A RPPN Estação Veracel fica em Porto Seguro, a 20 minutos do centro da cidade. Fomos para lá de avião, e nosso guia foi o Gustavo Magnago. Não sei de outro lugar tão bom para ver piprideos e cotingideos. Imagine: cabeça-encarnada, cabeça-branca e rendeiras saltavam na estrada toda, sem precisar de playback.

 

O tangará-rajado foi mais difícil, procuramos com playback em diversos trechos, mas só achamos um macho imaturo no último dia. Dizem que há tangará-falso, mas procuramos e não achamos. Vimos o sabiá-pimenta em três dias: duas com playback, a terceira espontaneamente, numa área aberta, árvore baixa ao lado de uma plantação de mamão. Três avistamentos de anambé-de-asa-branca, um deles com fotos perto. Dois avistamentos do crejoá, um deles logo no primeiro dia: 20 minutos do bicho na famosa fruteira que o Marcelo Barreiros achou e o Ciro Albano assinalou. O tropeiro ficou a 4m da gente, imóvel.

Outros destaques: o formigueiro-pardo, chorozinho-de-boné, poiaeiro-de-sobrancelha, choquinha-de-rabo-cintado, urubuzinho, jandaia-de-testa-vermelha, um casal de urubu-rei passou voando sobre a gente. Um bando de tiribas-grandes estava pousado na trilha, mas só vimos quando eles voaram.

A lista de avistamentos e aves ouvidas ficou em torno de 100 espécies, das quais fotografei umas 40, consegui bons registros de 19, e fotos que gostei mesmo de umas 10.

 

Dificuldades

Para deixar claro: é um lugar excelente, mas não é a Disneylândia (nossa gíria para quem acha que as aves dão show com hora marcada). Vimos muitos bichos interessantes, mas pouca resposta ao playback, e várias horas de espera e silêncio total na mata.

A estrada principal está carregada de árvores com frutinhas verdes. Quando amadurecerem, farão a festa das aves, mas ao longo de toda a estrada. Ver as aves de perto vai depender de encontrar uma boa fruteira, e as aves certas interessadas nesse fruteira.

 

Quando ir

O Gustavo foi em janeiro, e disse que estava ruim para ver as aves. Fevereiro já foi bom, mas pelo o que vimos de árvores carregadas de frutinhas verdes na beira da estrada, abril e março parecem ainda melhores.

O Sr. Delgado, o funcionário da Veracel que nos acompanhou nas trilhas restritas, falou que lá há atividade de aves o ano todo. Entre maio e julho chove mais, mas ele disse que as chuvas costumam ser rápidas, e após a chuva há uma atividade intensa de aves.

 

Transporte, hospedagem e alimentação (dados de 2010)

Fomos de avião para Porto Seguro. Nessa época as companhias de turismo reinam, e só há passagens naqueles horários de madrugada, com vôos com conexão em Belo Horizonte. 4h de viagem em vez de 2h30. Passagens de R$ 450 ida-e-volta por pessoa.

Ficamos no Shalimar, um hotel 4 estrelas a 5 minutos do aeroporto, com quartos amplos, piscinona, restaurante ruim e muito axé e pagode tocando alto na piscina. Na alta temporada a diária para o casal estava uns R$ 340, e passado o carnaval parece que cai para uns 150. O café da manhã só é servido às 7h, e pelo menos o funcionário que nos atendeu não topou fornecer um pequeno lanche às 6h.

Há opções mais baratas de hospedagem nas imediações. O centro de Porto Seguro, com vários restaurantes e bares, fica a 10 minutos a pé. Uma locadora de veículos, a Localiza, fica bem perto do Shalimar.

Guia de birdwatching

Assim como o Rafael Fortes é meu guia no sudeste, definitivamente o Gustavo Magnago é meu guia do Espírito Santo pra cima. Mesmo com pouca resposta a playback vale a pena, porque o guia vê e ouve o que você não consegue. A primeira Xipholena estava no topo de uma árvore alta, atrás de outra, nem sei como ele viu. A ave voa, e logo ele já encontra de novo.

O Gustavo era caçador, assim como o pai dele e o avô. Parou aos 16, e se envolveu com a fotografia porque sentia saudade de andar na mata. Como no poema que eu gosto “conheceram o mato e os bichos / E porque existe uma maneira de amar sem matar”. O Gustavo gosta de ir atrás de aves difíceis, e por isso passou um bom tempo sem se importar com as mais comuns. E porque é o perfil das pessoas que o procuram: no ano passado ele guiou o Ciro Albano, o Edson Endrigo, o João Quental, o Fábio Olmos. Falei que ele precisa se preparar pra guiar gente como eu, que se interessa por biguatinga ou ariramba.

Outra coisa boa do Gustavo é que ele tem flexibilidade de dias para guiar, e te leva pra lá e pra cá com o carro dele (um Celta), mesmo em lugares que eu teria medo de ir com o meu carro que é 4×4. Ele não tem preguiça de pegar estrada: viajou 7h, de Vitória a Porto Seguro, e quando decidimos ir para Camacan, mais 3h de estrada.

O Gustavo é muito gentil e atencioso, e uma companhia agradável para a viagem. Não é zen com o Rafa, o Gustavo é capaz de ficar frustrado de verdade porque a saracura-lisa não quis aparecer. Mas é uma energia que também se canaliza em paciência de caçador para esperar as aves mais difíceis, ou para se embrenhar no mato atrás de alguma que cantou, e também em amor pelas aves para dizer “vamos parar. Já estamos há 15 minutos tocando o playback, vamos deixar esse bicho quieto”.

É possível ir para a Veracel sozinho, mas se puder pagar um guia, contrate o Gustavo, vale a pena.