Observar a harpia na floresta amazônica foi para mim como imergir num mundo de sonhos. Este relato é para aqueles que queiram realizar este sonho, para mim, o maior.

Gavião-real (Harpia harpyja) Harpy Eagle

 

  • Texto e fotos: João Sérgio Barros
  • Câmera: Canon 60D e lente Canon 100-400
  • Viagem feita a Alta Floresta – MT em abril de 2012

A harpia ou gavião-real é praticamente uma unanimidade entre os observadores de aves. Um conjunto de atributos e condições fazem desta águia uma das espécies mais cobiçadas por birders de todo mundo.

A harpia é a mais poderosa ave de rapina e é uma das duas maiores águias da Terra. Seu habitat é outra atração, nossas florestas são únicas, admiradas por todo mundo pela beleza e biodiversidade. Observar a harpia na floresta amazônica foi para mim como imergir num mundo de sonhos.

Este relato é para aqueles que queiram realizar este sonho, para mim, o maior.

O ninho, conforme escutei diversas vezes das pessoas que por lá tive contato, é o de acesso mais fácil. E não duvido. Quando se está aterrisando em Alta Floresta/MT já nos chama atenção um fragmento de mata que termina no aeroporto. Este fragmento, de cerca de 100 hectares, envolve o Floresta Amazônica Hotel e tem a honra de ser o lar de um casal de harpias que tem se reproduzido a cada 3 anos desde a descoberta do ninho. O ninho fica a 15 minutos de caminhada da sede do hotel, por trilha limpa e plana.

O hotel disponibiliza serviço de escalada para a plataforma por 240 reais por dia (fora o valor da diária, que não era cara). Tal plataforma fica sobre uma árvore a 20 metros de altura e a 50 metros do ninho. Há a opção de observar o ninho do chão, é cobrada neste caso uma taxa de 10 reais. No meu caso subi com o Magrão, excelente pessoa e muito profissional.

No dia posterior à minha chegada saímos pela manhã rumo à realização desse antigo sonho. Assim que adentramos a mata, o chora-chuva-preto, uma linda ave, nos deu as boas vindas. Chegamos ao pé da árvore que iríamos subir, por ali também havia o local destinado à observação do ninho no solo. A subida exige um certo esforço. O acesso à pequena plataforma é feito por uma espécie de escada fixada no tronco da árvore, mas a segurança é total, pois você e seu equipamento ficam presos o tempo todo por cordas à árvore. Primeiro o escalador iça e acomoda o equipamento, e por último sobe o birder, que usa uma espécie de cinto em forma de cadeira preso por uma corda a uma ramificação do tronco, próximo da plataforma, de onde o escalador fica monitorando a subida, mantendo a corda sempre tensionada. Após vencer essa etapa e chegar à plataforma você tem uma visão privilegiada do ninho, o que não dispensa o uso dos binóculos, haja vista que 50 metros é uma distância considerável, mesmo quando estamos observando uma ave do porte da harpia.

Acompanhar a rotina desta nobre família foi um privilégio! Apesar do grande desconforto de ficar mais de 10 horas praticamente numa posição e do forte calor, presenciar certos comportamentos, alguns até inusitados, foi uma experiência incrível. Um que me chamou especialmente a atenção foi a sequencia de “bocejos” que mãe e filhote realizaram antes de começar a devorar as presas. Isto mesmo, no menu do dia havia um macaco e um tamanduá-mirim! O macaco, que não consegui identificar, foi trazido pelo macho, que após alguns minutos deixou o ninho, o filhote que até então não vocalizava começou a fazê-lo insistentemente, até que chegou a grande fêmea, trazendo o tamanduá arborícola.

Outro comportamento interessante que pude observar foi a coleta de galhos com folhas realizada pela fêmea. Um dia após o banquete, ela saiu por três vezes do ninho para buscar tais galhos em duas árvores diferentes e próximas ao ninho. O Magrão, que é engenheiro florestal, me disse que ela coleta sempre de algumas árvores que pertencem a uma mesma família, creio eu devido a possível propriedade repelente desse gênero florístico. A última dessas três vezes pude observar do solo, pois foi logo após descer, no último dos dois dias que subi à plataforma. Foi como um “grand finale”: Um forte barulho de quebra de galho denunciou, olhei para cima e vi aquele “monstro” cruzando a mata carregando um grande galho no poderoso bico, então naquele instante, vendo pela primeira vez a harpia daquele ângulo, de onde os primeiros exploradores a viram, lembrei-me da origem mitológica de seu nome. Realmente a harpia é uma espécie ímpar, fantástica! Merecedora de seu status e fama mundiais.

Bem caros colegas, foram cenas inesquecíveis que tentei registrar para sempre com minha câmera. Algumas vezes até dispensei a máquina para poder observar, em toda sua grandiosidade, aquele momento tão esperado e realmente maravilhoso, que só pode vivenciar quem já teve o privilégio de ver uma harpia reinando livre em seu habitat. Provavelmente em 2015 haverá um novo ciclo reprodutivo, portanto há muito tempo para se planejar, e sonhar.

 

Observação da Virtude: há outro ninho ativo de harpia em Parauapebas – PA, na floresta de Carajás. Fica na beira da estrada, mas não tem posto de observação, não seria possível conseguir fotos como as do João Sérgio. Post da viagem.