pombos-domésticas (Columba livia) também são fáceis de encontrar, mas preferem viver na costa do que na pequena cidade. A garça-vaqueira (Bubulcus ibis) vivia em grupos, mas sua população foi controlada depois de um acidente no aeroporto. Dizem que ainda há um indivíduo vivendo nas ilhotas próximas.

Diuca (Diuca diuca)

Diuca (Diuca diuca)

Vestígios de ossos encontrados na praia de Anakena indicam que pelo menos seis espécies de aves terrestres viviam na ilha: duas espécies de psitacídeos, duas espécies de galinha-d’água, uma espécie de coruja e uma espécie de garça. A derrubada da floresta, a caça e os ratos que teriam vindo com os primeiros polinésios em suas embarcações são possíveis razões de sua extinção.

A perdiz-chilena (Nothoprocta perdicaria) e o nosso conhecido chimango (Milvago chimango) são outros exemplos de aves que foram levadas até a ilha pelo homem. O chimango, lá conhecido pelo nome de “Toke Toke”, adaptou-se completamente ao ambiente da ilha. Extremamente abundante, ele se alimenta de ratos, pequenos répteis e invertebrados. Já a perdiz é mais tímida e prefere ficar escondida na vegetação rasteira. Com um pouco de atenção dá para encontrar uma ou outra nas diversas ruínas que estão espalhadas por toda a costa, distraídas em busca de sementes e insetos.

Perdiz-chilena (Nothoprocta perdicaria)

Perdiz-chilena (Nothoprocta perdicaria)

Chimango (Milvago chimango)

Chimango (Milvago chimango)

Sendo um lugar tão remoto, a ilha já foi local de nidificação de cerca de 25 espécies de aves marinhas, um dos mais ricos de toda a Polinésia. Isso também acabou. Hoje as aves marinhas estão quase restritas à pequenas ilhas que existem ao sul da Ilha de Páscoa: Motu Kaokao, Motu Iti e Motu Nui. Estas ilhotas são referência no antigo ritual do “Homem-pássaro”, segundo o qual a liderança da comunidade Rapa Nui era dada, a cada ano, ao homem que conseguisse trazer de lá o primeiro ovo intacto de “Manutara”, uma espécie de trinta-réis (Sterna lunata).

Atualmente o “Manutara” é raramente encontrado nas ilhotas. Seu último refúgio é o par de ilhas Salas e Gómes, muito distantes da Ilha de Páscoa. Em Motu Iti ainda é possível encontrar ninhos de atobá-grande (Sula dactylatra) e de trinta-réis-escuro (Anous stolidus). Se o tempo estiver bom e o mar calmo, existem passeios de barco que permitem a observação dessas aves.

Algumas aves marinhas ainda podem ser observadas na própria Ilha de Páscoa. O tesourão-grande (Fregata minor) é bem fácil de encontrar, sobrevoando a costa ao sabor do vento. Também não é difícil ver o rabo-de-palha-de-cauda-vermelha (Phaethon rubricauda), espécie facilmente encontrada na região da cratera do vulcão Rano Raraku. Alias, é neste local que está um dos pontos mais interessantes da ilha, uma pedreira que funcionava antigamente como uma verdadeira “fábrica” de moais.

Rabo-de-palha-de-cauda-vermelha (Phaethon rubricauda)

Rabo-de-palha-de-cauda-vermelha (Phaethon rubricauda)

Tesourão-grande fêmea (Fregata minor)

Tesourão-grande fêmea (Fregata minor)

O lugar definitivamente está longe de ser um hotspot, mas com sorte é possível ver algumas espécies de aves bem inusitadas. Sem contar que o passeio é no mínimo exótico. As aves marinhas sempre tiveram grande importância nas diversas culturas polinésias, uma vez que auxiliavam a navegação, marcavam a passagem das estações, sua carne e ovos serviam de alimento e suas penas tinham múltiplos usos artesanais. Que esta enorme admiração por elas ajude o povo Rapa Nui a preservá-las! E quem sabe, num futuro não muito distante, o Manutara não volta a aparecer na ilha?

 

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