Há meses penso em conhecer Intervales, mas achava que era chuva o tempo inteiro, escuro, muita lama e ladeira, acomodações precárias e difícil de conseguir vagas. O lugar é famoso pelas cavernas e cachoeiras, e eu tinha ouvido falar que era preciso fazer reserva com meses de antecedência. Bom, é verdade que choveu todos os dias, às vezes bastante, mas de resto eu estava enganada.

 

  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: Claudia Komesu. Câmera: Nikon D300 e lente Nikkor 80-400
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Resumo da viagem para Intervales

Participantes da viagem: Claudia Komesu, Cristian Andrei, Rafael Fortes, João Marcelo da Costa, Luiz Rondini, Elisa Torricelli, Rogério, Bruno Salaroli, Lili. No fim de semana, companhia do Edson Endrigo, Gisele, Helena e Giovana.

  • Data: 3 a 10 de janeiro de 2010.
  • Tipo: viagem passarinheira organizada entre amigos.
  • Destaques e quantidade de espécies: não tenho o levantamento das espécies, mas os destaques foram os gaviões: o gavião-pato macho, que pousou praticamente na minha cabeça e eu não consegui fotografar porque estava no manual, com uma regulagem para ave pequena no escuro; e o lindo gavião-bombachinha com filhote, que vimos no final da Estrada do Carmo. O Edson Endrigo também fotografou, e gostou da foto a ponto de colocá-la como página dupla no livro Aves da Mata Atlântica.
  • Nível de dificuldade: médio. O lugar é fácil de chegar, fica a 3h de São Paulo, as trilhas são planas. Mas é Mata Atlântica preservada, ou seja, no geral bem escuro.
  • Informações e reservas: (15) 3542-1245 , (15) 3542-1511.
  • Infraestrutura do local: parque estadual bem conservado e acostumado com fotógrafos. Pousadas do parque simples mas com boa manutenção. Ficamos na pousada Pica-pau, dizem que é a melhor. Quartos amplos, piscina, diária barata. Há um refeitório no parque.
  • Oportunidades fotográficas: variam do razoável para o incrível. Fui em janeiro, um mês chuvoso, então pegamos bastante mata escura e chuva, o que dificulta bastate as fotos. Mas dá para ver como o lugar é rico em fauna. Se eu não tivesse errado a regulagem, poderia ter uma foto incrível do raro gavião-pato. Peguei dois gaviões-bombachinhas muito bons: o tal do ninho, e um outro, em uma outra trilha, que veio voando em nossa direção e pousou em um lugar bom. Consegui uma linda foto dele vocalizando, que foi escolhida para representar a espécie no guia de aves do Parque Nacional da Tijuca.
  • Como chegar: Partindo de São Paulo: Castelo Branco à Tatuí -> Capão Bonito -> Ribeirão Grande. 3h de São Paulo. 20km de estrada de terra bem conservada.
  • Guia ornitológico: (reservar o guia ornitológico ao fazer a reserva na pousada): Betinho, Luís ou Faustino. Excelentes. Pontuais, gentis, tranqüilos, conhecem todas as vocalizações, sabem os pontos mais prováveis para encontrar as aves. Importante: eles têm visão e audição excepcionais, mas não têm playback. Se você não vai contratar um guia como o Rafael Fortes ou o Carlos Henrique para lhe acompanhar em Intervales, tente levar seu próprio MP3 organizado pelos nomes científicos (os guias de Intervales estão mais acostumados com os nomes científicos).
  • Custo da viagem: não tenho o valor total, mas seguem as anotações dos valores por item em 2010
    – Apenas hospedagem: diária de R$ 35 por pessoa. Na Pica-pau, quartos com 3 a 4 camas.
    – Café da manhã R$ 8, Almoço-jantar R$ 15 por refeição.
    – Você só pode sair com guia. Os guias comuns têm um valor baixo, acho que uns R$ 8 por um passeio de umas 3h, mas vale a pena contratar os guias ornitológicos. O valor das diárias deles não está claro. Pagamos R$ 50/dia, mas havia uma ameaça da cobrar R$ 100, devido à quantidade de horas com o guia (ficamos com o Betinho das 7h às 17h-18h-19h).
    – Pedágios: em torno de uns R$ 70 ida e volta.
    – Combustível: o posto de gasolina mais próximo fica a 25km, em Ribeirão Grande. Abasteça na cidade anterior, Capão Bonito.

Combinei o passeio em dezembro, via o fabuloso Wikiaves: comentei uma foto do Luiz Rondini, feita em Intervales, e ele me respondeu que ia para lá em janeiro, e se eu queria ir. Opa, claro que sim. Convidamos o Emerson Kaseker, que não podia ir; o João Marcelo e a Elisa Torricelli. A Elisa convidou o Rogério e o Bruno Salaroli. O Rafa Fortes seria nosso guia.

A Mata Atlântica dessa região é considerada uma das mais preservadas no Estado de São Paulo, e há muitas aves.

Para você ter uma idéia há uma estrada (do Carmo) em que avistei o falcão-relógio, dois avistamentos de gavião-pombo-grande, o gavião-pato de perto!, gaviões-bombachinha, além de gaviões-tesoura sobrevoando a área. O Edson Endrigo fotografou um urubu-rei em novembro/09, e os guias do parque já viram o famoso gavião-de-penacho.

O saí-de-perna-preta faz ninho perto da recepção, há ninhos de maria-leque próximos das trilhas, o corocochó canta o tempo todo, a borralhara mora ao lado da pousada.

No início de 2010 houve a floração do bambu, está cheio de sementes, e o guia prevê que ficarão maduras em fevereiro-março. Além de festa de sporophilas, na última floração, 5 anos atrás, meu guia tem certeza de que viu a pararu-espelho, Claravis godefrida, uma pomba ameaçada de extinção, seguidora de taquaras, tão rara que não tem foto dela no Wikiaves. Só por isso já dá vontade de fazer um plantão lá quando as sementes estiverem maduras.

Entre setembro e dezembro as aves estão mais ativas, com destaque para os meses de setembro e outubro. É uma região propensa a chuva e neblina em qualquer época, mas no verão choves.

No inverno, principalmente em julho, se você ficar dias suficientes poderá colocar bananas maduras no comedouro e atrair os esfomeados da mata.

Quando fui choveu bastante, mas sempre com algumas horas para fotografar. Nessa época do ano, leve sempre uma mochila impermeável e guarda-chuva. Se possível, capa-de-chuva também. Tem bastante lama e poças, um sapato impermeável é importante para o conforto. Também sugiro comprar uma embalagem pequena de repelente para levar no bolso (tenho uma da Autan, que recarrego com Off). Mais informações sobre preparativos

A maioria das trilhas tem desníveis suaves e são largas o suficiente para carros. Mas a famosa estrada do Carmo, que corta uma área de mata primária que tem até mono-carvoeiro, está mal conservada e é preciso um 4×4 para chegar ao trecho em que foi avistado o gavião-de-penacho, e onde o gavião-pato pousou na nossa frente. Fora esse trecho da estrada do Carmo, as outras estradas podem ser feitas com um carro normal.

Segundo o guia de lá, o parque só lota mesmo nos feriados: são essas as ocasiões em que é preciso reservar com meses de antecedência.

O lugar é realmente especial, vale a pena voltar várias vezes.

Nessa viagem, tive a honra de conviver um pouquinho com o Edson Endrigo e família, e até passarinharmos. No Wikiaves comentei a foto dele do urubu-rei, e disse que iria pra Intervales no início de janeiro. Ele me respondeu que estaria lá no fim de semana de 9/01, e para nos encontrarmos. Eu respondi que adoraria, mas não havia lugar na pousada. Ele me explicou que a pousada estava lotada porque ele tinha fechado todos os quartos para a festa de aniversário da filhinha dele, a Giovana, mas que havia 1 quarto livre. Passarinhamos 2h no sábado de manhã, e depois no domingo à tardezinha. O Edson é um amor de pessoa, e simplesmente me perguntou “qual a ave que você mais gostaria de ver aqui?” Não foi fácil responder, mas pela especialidade, respondi que era o pica-pau-de-cara-canela. Procuramos o bicho, mas mesmo com as excelentes vozes que o Edson tem, o bicho não quis aparecer. Em compensação ele chamou o tapaculo-preto, e consegui uma foto totalmente no limpo. Também vi ele tocar uma gravação que simplesmente trouxe o falcão-relógio em 30 segundos, pena que o bicho só passou pela gente e não quis pousar num lugar visível. E, graças à generosidade do convite para o fim de semana, tive a chance de ver o gavião-pato de perto, pena que o Edson e o Cris não estavam comigo e o Betinho. O Edson tem conhecimento e técnicas formidáveis, além de ser muito simpático, simples e engraçado. Se for encontrar com ele e quiser agradar, leve tubaína, jujuba e pipoca-doce :o)

 

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