Em 2011, a convite da minha amiga Carmen Bays, conheci o Pantanal Norte – região de Poconé/MT. Fiquei apaixonada. Então, meu amigo Tony Moura convidou-me para conhecer o Pantanal Sul. Eu iria conhecer a Fazenda Estrela em Aquidauana/MS, que, carinhosamente, o Tony chama de “santuário”.

Arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) Hyacinth Macaw. Foto sem crop e sem ajustes.

 

Convidei três grandes amigos: a própria Carmen Bays, o Carlos Godoy e o Julio Guedes(todos integrantes do CEO). Partimos de São Paulo rumo à Campo Grande no dia 30/06 e retornamos no dia 11/07 (2012).

Passamos meses planejando, trocando idéias, ligando em pousadas, perguntando às pessoas, vendo vídeos, fotos e blogs na internet. Em março compramos as passagens. Carmen viria de Joinville até o aeroporto de Congonhas e se juntaria a nós no aeroporto de Cumbica. Reservamos um palio week-end numa locadora em Campo Grande e o tempo foi passando. Chegando mais perto da data, deu um frio na barriga, não havia muitas certezas, mas não nos faltavam dúvidas.

Dias antes da viagem eu e o Tony conversamos. Ele me disse para cancelar o palio pois é um tipo de carro inadequado ao lugar por onde andaríamos, o que certamente, inviabilizaria nossos passeios. Disse que iríamos usar a camionete dele, uma potente Hilux, apelidada de “Black-Bird”. Contratou um cozinheiro para a gente e sugeriu que contratássemos um guia amigo dele para nos acompanhar.

Explicou que esse amigo conhecia todos os lugares e pessoas e isso era crucial para os nossos passeios, pois necessitaríamos adentrar muitas fazendas e era preciso ter autorização dos proprietários. Salientou que, apesar desse rapaz não ser especialista em aves, era nascido e criado na região, e iria nos conduzir com segurança aos lugares mais espetaculares do Pantanal (duas das sub-regiões do Pantanal: Aquidauana e Nhecolândia).

Hoje tenho certeza que nosso guia, o médico veterinário e descendente da família do Marechal Rondon, Marcelo Rondon de Barros, foi peça fundamental para podermos andar com tranquilidade pelo Pantanal. Sem ele jamais teríamos como sobreviver nas selvagens e esplêndidas terras pantaneiras.

Falo em sobrevivência, porque o local é selvagem. Hospedar-se numa fazenda de criação de gado é diferente de hospedar-se numa pousada com tudo quanto é conforto à mão. Apesar de que o Tony proporcionou-nos todas as mordomias possíveis, superando nossas expectativas. Geralmente as pousadas são instaladas em áreas pequenas se comparadas às fazendas (a Estrela tem 12 mil hectares). Muitas áreas da Estrela nunca nem foram pisadas por seres humanos. Há muitos perigos reais, como cobras, onças, varas de porcos, enxame de abelhas, alagados, perder-se no meio da nada, etc…

Marcelo, nosso guia, agia feito babá: procurava ficar de olho nos quatro marmanjos, e às vezes a nossa rebeldia inconsciente nos colocava em risco sem a gente perceber. Cada um ia para um lado no meio do campo, impossibilitando ele de ficar de olho nos quatro ao mesmo tempo. Ele confessou-me seu temor com nossa segurança: “vocês andam olhando prá cima, e não prestam muita atenção ao redor, se tiver um perigo ao redor, dificilmente vocês irão percebê-lo”. Andar junto e manter o espírito de equipe nessas horas é crucial.

O Tony e o Marcelo organizaram todo nosso roteiro. A proposta inicial incluia alguns dias em pousadas e o restante na Fazenda. Tínhamos três alternativas de Pousada no final e uma inicial. Descartamos a inicial, por achar que ficaria muito pesado, em todos os sentidos. rs rs rs

Marcelo fez um trabalho no Google Earth que possibilitou ver por onde andamos

Trilhas pela Fazenda Estrela

O plano ficou assim: chegaríamos em Campo Grande, faríamos compras de guloseimas, dormiríamos e pela manhã patiríamos para Aquidauana (143 km asfaltados) e de lá, percorrereíamos os 100 km de terra que nos separavam da Fazenda Estrela. No dia 8 saíriamos em direção ao município de Corumbá até a Fazenda Pouso Alto e nos hospedaríamos na Pousada Mangabal até o dia 11 de manhã, partindo cedo para Campo Grande, onde embarcaríamos para São Paulo logo após o almoço. De quebra, ia rolar no dia 5/7 um almoço na Pousada Barra Mansa e um passeio de barco pelo Rio Negro.

Dois dias antes de embarcarmos, outra surpresa, a estrada de Aquidauana para a Fazenda Estrela estava “trancada” pelas águas, o que implicaria em um Plano B. Esse alagamento teve como causa as chuvas que caíram no mês de junho, fenômeno que não se verificava a mais de 70 anos no Pantanal. Seria necessário contornar pelo Pantanal da Nhecolândia e Corixão para chegar na Fazenda. O Marcelo propôs três de nós irem de avião e o quarto de camionete com ele. Pelo Skipe (bendito skipe), discutimos a possibilidade de irmos todos de camionete. Marcelo disse que seria muito sacrifício cinco pessoas rodando direto mais de 300 km. Então decidimos ir de avião. O custo do voo até a Fazenda ficou em R$ 1.000, a ser dividido pelos três.

Bom, se você gostou de ler até aqui, vai querer seguir adiante e saber como foi o dia-a-dia dessa aventura:

 

* 30/06 – sábado

Malas arrumadas, ansiedade provocando comichões, vamos eu e o Godoy para Cumbica. Lá encontramos o Julio. E, posteriormente, a Carmen se juntou a nós. Ela fez uma maratona para isso. Saiu de carro de Joinville até Curitiba, torcendo para o nevoeiro não atrapalhá-la. Embarcou rumo à Congonhas. Para sorte de todos não houve contratempo nenhum. Ela chegou tranquila à Cumbica, de onde embarcamos para Campo Grande.

Chegando lá, Marcelo nos aguardava com a “Black-Bird” e a primeira surpresa: o Tony adesivou as portas e o capô com minha logomarca. Ficou o máximo. Quase chorei quando vi. Levou-nos ao hotel Brumado, bem pertinho do Aeroporto e da saída para Aquidauana.

Logomarca adesivada na Black-bird

Depois de um passeio pelo mercadão e de uma ida ao supermercado com o Marcelo, o Tony veio nos encontrar para jantarmos juntos e também e conhecer o resto da turma. O pessoal adorou ele. Fomos ao Casarão Colonial, onde pudemos desfrutar de uma excelente comida. Depois de papearmos muito, hora de bons sonhos. A aventura estava só começando.

 

* 01/07 – domingo

Acordamos cedo, tomamos café, e ficamos na recepção aguardando o Marcelo. E lá fomos nós para Aquidauana. Reabastemos a “Black-Bird”. Não há postos ao redor da Fazenda, e por isso, Marcelo colocou 200 litros de combustível na caçamba. É assim: ou você leva o próprio combustível ou tem que se contar com a boa vontade dos vizinhos. Caso contrário vai ter que voltar a pé. rs rs rs

Como falei anteriormente, um fenômeno atípico (chuvas em junho) mudou o nosso roteiro. Três de nós tiveram que ir de avião e o quarto acompanhou o Marcelo a bordo da potente “Black Bird”, contornando todo a caminho a fim de evitar as áreas “trancadas” pelas águas, o que durou mais de um dia.

Um combinadinho extra com o piloto e ele sobrevoou outras áreas além da Fazenda, mostrando-nos a região ao redor e acima do Rio Negro…é uma região singular e à medida que avançávamos, belas baías e salinas surgiam, formando desenhos ímpares. O medo de voar naquele minúsculo avião foi logo substituído pela euforia e pelo prazer de produzir fotos deslumbrantes. Foi a primeira vez para todos nós. Foi bem emocionante. A viagem de 50 minutos a bordo do monomotor foi uma surpresa a parte, que hoje eu incluiria no roteiro sem pestanejar. Vendo de cima dá para se ter uma idéia da magnitude do lugar.

Tivemos que levar pouca bagagem, só o suficiente, por causa do peso e espaço na aeronave. Lógico que demos prioridade aos equipamentos fotográficos. Chegando na Fazenda, fomos conhecer suas instalações. A sede da Fazenda Estrela é muito confortável. Possui três suites, cozinha bem equipada e dependências, sala de estar e de jantar bastantes espaçosas, alpendre, água encanada, luz elétrica e aé um fogão a lenha. É rodeada por árvores e muitos pássaros. Destaque para o Jatobá, onde o Bernardo (tuiuiú) fez seu ninho.

Na sala, fotos históricas do Tony, família e amigos, contando um pouco da vida do nosso ilustre anfitrião. Inclusive muitas com o saudoso Ayrton Senna. Emociona.

Almoçamos e fomos explorar as redondezas. Parecíamos crianças…De cara o primeiro lifer: um quiriquiri. Logo depois o segundo: a noivinha-branca. Não nos afastamos muito da sede, a conselho do Valter, nosso cozinheiro. Descansamos um pouco e aproveitamos o entardecer para fazer belas fotos. O aparecimento do Tuiuiú Bernardo no ninho e uma bela lua quase cheia foi um presente inesperado.

Jantamos, baixamos as fotos, recarregamos equipamentos (regra básica para quem não quer passar por uma saia justa) e colocamos o despertador para 5:30h.

 

* 02/07 – segunda-feira

Acordamos bem cedo e aproveitamos para registrar um espetáculo de alvorecer. Em seguida fomos explorar as redondezas da sede. Fechei a manhã com três lifers: gavião-pernilongo, coleiro-do-brejo e corucão. Além disso pude melhorar a imagem de várias aves que eu já tinha na minha lista.

Gavião-pernilongo (Geranospiza caerulescens)

Lá pelas 11h e pouco o Marcelo e o Júlio chegaram. Essa foi outra aventura à parte que só o eles podem contar, mas adianto que o Julio se deliciou com essa aventura.

Almoçamos, descansamos e saímos a bordo da “Black-bird “para passear. O lugar proposto pelo Marcelo estava intransitável, as águas haviam tomado conta. Então descemos do carro e começamos explorar os arredores dos alagados. Um misto de mata, capão, e campo/pasto. Rendeu algumas belas aves e lifers para todos, para mim foi um dos sonhos: rapazinho-do-chaco (havia logo dois deles).

À noite um susto e um aviso. A Carmen tinha acabado de lavar umas camisetas na área de serviço e pouco depois o Marcelo nos chamou para ver uma coisa. Era uma cobra transitando sobre os tanques de lavar, uma tal jararaca trepadora, apesar de pequena (um metro e pouco) dava medo. Tinha uma cabeça medonha e estava assustada. Ficamos com medo até de dormir, olhamos em baixo das camas, dentro das botas, malas, armários, banheiros.

 

* 03/07 – terça-feira

Madrugamos novamente para registrar o nascer do sol. Algumas nuvens deixaram o céu com tonalidades diferentes dia anterior. Estava mais colorido e bonito.

Mas uma surpresa estava por vir: o local onde nós três havíamos circulado no dia aanterior ao redor da sede estava tomado pelas águas.

Marcelo improvisou um banco na caçamba da “Black-Bird” para podermos desfrutar das paisagens melhor e com mais conforto. Um ia na frente com ele (sempre o Julio) e nós três, Carmen, Godoy e eu, revezámos, um no banco de trás, e dois na caçamba. Ficou nota 10.

E lá fomos nós pelas invernadas. Divertíamo-nos com o abre-fecha de porteiras. Esse passeio rendeu alguns lifers para mim: papagaio-galego (um bando), bico-de-pimenta e a danada da bichoita, que não me deu chance de uma boa foto.

Papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops)

Voltamos para a sede e o pessoal resolveu cochilar, como não gosto de dormir durante o dia (me dá moleza), fiquei perambulando ao redor e um belo lifer pousou no jatobá do Bernardo: o falcão-de-coleira. E aonde dava para chegar no local onde exploramos no primeiro e segundo dias, consegui registrar outro lifer sonhado: um arapaçu-beija-flor. A foto ficou sofrível, mas o avistamento foi emocionante.

Após o almoço, outro passeio pelas invernadas e devido a trechos impedidos pelas águas, não pudemos chegar onde o Marcelo pretendia nos levar. Nada novo nesse passeio, mas muitas fotos bonitas.

O entardecer foi um verdadeiro banquete para minhas lentes. Mais tarde, a lua cheia dourada foi um presente divino. Foi o luar mais belo que já vi.

 

 

*04/07 – quarta-feira

Logo cedo fomos até um corixo ver se este estava permitindo passagem para o Rio Negro. A idéia era levar o barco por esse local no dia seguinte. O local era magnífico.

No retorno, mais um lifer: maracanã-de-colar. Paramos perto de um campo com árvores mistas (baixas e altas) espalhadas. Mais três lifers: joão-de-pau, papa-formiga-vermelho e balança-rabo de máscara.

Maracanã-de-colar (Primolius auricollis)

Papa-formiga-vermelho (Formicivora rufa)

As águas continuavam escoando para os lados da Fazenda, trancando muitos caminhos e em outros, obrigando o Marcelo a descer, examinar o local descalço antes de submeter a “Black-Bird” a um atolamento. Por conta da experiência dele não atolamos nenhuma vez, mas muitas vezes ficamos ziguezagueando em busca de um caminho alternativo no meio do pasto.

Após o almoço na fazenda, fiquei circulando ao redor. Fiz umas fotos bacanas, mas devido ao calor, preferimos uma descansadinha.

Periquito-de-cabeça-preta (Aratinga nenday)

No fim do dia, ao redor da fazenda, deparamo-nos com duas belas araras-canindé. Meu flash resolveu dar erro, retirei-o e nem o pop-up funcionava. Fiquei brava e chateada, coloquei ISO alto e cliquei as lindonas assim mesmo.

Voltei para a casa, limpei os contatos da câmera e flash, e nada. A minha sorte é que carrego duas câmeras, dois flashes e duas teles, sempre. Ano passado a 100-400 perdeu o auto-foco em pleno pantanal norte, o que me impediu de fazer melhores fotos já que nunca havia usado foco manual. Foi uma dura lição.

O bom é que no dia seguinte tudo estava funcionando perfeitamente. Variações bruscas de temperaturas podem interferir no funcionamento dos equipamentos. Durante o dia era muito quente, mas à noite fazia muito frio. Provavelmente o flash superaqueceu e sofreu choque térmico com o frio do entardecer.

O Marcelo havia ido depois do almoço com o Godoy levar o barco do Tony para a beira do Rio Negro e deixar tudo pronto para que, no dia seguinte, pudéssemos navegar. O motor não pegou. O jeito – o Marcelo sempre tinha um jeito prá tudo – seria irmos no dia seguinte até o Pesqueiro do Marcelo – chamado Bocaiuval, ao lado da antiga propriedade de sua família, a Fazenda Rio Negro, buscar o motor dele. Almoçaríamos no Pesqueiro (que nada mais era do que uma casa, bem equipada, com belas fotos antigas da família na parede). A Fazenda Rio Negro é aquela onde foi filmada a novela Pantanal.

 

* 05/07 – quinta-feira

Após o rotineiro café, o ritual de “passa filtro solar, passa repelente, pega a mochila, pendura equipamento no pescoço, enche a garrafinha de água”, “vamu q vamu” né. Partimos por volta de 6h e pouco. Antes uma foto para homenagear o meu amigo Tony Moura.

Uma paradinha na ponte do Rio Negro e toca prá frente. O Rio Negro por si só já é um deslumbre.

Rio Negro

Tudo muda depois da ponte. A estrada é de areia branca e fininha, lembra praia.

Foi um festival de belas paisagens, muitos bichos, muitas aves e mais um lifer dos sonhos: tachã. Também cliquei mais três lifers: o trinta-reis-anão e a mexeriqueira (batuíra de esporão) e o picapauzinho-anão.

Tachã (Chauna torquata)

No caminho, um show de duas ariranhas, uma comendo peixe e a outra vigiando. Ficamos que nem bobos, clicando sem parar.

Na Bocaiuval, comemos nosso arroz-carreteiro, descansamos, ouvimos histórias contadas pelo Marcelo sobre sua família, pegamos seu motor e retornamos para a Estrela.

Chegamos já escurecendo, muito cansados, colocamos em prática a rotina diária de descarregar cartão, recarregar baterias, limpar lentes, etc, etc. Jantamos e fomos direto dormir. O dia seguinte prometia, afinal, íamos navegar pelo Rio Negro.

 

* 06/07 – sexta-feira

Cedinho já estávamos a postos. Fomos até onde estava o barco, o Marcelo colocou o motor e zarpamos. O Rio Negro possui uma beleza e uma paz que não tem como explicar. Muitas aves bonitas e nenhum lifer.

Gralha-do-pantanal (Cyanocorax cyanomelas)

Mutum-de-penacho (Crax fasciolata) – fêmea

Descemos do barco na Pousada Barra Mansa, onde conhecemos os primos do Marcelo, o Daniel Rondon e sua esposa Poliana – uma graça os dois. O lugar é divino e vale muito para quem quiser hospedar-se por lá. O almoço estava maravilhoso. Fizemos muitas fotos na Pousada e voltamos a navegar.

O show ficou por conta de um jovem carrapateiro, catando carrapatos numa família de capivaras. Foi para mim um dos pontos altos da nossa viagem. Um único lifer, pomba-galega, na barranca do rio, estava conformada com as belas fotos do dia. (veja vídeo ao final)

Carrapateiro (Milvago chimachima)

Muito cansados e com medo de ficar muito escuro quando chegássemos onde estava a camionete, evitamos ficar parando para clicar muita coisa.

Vimos o por do sol, de dentro do barco. Sacoleja prá cá, sacoleja prá lá, e eis-nos de volta à sede, mortos de fome e de sono. Nada de arapapá ou garça-da-mata. Cardeal-do-banhado e onça-pintada nem pensar. rs rs rs…mas os cartões das câmeras lotados de lindas fotos.

Começou a esfriar muito. Percebemos uma mudança radical no clima. Nem parecia que estávamos no Pantanal em época de seca.

 

* 07/07 – sábado

Amanheceu nublado e sem energia elétrica. Araras-canindé faziam algazarra numa árvore na porta da nossa cozinha. Frio que só, devia estar menos de 15º. Mesmo assim, fomos passear todos animados. Ao saírmos, foram as araras-azuis no mangueirão que propiciaram boas fotos. Logo mais adiante, um lifer para começar bem o dia: arapaçu-do-campo.

Arapaçu-do-campo (Xiphocolaptes major)

Tivemos que voltar prá sede porque começou a chover forte. Não havia muito o que fazer, a não ser arrumar as malas para a partida no dia seguinte rumo à Pousada Mangabal. Consegui, num dos momentos que parou de chover, reencontrar o arapaçu-beija-flor e fiz várias fotos lindonas dele.

Ficamos ao redor perambulando, sem muitas aves. As poucas que deram o ar da graça renderam boas fotos. Precisei usar o Better Beamer Flash X-tender e gostei do resultado. O que chamou a atenção foi o bando imenso de Tapicuru-de-cara-pelada nos alagados a poucos metros da casa.

O almoço foi um pernil de porco monteiro que comi até enjoar. Dormimos durante a tarde e então a energia voltou. Terminamos de preparar tudo, sob um frio intenso e ficamos vendo as fotos que havíamos feito até então. Após o jantar, deixamos a casa arrumadinha, e fomos dormir.

Godoy, Marcelo, Valter, Carmen e Julio

Tristes por abandonar a Fazenda, e na expectativa das aventuras que nos aguardavam, viramos mais uma noite.

 

* 08/07 – domingo

Por volta de 8h já estávamos na estrada. Um vento geladíssimo soprava. O céu permanecia nublado. O trator da fazenda nos acompanhou até a ponte sobre o Rio Negro, para que não corrêssemos o risco de atolar.

O Valter, nosso cozinheiro, teve que viajar junto com a gente, onde esperávamos encontrar em alguma fazenda no caminho uma carona para ele retornar à Campo Grande. Como não havia lugar, ele foi na caçamba junto com as bagagens.

Eu presumo que por causa do amarelo ouro da lona na carroceria, um grupo de araras-azuis-grande nos acompanhou por um tempão. O Valter ia conversando com elas. Estava muito divertido. Chegou a dizer para uma seriema, que ia assar ela todinha…a gente morria de rir dentro da camionete.

Logo no início do caminho, o primeiro lifer do dia: o tão sonhado urubu-rei. Foram logo dois. Lindos, pena que um pouco distante, para fotos melhores. Foi muito emocionante.

Fizemos um “pit stop” na Pousada Barra Mansa e prosseguimos viagem, passando por muitos corixos, baías e salinas. Muitas aves e bichos pelo caminho. Outro lifer para mim: um belo exemplar de maguari. Onça que é bom, nada.

Maguari (Ciconia maguari)

Passamos pela fazenda São José, de propriedades de primos do Marcelo. Sua tia Jussara, seu tio, e seu primo Raul nos receberam muito bem. Ao tirar as botas no caminho para examinar um terreno alagado, Marcelo esqueceu-as por lá. O primo lhe deu um novo par, novo não, pois era bem surrados rs rs rs. O almoço foi “regado à muita prosa”.

Não conseguimos carona para o Valter e ele teve que se conformar e ir com a gente. Mas no fundo, no fundo, ele também estava adorando a aventura.

Vimos muitos bichos pelo caminho, apesar do frio.

Chegamos na Pousada Mangabal (região de Corumbá/Nhecolândia) já no final do dia, sol se pondo. Fomos muito bem recebidos pelo proprietário, o Fernando Barros, também primo do Marcelo. Acho que no Pantanal todo mundo é parente dele…ou pelo menos amigo de infância. rs rs rs

Foi o tempo de nos instalarmos, jantarmos e cair na cama. Decidimos que, para ficar menos cansativo, viajaríamos de volta a Campo Grande no dia 10/07 logo depois do almoço e não no dia 11 como previsto inicialmente. Isso permitiria que o resto do pessoal conhecesse o Parque das Nações Indígenas no centro da capital. Eu já conhecia devido às corridas de Gran Turismo Brasil no ano anterior.

 

* 09/07 – segunda-feira

Levantamos cedo, como de costume. Um apetitoso desjejum nos aguardava. Em seguida, o nosso primeiro passeio. A Pousada Mangabal dispõe de veículo especial para turistas fotografarem: um Toyota Bandeirantes, com bancos estofados e teto de lona, como uma “jardineira”.

O Marcelo foi com o Godoy para fotografar alguns mamíferos, enquanto eu, Carmen e Julio, fomos de “jardineira” com o guia Jurandir em busca de “penosinhos”.

Jurandir de cara, realizou outro sonho meu: fotografar um caburé. Ele apontou o bichinho no meio da mata, parado no alto, quietinho…Nossa! Foi uma emoção de doer. Depois disso, fotografamos muitas aves. Entre elas mais dois lifer: uma apressada e fujona perdiz e a maria-cavaleira-de-rabo-enferrujado. Passeamos por muitos lugares bonitos. Retornamos para o almoço.

Após algumas horas de descanso, lá vamos nós de “jardineira” de novo. Passamos por capões, matas de galerias, campos, pastos, corixos, vazantes, enfim, uma infinidade de lugares bonitos. Eu queria ver o surucuá-de-barriga-vermelha, Jurandir nos levou ao local onde nada mais nada menos que o grande Edson Endrigo havia fotografado essa espécie. Chamei pelo play-back e nada. Demos um tempo e de repente, o Jurandir fez “psiu” e lá estava ele, lindão, aguardando nossos cliques.

No fim do dia, ainda fizemos algumas fotos ao redor da Pousada. Eu estava muito cansada. O Marcelo sugeriu um passeio noturno, mas nem eu nem o Julio topamos. A Carmen e o Godoy foram. Avistaram mãe-da-lua, bacurau, e óbvio, uma onça-parda passou por eles rapidamente. Contaram para a gente no dia seguinte, cheios de emoção. Arrependimento bateu por não ter ido? Sim, mas um dos aprendizados mais importantes das minhas últimas viagens (receita da minha amiga Carmen Bays): “aprenda a ouvir o seu corpo e respeite seus limites”. Foi o que eu fiz.

 

*10/07 – terça-feira

Nem dava para acreditar que era nosso último dia de Pantanal. Eu poderia ficar um tempão por lá que não enjoaria. Logo ao sair do quarto, numa árvore bem na nossa frente, dois caburés paradinhos, “pedindo” para serem clicados…começou bem a nossa despedida do pantanal. Até umas 9:30h havia feito muitas fotos bonitas, mas nenhum lifer.

Eis que então o Jurandir avista um dos meus sonhos de consumo fotográfico: pica-pau-de-banda-branca. Ele nos deixou fazer um ensaio completo. Voltava muito feliz, quando o Jurandir parou o Bandeirantes e falou: – um gavião branco. E esse foi meu último lifer no pantanal sul: um gavião-de-rabo-branco. Pelo menos por enquanto.

Pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus)

Gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus)

Depois do delicioso almoço, as despedidas de praxe, “vamu q vamu” rumo à Campo Grande. Passamos pelo Corixão, e pegamos a MS 228, passamos pelos municípios de Rio Verde de Mato Grosso e do Rio Negro, neste último deixamos o Valter, pois a partir desse município a estrada era asfaltada e ele não poderia viajar na caçamba. Ele iria voltar de ônibus.

O cansaço bateu tanto, que nem gavião-caboclo fazia a gente parar, saltar do carro e sair fotografar.

Chegamos à noite em Campo Grande, direto para o Hotel. Nem saímos para jantar. Eu e Carmen pedimos um lanche no quarto e caímos no sono.

 

* 11/07 – quarta-feira

Logo cedo Marcelo nos apanhou e levou-nos ao Parque das Nações Indígenas. É um parque muito bonito. Nenhum lifer, mas as fotos produzidas ali ficaram lindíssimas. Pelo menos não posso reclamar, acabei vendo a onça-pintada no parque e não foi em jaula não…rs rs rs

Tomamos água de coco na saída do parque e depois fomos jantar numa churrascaria gaúcha. Conhecemos a Jajá, esposa do Marcelo e o filhote dos dois, o pequeno João.

De lá passamos no hotel, carregamos as bagagens e fomos direto para o aeroporto, onde uma simpática atendente da Tam fez nosso check-in.

Fim de uma aventura onde exploramos não-exaustivamente o Pantanal com nossas câmeras a tiracolo. Cada amanhecer nos reservou surpresas. Logo ao alvorecer, éramos despertados pelo cantar dos pássaros e presenteados com belas luzes e cores. Finalizávamos cada dia com paisagens de tirar o fôlego. Pura poesia.

Os melhores momentos da nossa viagem eu registrei num fotolivro, imortalizando, dessa forma, as belíssimas paisagens e as fascinantes experiências que desfrutamos ao longo de toda a viagem.

 

Ficam aqui algumas DICAS para o Pantanal Sul:

1. Não submestime o Pantanal, respeite-o. Ele tem seu próprio curso.

2. Para quem já tem um número significativo de lifers é extremamente importante contar com um bom guia birdwatching. No nosso caso, não caberia um guia birdwatching na camionete, eramos nós quatro mais o nosso guia de sobrevivência no Pantanal, que sem ele acho que mal sairíamos alguns metros do alpendre da casa.

3. Não se aventure a andar sozinho pelas estradas sem uma pessoa conhecedora do local. Não há placas e se você se perder, reze muito para ser achado antes do anoitecer.

4. No Pantanal, você pode optar por viver uma aventura de forma mais selvagem, sem tanto conforto, adentrando por áreas nunca antes exploradas, ou tirar proveito das mordomias que as pousadas oferecem.

5. Leve muito repelente (indico o Exposis) e filtro solar. Não deixe faltar pilhas e baterias. Leve uma régua de tomadas. Você sempre vai precisar de várias. E sempre que possível, um adaptador universal de tomada.

6. Nunca saia sem uma garrafinha de água. Água de coco é ideal para hidratar e repor os sais minerais do corpo. Água tônica elimina cãimbras.

7. Nunca vá para um lugar dos sonhos sem equipamento sobressalente. É arriscado um equipamento falhar e você ficar na mão, chupando o dedo enquanto seus amigos criam calos de tanto fotografar.

8. Mantenha malas e mochilas fechadas. Botas, sapatos, galochas, etc sempre virados para o chão e olhe antes de calçar. Os bichos peçonhentos adoram lugares como esses.

9. Leve seus remédios costumeiros. Não tem farmácia por perto.

10. A sair em grupo lembre-se que o respeito mútuo vem em primeiro lugar. Procure andar sempre junto. Não se afaste, pois o perigo é real e maior do que se possa imaginar.

11. Procure se aproximar de uma ave sempre junto do seu grupo. Muitas vezes um colega mais afoito quer fazer uma boa foto e se aproxima mais do que deveria, espantando a ave. Isso impede os demais de conseguir uma boa foto. Uma boa técnica são os três passinhos conjuntos…

12. Em se tratando de grupos sem muita experiência em passarinhada, bata um papo antes e explique que não é proibido conversar em campo, mas tem momentos que a imobilidade e o silêncio são imprescindíveis para que um pássaro permita a aproximação e se deixe observar e clicar. É preciso ficar atento.

13. E por fim, estude bem as aves do local, para quando avistar uma saber o que encontrou. Tenha um bom livro-guia de campo. Indico dois: Aves do Brasil – Pantanal & Cerrado e Guia Fotográfico Aves do Pantanal

Uma coisa é certa: o Pantanal é um lugar para se voltar muitas e muitas vezes. E eu voltarei quantas puder!

 

Assista abaixo o vídeo do carrapateiro e as capivaras