Foram 37 lifers (5 delas sem registro no Wikiaves), a grande maioria com poucos registros fotográficos,  em  dois dias inteiros mais metade de uma tarde e metade de uma manhã. Recomendo a todos que tiverem a oportunidade de vir pro Norte uma visita a essa região guiada pelo Thiago Laranjeiras (e, quem sabe, vou junto de quebra rs)

O cricrió-de-cinta-vermelha (Lipaugus streptophorus) Rose-collared Piha foi a cereja do bolo de uma viagem com muitas raridades;

 

  • Texto e fotos: Marcelo Camacho
  • Câmera:  Canon Rebel T2i e lentes Canon 70-300 e 300 f4
  • Guia: Thiago Laranjeiras

A convite do Thiago Laranjeiras fui conhecer e registrar as aves dos Tepuis*, na estrada conhecida como La Escalera, na Venezuela. La Escalera é um trecho de uma importante rodovia no sudeste da Venezuela, a cerca de 200km da fronteira com o Brasil, em Roraima.

*Os tepuis são formações rochosas expostas em forma de mesa das mais antigas do mundo, localizadas na Amazônia, no norte da América do Sul, nas fronteiras entre Venezuela, Brasil e Guiana. Em se falando de passarinho, os Tepuis são as florestas e outros ambientes em altitudes maiores que 800-1000 metros nessa região.

Chegamos na comunidade conhecida como “Rápidos de Kamoiran” na tarde do dia 27/07/2012. Alugamos um quarto em uma pousada e saímos em seguida pra um breve reconhecimento da região.

Essa era a segunda vez que o Thiago estava visitando o local e eu já tinha algumas boas referências do que poderia encontrar por lá. Contudo, desde o princípio, me martelava a cabeça a imagem do cricrió-de-cinta-vermelha (Lipaugus streptophorus) que o Thiago havia fotografado em sua viagem anterior.  Agora, analisando melhor as coisas, percebo que ver e fotografar essa ave era o meu único objetivo. O que mais viesse seria lucro.

Após percorrermos os primeiros 30 km ao norte da pousada, paramos pela primeira vez quando avistamos uma ave na copa de uma árvore à beira da rodovia. Poderia ser um sanhaçu, um sabiá… de dentro do carro mesmo me contorci pra fazer a foto de longe, mas bem acima da minha cabeça. Fui conferir a espécie…Era ele!!! Primeira ave avistada, primeira parada e lá estava o bicho. Avistei-o e o fotografei. Mas ele logo voou e deixou aquela sensação de situação mal resolvida. Eu queria vê-lo mais próximo, conseguir enxergar o contraste do cinza com o lilás do anel no pescoço e da barriga. Foi aí que comecei a pensar em outras espécies, mas sempre com aquele incômodo de não saber se o veria novamente.

O dia seguinte foi maravilhoso. Saímos às 6h da pousada com dois pães, queijo, presunto, suco bolachas. Foram 13 horas quase ininterruptas muito produtivas. Avistamos uns 4 bandos mistos com espécies raras ou incomuns no Brasil. Nesses bandos em geral avistávamos Tangara guttata (saíra-pintada, só 4 fotos no Wikiaves, nenhuma no Brasil) Tangara xanthogastra (saíra-de-barriga-amarela, 3 fotos no Wikiaves, só 1 no Brasil),Tangara gyrola (saíra-de-cabeça-castanha, outra espécie incomum), Tangara chilensis (sete-cores-da-amazônia, outra gema colorida)  entre outras. Comumente avistávamos também Mitrospingus oleagineus (pipira-olivácea, 3 fotos no Wiki) e a Tangara argêntea (saíra-de-cabeça-preta, 5 fotos no Wikiaves).

Observação de Claudia Komesu, editora da Virtude-AG: o Marcelo Camacho não tinha colocado essas referências das raridades, talvez por modéstia. Como estavam só os nomes científicos, quando fui acrescentar os nomes populares vi o quão raras são as figurinhas, e coloquei as quantidades de fotos no Wiki para dar uma ideia.

Eu me surpreendia a cada novo avistamento e já estava conformado com a breve aparição do cricrió-de-cinta-vermelha.

Aqui gostaria de interromper a descrição dessa passarinhada e prestar uma homenagem aos ornitólogos. Fico impressionado com a forma como conseguem  ‘ler’ o ambiente e reconhecer cada espécie, muitas das quais nunca avistaram na natureza. O Thiago se mostrou muito conhecedor da avifauna local, sendo capaz não só de identificar as espécies como de associá-las às condições locais de clima, vegetação e relevo. Tê-lo ali me conduzindo foi fundamental sob todos os aspectos. Parabéns aos guias e ornitólogos que possuem esse nível de conhecimento e esse grau de sensibilidade aos sinais da natureza!

Durante boa parte de nossas andanças por lá era frequente o canto do Synallaxis macconnelli (joão-escuro) mas registrá-lo se mostrava impraticável. É dos Synallaxis mais difíceis de se avistar que conheço. Após dois dias de tentativa eu já estava convencido de que seria praticamente impossível fotografá-lo com o tempo que tínhamos. Num lance de pura sorte, quando eu já nem estava concentrado em registrá-lo, eis que ele nos dá 2 segundos de chance e eu consigo um registro meio no susto, sem regular a câmera. Mais tarde descobri que são raríssimos os registros fotográficos dessa espécie. Não é pra menos.

Antes disso, ainda no primeiro dia, tive outro momento de pura sorte quando, já com pouca luz, consegui um registro ‘no foco’ do Streptoprocne phelpsi (taperauçu-dos-tepuis) que nos passava pela cabeça em altíssima velocidade. Primeiro registro para o Wikiaves da espécie!

Nesse mesmo dia conseguimos vários outros registros importarntes como o do Roraimia adusta, (joão-de-roraima) HerpsilochmusroraimaeHellmayr (chorozinhoo-de-roraima), Trogon personatus (surucuá-mascarado), etc

O dia seguinte foi igualmente proveitoso. Encontramos alguns bandos mistos e outras aves isoladas. Destaco: Phylloscartesnigrifrons (maria-de-testa-preta), Cranioleuca demissa (joão-do-tepui), Veniliorniskirkii (pica-pau-de-sobre-vermelho), Colaptesrubiginosus (pica-pau-olivaceo), Phylloscartesnigrifrons (maria-de-testa-preta), Hylophilussclateri, (vite-vite-do-tepui)  Xenopipouniformis (dançarino-olivaceo), Atlapetespersonatus (tico-tico-do-tepui), Pipra cornuta (dançador-de-crista), Basileuterusbivittatus (pula-pula-de-duas-fitas), entre outros.

Observação da Virtude: as espécies listadas são bem raras. A maioria das espécies citadas tinha menos de 3 fotos no Wikiaves.

Final de tarde na rodovia, terceiro dia de longas jornadas diárias, muita dor no pescoço e pernas cansadas, estávamos eu e Thiago encostados no carro pensando no caminho de volta. Nesse trecho a rodovia corta a floresta alta e já havia sombra em ambos os lados da estrada nas árvores da mata.

Eu: chama o bicho aí, Thiago (me referindo ao cricrió). Já estamos indo embora mesmo rs

O Thiago coloca o playback e caminha pelo acostamento.

Eu: Acho que ele atravessou a rodovia ali por cima era grandinho. Depois passou outro. Será o casal?

O Thiago volta e coloca de novo. O bicho muda de galho e ele acha que não é o bicho. Está muito longe e não responde ao playback. E eu sempre insistindo:

Eu: Coloca mais aí, Thiago kkk

O Thiago coloca e o bicho responde. Era um casal. Aproximaram-se a uns 12 metros e registramos, meio a contra-luz mas conseguimos.  Casal junto, fêmea só com frutinha no bico, macho sozinho. Eu não me continha. Missão cumprida. Enquanto conferia as fotos o Thiago me chama.

Thiago: Pousou ali pertinho, ali pertinho.

Havia um único tronco caído avançando sobre o acostamento que pegava o solzinho da tarde. O bicho pousou ali, a uns 5 metros. Eu não sabia se olhava ou fotografava. Perdi o rumo. Peguei a câmera todo estabanado, regulada com compensação de exposição e comecei a fotografar de qualquer jeito. Foram 4 cliques mas só peguei uma foto com a cabeça de perfil. Apesar da atrapalhação toda ficou razoável. Voltamos pra pousada o Thiago e o tagarela. Eu não parava de falar. Queria ir pra casa baixar as fotos rs.

Do quarto dia pouco me lembro. Passarinhamos só pela manhã e às 10h já estávamos a caminho de Boa Vista. Almoçamos em Santa Helena de Uairén, compramos algumas besteirinhas no supermercado e às 15h30 estávamos em casa.

Foram 37 lifers (5 delas sem registro no wikiaves), a grande maioria com poucos registros fotográficos  em  dois dias inteiros mais metade de uma tarde e metade de uma manhã. Recomendo a todos que tiverem a oportunidade de vir pro Norte uma visita a essa região guiada pelo Thiago Laranjeiras (e, quem sabe, vou junto de quebra rs)

 

Como chegar: Viagem aérea até Boa Vista (TAM ou GOL). E de Boa Vista à Venezuela em carro alugado (o Thiago pode alugar o próprio carro se for contratado como guia). A pousada fica a aproximadamente 380 km de Boa Vista.

É necessário portar passaporte (ou RG, não aceitam qualquer outro documento além desses dois) e carteira internacional de vacinação com vacina contra febre amarela em dia.

O automóvel utilizado deve ter o ‘permisso’ que é a autorização prévia para circular dentro da Venezuela e deve ser realizado o pagamento de um seguro (pra acidentes) que custa por volta de R$400,00.

Melhor época: De outubro a março

Onde hospedar-se: em Boa Vista: Hotel Uiramutam (www.uiramutam.com.br) e na Venezuela: Pousada Rápidos do Kamoiran

Guia: Thiago Laranjeiras (contato: thorsi.falco@gmail.com)

Dica importante: Como a passarinhada é feita ao longo da rodovia que possui poucos locais pra estacionamento, é fundamental verificar se no período escolhido não há feriado no Brasil ou na Venezuela evitando assim o movimento excessivo que dificultaria bastante a passarinhada.

Nível de dificuldade: leve a moderada. Boa parte da passarinhada é feita na própria rodovia e algumas vezes é necessário entrar por pequenas distâncias na mata sem trilhas.

 

Observação da Virtude-AG: o passeio não apresentou grandes dificuldades de caminhadas ou distâncias internas, mas recomendamos só fazer um passeio assim com um guia ornitológico. Sem um guia com um bom playback (ou torre com fruteiras próximas) a viagem pode ser frustrante.

 

 

Exterior (+)