Cachoeirão_dos_Rodrigues_Marco-Cruz
Cachoeirão dos Rodrigues
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marreca-parda
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caboclinho-de-barriga-vermelha
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caboclinho-de-barriga-preta
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papa-moscas-canela
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corujinha-do-sul
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águia-cinzenta jovem
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canários-do-brejo
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caminheiro-grande
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patativa-tropeira
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patativa-tropeira
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tapaculo-ferreirinho
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arredio-oliváceo
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papa-moscas-do-campo
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grimpeirinho
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sabiá-ferreiro
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guaracava-de-bico-curto
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tesoura-cinzenta
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pica-pau-anão-carijó
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pica-pau-anão-carijó

 

  • Campos de cima da Serra – RS: rota formada pelas cidades São José dos Ausentes, Cambará do Sul e Bom Jesus
  • Texto e fotos: Marco Cruz
  • Câmeras: Canon 7D e Canon 6D, lentes 15-85, 300 f2.8, 300 f4, celular. As fotos deste post são de novembro e dezembro de 2013

Há quase dois anos minha noiva, Mônica, mudou-se para a pequena cidade de São José dos Ausentes – RS, município de aproximadamente 3.200 habitantes, sendo que em torno de 2.100 vivem na cidade sede. Ela atua na área de georreferenciamento de imóveis rurais e por lá o que não falta para ela é trabalho. A região é conhecida pelo seu inverno rigorosíssimo e pelas suas belíssimas paisagens, como o Cânion Montenegro, Cachoeirão dos Rodrigues, desnível dos rios, entre outras atrações.

Aproveitando-me do fato de ela estar morando na cidade, já por duas vezes fui para lá nas minhas férias. E, entre um trabalho e outro, ajudando-a no campo, aproveito para conhecer alguns locais de paisagens espetaculares, rios e lajeados de água trelidas e cristalinas, e também para fotografar algumas das aves que ocorrem apenas na região Sul país.

Uma característica climática da região é o fenômeno da viração, que é quando a umidade do litoral invade os campos de cima quando o vento sopra de leste. Em questão de minutos tudo é tomado pele fenômeno (conforme mostram as fotos) e caso você esteja no campo e não possua um bom conhecimento do local ou não esteja com um GPS, pode realmente ficar perdido e correr um sério risco de hipotermia, pois não é possível enxergar absolutamente nada a sua frente. Frequentemente a viração atinge a cidade de Ausentes, mergulhando-a em uma neblina e um frio de lascar, que confere um ar muito sombrio ao local e as vezes pode durar dois ou três dias, direto. Só quem conhece pra saber.

Em agosto de 2012, primeira vez que fui com olhos de birdwatcher, fotografei o grimpeirinho, o tapaculo-ferreirinho, pedreiro e a corujinha-do-sul, além de outras espécies de clima frio como o sanhaçu-frade, estalinho (primeiro registro fotográfico para o RS), chimango, marreca-parda, sabiá-do-banhado e caneleiro-de-barriga-acanelada. Antes, em novembro de 2010, estive na região mas como eu não era ainda um viciado em aves, me dediquei mais a caminhadas e passeios. J

Em novembro de 2013 fui com um foco maior em algumas espécies mais raras, como caminheiro-grande, patativa-tropeira, caboclinho-de-barriga-preta, caboclinho-de-barriga-vermelha, pica-pau-anão-carijó, narcejão e papa-moscas-canela.

Em um dos dias saímos para conhecermos o Cânion Fortaleza, no Parque Nacional da Serra Geral, em Cambará do Sul, distante uns 90 km de Ausentes, sendo a maior parte por estrada de chão com muitas pedras. Quando chegamos no cânion a viração estava se dissipando e um visual incrível descortinou-se ao nossos olhos. Nesse instante, em um voo rasante por nossas cabeça e saído por detrás de uma nuvem que ainda estava no meio do cânion, um urubu-rei. Eu no desespero total, pois a câmera e lente ainda guardados e desmontados na mochila. Até montar tudo o urubu já havia sumido e não retornou mais.

Na saída, perto da entrada do parque, resolvi tentar o caboclinho-de-barriga-preta. Em alguns instantes uma fêmea curiosa estava me rondeando mas nada de ver o macho. Entrei nas macegas e capinzais até que localizei um indivíduo, que permitiu-me uma boa aproximação da touceira em que cantava incessantemente.

Com o objetivo cumprido e feliz da vida, almoçamos em Cambará e rumamos para conhecer Gramado e Canela, onde visitamos o Parque Estadual do Caracol. Do alto do elevador panorâmico, que fica na altura das copas das araucárias é possível avistar, além do magnífico salto do Caracol, o grimpeiro muito de perto, mas o vidro atrapalha a foto. Na região dos Campos de Cima escutei diversas vezes o sabiá-ferreiro mas foi na área do Parque do Caracol que fiquei impressionado com a quantidade dessa espécie, cantando sem parar a tarde toda, em poleiros baixíssimos e totalmente expostos. Uma sinfonia impressionante e inesquecível. Em São Paulo é a maior dificuldade para ouvir uma e outra maior ainda pra conseguir uma foto. Lá no Caracol dá pra escolher qual você quer. Foi um dia cansativo, longo, chegamos de madrugada em casa, mas o Natal de Luzes em Gramado é especial e compensou todo o cansaço.

Para tentar a patativa e papa-moscas contatei o mestre Márcio Repenning, a maior autoridade em Sporophilas do Brasil, especialmente os caboclinhos, e que descreveu em um trabalho maravilhoso a linda e já ameaçada patativa-tropeira (S. beltoni – Repenning & Fontana, 2013). Aproveitei a oportunidade que o Márcio já estaria na região guiando um grupo de estrangeiros e marquei as minhas datas de saída com ele. Nos encontramos em Bom Jesus no final da tarde para uma rápida saída e fomos até o local de um brejo gigantesco. No caminho a sorte de ver uma águia-chilena jovem, pousada em um mourão, acompanhando a movimentação de dezenas de urubus que alimentavam-se de uma carcaça em um pasto. Ao chegarmos no brejo uma grande decepção, pois seu proprietário havia aberto uma grande valeta de quase 1 km de extensão para drená-lo. Como chegamos tarde ao brejo não foi possível fotografar quase nada e tentamos no escurecer o narcejão e o curiango-do-banhado, sem sucesso.

No dia seguinte saímos 4 h da manhã e retornamos a esse brejo, onde esperamos o sol nascer. No local há centenas de caboclinhos-de-barriga-preta e o espetáculo que presenciamos deles despertando, com piados e chamados por todos os lados, é um momento incrível e indescritível. Um narcejão deu alguns rasantes por nossas cabeças, mas víamos apenas seu vulto, pois o sol ainda estava abaixo do horizonte. O narcejão tem hábitos noturnos e o momento de fotografá-lo é logo após o sol se pôr ou antes do sol nascer, pois é a hora que ele costuma voar e vocalizar. Também, nesse momento de penumbra e sem vento, consegui uma rara gravação da noivinha-de-rabo-preto, que estava despertando e emitia seu assovio fino e baixo.

Procuramos em vão pelo caminheiro-grande e vimos muitos caboclinhos-de-barriga-preta, caminheiros-de-barriga-acanelada, papa-moscas-do-campo, canários-do-brejo e fotografamos o triste crime ambiental no local. Pior ainda era um aterro que estava sendo com caminhões e mais caminhões de pedras para transposição do brejo até o outro lado. Fomos embora dali muito tristes e com um misto de indignação e raiva. Em informações recentes, obtidas no Avistar, foi dito que o proprietário foi multado e obrigado a desfazer tudo o que havia destruído.

Continuamos pela estrada e logo mais o Márcio viu um campo que era propício para o caminheiro-grande. Passamos a cerca e dito e feito. Em alguns minutos fomos brindados com um espetáculo maravilhoso. Havia um casal no local e de tempos em tempos o macho saía do solo em seu voo incrível, atingindo uma altura de uns 80 m até praticamente desaparecer dos olhos. Ficava parado no ar vocalizando por diversos segundos até o momento que se deixa despencar até o chão, em uma espécie de chiado contínuo e descendente. Localizamos o local onde ele pousava e aí foi só esperar até o momento certo para a foto.

Seguimos em direção à divisa com estado de SC descendo o vale do Rio Canoas em uma paisagem de tirar o fôlego. Atravessamos a gigantesca ponte que faz a divisa entre os Estados e, por caminhos precários, utilizando 4×4 e reduzida, chegamos até uma região erma do município de Lages conhecida como Coxilha Rica. Porém, antes de chegarmos ao local da patativa, fazia-se necessário atravessar de canoa o Rio Lava-tudo, um grande afluente do Rio Canoas. O Márcio já tem no local uma grande canoa, extremamente pesada, que mesmo em duas pessoas para arrastá-la é sofrido. No retorno foi preciso utilizar o Troller com uma grande corda para arrastá-la novamente margem acima.

O local é só morro, com inclinações fortes e requer um certo preparo físico para andar. Mas não demorou muito para encontrarmos as primeiras patativas. Emoção total!! Fotografei um indivíduo anilhado em 2010, com idade de uns 7 anos e o Márcio aproveita e me explica vários aspectos da biologia do bicho, do tipo de local de reprodução, migração, alimentação, reprodução, anilhamento. Uma verdadeira aula peripatética! J

Subindo mais, chegamos ao local do minúsculo e raro papa-moscas-canela, que mal passava de um ponto no centro do meu visor e que não permitiu que nos aproximássemos muito. Agora circundando o gigantesco morro nos dirigimos ao local do caboclinho-de-barriga-vermelha. Localizamos um cantando incessantemente que também é um velho conhecido do Márcio, anilhado em 2009. Incrível imaginar a capacidade de voo, resistência, sobrevivência e orientação dessas pequenas patativas e caboclinhos, que migram para centro-oeste no final de fevereiro e retornam no final de outubro para o sul. De acordo com os registros do Márcio, as aves anilhadas que eu fotografei retornam todos os anos para a mesma região e as vezes até para o mesmo ponto.

O retorno para Ausentes é extremamente longo e demorado. Precisamos voltar através de São Joaquim, uma estrada péssima, de muitas pedras e de lá pegar o caminho para Ausentes, também de terra. Famintos e cansados paramos em São Joaquim para um lanche e agora, na estrada para Ausentes, um ponto estratégico para o tapaculo-ferrerinho que sai no limpo tão logo o playback é tocado. Incrível. Chegamos perto das 20h em casa, superfelizes.

No quintal da casa da Mônica há algumas pequenas árvores frutíferas e nos fundos um pequeno rio que corta a cidade e que faz divisa com uma grande área de mata de araucárias. No quintal e na borda da mata fotografei o grimpeirinho, mariquita, arredio-oliváceo, guaracava-de-bico-curto (mostrando o píleo branco), juruviara, risadinha, irré e a corujinha-do-sul, todos com grande facilidade e a pouca altura.

Outro dia em campo ajudando a Mônica em uma trabalho de medição nas bordas do cânion, perto da Serra da Rocinha, estamos nos dois a pé lá no meio do nada, carregados de equipamentos, a quilômetros da sede da fazenda… paramos para um lanche e eis que escuto um zumbido descendente… na mesma hora levantei, fiquei atento e logo mais lá estava ele, um caminheiro-grande fazendo seu display. Vi o local onde ele pousou e encontrei o casal. Eu estava no momento com uma lente de 105 mm e consegui fazer um vídeo muito bacana das aves em solo: http://youtu.be/O4kLJC24txI. Outra bela surpresa na borda do cânion foi um tesoura-cinzenta em um arbusto dependurado no precipício. E eu no barranco poucos metros acima dele, com luz ideal, fundo infinito e escuro e a ave quietinha por um tempão só me observando também.

Tínhamos andado o dia todo, uns 7 km, medindo as bordas, e por volta das 15h30 estávamos na divisa mais distante da fazenda. O vento que soprava do alto dos campos, no sentido litoral, foi diminuindo e algumas nuvens foram se formando dentro do cânion. Meia hora depois o vento virou e em mais alguns minutos eu a Mônica estávamos envoltos na densa neblina. Iniciamos nosso retorno para o carro e do alto de uma coxilha que ainda não havia sido atingida pela viração pudemos observar como é surpreendente esse fenômeno. Eu via meu carro a alguns quilômetros campo abaixo e aquela parede de nuvens aproximando-se dele. Para nós, turistas, é incrível. Para os moradores, um transtorno.

Ainda faltavam duas espécies importantes: o narcejão e o pica-pau-anão-escamado. Em uma rara tarde sem vento, céu claro e sem viração, saí em direção à Serra da Rocinha onde alguns dias antes a Mônica havia me mostrado uma grande área de brejo na beira da estrada. Passei por essa área, pois ainda era cedo, e segui pela estrada, parando em cada pedaço de mata procurando por formações de bambus e taquaras, que é o habitat do escamado. Em um dos pontos que parei um casal respondeu prontamente ao playback, sendo que a fêmea aproximou-se bastante e me possibilitou fotos incríveis.

Às 20h40, quando estava escurecendo, eu estava no brejo. Logo mais escureceu de vez e eu já escutei a incrível e inconfundível vocalização em voo do narcejão. O coração saltou pela boca. A área de brejo era incrivelmente fácil pois ao seu lado era um pasto de gramíneas baixas. Assim que passei a cerca dois narcejões saíram voando dos meus pés. Andei mais alguns metros e toquei a vocalização. Após alguns rasantes sobre minha cabeça um deles pousou no pasto e começou a vocalizar muito perto. Achei-o com a lanterna, mas eu estava tão nervoso que não conseguia segurar a lanterna e focalizar o bicho direito e consequentemente fiz algumas fotos péssimas. Por sorte logo ele pousou novamente, muito perto, e dessa vez fiz consegui ótimas fotos. Parei de fotografar e fiquei por uns dois minutos só observando-o com a lanterna, ele procurando por alimento no terreno fofo, cantando, até que voou. Eu voltei para casa rindo de orelha a orelha!

 

ONDE HOSPEDAR-SE

Em Ausentes há diversas opções de hospedarias rurais, mas há uma em especial, já no acesso ao Pico e Cânion Montenegro.  http://www.fazendamontenegro.com.br/

O pessoal é de uma simpatia incrível, comida maravilhosa e o local muito perto dos cânion. E não deixe de experimentar a paçoca de pinhão, comida típica dos tropeiros, simplesmente deliciosa. E combinando previamente ele servem o almoço caso você não esteja hospedado na pousada.

No caminho até o cânion muitas matas com araucárias e riachos, que são lugares muito bons para se tentar as aves da região. Na estrada que vem de Ausentes, já mais perto da pousada, existem alguns pequenos açudes e algumas lagoas à beira da estrada. Toda vez que eu passava por lá observava uma família de marrecas-pardas. São bem ariscas, mas ficando dentro do carro elas logo saiam da vegetação e voltavam a nadar calmamente.

Há apenas duas opções na cidade, sendo que o Hotel Morada das Glicínias, da proprietária Mana, que já virou nossa amiga, é o mais novo e confortável. Além disso a Mana é uma cozinheira de mão cheia e prepara jantares deliciosos: http://moradadasglicinias.blogspot.com.br/

 

CONTATOS:

Márcio Repenning: mrepenning@gmail.com

Marco Cruz: marco.caratuva@gmail.com

 

Fotos dos passeios pela região:

https://picasaweb.google.com/marco.caratuva/SJDosAusentesNov2013

https://picasaweb.google.com/marco.caratuva/SJDosAusentesAgo2012

https://picasaweb.google.com/marco.caratuva/SaoJoseDosAusentesRS

 

Mata Atlântica (+)