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Três machos de Harlequim Duck Histrionicus histrionicus seguem duas fêmeas em Sachuest Point
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Harlequim Ducks estão entre os sea-ducks mais carismáticos (Sachuest Point).
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Black Scoters Melanita nigra nidificam no norte do Canadá e Alasca e são residentes de inverno na costa da Nova Inglaterra (Sachuest Point).
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Três machos e uma fêmea de Surf Scoter Melanitta perspicillata, outro dos sea-ducks especializados em comer mariscos e crustáceos (Sachuest Point).
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Um bando de Buffleheads Bucephala albeola (Sachuest Point).
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Greater Scaups Aythya marila (Sachuest Point).
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Common Eiders Somateria mollissima. A região, onde vive uma população nidificante, também recebe migrantes vindos do Ártico durante o inverno (Gloucester).
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O que você comumente vê ao longo da costa: um bando de Eiders com scoters variados, no caso alguns White-winged Scoters Melanitta deglandi (Crane Beach).
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Nossa primeira Snowy Owl Bubo scandiacus. Encontraríamos outras sete (Charlestown Breachway).
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A Snowy Owl que encontramos em Crane Beach.
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Nossa primeira Barred Owl Strix varia com seu lanche (Parker River NWR).
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Dez minutos depois de encontrarmos a coruja já havia um congestionamento de birders (Parker River NWR).
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Uma Common Loon (ou Diver) Gavia immer com um siri (Sachuest Point).
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Red-throated Loon (ou Diver) Gavia stellata (Trustom Pond NWR)
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Uma Kumlien’s Gull Larus glaucoides kumlieni adulta que encontramos em Gloucester. Outra espécie do Ártico.
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Esta Glaucous Gull Larus hyperboreus se destaca na multidão de American (ou Arctic) Herring Gulls L. smithsonianus (Salisbury).
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White-breasted Nuthatch Sitta carolinensis, uma ave comum mas nem por isso menos simpática (Trustom Pond NWR).
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Red-bellied Woodpecker Melanerpes carolinus (Trustom Pond NWR).
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Um bando de Horned Larks Eremophila alpestris na praia de Trustom Pond. Outro migrante vindo do norte.
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Gray Jay Perisoreus canadensis, uma especialidade da floresta boreal (Moose Bog).
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Procurando Spruce Grouses.... (Moose Bog).
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Um grupo de Evening Grosbeaks Coccothraustes vespertinus no comedouro mais famoso de Lyndonville VT
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Observar aves durante o Natal pode surpreender. Perus selvagens Meleagris galopavo e uma ornitófila assistente de Papai Noel na vila de Plum Island
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American Tree Sparrow Spizella arborea, um migrante das grandes florestas do norte que aparece na região durante o inverno
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Um desafio: que aves são estas?
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Queríamos ver Snowy Owls e conseguimos. Esta, em Crane Beach, foi muito tolerante conosco
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Outra criatura alada em clima de Natal

 

  • Texto: Fabio Olmos.
  • Fotos: Fabio Olmos e Rita Souza. A maioria das fotos foi feita com uma Canon 7D e lente 100-400.

A primeira vez que ouvi falar de Massachussets, Rhode Island, New Hampshire e Vermont foi no contexto da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Depois descobri as novelas e contos do escritor H. P. Lovecraft, mestre de um gênero de terror gótico e ficção científica que viveu na Nova Inglaterra e ali situou a maioria de suas histórias.

É interessante aprender que Gloucester (Mass), hoje mais conhecida pelo programa sobre pescadores de atum do National Geographic, inspirou a fictícia Innsmouth do clássico “A Sombra sobre Innsmouth”. E que Ipswich, ali do lado, não apenas é o berço da revolta contra os impostos que deflagrou a revolução americana (o que me lembra nossos 36% de carga tributária) como seu nome foi emprestado para o conto “Horror em Dunwich”.

Além das peculiaridades literárias a Nova Inglaterra é um tremendo lugar para observar aves. Há áreas extensas de florestas e pântanos, ótima infraestrutura de transporte e hospedagem, os pontos são bem conhecidos e é fácil seguir as listas de discussão (como a de Massachussets http://birding.aba.org/maillist/MASS) para saber o que está aparecendo onde e usar o GPS do carro para chegar lá.

Fora isso há reservas, estaduais, federais e dos braços locais da Audubon Society, onde é possível tanto ver bichos da maneira clássica como no melhor estilo fat birder, sentado em frente a um comedouro. Sim, reservas federais lá instalam comedouros de aves.

Eu já havia visitado a região durante o verão de 2013 e conhecia alguns lugares, mas o que realmente me atraiu para revisitar no inverno foi a grande irrupção de Snowy Owls (a coruja da capa daquele disco do Rush. E a do Harry Potter) de 2013-2014. Durante aquele inverno mais corujas foram vistas do que em qualquer dos 50 anos anteriores, algumas chegando à Florida e Bermuda. Como o ano seguinte a uma irrupção também costuma ser muito bom eu e minha esposa Rita tomamos a decisão de que, antes do final de 2014, o Bubo scandiacus seria devidamente observado, fotografado e incluído nas nossas life-lists.

Outras espécies vindas do ártico e das florestas boreais migram para a região durante o inverno, com ênfase nos patos marinhos (seaducks) como os scoters, harlequins e eiders, gaivotas, alcídeos e alguns passeriformes. Olhando os guias vi que, se os deuses do birding fossem mesmo generosos e o quase impossível acontecesse, eu poderia somar umas 40 espécies à minha lista.

Não sou do tipo que aprecia festas natalinas e temos a tradição de fugir durante as comemorações de final de ano. De preferência para um lugar mais frio e longe do calor e das hordas que assolam a maior parte dos destinos mais tropicais. Foi fácil decidir por um período que incluísse o natal e o ano-novo e consultar os trip-reports, livros e listas de discussão (veja http://birding.aba.org/), facilitou bastante definir as localidades que iríamos visitar.

Compramos as passagens e alugamos o carro on-line. Não conseguimos o veículo que queríamos (um AWD), o que limitou o acesso a caminhos muito cobertos de gelo, uma limitação em Vermont. Como de praxe, um veículo com tração aumenta as possibilidades. Os hotéis foram selecionados e reservados usando o booking.com, que se revelou muito útil.

Optamos por começar no sul de Rhode Island. Baseados em Middleton, cidadezinha fundida com a histórica Newport, visitamos o Sachuest Point National Wildlife Refuge (NWR http://www.fws.gov/refuge/sachuest_point/), um ponto tradicional para seaducks e um dos melhores para Harlequim Ducks e os três scoters, alguma das nossas espécies-alvo. Fomos agraciados com tempo excelente e bichos muito cooperativos. De bônus, visto com a luneta a partir da praia, inclui um Pacific Diver na minha life- list. Esse é um vagante raro na região, mas pelo menos um indivíduo já havia sido observado mais ao norte. Também exploramos um pouco os bosques do Norman Bird Sanctuary, uma reserva praticamente urbana muito boa para aves terrestres residentes.

De Middleton também exploramos Point Judith, a oeste, para buscar aves marinhas e o Trustom Pond NWR (http://www.fws.gov/refuge/trustom_pond/), onde manadas de patos, gansos e coots migratórios tiveram a paz perturbada por uma Bald Eagle juvenil e uma revoada de Horned Larks pousou na nossa frente quando observávamos as aves na praia.

Trustom Pond tem uma série de comedouros junto ao estacionamento (onde há um banheiro público e um centro de informações com mapas das trilhas) e quando estávamos fechando nosso primeiro dia ali um birder local nos disse que havia uma Snowy Owl ali perto, no Charlestown Breachway. Local inserido no GPS, chegamos lá em minutos. Foi fácil descobrir a coruja, sentada em um tronco na praia a uns 800 m, graças a outro birder que, com sua mega tele, esperava o bicho se aproximar. Do lado oposto a um canal intransponível babávamos vendo o bicho pela luneta (aliás, instrumento obrigatório por lá).

As praias são bastante frequentadas, mesmo no inverno, o que exige o uso de casacos e botas. Passear com os cães é o principal motivo, mas também são frequentes os birders e, neste caso, vários curiosos que queriam ver a Snowy Owl. Não demorou muito e um grupo chegou perto demais e a coruja voou na nossa direção e pousou em outro tronco, mais próximo.

Com a coruja mais próxima obtivemos as primeiras fotos da espécie, o que justificou um jantar comemorativo com a famosa lagosta da Nova Inglaterra como prato principal. Os frutos do mar, especialmente os mariscos (clams) e o peixe da região são ótimos, por sinal.

Middleton também foi nossa base para explorar o Cape Cod, dessa vez com o tempo menos bonito. Chuva e neve se alternavam com períodos de calmaria mas nada do sol brilhar. Em Cape Cod os pontos mais produtivos foram a reserva da Massachussets Audubon em Wellfleet Bay (http://www.massaudubon.org/get-outdoors/wildlife-sanctuaries/wellfleet-bay ) onde os comedouros renderam bem, e a praia em Racer Point (http://www.mybnbwebsite.com/racepointlighthouse/). O mar estava bravio, ventava e bandos e bandos de alcídeos, especialmente Tick-billed Murres, Razorbills e uns poucos Dovekies voavam e pescavam. Entre as muitas gaivotas também vimos a primeira Iceland Gull.

Notícias na lista de discussão indicavam que Crane Beach em Ipswich (http://www.thetrustees.org/places-to-visit/northeast-ma/crane-beach-on-the-crane.html ) era um ponto quente para as corujas e resolvemos arriscar uma visita apesar de Middleton estar a umas duas horas de carro. É uma praia com acesso privado que inclui uma reserva também privada. Ao pagar a entrada perguntamos sobre as corujas e ganhamos um mapa e recomendações sobre onde procurar. No estacionamento havia um bando de Snow Buntings e outro de American Tree Sparrows, ambos migrantes vindos do norte do Canadá e Alasca.

É uma área de dunas cobertas de capim esparso que se erguem altas atrás da praia e margeiam marismas e florestas de pinheiros baixos. Enquanto caminhávamos por uma trilha na parte interna das dunas Rita disse “achei!”. Com os binóculos vi, a pelo menos 1 km, uma coruja branca pousada no alto de uma duna olhando as ondas. Caminhamos em direção a ela fazendo um grande círculo pela praia até estarmos no sopé da duna. Ao subirmos para termos uma visão melhor a coruja voou para outra duna, pouco mais alta, ali ao lado. E ficou.

Muito agradecidos, fizemos nossas fotos de uma distância respeitosa e deixamos a ave ali, tranquila no seu pouso.

Com a principal espécie-alvo na lista da viagem e no HD portátil, além de outros lifers, nos mudamos para novo hotel na cidade de Seabrook, nossa base para explorar a famosa Plum Island/Parker River NWR (uma ilha-barreira entre o mar aberto e uma grande marisma, http://www.fws.gov/refuge/parker_river/), um dos hotspots de Massachussets, e o litoral de New Hampshire. Fizemos uma rota parando no famoso píer dos pescadores em Gloucester (http://www.gloucesterma.com/ ) onde encontramos, entre muitas Arctic Herring e Great Black-backed gulls, um adulto e um juvenil de Kumlien’s Gull, um táxon daqueles confusos. De lá procuramos mais seaducks e aves marinhas a partir de Hallibut Point e Andrews Point, em Rockport. Muitos e muitos scoters, eiders, harlequins, long-tails….

O tempo estava se deteriorando e nosso plano de nos juntarmos à saída de observação de aves na ilha que a Massachussets Audubon em Joppa Flats  (http://www.massaudubon.org/get-outdoors/wildlife-sanctuaries/joppa-flats ) faz todas as quartas não correu tão bem. Com a chuva e o vento vimos poucas espécies (era véspera de natal…) mas conseguimos informações sobre outros possíveis alvos. Foi assim que, na manhã seguinte, rumamos para o Nubble Lighthouse (http://nubblelight.org/ ) para tentar um Barrow’s Goldeneye que estava ali dois dias antes. O dia começou com muita chuva, neblina e vento, sem Goldeneye mas com centenas de seaducks variados, incluindo vários Long-tailed Ducks, bichos geniais que mergulham a 60 m para pegar moluscos e crustáceos.

O tempo melhorou de repente e o sol acabou saindo. Bandos de Razorbills voavam nas proximidades. Resolvemos voltar a Plum Island tomando a rota ao longo da praia. Paradas estratégicas renderam novas espécies como um bando de 21 Bonaparte’s Gulls e uma Snowy Owl bem perto do estacionamento da Salisbury State Reservation, outro ponto clássico para a espécie. Mais boas fotos.

Em Plum Island vimos outra Snowy Owl, distante na marisma, e caminhamos ao longo da estrada (hábito incomum por ali) procurando uma Barred Owl que havia se tornado notória. Quando retornávamos, já achando que não iriamos ter sorte, Rita disse “achei”. Demorei um pouco para identificar onde a coruja estava. Esta se revelou tanto bem ativa, caçando em plena luz do dia, como muito tolerante.

A coruja estava com um roedor e passou um bom tempo decidindo se o comia ou guardava (acabou deixando-o em um galho próximo) antes de voltar ao modo de caça, escaneando o chão abaixo. Corujas comumente guardam comida para depois. Foi começarmos a fotografar que apareceu uma moça com um iPhone. E outro sujeito com uma tele, e… Em 10 minutos havia uma pequena multidão causando um congestionamento enquanto a coruja nos olhava, impávida.

Com a uruca natalina para trás, o dia 26 começou e continuou ensolarado e glorioso. Passamos o dia em Plum Island onde vimos mais duas Snowy Owls, distantes demais para fotos decentes, e logo conseguimos mais uma espécie ártica, um mínimo de quatro Rough-legged Buzzards, três deles planando sobre as dunas e a marisma. O dia foi completado com, além de uma variedade de anatídeos no mar e na marisma, o encontro de uma foca morta na praia com marcas dos dentes de um tubarão-branco.

Uma dica para quem visita Plum Island é não só ir ao NWR mas também tentar a ponta norte da ilha, onde está a vila local. O canal que a separa do continente é ótimo para patos variados e Common Divers mansos. E, na beira da estrada para Newburyport (uma cidadezinha muito simpática) não perca o ótimo clam chowder e outros acepipes no Bob Lobster.

Para o fim de nossa viagem havíamos decidido tentar o North East Kingdom em Vermont, uma área floresta boreal onde eu já havia visitado a famosa Moose Bog Trail (http://bryanpfeiffer.com/2013/05/26/birding-vermonts-moose-bog/ ) no ano anterior tentando, sem sucesso, encontrar Spruce Grouses, uma especialidade deste habitat. Saímos de Seabrook e antes de pegar a estrada paramos em um ponto junto à praia onde uma Glaucous Gull se tornou figura carimbada em todos os invernos dos últimos sete (ou coisa assim) anos.

Armei a luneta apontando para um grupo de gaivotas e quando foquei a Glaucous estava bem no meio do meu campo de visão. Tic & click.

A viagem rumo ao norte para o norte de New Hampshire passa pelas White Mountains e, como esperado, a temperatura caiu e a paisagem se tornou coberta de neve. Após pouco mais de três horas, com algumas paradas, chegamos a Littleton, às margens do rio Connecticut e na fronteira com Vermont. Com ainda umas duas horas de luz saímos para explorar e achamos um comedouro no jardim de uma casa em uma vicinal que cortava um trecho de floresta. Muitos Black-capped Tits, Downy Woodpeckers, American Tree Sparrows… Saí do carro para olhar melhor e um bando de Evening Grosbeaks passou por cima de minha cabeça! Desesperado, comecei a procura-los entre as árvores ao redor. Essa especialidade da floresta boreal só aparece na região no inverno, e não é comum.

Não demorou o dono da casa, Mr White (Walther?) saiu para ver o que eu estava fazendo e conversar. Nada dos Grosbeaks, mas é sempre bom conectar com os birders locais. Com o fim do dia e escuridão completa às 17:00 voltamos para o hotel. Descobrimos que a TV americana consegue ser pior que a brasileira, mesmo na trinca Discovery, National Geographic e Animal Planet.

Parece que a coisa do momento é mostrar gente que mora no meio do mato no Alasca e similares e vive de matar bichos ao invés de mostrar os bichos vivos. Felizmente a BBC estava com uma maratona do Dr. Who que durou quase toda a estadia.

Eu estava acompanhando as listas de discussão e mensagens de um birder de Vermont chamado Tom Berringer chamaram minha atenção. Bandos com mais de 100 Evening Grosbeaks estavam visitando seu comedouro todos os dias! Escrevi para ele se poderia visita-lo dali a dois dias porquê nosso plano era ir primeiro a Moose Bog.

Tom respondeu que estaria em Moose Bog no mesmo dia que nós junto com alguns amigos e ficaria feliz de nos incluir no grupo. E assim foi feito, passamos o dia seguinte percorrendo a floresta boreal coberta de neve sob temperaturas abaixo de -5°C em busca das três especialidades locais, Grey Jay, Boreal Chickadee e Spruce Grouse. Eu já havia visto os dois primeiros e o grouse era o alvo principal de todos.

Rapidamente encontramos os jays, que se aproximam esperando que você ofereça sementes de girassol (sempre leve um saquinho) e dão um show. O dia foi muito agradável, recheado de piadas e no total tivemos três grupos destas aves muito simpáticas, mas nada das outras. Assim é a vida.

Resolvemos ir à vila próxima de Island Pond para um sanduíche (quem for tente o café Common Sense). Na volta Rita diz “tem um bicho na árvore”. Parei o carro e, caminhando pelo acostamento, vi um grouse. Mas com uma crista… Colocando os binóculos vimos que era um Ruffed Grouse! É mais comum que o Spruce Grouse mas era nosso primeiro.

A ave nos olhou um momento e voou. Com a moral mais elevada começamos a voltar para Littleton. Com o tempo bom bandos de dezenas de perus selvagens passeavam pelos campos e nós procurávamos bichos nas árvores até que vi dois vultos. Parei o carro e… mais dois Ruffed Grouse (ou seriam grice?)!!! Eles estavam comendo os botões das folhas de uma árvore decídua, um dos poucos alimentos disponíveis. Um era mais manso permitiu fotos, embora a luz estivesse ruim. Um bom final de dia.

No dia seguinte amanheceu com sol e céu limpo, e mais frio. Questões de trabalho me ocuparam a manhã e só depois tentamos o comedouro de Mr. White. Mais passarinhos interessantes mas o melhor foi, quando já saíamos, Rita dizer “tem um bando ali”. Coloquei os binóculos e era um bando de 40 ou mais Cedar Waxwings com um Bohemian Waxwing no meio deles. Mais um lifer da lista de desideratas.

Enquanto olhávamos um autêntico cowboy saiu da casa em frente e se aproximou. Eu disse meu “good morning” e ele respondeu que não acreditava quando sua esposa disse que um bird-watcher estava ali, sob -15°C. Me desejando boa sorte, voltou para casa.

Dali tentamos nossa sorte novamente em Moose Bog. Estava mais frio mas também com mais sol, mas novamente só os Grey Jays apareceram. Oferecendo sementes para eles, um chegou a beliscar meus dedos. De qualquer maneira, foi bem agradável.

Olhando as listas de discussão vi que alguns Barrow’s Goldeneyes haviam sido vistos em meio a centenas de Common Goldeneyes invernando em Saint Alban’s Bay, no Lago Champlain. Quase três horas de carro…. Decidimos incluir uma parada ali.

No dia seguinte dirigimos até Lyndonville para ver os Grosbeaks no comedouro de Tom. O costume de abundante arborização pública e de construir bairros onde casas são construídas em lotes que mantem a maior parte das árvores é algo notável nesta parte do país e ajuda muito a fauna. O quintal de Tom recebe ursos-negros no verão e, quando visitamos, tinha pelo menos 130 Grosbeaks.  Éramos os primeiros de vários birders que visitariam durante o dia. Esse é um espetáculo que não se repete todo ano e qualquer birder que estava na região certamente gostaria de aproveitar.

Uma característica desse birding invernal e que as irrupções dos “winter finches” como Evening Grosbeaks, Pine Siskins, Red e White-winged crossbeaks e Pine Grosbeaks vindos das florestas mais ao norte variam muito de ano para ano, conforme a disponibilidade das sementes de coníferas. Esse foi o ano dos Evening.

Missão cumprida, fomos para Saint Alban’s. Uma rota tranquila em uma região muito arborizada, com vários Red-tailed Hawks, Ravens e American Crows na beira da estrada. Em Sainta Alban’s vimos os único Pileated Woodpecker da viagem na beira da estrada e foi fácil localizar os Goldeneyes no lago mas um pouco complicado achar o melhor local para ter uma boa visão.

Procuramos os Barrow’s em meio a mais de 500 aves e encontramos uma fêmea em meio a um grupo mais próximo à margem. Seu bico laranja e o formato da cabeça realmente a destacavam dos outros.

Para finalizar resolvemos ir a outro ponto mais ao sul no lago, Shelburne Bay, onde patos e companhia congregam conforme o gelo cobre a água. Havia muitos Mallards e Common Goldeneyes, poucos Buffleheads e uma Bald Eagle adulta pousada, mas nada de novo.

Nosso último dia (o 31 de dezembro) foi gasto na rota para o aeroporto de Boston, com uma parada em Salisbury onde um King Eider fora visto dois dias antes. Nada dele, mas tínhamos que tentar. De Boston voamos para Newark para tomar o vôo para São Paulo. Na sala de embarque, quando já era ano novo no Brasil, vimos a última ave do Ano. Um Passer domesticus insone voava dentro do prédio.

No total vimos exatamente 100 espécies. Adicionei 23 lifers à minha lista, incluindo as principais espécies-alvo, as aves vindas do Ártico (Snowy Owl, Harlequim Duck, Rough-legged Buzzard, etc).  É uma região muito agradável, segura e fácil de viajar. Recomendo para quem  quiser fugir das festas e do calor, já que as aves de inverno continuam por lá até março.

Estamos tentados a repetir a dose de uma passarinhada invernal, explorando outras áreas tanto na Nova Inglaterra como outras partes dos Estados Unidos. Há muito o que ver.

 

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