A RPPN Serra Bonita é um lugar com paisagens de uma beleza impressionante. Floresta preservada em que é fácil chegar até o alto de morros, graças às torres de telefonia. Dessas plataformas é possível ter bons avistamentos das aves de rapina. Também há especialidades como o gravatazeiro, o acrobata e o joão-baiano, apesar de nenhuma delas ter dado o ar da graça para a gente, por mais que o Gustavo Magnago tentasse. As acomodações são bem confortáveis, com janelas amplas e vista para a mata. Se um dia eu precisar de paz, beleza e isolamento para escrever um livro ou um projeto, esse seria um dos lugares.

 

Texto e fotos: Claudia Komesu

Não vou fazer resumo da viagem porque não há muito o que dizer. É um lugar lindo e com certeza vale a pena, mas estávamos cansados e querendo só aproveitar a paisagem. O Gustavo, nosso guia, estava até meio inconformado com o corpo mole. Mas não era só nossa culpa: nós tentamos achar as especialidades, mas umas semanas antes alguns biólogos tinha passado por lá, com autorização para fazer coleta (ou seja, matar a ave em nome da ciência), e aparentemente eles tinham levado embora todos os bichos mais próximos das trilhas.

Podia não haver diversidade, mas cenário lindo, a segunda maior coleção de mariposas neotropicais do mundo, os rapinantes – bando de gaviões-pato, gavião-pega-macaco, urubu-rei. É um lugar espetacular.

Em O Silêncio dos Inocentes tem uma cena em que um homem está examinando uma pupa e fala “ah, alguém amou você. Você foi alimentada com mel, …” (e outros ingredientes de que eu não vou lembrar).

Carrego essa cena há anos comigo, e sempre penso no quanto objetos, coisas, pessoas ou obras transparecem da sua história de vida. Por isso, quando o Dr. Vitor Becker começou a mostrar sua incrível coleção de mariposas, mais de 250 mil exemplares, a terceira maior coleção de mariposas neotropicais do mundo, perdendo apenas para a de Washington e de Nova York, centenas de gavetas perfeitamente arrumadas em uma sala climatizada, e bichos tão bonitos que nem dava para acreditar que existisse tanta diversidade da beleza, o que estava pungente pra mim era o amor. Uma coleção construída sozinha por um homem, ao longo de 40 anos, que palpitava excelência, extrema competência, e um imenso amor no cuidado e apuro com que os bichos foram perfeitamente processados e catalogados.

Chorei porque a beleza, a excelência e esse tipo de dedicação me comovem. Não por causa da caipirinha, como o panaca do Gustavo falou e eu disse que nunca ia perdoá-lo por isso.

As outras pessoas saíram da sala, e eu fiquei lá sentada, dividindo uma cadeira com o Cris, reverenciado as gavetas dos exemplares de Serra Bonita, já processados mas ainda não catalogados. Vários minutos examinando cada uma das gavetas, embasbacada com a beleza dos bichinhos. Pedi permissão ao Dr. Vitor, e no dia seguinte fiz algumas fotos, que não ficaram grande coisa por causa do reflexo dos vidros. Eu poderia ter tentado mais, mas a naftalina estava pegando na garganta. Quando eu voltar lá tentarei fazer fotos melhores.

A RPPN Serra Bonita abriga o Instituto Uiraçu. De aves, há especialidades como o acrobata, o gravatazeiro, o joão-baiano, a borboletinha-baiana, a choquinha-chumbo. Mas pra nós, o mais espetacular era a oportunidade com as aves de rapina. O lugar é bonito de doer: você sobe uns 8km de estrada íngreme, com uma paisagem espetacular que já teria valido toda a viagem. Chega à sede, os quartos são confortáveis, com um grande vidro com vista para a mata, móveis embutidos de madeira, colchão ortopédico. O instituto tem uma varanda com a tal vista maravilhosa, e dessa varanda são avistados com regularidade o gavião-pato, o pega-macaco, o gavião-pombo, o urubu-rei. Aliás, alguns dias antes o Paulo Boute estava lá e presenciou um gavião-pato atacando um pega-macaco. E falou para o Dr. Vitor “esperei 30 anos pra ver isso”. Aquela foto incrível do Ciro Albano do gavião-pato também foi feita em Serra Bonita. No dia que chegamos, o Gustavo nos chamou porque viu um gavião-pombo, saímos pra fotografar, o bicho foi embora e de repente volta um outro, era um gavião-pato, que vocalizou um canto suave e delicado como do pega-macaco, e deu um mergulho. O Cris conseguiu uma foto. Chegamos no instituto (que fica separado dos quartos), e descobrimos que o pessoal tinha acabado de ver um bando de 6 (seis) gaviões-pato sobrevoando. O Dr. Vitor explicou que era comum ver uma atividade maior dos rapinantes quando abria um sol depois de alguns dias de chuva. No dia seguinte, subimos para as torres, com uma vista maravilhosa, onde ficávamos a 900m de altitude, e enquanto eu ainda me deleitava com a paisagem, de repente surge o gavião-pega macaco e passa a 20m das nossas cabeças. Eu estava do lado errado, e não pensei em sair correndo pra tentar fotografar. Me movi lentamente, só contemplando aquela beleza com o sol sobre as asas e até dando brilho aos olhos. De novo, o Cris emplacou e conseguiu uma foto excelente.

Das torres também vi o urubu-rei, o gavião-pombo e um gavião-pato, mas todos bem ao longe. Descendo a trilha a pé, topei de novo com o pega-macaco, a 30m de mim, mas o idiota desceu o morro em vez de subir, então não consegui fotografar. No dia anterior, mesmo com o tempo bem nublado, nessa mesma trilha o gavião-pombo passou muito perto da gente.

Não conseguimos ver os passarinhos pequenos. Sem resposta a playback, eu e o Cristian bem cansados e já arriando, o Gustavo a ponto de nos dar bronca por causa do corpo mole, e a suspeita geral de que os biólogos da USP que haviam coletado espécies alguns dias antes haviam coletado justamente os bichos que ficavam nas trilhas. Mas não importa: mesmo que eu não tivesse visto ave alguma, só a paisagem já teria valido toda a viagem. O privilégio de ver as mariposas, e conhecer pessoalmente o Dr. Vitor e sua esposa, a simpaticíssima Clemira, já teriam valido mais uma viagem. E juntar tudo isso a provavelmente o melhor lugar do Brasil para ver gaviões-pato e outros rapinantes já torna Serra Bonita um lugar para se voltar muitas vezes.

Camacan fica a 3h de Porto Seguro. É possível pegar um ônibus em Porto Seguro (e provavelmente de Ilhéus também, é até mais perto), e combinar um traslado para a RPPN. A estrada para a RPPN Serra Bonita é muito íngreme, e com a pista molhada provavelmente só sobe 4×4. Quem for de carro sem ser 4×4 e não quiser arriscar a subida pode deixar o carro em uma das fazendas que fazem parte do grupo de RPPNs, e subir com o Dr. Vitor.

O custo da hospedagem é de R$ 150 / dia / pessoa, no esquema de pensão completa. Comida caseira maravilhosa, bebidas inclusas (inclusive caipirinhas), acomodações formidáveis.

Para reservar, eles pedem de preferência uma antecedência mínima de 15 dias, ainda que o Gustavo (competente como sempre) tenha conseguido agendar para a gente de um dia para o outro.

É possível ir para lá sem guia, mas se puder contratar um guia, recomendo o Gustavo. Se os biólogos realmente tiverem coletado as aves que ficavam nas trilhas, se tem alguém que pode encontrar outras é o Gustavo. Só precisa ir com tempo, e não fazer corpo mole como eu e o Cristian, que só queríamos saber de ficar contemplando aquela paisagem maravilhosa.