Dividir o tempo entre família e passarinhadas deve ser um dilema enfrentado por muitos durante as viagens de férias. Até porque o tempo para quem está passarinhando é como para quem está no computador. O tempo voa sem você perceber e para quem está te esperando é uma eternidade.

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  • Texto e fotos: Marcos Tonizza
  • Câmera: Canon 7D e lente Canon 100-400

Desta vez a minha missão foi mais desafiadora. Além da família, mais dois cachorros estavam na parada e a viagem era longa. Desceríamos de São Paulo até Montevidéu de carro. Foram 21 dias, 6.041 km e 57 espécies novas para minha lista de aves fotografadas, isso sem grandes esforços.

É que eu sou um passarinheiro bem amador e procuro dividir bem as coisas para não sacrificar o pessoal. No final todos saíram satisfeitos e quem diria, minha mulher que já era superpaciente em me acompanhar em algumas passarinhadas, acabou entrando no espírito. Pegou minha câmera reserva começou a fotografar e já no meio da viagem se tornaria uma passarinheira de carteirinha.

Saímos de SP dia 26 de dezembro e a primeira parada já era longe. Florianópolis.

Acabei escolhendo o lado norte da ilha, mas me arrependi porque o trânsito estava infernal. A muvuca de final de ano em praias conhecidas não é o sonho de consumo para um passarinheiro. O guia que eu havia contatado com certa antecedência, acabou não podendo confirmar e eu teria que me virar com algumas dicas dadas por amigos do Wikiaves como o Carlos Nascimento, Celuta Machado e o Fernando Farias.

Consegui algumas espécies novas como o tapicuru-de-cara-pelada e uma aracuã. Como eu estava aprendendo a manusear minha câmera nova consegui a proeza de dar de cara com uma saracura do mangue e ao clicar percebi que a máquina estava desligada. Não preciso dizer que até ligar e tentar focar novamente só sobrou mesmo o mangue.

Almoçamos um dia num restaurante simpático na Barra da Lagoa, bem na beira do rio, com direito a fotografar um savacu, biguás e gaivotões sem ter sequer que levantar da mesa onde estávamos.

Ficamos em Floripa 4 dias e o próximo destino seria Tavares no RS, onde apenas nós, mais meia dúzia de hóspedes e os moradores da pequena cidade passariam o reveillon. Para completar, às 9 da noite começou um tremendo temporal e pouco antes da meia-noite acabou a energia. Passamos o final de ano à luz de uma lanterna que eu havia levado e estouramos uma champagne no refeitório junto com um casal muito simpático de Santa Maria.

O Sul mostrou que ainda tem algumas áreas relativamente protegidas. Já na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul fiquei surpreso ao ver um casal de emas no campo perto da estrada a ponto de pensar que eram domesticadas e estivessem num pasto cercado. Depois voltei a ver outras em diversas oportunidades comendo livres pelos campos.

Em Tavares ficamos no hotel Parque da Lagoa. Num dos dias saímos com Batista para um passeio nas lagoas, aproveitando sua Land Rover. As chuvas do dia 31 não permitiram que nosso carro de passeio passasse em certas estradas, apesar de termos ido com o carro de minha mulher já prevendo que entraríamos em estrada de terra e meu carro sedan não passaria.

As lagoas e os banhados são incríveis. Pouca gente morando na região faz com que a natureza possa ser preservada. Vimos várias espécies como tachãs, maçaricos, piru-pirus, batuíras,mMaguaris e o mais legal que foi o cisne-de-pescoço-negro. Ver um bicho desses na natureza foi muito especial.

Descemos depois de 3 dias para o Chuí que seria nossa próxima parada e passamos pela Estação Ecológica do Taim, um lugar magnífico. Corri certo risco de parar na beira da estrada, mas consegui fotografar jacarés, capivaras, saracuruçu, cardeal-do-banhado, entre outros.

O ar que se respira ali, aquele campo aberto e a vida selvagem exuberante fazem do local algo muito especial. Senti uma sensação de liberdade e um prazer muito grande em estar ali.

Na volta eu teria que parar novamente no Taim.

Seguimos para o Chuí, onde fotografei marreca-pardinha, caturrita e mais alguma coisa entre um passeio e outro.

No dia seguinte saí sozinho para passarinhar, já entrando em território uruguaio fui até o forte de São Miguel que ficava num parque enorme com estradas que permitiam ir longe entrando em pastos, área de mato e depois banhado. Segui de carro subindo a estradinha precária pelo meio do pasto. De lá de cima a visão dos campos era incrível. Nada de casas, fazendas ou pessoas. Depois passei pela mata e saí num banhado. Desci do carro, andei naquele paraíso sem ver viva alma, fotografei alguns pássaros e tive vontade de deitar no chão e ficar ali olhando para o céu azul.

Já eram quase 11 horas e voltei para o hotel. No dia seguinte sairíamos para o Uruguai.

O destino era Ciudad del Este, mas no caminho encontramos uma placa que indicava local de observação de aves. Entramos numa estrada de terra bem conservada e saímos fotografando tudo o que víamos até chegar num banhado com uma casinha de madeira própria para observação de aves. Fizemos várias espécies, inclusive a viuvinha-de-óculos que também tínhamos fotografado na Lagoa do Peixe.

Seguimos em frente e encontramos uma placa indicando: Lagoa do Rocha. Como adoramos placas e entradas para estradas de terra, seguimos para a tal lagoa. No caminho fotografei uma maria-faceira. Chegamos à lagoa junto com um casal uruguaio que estava com uma menina de colo e uma de uns 6 anos e eram observadores de aves. Inclusive a menininha estava com um guia de aves e o pai com um telescópio. Um enxame de pernilongos nos recepcionou. Nunca vi nada igual. Ficamos ali um tempo, já era meio tarde e resolvemos ir embora. Não sem antes atolar o carro e passar um sufoco.

Seguimos para Cidade del Este e chegamos lá já escurecendo. A cidade estava parada por causa do fechamento de uma avenida para uma maratona e naquela mesma tarde aconteceu um fenômeno na cidade. Uma invasão absurda de pernilongos. Estávamos fadados a sermos devorados por pernilongos naquele dia. Era inacreditável. O povo nas ruas com ramos de vegetação nas mãos se batendo para espantar os pernilongos, gente correndo para casa e nós para variar tomamos mais umas dezenas de picadas até nos trancarmos no quarto do hotel. Repelente ali os mosquitos tomavam de canudinho. Eles eram enormes e quando batíamos neles, eles ficavam pendurados em nossa pele pelo ferrão. Nunca vi coisa semelhante.

Depois de 2 dias lá já era hora de começar a volta. O Taim ainda deveria ser visitado.

Já no Taim, encontrei uma estrada de terra que seguia para dentro da reserva. Aliás era uma estrada que dava para uma empresa de reflorestamento. A estrada era ruim e um senhorzinho nos informou que poderíamos dar uma volta de uns 8 km e sair na faixa (que eu deduzi que era estrada asfaltada) novamente. Continuamos pela estrada de terra que depois passou a ser de capim e com alguns trechos de muita areia. Não chegávamos à estrada principal e eu sentia que estava cada vez mais me embrenhando naquele fim de mundo. Já era final de tarde e confesso que fiquei com medo de atolar ali naquela hora.

Para nossa sorte achamos uma pessoa com uma caminhonete que não sei o que fazia ali no meio do nada e ele nos disse para segui-lo, pois sem conhecer o local não conseguiríamos sair dali por causa dos trechos de areia e só um 4×4 conseguiria passar. Ele nos guiou por atalhos pelo meio do pasto e por volta de alagados, quando a estradinha ficava impraticável, até finalmente chegamos ao asfalto novamente. Foi um alívio.

Seguimos nossa viagem de volta, parando em Pelotas onde consegui um sanhaçu-papa-laranja, depois Gramado e Cambará do Sul. A meta agora era passar na Serra do Rio do Rastro e nos cânions lá existentes. Dois lugares espetaculares que eu recomendo. A serra do Rio do rastro com sua estrada cheia de curvas na beira de penhascos altíssimos me fizeram lembrar de um local que estive em Angola chamado Serra da Leba e o canion Fortaleza que foi o que conseguimos visitar me lembrou outro local de Angola, a fenda da Tundavala. Maravilhas da natureza, tanto aqui como lá que valem a pena conhecer. Na borda do canion ainda fiz mais cinco espécies em menos de meia hora que fiquei lá, incluindo um sanhaçu-frade.

Arrumamos um hotel fazenda próximo à cidadezinha de Bom Jardim da Serra onde uma onça andou comendo os carneiros da fazenda e foi recomendado cuidado para não entrar muito na mata. Mesmo assim ainda andei um pouco por lá e fotografei mais um pouco. Foi um lugar muito agradável.

Ainda consegui fotografar um graxaim no meio da estrada.

Estávamos caminhando para o fim de viagem e a volta é sempre mais cansativa. São Paulo ainda estava longe e com as paradas por causa dos cachorros, passarinhos na estrada e locais interessantes, acabamos chegando apenas em Pomerode, onde tivemos a sorte de chegar justamente na semana em que acontecia a festa alemã. Ficamos num hotel fazenda, chamado Mundo Antigo, com instalações típicas da colonização alemã. Foi muito agradável nossa passagem por lá. À noite fomos à festa e no dia seguinte saímos rumo a São Paulo.

 

 

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