De 18 a 29 de outubro, Sergio Gregório e eu fizemos uma passarinhada muito divertida e produtiva, em termos de avistamentos e registros pessoais de novas espécies de aves, pela Amazônia brasileira.

Chora-chuva-de-cara-branca (Monasa morphoeus) White-fronted Nunbird

 

Texto e fotos: Júlio César Silveira

Vou descrever nesse post a primeira parte da viagem (18 a 23 de outubro), que foi a estadia em Cláudia-MT, onde fomos recebidos e guiados pelo amigo Valdir Hobus, que nos convenceu a conhecer a região de tanto nos provocar com fotos de aves belas e raras, endêmicas da nossa floresta amazônica.

No meu caso foram 64 novas espécies com registros fotográficos e alguns registros sonoros de aves que só agora estou descobrindo o que é, pois era tanta atividade na mata que gravávamos os sons e antes de tentarmos atrair aquela espécie já aparecia outra espécie “mais fácil” e assim por diante.

Sérgio Gregório (esq.), Haiga Hobus, Valdir e eu, jantando, fazendo resumo do dia e se preparando para mais uma corujada!

Só não voltei mais feliz desse passeio pelo fato de ter confirmado “in loco” a tal da devastação da Amazônia.

Uma coisa é assistir aos noticiários de TV sobre desmatamentos, incêndios criminosos, retirada de madeira de forma ilegal (como se houvesse uma forma “legal” de se retirar madeira da floresta Amazônica!). Outra coisa é ver isso acontecendo ao vivo e a cores. Quando ouvimos falar que, por ano, mais de 25.000 km² de mata nativa é derrubada, não fazemos idéia do tamanho disso. Isso significa mais ou menos 700 campos de futebol desmatados “POR DIA” e que, andando por lá, se tem a exata dimensão do que isso significa: devastação…

O município de Cláudia teve sua população estimada em 2006 em 12.073 habitantes e sua área é imensa, cerca tem 3.820,948 km², originalmente ocupada por 100% de floresta amazônica… hoje não resta 30% dessa área (fonte:Wikipédia).

Pode-se dizer que Cláudia, por estar no nordeste do estado de MT, na zona de transição entre cerrado e Amazônia, está na beirada da Amazônia. Então aquela história de que a Amazônia esta sendo comida pelas beiradas poderia ser verdade, mas infelizmente não é, a beirada já foi comida há muito tempo e não há mais volta. Nem mil anos de reflorestamento devolveriam o que já perdemos.

É triste ver a floresta em 5 estágios diferentes, um do lado do outro:

1- Pequenas ilhas de mata preservada (ou quase, porque ainda tem a tal da história do manejo sustentável)

2- Matas que já foram “sustentavelmente manejadas” e só restou a capoeira, pois a madeira boa já foi tirada. Percebe-se nessa foto que a “densidade” da mata que aparece ao fundo é menor.

3- Esqueletos de mata com milhares de troncos de árvores que não valem tanto, queimados, à mostra… Uma imagem de filme de terror;

4-Montes de toco, empilhados pelos correntões, alguns queimando, outros esperando pra serem queimados!

5-A lavoura e o pasto, todos bonitinhos com uma castanheira solitária aqui, outra ali, num local onde outrora viviam as criaturas mais belas do planeta e hoje só sustenta bandos de tiziu, ruralistas gananciosos e políticos hipócritas.

A lei proíbe a derrubada de castanheiras-do-pará. E, como pode se ver, a lei está sendo cumprida, as castanheiras são mantidas em pé!

Só que a lei não diz que a castanheira não pode ser queimada e morta em pé. Então o que se vê na Amazônia é uma espécie de esqueleto da floresta. O próximo passo é passar o correntão arrastando tudo que sobrou.

Por que o governo não incentiva o turismo na Amazônia? Porque aí todos veriam essa desgraça… Conheçam a Amazônia antes que acabe!

Um pedacinho da Amazônia indo embora…pra nunca mais voltar!

Mas, desabafos à parte, vamos falar de coisa boa. Nos fragmentos de mata que restam em Cláudia, Valdir Hobus tem feito descobertas maravilhosas. Algumas das belezas que ele nos mostrou estão nas fotos abaixo, mas tem muito mais…mas, muito mais mesmo… Mesmo tão desmatada, ainda resta um verdadeiro paraíso pra quem gosta de natureza, passarinho, de sentir a sensação de estar no maior bioma da Terra.

As corujadas eram sagradas… todos os dias íamos atrás da murucututu – Pulsatrix perspicillata, da coruja-de-crista – Lophostrix cristata e da corujinha-relógio – Megascops usta.

corujinha-relógio – Megascops usta

Dessas todas, só vimos a M.usta… mas foi uma baita aparição… a bichinha colaborou… Pretexto pra voltar: Ver as outras corujas

Para aqueles que quiserem conhecer a região, entrem em contato com o Valdir, fazendo trabalho de guia ele tem um esquema muito legal de passarinhar em Cláudia. Vale a pena.

Todas as fotos do post são da região de Cláudia.

 

 

 

Amazônia (+)

Viagens (+)