Em novembro de 2011, levado por três paixôes, as aves, a história pré-colombiana e o prazer de viajar, fui conhecer o Peru. Em Cusco iria acontecer um Congresso Neotropical de Ornitologia então, juntando o útil ao agradável, arrumei as malas e fomos eu e minha esposa Renata, para encontrar uma galera no Peru.

Condor-dos-andes (Vultur gryphus) Andean Condor

 

Texto e fotos: Marcelo Barreiros

A própria viagem em si já foi demais. De Manaus, o voo fez um escala na Cidade do Panamá, tanto na ida quando na volta. Na ida uma parada rapida, de 2 horas, mas na volta, foram 9h na cidade, que eu conto como foi mais a diante. Os Andes, nossa, a primeira vez que vi neve na vida, que visão espetacular!

O primeiro destino foi Lima, capital do país. Uma cidade diferente aos meus olhos, um lugar de aparência uniforme, sem o colorido das casas e o verde das árvores. A primeira dificuldade (e a mais engraçada): a língua estrangeira. Era muito legal enrolar um castellano com o pessoal de lá, às vezes saía até italiano no meio!

Pois bem, de Lima fomos até Cusco de ônibus. Foram 20 horas até lá, em um ônibus bastante confortável, com direito a internet wi-fi, um bingo no meio da viagem, além de paisagens exuberantes a medida que subíamos os andes.

Chegamos em Cusco no meio da tarde, cansados, mas com uma vontade enorme de conhecer tudo, e ainda tinham as aves. Não tem nada melhor do que chegar a um lugar onde não conhecemos nem 5% das aves, nem sequer as famílias eram comuns pra mim, e isso é demais!

No segundo dia, fui para as montanhas de Abra Malaga, um lugar a mais de quatro mil metros de altitude, com montanhas lindas, um frio de trincar os ossos e aves totalmente novas. Lá é o local que vive um dos beija-flores mais formidáveis do Peru, Ensifera ensifera (beija-flor-bico-de-espada) que possui um bico enorme, maior do que o corpo, uma verdadeira aula de evolução. Infelizmente não consegui ver o bicho, mas vi muitos outros bichos legais, como Ampelion rubrocristata, duas espécies de Turdus totalmente novas, três espécies de Diglossa e muitos outros.

Em Cusco, fui até um lago famoso por abrigar espécie lindas de beija-flores, como a maior espécie deles, Patagonas gigas e um belo beija-flor da região, Oreoninpha nobilis, que por azar, não consegui ver. Além disso, pudemos ver o lindo Tachuris rubrigastra (papa-piri), que no Brasil só ocore no sul e no Peru é bastante abundante próximos a lagos.

Depois disso, fui conhecer a lendária cidade de Machu Picchu! Passei quatro dias lá, em busca de Rupicola peruviana (parente do nosso galo-da-serra), mas infelizmente, somente três fêmeas foram avistadas, porém, vi dezenas de espécies maravilhosas como Pipreola pulchra, Entomodestes leucotis, o endêmico Thryothorus eisenmanni e várias espécies de Tangara.

De lá, seguimos para Puno, onde fica o lago navegável mais alto do mundo, o Lago Titicaca. Um lugar maravilhoso, parece um mar de tão grande, e com uma enorme quantidade de aves, algumas endêmicas e outras caras conhecidas nossas como Tachuris rubrigastra (o papa-piri) e outros. Lá foi mais um passeio cultural do que ornitológico, e mesmo assim, foi demais. Seguimos para Arequipa, em busca do condor-andino (AAAAAAH!).

Foi um dia cansativo, porém, o resultado foi impagável. Saímos de Arequipa à 1h da manhã e chegamos no Canion del Colca, onde vivem os condores, às 6h da matina. Um frio de congelar os ossos, mas um visual de outro mundo. Além do condor, muitas espécies interessantes como Metropelia cecilae, Patagonas gigas, Buteo polyosoma e Geranoaetus melanoleucus! Quando eu achei que ver um condor voando era bom, um macho adulto e um jovem vieram planando, pousaram a menos de 8m de nós e por duas horas lá ficaram. Foram centenas de fotos e muitos filmes dos bichos.

De Arequipa voltamos à Lima, para a última parte da viajem, que foi um passeio até as Islas Ballestas. Um local de reprodução de aves marinhas e um dos momentos mais emocionantes que tive em minha vida. Nesse local, milhares de Sulas sp., Sphenicus humboldti, Pelicanus thagus (UAAAAAU) duas espécies diferentes de Phalacocorax entre outros.

Finalizando, essa viagem foi um espetáculo. Sair do país, ver uma cultura e uma avifauna muito diferente, apreciar paisagens deslumbrantes, não tem preço. Por um lado, não ver tudo o que eu queria, deixou um gostinho de quero mais, e pretendo voltar. Aconselho a todos e estou à disposição para auxiliar quem estiver disposto a repetir!

 

 

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