Uma viagem inesquecível, sem roteiro prévio, com direito a acampamento, mata primária, e ótimos avistamentos e fotos do tovacuçu,  macuquinho, grimpeiro e grimpeirinho, macuco, veste-amarela, o famoso gavião-de-penacho com filhote, caboclinhos, corujinha-do-sul e muitas outras aves.

grimpeiro

grimpeiro

 

Fotos feitas com o celular

  • Texto e fotos: Marco Guedes
  • Câmeras: Canon 7D com 100-400 e Canon 1Dx com 400 f4
  • Viagem rumo ao Sul do Brasil, na companhia de Emerson Kaseker, entre final de dezembro de 2012 e início de janeiro de 2013. Relato enviado em junho de 2013.

Como surgiu a viagem

Tudo começou com a compra da ambulância. Pois é, uma velha ambulância de uma empresa baiana que estava vendendo a sua frota de Land Rovers porque os chineses com quem estavam negociando exigiam que os veículos da empresa tivessem airbag e eles, então, estavam migrando para as Ford Ranger.

Eu buscava um substituto para a velha Toyota Bandeirantes 1989 lá do sítio, a miss Dayse, que já tinha chegado no limite da sua capacidade útil, dava despesa demais e vivia na oficina em São Luiz do Paraitinga.

Procurando no Mercado Livre, encontrei a oferta tentadora de uma Land Rover Defender 2002 por um preço inacreditável. Como estava em Caçapava e eu em São Luiz, decidi parar ali na volta prá São Paulo e dar uma olhada. Estava no pátio da empresa, havia um monte delas em vários estados de conservação, no geral muito ruim, coisa de veículos com muitos donos e nenhum deles pagando as contas de manutenção. Havia uma 2001/2002 modificada para ser usada como ambulância que, apesar da pintura judiada e alguns amassados, pegou de cara. Não vazava óleo, o motor estava bom e pelo preço dava ainda para investir um pouco na reparação dos mal tratos. 260.000km rodados, o que é pouco para um motor Maxion diesel. Fechei o negócio e dois dias depois, temeroso, fui com a minha filha buscar a ambulância. Já na viagem para Sampa pela Carvalho Pinto e Airton Senna, eu comecei a me encantar com a bichinha. Um motor forte e confiável, respondendo bem, redondinho, nada de velocidade alta, mas 100 por hora era mais do que bom para aquela coisa quadrada se deslocando pela estrada. O interior parecia uma orquestra de percussão mal conduzida, tudo batia, um panelaço. Quem havia desmontado a estrutura e divisórias internas de ambulância, tinha feito um péssimo trabalho, mas isso era de menos, tinha conserto, não era mortal.

No caminho já me ocorreu a idéia: “puxa vida, esta ambulância é o carro ideal para uma viagem passarinheira”, e com um jeitinho daria mesmo para dormir dentro dela.

A Patsy estava na Austrália visitando a Tatica, uma das nossas filhas, que ia ter nenê pelo dia de Natal, deveria ficar por lá cerca de um mês ajudando nas primeiras semanas após o parto. Eu estava por minha conta e o consultório fecha, tradicionalmente, do Natal até a primeira semana de janeiro, um tempão livre, o apetite foi aumentando.

Na quinta a noite, jantando com o Emerson na Alice, nosso restaurante favorito em São Luiz, e em qualquer lugar, entre uma garfada de moqueca e um gole na caipirinha, eu perguntei a ele o que ia fazer entre o Natal e o Ano Novo. Disse que estava sem planos no momento. Perguntei se ia passar o Reveillon em algum lugar especial. Disse que não. Então joguei a isca: “Que tal uma passarinhada de uns 10 dias logo depois do Natal? Podemos ir de ambulância.” Ele engoliu a isca numa bocada, topou na hora!

Preparativos

Faltava decidir o destino. O Emerson, especialista em cartas do tempo, sabe tudo de previsão, conhece todos os sites e é capaz de antecipar o tempo com razoável precisão. Falou que deveríamos decidir quando estivesse mais perto. Ficamos entre Pantanal Sul, Norte de Minas, Espírito Santo ou Sul do Brasil.

Tratei de dar uma geral nos óleos da Land, fui na Decatlon e comprei um colchão inflável com uma bomba de inflar que podia ser ligada no acendedor de cigarros do carro e um saco de dormir para tempo quente. O Emerson comprou uma barraquinha sensacional pesando cerca de 1kg, um sonho que ele acalentava há um bom tempo, e uma tralha para cozinhar. Falando pelo telefone no dia de Natal decidimos que o destino seria o Sul, começando pelo Núcleo Caboclos, no alto Petar, um lugar sensacional que o Emerson tirou da cartola. Ele já sabia que era um lugar sem alojamento. Ficar lá, só acampando. Uma enorme extensão de floresta primária no município de Iporanga e perto de Apiaí, devia ter muito bicho “bom pra fazer”.

Passei a noite de Natal com parte da família no Olho D’Água e no dia 25 fui pra São Paulo. No 26 de madrugada largamos, a Land e eu, para Itapeva, reduto dos Kaseker. Cheguei no meio da manhã e em seguida partimos rumo a Caboclos.

Primeira parada: Núcleo Caboclos, Alto Petar. Mata primária só pra gente

No caminho descobrimos, ao telefonarmos para agendar a nossa estadia, que seria necessário um guia para andarmos por lá. Como os guias ali são guias de caverna, a coisa ficou preta até que o Emerson falou por telefone com o guia Renato, de Apiaí, que se prontificou em nos acompanhar pelas trilhas enquanto lá estivéssemos.

A chegada no Núcleo é estimulante, a gente entra por uma imensa floresta primária que se estende além do horizonte, uma paisagem maravilhosa!

Passamos pela portaria já tendo que identificar o nosso guia para o guarda e, depois de mais uma meia hora de estrada pesada, chegamos na base, um lugar bem espartano, mas com tudo que era importante para uma estada razoável num acampamento: bons banheiros, chuveiro farto – água fria, é claro – e um bom local para cozinhar e lavar a nossa “louça”. O Emerson se propôs a cozinhar e eu fiquei como lavador de pratos. Tínhamos arroz e algumas conservas de atum com legumes variados para as refeições e café com panetone para as manhãs. Sobrevivência garantida.

Já no primeiro final de dia registramos o sabiá-una, um ruidoso bando de guaxes, alguns beija-flores e um bandinho misto trazendo consigo algumas saíras-militares, sempre lindas de ver e registrar.

O camping estava vazio, tudo o que estava ali era só para nós!

O Emerson montou a sua nova barraquinha e ela ficou linda, sozinha, no meio da área destinada aos campistas. Eu inflei o meu colchão e o acomodei como foi possível na parte de trás da Land. Como havia sido uma ambulância, ela não tinha o banco duplo de trás, o que aumentava bastante a área do bagageiro. Ficou confortável. Durante a noite, lá pelas três horas, caiu uma chuva farta, bom para dormir, preocupante para o dia seguinte. Contrariando a minha expectativa, o dia amanheceu bonito, tinha até azul no céu. O Renato chegou cedinho, parecia ser um cara bacana, disse que ia se acomodar na base, o que possibilitaria sairmos bem cedo no dia seguinte.

Depois alguma confabulação decidimos seguir pela estrada da antiga mina de chumbo, 4,5km de distância com floresta nos dois lados a maior parte do tempo. Foi muito bom, uma caminhada fácil e com alguns registros que para nós foram sensacionais: macuquinho dando show, choquinha-de-garganta-pintada, limpa-folha-ocrácio, não-pode-parar, arapaçu-rajado, miudinho, cigarra-bambu, bem-te-vi-pirata e tovaca-cantadora.

No final do dia, já no acampamento, fomos visitados por uma simpática corujinha-do-mato que posou em grande estilo.

A esta altura já tínhamos total domínio da cafeteirinha italiana para dois cafés que ganhei da minha filha Luana como estímulo para voltar a encarar um acampamento aos 65 anos de idade. O café ficava delicioso. A refeição era uma vez por dia e sempre saborosa, a fome era grande. A verdade é que o Emerson, solteirão juramentado, é bom de cozinha e o arroz saía sempre “al dente”. A mistura era o atum com legumes, bastava abrir a conserva e jogar o que estava dentro no arroz misturando bem, uma delícia. No segundo dia tivemos ainda uma couve que o Emerson colheu na horta do pessoal da base.

O chuveiro frio era uma bênção e o meu “quarto” um belo local para estender os ossos e juntas doloridos das caminhadas associadas às intermináveis escaramuças nas mais diferentes posições, com adrenalina sendo injetada todo o tempo e à vontade na corrente sanguínea, o que afastava a sensação de desconforto até o momento do relaxamento no final do dia. Então o bicho pegava, a idade do “com dor” é fogo, mas sentir as dores é reconfortante, pois no dia em que acordarmos sem dor pode ser grave, de repente “mudamos de CEP” e nem percebemos :0)

O segundo dia começou com uma chuva fina, a impressão era de uma manhã perdida. Fizemos alguma coisa em torno do acampamento com destaque para um simpático pula-pula-ribeirinho que não saía do nosso lado e um belo pica-pau-de-cabeça-amarela macho que estava de fartando numa fruteira ao lado do acampamento.

Decidimos vestir nossa roupa de chuva, proteger as máquinas e arriscar uma caminhada na mesma estrada da mina de chumbo. O esforço foi recompensado de cara, na primeira curva o Emerson falou baixinho: macuco! Que prêmio, um sonho a mais que se realizava, o macuco no seu ambiente natural, a floresta primária. Ele não facilitou, mas também não se embrenhou no mato, escapava pela estrada não permitindo aproximação. A cada curva lá estava ele de novo, sempre a cerca de uns trinta metros e a gente tentava melhorar o registro com a máquina regulada baseada na foto anterior. Após uns três eventos desses surgiu uma pessoa caminhando pela estrada no sentido contrário e o macuco caiu no mato, mas o registro estava feito e bem razoável. A manhã, que parecia perdida ao começar, ainda nos reservava um grande momento, a tovacuçu falou pertinho, tocamos o playback e ela voou sobre as nossas cabeças passando para o outro lado. Tocamos mais um pouco e ela, depois de retrucar algumas vezes, voou de volta para o lugar original. Após algumas repetições, resolvemos abandonar a tentativa. Então aconteceu uma coisa que muitos passarinheiros já experimentaram: eu pedi ao Emerson para tentarmos uma última vez e então a tovaca simplesmente empoleirou na cara do Emerson e ficou ali, no galho, olhando a gente e cantando.

Mais tarde, olhando fotos de tovacuçus no wikiaves, vi várias fotos dela empoleirada, parece que isso é frequente, mas ali, naquele momento, era mágica pura, ficamos numa alegria enorme, que bicho bonito, e cada foto! São eventos como este que nos fazem ficar cada vez mais apaixonados por esta atividade tão boa para nosso corpo, mente e coração. Mexe com todo o ser. Deixamos o bicho em paz e fomos em frente de alma lavada.

Ainda nesse dia foi possível registrar a saíra-ferrugem, uma belezinha que há muito eu não via.

Segunda parada: Iporanga, em busca do socó-boi-escuro e do ninho do gavião-de-penacho

De volta ao acampamento e depois de um almoço tardio, tomamos o rumo de Iporanga, via Apiaí, chegando ainda com luz na Pousada da Diva, no Bairro da Serra, aonde encontramos o Júnior Petar, o nosso homem no lugar, o cara que ia fazer a nossa alegria indicando algumas preciosidades que ali se manifestavam: socó-boi-escuro, tapaculo-pintado, araponga dando mole e, entre outros mais, um ninho de gavião-de-penacho com o filhote sendo criado, a grande sensação do momento.

A comida era ótima, não havia louça para lavar e o quarto era de verdade, com banheiro privativo, tudo por um ótimo preço. A dica é levar toalha e sabonete, pois ali não é fornecido.

Ainda neste final de dia fomos tentar uma das estrelas do lugar, o socó-boi-escuro. O Júnior deu o endereço dele no rio Betary muito perto do bairro, rio abaixo. Era uma área na beira da estrada, logo depois de uma curva acentuada do rio aonde ele corria rápido e era muito claro. Ficamos ali por uma meia hora buscando, mas sem saber exatamente como procurar. Foi quando o Júnior chegou e, em poucos minutos, achou o bicho pousado em uma árvore logo abaixo de nós. Ele voou assustado ao perceber que era visto e foi pousar numa pedra no meio do rio. O Emerson, muito oportunista, sapecou o bicho do jeito que deu enquanto eu tentava melhorar o ângulo para fazer uma foto boa. Moral da história, o Emerson registrou e eu dancei, fiquei na saudade, aquela foi a única oportunidade de registro que ele nos deu. Bom, como se diz nas passarinhadas, sempre tem que ficar registro sem fazer para a gente ter que voltar àquele lugar.

No dia seguinte bem cedo, renovados e alimentados, fomos fazer a estrada da Serrinha, dica do Júnior para tentarmos o tapaculo-pintado que não deu as caras, não quis falar conosco. Compensando, a estrada é linda, floresta e visual deslumbrantes. Aves registradas entre as observadas no trajeto: abre-asa-de-cabeça-cinza, beija-flor-de veste-preta, benedito-de-testa-amarela, araponga.

Voltamos para almoçar no bairro da Serra e saímos para a grande sensação do momento, o ninho do gavião-de-penacho numa fazenda perto de Iporanga.

Essa é uma história de final feliz: após descobrir o ninho numa pasto da propriedade perto de uma mata, o fazendeiro, notando o interesse de várias pessoas que começaram a vir à fazenda pedir permissão para entrar e ver o ninho, espertamente e para sorte da família de penacho, provavelmente orientado pelos passarinheiros locais, construiu um tipo de observatório a uma distância adequada do ninho, uma barraca coberta com uma lona e umas duas ou três cadeiras, e começou a cobrar R$ 50 por cabeça. Rapidamente percebeu que aquelas aves valiam muito enquanto vivas e até fechou os olhos para os franguinhos que desapareciam quase que diariamente do seu terreiro. O lucro era muito bom, a sua irmã comentou para nós que estavam torcendo pelo retorno do casal para criar outro filhote no ano que vem.

O ninho foi construído numa árvore maravilhosa cheia de bromélias a uma distância segura da floresta, o que a faz mais fácil de defender se predadores se atreverem a arriscar a integridade do filhote. Neste dia, quando chegamos, a fêmea estava no ninho com o pimpolho, a caçada já havia sido feita e havia um franguinho fresco para ser devorado. O filhote ainda estava pequeno, se movia pouco, mas um penachinho já apontava no seu cocoruto.

Enquanto estávamos ali ouvíamos, na beira da mata, o sabiá-pimenta. Certos de que seria fácil fotografar o bicho a qualquer momento e excitados com os gaviões, deixamos barato e dançamos também com esta ave, mais uma que ficou na saudade. Mas o jovem azulão na beira do laguinho não escapou e acabou registrado, embora meio de longe. De tarde, ainda na fazenda, fizemos uma tentativa de fotografar o tapaculo-pintado que respondeu chegando até a cerca de 1 metro do Emerson sem ser visualizado, eita bicho tinhoso!

Rumo ao Sul, passando pela Barra do Turvo

Dia seguinte pela manhã, 30 de janeiro, dia de sair rumo ao Sul. Pela manhã fomos até o mirante no caminho da caverna Santana onde mora uma araponga macho que não tem medo de gente e que dá para fotografar ao nível do olho, coisa rara para arapongas. Na volta fizemos alguns beija-flores numa pousada ainda no bairro da Serra e depois saímos com toda a bagagem na ambulância. Almoçando em Iporanga, decidimos voltar à fazenda Santa Rita, a dos gaviões-de-penacho, para tentar o sabiá-pimenta que estava nos devendo.

Tempo ruim, céu escuro, saímos da casa da fazenda com as roupas de chuva, no caminho ouvimos o jaó-do-sul “falando” numa mata próxima e fomos até lá para o Emerson gravar. Já o sabiá-pimenta nem ao menos respondeu ao playback.

Dali fomos rumo a Barra do Turvo por terra, uma estrada muito boa para testar a Land Rover uma vez que chovia pra valer. Foi uma delícia, a bicha simplesmente passou por cima dos eventuais obstáculos, transmitindo a nós uma grande sensação de segurança com relação ao resto da viagem. Da Barra do Turvo alcançamos a BR 116 e seguimos para o Paraná. Na altura de Curitiba decidimos parar para dormir num hotel na beira da estrada.

Acordamos cedo e seguimos pela 116 para o Paraná. Achamos que a BR 101 seria muito expressa para o nosso gosto, a gente queria interior e o alto das serras Catarinense e Gaúcha, o melhor jeito de chegar lá seria pela 116.

Antes do Mafra tem um pedágio. Ao passar por ele comentei com o Emerson que poderíamos tentar o grimpeiro se víssemos alguma araucária “no jeito”, ou seja, mais baixa do que a estrada, para permitir uma foto boa, uma vez que esta ave tem o mau hábito de ficar a maior parte do tempo no alto. Foi passar o pedágio e vimos um grupo de araucárias na nossa direita e com possibilidade de estacionar em segurança. Foi parar, caminhar até as árvores, chamar e o grimpeiro desabou na nossa cara, muito perto. Fiquei besta, nunca imaginei esta cena antes, o grimpeiro quase enchendo a tela, posando de todo jeito, maior mole! As luz era boa e as fotos ficaram ótimas. Pensei que no Sul essa cena iria se repetir várias vezes, mas foi só aí. Dali pra frente grimpeiro só no alto, ainda bem que as fotos ficaram impecáveis.

Pousada Rio dos Touros, em Urupema, um lugar que recomendo fortemente

Paramos para almoçar na estrada já em Lages, Santa Catarina. Formava-se uma tempestade. Eu havia contatado o José Branco, amigão que eu havia conhecido em um evento médico na Santa Casa em Sampa e que mora em Lages. O Branco é fazendeiro na região e sua fazenda é referência para muita ave interessante de ocorrência em Santa Catarina. Estava combinado que eu ia tentar uma visita a ele durante a viagem, mas, seguramente, não no dia 31 de dezembro, véspera de Ano Novo. Resolvi telefonar ao Zé Branco para pegar uma dica sobre o grimpeirinho. Primeiro ele e a esposa insistiram para que fôssemos para a fazenda, o que recusamos polidamente para não invadir a casa de alguém num dia como esse. Ele nos disse que o local para o grimpeirinho, quase certo, era a Pousada Rio dos Touros em Urupema, no meio do caminho para São Joaquim. Não era a nossa direção original, mas decidimos não perder a oportunidade e ir até lá. Afinal eram somente uns 45km de onde estávamos. Saímos com a chuva comendo solta. Não foi difícil achar a pousada. Era um lugar muito charmoso com uma casa principal e dois chalés. Fomos recebidos pela Rose, dona do lugar, que nos disse que o seu marido, Fernando, estava chegando logo da cidade e nos falaria sobre as aves locais. Eles tinham um comedor em frente da casa aonde um casal de saíras-preciosas e outro de sanhaçus-papa-laranja se fartavam de banana e laranja, provavelmente alimentando filhotes, pois saíam carregados a cada investida, um começo promissor. O Fernando chegou logo trazendo o filho do casal, Guilherme, uma figurinha de 4 anos, garoto esperto e muito inteligente.

O Fernando se mostrou grande conhecedor das aves locais bem como dos locais onde vivem. Demos uma saída com ele para ir a um local, o Morro do Combate, onde poderíamos fazer o pedreiro (imaginem a excitação nossa ao saber!), o caboclinho-de-barriga-preta (imaginem mais!) e ainda com chance para a noivinha-de-rabo-preto (melhor parar de imaginar e sair logo para lá!). Já na estrada, logo abaixo da pousada, existe um banhado onde fotografamos pela primeira vez o caboclinho-de-barriga-preta. Seguimos por um cenário lindo até um galpão meio abandonado onde o pedreiro fazia o seu ninho e mais fotos sensacionais foram feitas. No morro repetimos o barriga-preta e acrescentamos o caboclinho-de-barriga-vermelha, o chopim-do-brejo e a noivinha-de-rabo-preto. Na volta já estávamos fisgados, tínhamos que ficar ali por mais tempo. O Fernando, já tendo mostrado que sabia muito, nos prometia grandes aves, inclusive a corujinha-do-sul para esta noite, noite de Ano Novo. Ficamos hospedados na casa principal, dois belos e confortáveis quartos, nada mal. Tivemos um gostoso jantar com eles e alguns amigos pessoais mais um casal que estava hospedado na pousada e, em seguida, saímos para tentar a corujinha-sapo. O ano virou para 2013 enquanto estávamos no mato, que jeito gostoso de faze-lo! Muito melhor do que ficar embaixo de rojões e morteiros com a turma agindo como se tudo, agora, fosse ser diferente. A gente gosta como está, não precisa mudar uma vírgula. Cochichamos um feliz ano novo um ao outro e seguimos tentando a corujinha que não deu as caras nessa noite, mas haveria outras. Fomos dormir felizes.

Ficamos ali até o dia 2 de janeiro. Pra quem ia dar uma passada foi bem mais do que isso e valeu cada minuto. Recomendo fortemente este lugar como um dos pontos altos passarinheiros na serra de Santa Catarina. Digo um porque seria atrevimento dizer “o” ponto alto”, mas existe séria chance de ser .

No tempo em que lá ficamos, entre outros, registramos as seguintes preciosidades:

Sabiá-ferreiro

Sabiá-do-banhado

quem-te-vestiu

tio-tio

veste-amarela

gavião-tesoura

corujinha-do-sul

coruja-listrada

bacurau-tesoura

tico-tico-da-taquara

grimpeirinho

arapaçu-escamado-do-sul

Nada mal, a lista de desejos realizados já estava extrapolada e a viagem estava ainda pela metade. O Fernando foi fundamental para esse sucesso, o cara, na sua humildade, sabe o endereço de todo mundo. E a sua família é uma graça!

Em direção ao Rio Grande do Sul e a surpresa com a perdiz

Saímos já com saudades pelo meio do dia. Direção: São Joaquim, Bom Jardim da Serra e, dali, pelo alto da serra, o Rio Grande do Sul. Em São Joaquim fizemos uma parada técnica para abastecer o carro e a nossa barriga, e ainda para comprar vinho, ali tem uma vinícola, Villa Francioni que, na altitude, faz um vinho muito bom.

Em Bom Jardim entramos à direita na placa que indicava, em marrom, portanto lugar turístico, o Parque Eólico, local de enormes cataventos para gerar energia. Havia uma referência a um caboclinho-de-chapéu-cinzento registrado ali pelo Adrian Rupp e que a gente estava muito a fim de tentar. Descobrimos que o parque é guardado contra estranhos e que a entrada é proibida, apesar da placa que o indica como local turístico! Vai entender esses caras! Perdemos um bom tempo, não vimos o caboclinho, mas gostei de registrar no caminho o sabiá-do-campo, que no Sul é bem branquinho, diferente dos nossos em São Paulo.

Cruzamos a fronteira de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul sobre o rio Pelotas por uma ponte de madeira meio desmanchada visualmente, mas firme o suficiente para a Land passar. Uma cerração vinda do mar galgou a serra e começou a se derramar sobre o altiplano. A visibilidade e a luz complicaram um bocado. Externei ao Emerson a minha leve preocupação com relação a hospedagem, estávamos no meio de lugar nenhum e o tempo não se mostrava amigo. Resolvemos começar a pensar nisso, mas na verdade não havia muito com que se preocupar, dois marmanjos sempre se viram, no pior dos casos tínhamos o carro e a barraquinha. Foi quando vimos uma placa da Pousada do Monte Negro, que mais tarde descobriríamos ser o ponto culminante do Rio Grande do Sul com 1.403 metros de altitude. Resolvemos tentar e rumamos para lá. Seguíamos rasgando a neblina quando, de repente, o Emerson gritou: para, para, para!!, Eu parei e olhei para ele. “Acabo de ver uma perdiz”, disse. Onde, cadê ela? Ali, à direita, no pasto. Ainda consegui vê-la sumindo da vista num desnível do pasto. “Chama ela, chama ela depressa!”, exclamei. Ele, que já estava com o tocador preparado, começou a chamar. Enquanto chamávamos comentamos que a perdiz nem ao menos estava na nossa lista de desejos por tão impossível que parecia do nosso ponto de vista. Subi na Land pela escadinha de trás e, do teto do carro, pude ver a perdiz caminhando paralela a nós, se afastando. Sugeri ao Emerson voltarmos caminhando para tentar encontrá-la na entrada da fazenda uns 50 metros atrás. Assim fizemos e ao chegarmos perto da porteira da entrada, lá estava ela. Ela também nos viu e se escondeu rapidamente. Havia dois caminhos para chegar ali, um por cima, mais a direita, que a cercaria, e outro por baixo, direto ao ponto. Nos dividimos, o Emerson por cima e eu por baixo. Mal dei 10 passos e ela, que estava agachada, levantou e começou a caminhar afastando-se cuidadosamente. Sapequei uns três disparos e ela decolou na direção do Emerson que a “pegou” no voo. Mais uma vez em estado de graça, rindo um para o outro, ali no meio da neblina. Incrível as fotos ficarem aceitáveis, a luz era muito pobre, mas a 1DX deu conta do recado num ISO alto.

Mais um pouco de estrada e chegamos à Pousada do Monte Negro, havia lugar para nós e o local era bem bacana, uma fazenda gaúcha de gado que incluía uma pousada, super legal. O jantar foi ótimo e a noite, fria, uma delícia para dormir.

Pela manhã, logo cedo, antes do café, já registrávamos o pedreiro no entorno da pousada e, a seguir, veio a melhor gralha-azul da minha vida, pousada a menos de 10 metros.

Cânion do Monte Negro

Logo depois do café saímos em direção ao Cânion do Monte Negro, um lugar impressionante, um paredão bruto com uma queda livre, vertical, de uns 500 metros, fiquei abismado que um lugar desses, tão perigoso, não tivesse segurança alguma. O cânion estava numa pastagem com gado por todo lado e para chegar lá bastava atravessar uma porteira de fazenda.

Soubemos por locais que há poucos dias um garoto de 15 anos havia caído no abismo. Encontraram o corpo no dia seguinte perante um pai desesperado, uma perda inestimável que poderia ter sido evitada se houvesse segurança adequada a um ambiente tão perigoso.

Ali tive oportunidade de fazer as melhores fotos do gibão-de-couro até agora, de cima para baixo e ao nível dos olhos, ao longo do paredão. Havia um casal que se colocava sobre uma pedra que sobressaía da parede uns 7 metros abaixo. Eles mergulhavam para caçar insetos e voltavam ao mesmo lugar, excelente oportunidade para tentar até acertar, deu fotos deliciosas em voo dessa linda ave marrom avermelhada com creme. Ali ainda deu para registrar um besourinho-de-bico-vermelho numa luz incrível e o caminheiro-de-barriga-acanelada.

Cânion Amola Faca, os arrozais e meu quase socoí-amarelo

Saímos da pousada depois do almoço rumo a São José dos Ausentes e dali descemos para a costa pelo Cânion Amola Faca, uma descida de terra bem simpática que nos colocou na altura de Timbé do Sul, já no nível do mar. No caminho para alcançar o litoral e pegarmos a 101 na direção de Laguna, havia campos de arroz que nos proporcionaram o polícia-inglesa-do-sul, o tapicuru-de-cara-pelada e um tranquilo asa-de-telha que foi bastante comemorado pelo Emerson que ainda não tinha registro do bichinho.

O plano era dormir em Laguna para, no dia seguinte, tentar o socoí-amarelo cujo endereço completo, com CEP e telefone, o Adrian havia passado gentilmente para o Emerson.

Chegamos em Laguna já escuro e começamos a procurar pouso. Achamos um hotelzinho meia boca com um restaurante embaixo onde comemos uma comida nada boa e fomos dormir. De manhã saímos para o ferry-boat e cruzamos o canal na direção do Farol de Santa Marta. Logo chegamos ao local indicado pelo Adrian e começamos a chamar o bacana, o socoí-amarelo, mas ele se fez de difícil. Deixamos ele de lado e fomos caminhar na beira do rio. Aí fizemos, entre outros, o lindíssimo cardeal-do-banhado. Voltamos para o socoí-amarelo, e ele respondeu, ficamos excitados, vai dar, ele vai sair, saiu! Mas saiu voando sobre as nossas cabeças para o outro lado do canal, já descendo embrenhado. Resolvemos nos esconder e colocar o playback tocando a uma certa distância, ia dar certo. Num dado momento ele apareceu para mim, meio escondido mas visível, dava registro, apontei e tentei focar mas ela não registrava foco, o que estava errado? ele sumiu de novo e eu olhei para a máquina inquisitivo, descobri que estava regulada para voo, eu havia esquecido assim, que frustração, foi a chance perdida e não havia mais tempo, tínhamos que partir e assim fizemos. Mais um registro quase feito que ficou para a próxima,

De volta para casa

Pegamos a estrada, agora a 101, às 11h da manhã, eram 23h15 quando deixei o Emerson em Itapeva e segui direto para Sampa. Foi um tal de parar para café e caminhar um pouco em todos os postos da estrada até chegar em casa pelas duas da matina, cansado e feliz, que viagem! Mais uma tatuagem na alma, com lembranças e registros fantásticos na companhia de um grande companheiro, valeu Emerson, que venham muitas outras!

 

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