Relato da viagem para o Pantanal (Miranda, Aquidauana, Bonito, Corumbá, Rio Paraguai) em setembro de 2011, partindo de São Leonardo, em Santa Catarina, a bordo de um Toyota Bandeirante. Viagem feita por Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro. Um dos produtos dessa incrível expedição foi o belo pôster Aves do Pantanal.

 

Durante mais de 20 dias rodamos de carro pela região do Pantanal, a fim de fotografar as aves para nosso novo projeto, o pôster de aves do Pantanal. Registramos mais de 100 espécies de aves, muitas fotos ótimas, além de registros de jacarés, capivaras, macacos-prego, vários peixes nas transparentes águas por onde passamos. Emoção rolaram várias, mas as duas grandes foram o nosso encontro com uma família de bugios em que nosso amigo e guia Élcio Pantaneiro nos colocou frente a frente, imitando as vozes do macho. Ali, na beira de um corixo, ficamos pasmos por ver que o macho respondia freneticamente como nunca haviamos visto antes. O segundo momento foi encontrar e fotografar uma jaguatirica ao lado de nosso acampamento. Utilizei flash e a jaguatirica nem aí, pois estava fartando-se nos restos de piranha deixados pelos pescadores. Foi quando ela sismou de vir pra cima de mim, devagar, encarando e tive mesmo que dar uns passos pra trás, com medo, lógico, pois ela é pequena, mas é muito rápida e forte. No final viu que eu era magrinho e não valeria a pena perder tempo se havia farta comida por perto…

 

O Pantanal

Principal destino para observação da vida selvagem na América do Sul, o Pantanal segue um ritmo ditado pelas águas que sobem e descem conforme as chuvas e o curso do grande rio Paraguai. É um ecossistema complexo influenciado pelas savanas bolivianas, Cerrado, Amazônia e também pela Floresta Atlântica. A abundância de água, a diversidade e a riqueza do solo atraem uma quantidade e uma variedade incrível de animais que podem ser vistos, ainda, até na beira da estrada.

O Pantanal está rodeado por escarpas antiquíssimas, ao norte a famosa Chapada dos Guimarães, ao sul a Serra da Bodoquena, Amolar está a oeste e Maracaju a leste. Descer os platôs é uma impressionante viagem por terra ou pelo ar. Seu coração é acessível somente com carros 4×4 ou a cavalo. Nós percorremos um bom trecho da Estrada Parque que vai do Passo do Lontra até Corumbá, mas não deu para chegar ao final porque em junho do ano passado houve uma das mais fortes chuvas das últimas décadas que destruiu quase todas as suas 100 pontes.

A nossa viagem começa na Reserva Rio das Furnas, RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural – situada na cidade de São Leonardo, na Serra da Boa Vista, em Santa Catarina. Vamos de um divisor de águas importante para o Estado, de onde partem os rios Tubarão, Cubatão, Tijucas e Itajaí, a quase mil metros de altitude até a maior área alagável do mundo, o Pantanal matogrossense.

Viajar de carro é para quem gosta de parar em tudo quanto é canto; gosta de tirar tempo para conhecer as culturas de lugarejos esquecidos pela civilização. Quem viaja assim tem sempre histórias para recordar, pois tem mais tempo de ouvi-las. Do bafo da onça no cangote à sucuri gigante, da reintrodução da arara-vermelha no Buraco das Araras, da família inteira de bugios que conversou com nosso guia e da Roda de Passarinho que fizemos a 100km rio acima, na Escola Jatobazinho. É hora de seguir caminho…

 

Guaíra, lugar de difícil acesso

Em setembro do ano passado, logo após uma série de chuvas que deixou nosso Estado (SC) em alerta, iniciamos nossa expedição. Em Mato Grosso do Sul as águas já estavam baixas o suficiente para podermos trafegar com nossa Casamóvel, uma Toyota Bandeirante 86 longa.

No primeiro dia percorremos quase mil quilômetros, até Marechal Cândido Rondon, no Paraná. As estradas dessa região têm muitas lombadas e caminhões, uma alternativa seria Curitiba, mas o caminho é mais longo.

Dali partimos para Guaíra, que na língua Guarani quer dizer lugar de difícil acesso, antigamente, porque hoje tem estradas para todos os lados. Atravessamos o rio Paraná e entramos pelo Portal do Pantanal. Ali perto está a Usina de Itaipu que cobriu Sete Quedas. De Novo Mundo resolvemos subir para Eldorado e assim chegar até Jardim, nossa segunda parada, já ao anoitecer, onde estacionamos num posto de abastecimento novinho em folha. Após um banho regenerador fomos experimentar a comida local, um delicioso pirarucu. Logo dormimos, pois queríamos chegar bem cedo no Buraco das Araras.

 

Buraco das Araras

O amanhecer de 21 de setembro foi magnífico. Entramos, junto com o filho do Seu Modesto Sampaio, dono do Buraco das Araras, no que poderia ser tão somente um sonho. Acredite, a emoção é grande quando as araras voam aos casais ou em falantes bandos acima de nossas cabeças. Este buraco foi descoberto em 1912 e a partir de 1980, quando o Seu Modesto adquiriu a área, é que ganhou o status de preservado.

“Bonito é Jardim”, frase repetida na cidade pois nos folhetos de propaganda de Bonito estão algumas das mais belas atrações de… Jardim, como o Buraco das Araras e a Lagoa Misteriosa situada no fundo de uma dolina. A oito metros de profundidade abrem-se dois poços, com cerca de dez metros de diâmetro, que descem verticalmente para mais de 240m. No inverno a visibilidade chega a 40 metros!

Ainda em Jardim conhecemos o Balneário Municipal e o Camping Assis onde mergulhamos no transparentíssimo Rio da Prata. Debaixo da primeira e única chuva da expedição, rumamos para Bonito.

 

Bonito, bonsais e ema

Bonito é pequena e cheia de atrativos turísticos. Uma rua movimentada corta a cidade e preenche a vida dos visitantes com opções de compra, laser e música, dia e noite. Um problema no freio nos deixou sem casa; a Toyota dormiu na oficina e nós no Hostel.

Conhecemos o casal Tietta e Daniel, biólogos que nos indicaram o Instituto Família Legal onde apresentamos a primeira Roda de Passarinho.

Também conhecemos Siro e Jô, donos de uma agência de turismo que nos acompanharam por uma trip no Morro do Mateus, ponto mais alto da cidade, de onde pudemos contemplar a imensidão do Cerrado. A sensação que tivemos ao caminhar nesta Floresta foi de anõezinhos entre bonsais. Ali avistamos nossa primeira Ema, com aquele olhar conquistador…

 

Cerâmica e calcário

De Bonito zarpamos para Bodoquena, terra dos Kadiweu e da cerâmica tingida com cores naturais. Repleta de cachoeiras, uma delas a do Rio Betione, também abriga o Parque Nacional da Serra da Bodoquena.

A região possui muitas cavernas e os rios têm muito calcário. Aliás, aí vai uma curiosidade e uma dica: o calcário deixa a água transparente porque envolve as partículas suspensas levando-as ao fundo, por ser mais denso; é potável, mas para os de fora pode causar dor de barriga e diarreia, experiência própria.

De Bodoquena seguimos para Miranda e para a *Pousada Aguapé, dica de nosso amigo Edson Endrigo, famoso fotógrafo e editor de vários guias e livros sobre aves. Pousamos por alguns dias nas margens do Rio Aquidauana, entre paisagens e aves magníficas.

 

Trilhas suspensas

Voltamos pela BR262 até Miranda e tocamos direto para Passo do Lontra, na boca do Pantanal, através da famosa Estrada Parque. Pegadas de emas e tuiuiús anunciavam a proximidade de um mundo diferente; revoadas sombreavam o céu azul.

No meio desse paraíso fica o Passo do Lontra Parque Hotel. Construído em palafitas, ergue-se às margens do rio Miranda circundado por trilhas suspensas. Observamos e fotografamos capivara, xexéu, martim-pescador, bico-de-prata, surucuá, socó, pica-pau, papagaio e o belíssimo cardeal.

 

Estrada Parque até Corumbá

Pretendíamos chegar a Corumbá pela Estrada Parque, porém a encontramos impedida na altura da sexagésima ponte das quase cem de todo o trajeto. Nova parada na região do rio Abobral nos fez conhecer o Élcio Pantaneiro (ouça a entrevista que fizemos com ele) que nos guiou entre corixos, lagoas e nos apresentou uma família de bugios. Ficamos alguns dias neste local, mas a vontade era de ficar para sempre.

Próxima parada: Corumbá. Fronteira com a Bolívia é cidade portuária com todo o charme e os problemas de uma fronteira. Lá nos abrigamos no Moinho Cultural, antiga fábrica da farinha Dona Benta que foi restaurada e está sob os cuidados do Instituto Homem Pantaneiro. Mais uma Roda de Passarinho aconteceu entre belas crianças bailarinas que frequentam o Instituto.

Fomos convidados, então, a conhecer a Escola Jatobazinho, a quase 100 quilometros rio Paraguai acima, numa viagem inesquecível.

 

Rio Paraguai acima

Embarcamos numa segunda-feira de manhã e fomos recebidos com carinho por toda a equipe da Escola. Tamanha foi a nossa surpresa ao perceber que a coordenadora nos havia cedido o seu quarto, com ar-condicionado e tudo. O calor no Pantanal é de cozinhar os miolos! E nos diziam que mal havia chegado, imagina…

Nossa visita coincidiu com a volta às aulas. Muitas rabetas encostaram no porto do Jatobazinho com famílias inteiras trazendo seus filhos. Ares de despedida, rever amigos de sala, de quarto, professores, merendeiras, todos preparados para mais uma jornada escolar, regida pelo vai-e-vem das águas e não pelo calendário romano.

Depois da Jatobazinho rumamos para casa, devagar e com a promessa de voltar ao Pantanal, o que vamos fazer ainda este ano, a caminho do Amazonas, nossa próxima expedição.

 

Dicas

Dormir/viajar: A Toyota foi adaptada com vários baús de compensado naval, possui armário, cama, mesa e um climatizador instalado logo após esta viagem, para aliviar o calor e deixar os mosquitos de fora. Tanque extra de 80 litros no lugar do estepe é fundamental. Optamos por várias paradas em Postos de Combustível e Campings. Tem muita opção pelo caminho inclusive motéis que recebem viajantes para pernoites.

Água: É importante levar bastante, o máximo que puder antes de entrar em Bonito/Jardim, pois custa ouro, creia.

Custos: não temos o registro exato, mas a estimativa é de que a viagem custou algo como R$ 3 a R$ 4 mil.

Comer: A pedida é a culinária local e os peixes são o forte, piranha inclusive. Como somos “peixetarianos” o jacaré ficou de fora do cardápio. Levamos fogão e nos abastecemos em supermercados. Economizar numa viagem é sempre bom.

Fotografar: Esteja preparado para movimentos rápidos porque a fauna é bela, mas não para. No Buraco, por exemplo, o voo das araras no contra luz ou com pouco contraste, pela manhã, dificulta o foco automático. Na estrada viaje com calma e muita atenção nos bichos e caminhões que nas retas tocam o pau de verdade. Cuidado ao parar no acostamento; fique dentro do carro, ligado, se quiser fotografar algum bicho, porque entre desligar e abrir a porta já era, escafedeu-se.

Guias: você vai precisar de guias experientes. Para observação de aves em Bonito, Antonio Carlos Candido (67) 9904 6483; em Bodoquena tem o casal Siro e Jô (67) 3255 4155; na Pousada Aguapé procure o Fabiano, ou agende um voo com o Marcelo (marcelopbarros@uol.com.br). Em Passo do Lontra não deixe de conhecer o Élcio Pantaneiro (67) 9655 9261.

Poster de Aves: Dessa expedição surgiu o pôster de Aves do Pantanal que pode ser adquirido pelo email: riodasfurnas@gmail.com. No segundo semestre de 2012 seguirá para o Amazonas e Cerrado de onde pretendemos trazer novos pôsters e novas histórias. (Mais informações neste post sobre o projeto dos pôsters, e como adquiri-los.)

Carrapatos: você só vai ficar com saudades deles quando já estiver em casa ou depois de dominar a técnica para mantê-los visíveis, que consiste em andar de chinelo e bermuda para poder ver os bichos subir pela perna. Uma vez escondidos, a roupa precisa ser deixada de molho, fervida e passada a ferro. Banhos com sabonete de enxofre, vinagre e álcool ajudam, mas a pele fica que é um deserto, absolutamente rachada.

Obs de Claudia Komesu, editora da Virtude-AG: o Renato e a Gabriela com certeza têm mais experiência, após uma super-viagem como essa, e eu nunca passei por um local infestado de carrapatos, mas vou descrever as técnicas que eu tenho usado. Sorte ou não, só peguei 3 carrapatos em todos esses anos: calça comprida com a meia por cima da calça, para não haver brechas por onde os bichos possam entrar. Por cima da roupa, borrifar Exposis, é um repelente forte, com concentração de princípio ativo muito superior ao Off. Vendido em farmácias como a Droga Raia e em lojas de aventura. Há uma embalagem grande específica para roupas. Borrifo sobre as meias e a calça, e sobre a pele, na região da cintura, e nos braços. Camiseta por dentro da calça. Dependendo do local, camisa de manga longa, com Exposis sobre a camisa e sobre as mãos. Mesmo assim, se estiver desconfiado de que pegou algum bicho, há um sabonete chamado Escabin, vendido contra piolhos, mas serve para carrapatos também. Há o sabonente ou a loção, você escolhe. É preciso deixar agir alguns minutos sobre a pele, o bicho morre, e assim você pode tirá-lo. Se tentar arrancar com ele vivo, o ferrão pode ficar e você corre o risco de infeccionar o local, já fiz essa bobagem.