WP_20140930_005 - Cópia_2
Hotel Alto da Serra
Murucututu (Pulsatrix perspicillata) - Guaramiranga 001__2
Murucututu (Pulsatrix perspicillata)
Silvia Linhares - Guaramiranga 002 - 30.09.14_2
Vira-folha-cearense (Sclerurus cearensis)
Silvia+Linhares+-+Guaramiranga++001+-+30.09.14_2
Tiriba-de-peito-cinza (Pyrrhura griseipectus)
Quixadá - Quixadá 010 - 30.09.14_2
Uma das alas com quartos.
Bacurauzinho-da-caatinga (Hydropsalis hirundinacea) - Quixadá 001 - 30.09.14_2
Bacurauzinho-da-caatinga (Hydropsalis hirundinacea)
Ciro 3_2
Rosemarí, eu e Claudia clicando o bacurauzinho - foto by Ciro Albano
Quixadá+-+Quixadá++011+-+30.09.14_2
E a geladinha só rolando por trás da lente...
Saindo... - Quixadá - 5.34h 001 - 01.10.14_2
O amanhecer visto da janela do meu quarto
Silvia+Linhares+-+Quixadá++001+-+01.10.14_2
Gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon)
WP_20141001_005+-+Cópia_2
Lulinha de olho e bico nas nossas frutas...
Pato-de-crista (Sarkidiornis sylvicola) - Iguatu 016 - 01.10.14_2
Asa-branca (Dendrocygna autumnalis) e outros
Irerê - Banabuiú-CE 014 - 01.10.14_2
Irerê (Dendrocygna viduata)
Silvia Linhares - Barbalha 001 - 02.10.14_2
Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni)
Silvia Linhares - Crato 003 - 02.10.14_2
Bico-virado-da-caatinga (Megaxenops parnaguae)
Silvia Linhares - Crato 002 - 02.10.14_2
Choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus)
Silvia Linhares - Crato 004 - 02.10.14_2
Tiê-caburé (Compsothraupis loricata)
Silvia Linhares - Barbalha 001 - 02.10.14-2_2
Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni)
20141002_104341_2
Eu, Claudia, Rosemarí e Ciro by self-timer
WP_20141004_001 - Cópia_1
Os paredões de nidificação das araras - Canudos/BA
Biodiversitas+-+Canudos++007+-+03.10.14_2
Últimos raios de sol refletindo sobre os paredões
10615465_10202388385371717_7961363381780782952_n
Foto panorâmica by Ciro Albano
ciro
Claudia e eu - foto by Ciro Albano
WP_20141004_013 - Cópia_2
Bando de deslumbrados: Ciro, Claudia, eu e Rosemarí - by self-timer
Alegrinho-balança-rabo (Stigmatura budytoides) - Canudos 007 - 04.10.14_2
Alegrinho-balança-rabo (Stigmatura budytoides)
Silvia Linhares - Caatinga 008 - 04.10.14_2
Lado a lado com a caatinga
WP_20141004_031+-+Cópia_2
Quipá ou guibá, palmatória, palmatória-miúda, palminha (Tacinga inamoena)
Silvia Linhares - Caatinga 005 - 04.10.14_2
Beleza de florzinha (não sei o nome)

 

Guaramiranga

29/09/2014 (segunda-feira) – Partindo de Fortaleza para Guaramiranga/CE

Logo cedo o Ciro veio nos apanhar no Hotel e lá fomos nós, carregadas de muitas malas e muita ansiedade, rumo à Serra de Baturité (que fica nos municípios de Guaramiranga e Pacoti). Guaramiranga fica a pouco mais de 100 km de Fortaleza.

A Serra de Baturité é uma formação do relevo cearense, também conhecida como Maciço de Baturité, localizada no centro-norte do Ceará. É uma das regiões de maiores índices pluviométricos do estado. Seu ponto culminante é o Pico Alto, o 3º maior do estado, com 1.115 metros de altitude, situado em Guaramiranga.

Ficamos no Hotel Alto da Serra. É um hotel bem legal, com chalezinhos confortáveis, muita mata em volta, com aves muito legais no seu entorno.

Chegamos perto da hora do almoço. Fizemos importantes registros e muitos lifers. Somente o arapaçu-rajado-do-nordeste (Xiphorhynchus atlanticus) me deixou chateada, pois fez algumas aparições-relâmpago e não me deixou fazer um único clique dele.

Vou citar algumas espécies fotografadas: joão-de-cabeça-cinza (Cranioleuca semicinerea); poiaeiro-de-pata-fina (Zimmerius gracilipes); maria-do-nordeste (Hemitriccus mirandae); pica-pau-anão-da-caatinga (Picumnus limae); picapauzinho-anão (Veniliornis passerinus) e uirapuru-laranja (Pipra fasciicauda).

Destaque para esse último, que nos maravilhou com tanta formosura. Foi um verdadeiro espetáculo…Eu que tinha sofrido “o diabo” no Morro do Diabo (Teodoro Sampaio/SP) para conseguir fotografar um jovenzinho desbotado e já me dava por feliz, me extasiei diante de vários machos adultos dançando, fazendo a corte, sobrevoando ao nosso redor por vários minutos. Olha… que momento, viu!

Mas o ponto alto da nossa visita à Guaramiranga foi encontrar um belo bando de tiriba-de-peito-cinza (Pyrrhura griseipectus) – ave ameaçada de extinção, que de acordo com o Ciro Albano “abandonou o desesperador status de Criticamente em Perigo e foi reclassificada como Em Perigo.” Ele fez parte do início do projeto. Projeto este que merece todos os nossos aplausos pelo trabalho de conservação da espécie e seu habitat.

Mas as surpresas não pararam por aí, eu havia dito ao Ciro que desejava muito ver a murucututu (Pulsatrix perspicillata). Ele nos levou a um local muito bacana e em poucos minutos trouxe a bichana à nossa frente. Juro que minhas pernas amoleceram. Ela é maravilhosa, inebriante. E como todos sabem, eu sou louca por corujas. Com ela comemorei a minha 800ª espécie de ave registrada em foto. Foi uma emoção inefável.

 

30/09/2014 (terça-feira) Guaramiranga/CE

Passarinhamos em Guaramiranga pela manhã e parte da tarde. Destaque para o belo “tucaninho” chamado saripoca-de-gould (Selenidera gouldii). Clicamos também o casaca-de-couro-amarelo (Furnarius leucopus), tico-tico-de-bico-preto (Arremon taciturnus) e o chupa-dente (Conopophaga lineata), este que, segundo informações do Ciro, vai “splitar”, ou seja, virar uma nova espécie.

O belo vira-folha-cearense (Sclerurus cearensis), que no dia anterior mal tinha deixado a gente fazer um registro que prestasse, deu um show de poses dessa vez. Estava até difícil escolher qual foto postar.

Mais uma vez encontramos as belas tiriba-de-peito-cinza (Pyrrhura griseipectus), e após muitas fotos bonitas, partimos para Quixadá, local da nossa próxima aventura.

Quixadá

30/09/2014 (terça-feira) Quixadá/CE

Quixadá fica a pouco mais de 100 km de onde estávamos. A vegetação é bem diferente da verdejante Guaramiranga.

Chegamos ao hotel Pedra dos Ventos por volta de 16:00h. O lugar é bem maneiro. Dá vontade de ficar uma semana pelo menos. Foi um dos hotéis mais gostosos de todos. O dono, Sr. Almeida, é super gente fina.

Logo que chegamos fomos presenteados com um bando de jacucaca (Penelope jacucaca) a poucos metros da sede do hotel. De acordo com o Ciro foi sorte, pois não é em toda Tour que elas dão o ar da graça. Não pudemos nos aproximar o tanto que gostaríamos, pois ao menor movimento elas simplesmente desapareciam feito fantasminhas. E aí tem que ter paciência e aguardar elas voltarem. Fiquei muito contente com meus registros dessa espécie.

Também pude melhorar o meu registro do mergulhão-pequeno (Tachybaptus dominicus).

Bem no finalzinho do dia o Ciro nos levou para umas pedras ao lado do refeitório do Hotel. Ali clicamos o bacurauzinho-da-caatinga (Hydropsalis hirundinacea). É impressionante como ele se camufla nas pedras. Se não fosse o Ciro eu não ia avistá-lo nunca. A camuflagem é perfeita!

Fim do dia. Sentamos no chão e tomamos uma cervejinha bem gelada vendo os últimos raios de luz tingirem o céu de diversas cores…

A única coisa preocupante foi a dor no rosto da Claudia que havia aumentado, sendo que começou a inchar e apareceu um grosseirão. Achávamos naquele momento que ela havia levado uma picada de algum inseto.

 

Quixadá – Crato

01/10/2014 (quarta-feira) Quixadá/CE – Crato/CE

Acordamos bem cedo (5:00h) e antes mesmo do café da manhã saímos passarinhar pelas cercanias do hotel.

O amanhecer visto da janela do meu quarto
Vimos bandos de gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon), lindas e festivas, além de bastante exibidas. Mas foi um casal de pica-pau-ocráceo (Celeus ochraceus) que fez nossa alegria, foi um corre pra lá, corre pra cá que dá licença.

O rabo-branco-de-cauda-larga (Anopetia gounellei), todo serelepe, me deu um olé danado. Foi um terror para eu conseguir ao menos um registro dele. Confesso que sou péssima em clicar beija-flores na mata e principalmente em voo…nem vou postar ele aqui.

Um simpático rapazinho-dos-velhos (Nystalus maculatus) fez charme para nossas lentes. E um bando de Periquito-da-caatinga (Eupsittula cactorum), fez algazarra ao lado do hotel.

Às 7:00h fizemos uma pausa para tomar um delicioso desjejum. Apesar da companhia do dono da casa, um pequeno meliante passou a furtar nossa comida. O pequeno sem-vergonha era nada mais nada menos do que um Periquito-da-caatinga, chamado carinhosamente pelo Sr. Almeida de Lulinha, já que lhe falta um dos “dedinhos” em uma das patas. O Lulinha adora frutas e outros petiscos sobre as mesas do refeitório.

Ele foi achado e mesmo recuperado não quis mais ir embora. Ele se sente à vontade com os hóspedes e não se faz de rogado. Voa para todos os lados, inclusive acompanha bando selvagem da sua espécie, mas sempre volta para o seu porto seguro (traduzindo: para a comida farta).

Ainda clicamos um bocado antes de ir embora. Destaque para o golinho (Sporophila albogularis) e uma águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) passando ao alto. E o tico-tico-rei-cinza (Lanio pileatus)… que show… do jeitinho que eu queria vê-lo…topetinho eriçado, bem posudo…esse foi para fechar nossa passagem por esse santuário.

Tendo em vista que o problema da Claudia havia piorado, fomos ao pronto-socorro local, onde ela foi muito bem atendida pela Dra. Viviane, que diagnosticou como herpes zoster, doença da família da varíola que pode aparecer em quem já teve catapora e está com a imunidade baixa. Sorte que foi medicada a tempo, pois é uma espécie de virose muito grave, que pode acarretar cegueira e surdez.

A Claudia havia se comunicado com o amigo Marco Guedes relatando o ocorrido, que ficou preocupado com a situação dela e consultou um amigo oftalmologista, onde por celular, enviou a indicação de remédios ainda mais fortes, o que ajudou a melhorar mais rápido. O engraçado era a Claudia fazendo “selfie” de close diariamente para enviar ao Marco. Ela realmente ficou feia de olhar. Dava agonia. Mas pelo menos não precisou interromper a viagem e retornar para casa.

Com isso, só fomos chegar na cidade de Crato no final do dia, porém avistamos patos e marrecos no caminho (cidades de Banabuiú/CE e Iguatu/CE), o que foi super legal.

Alguns deles eu ansiava há muito tempo como o pato-de-crista (Sarkidiornis sylvicola) – na hora lembrei da amiga Claudia Komesu com o “padre-cristo” em Tremembé/SP. A paturi-preta (Netta erythrophthalma) e a marreca-de-bico-roxo (Nomonyx Dominica) se apresentaram logo de bando. Ainda cito as mais comuns, mas não menos lindas asa-branca (Dendrocygna autumnalis), irerê (Dendrocygna viduata) e marreca-caneleira (Dendrocygna bicolor).
01/10/2014 (quarta-feira) Crato/CE

Enfim, chegamos a Crato/CE, debaixo de uma tremenda chuva. Foi um pouco cansativo, mais de 6 horas de viagem, pelos quase 350 km de distância. Em Crato, ficamos hospedados no Encosta da Serra Hotel

 

02/10/2014 (quinta-feira) Crato/CE – Barbalha/CE

A estrela desse dia seria nada mais nada menos do que o raro e lindíssimo soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni) – O nome bokermanni é uma homenagem ao zoólogo brasileiro Werner Bokermann. A espécie está ameaçada de extinção. Foi descoberta em 1996 na Chapada do Araripe, Região Nordeste do Brasil. Segundos os seus descobridores, o soldadinho-do-araripe somente é encontrado nos municípios de Barbalha, Araripe, Crato e Missão Velha, todos no Ceará. Também é conhecido como galo-da-mata e lavadeira-da-mata.

A ONG cearense Aquasis vem trabalhando desde 2003 para sua preservação. Existe um Programa de Conservação de Aves Ameaçadas, elaborado para evitar a extinção da espécie.

A Chapada do Araripe é um sítio arqueológico localizado na divisa dos Estados brasileiros do Ceará, Piauí e Pernambuco. A Chapada abriga uma floresta nacional (1946), uma área de proteção ambiental (1997) e um geoparque (2006). A vegetação é bastante diversificada, apresentando domínios de cerradão (tipo predominante), caatinga e cerrado.

A Floresta Nacional do Araripe-Apodi, mais conhecida como FLONA Araripe-Apodi, é uma unidade de conservação brasileira situada na chapada do Araripe. É um dos últimos redutos da mata atlântica no Nordeste.

Levantamos cedo e o Ciro nos levou por uma estradinha que tinha muitas aves bonitas. Ficamos pouco tempo, mas deu para fazer fotos belíssimas. Destaque para o tiê-caburé (Compsothraupis loricata); chorozinho-da-caatinga (Herpsilochmus sellowi) e choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus). Ficamos muito felizes quando o bico-virado-da-caatinga (Megaxenops parnaguae) veio nos prestigiar.

Partimos para Barbalha onde ficamos das 10:00 até quase meio dia na pequena área do soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), além dele consegui mais dois lifers no local: pica-pau-anão-canela (Picumnus fulvescens) e assanhadinho-de-cauda-preta (Myiobius atricaudus). As fotos desses dois últimos ficaram péssimas, mas as do soldadinho deram gosto. Ele é bonito, tranquilo e muito fotogênico.

Logo depois do almoço, descansamos um pouco. À tarde fomos procurar mais aves, em especial o torom-do-nordeste (Hylopezus ochroleucus). Ele é tinhoso, apesar de muito engraçadinho. Ele se balança numa dancinha de encher os olhos. O duro foram os galhos malditos, “galhos malditos lá lá lá lá” (lembram dos pôneis malditos? tipo isso) que entraram na frente da nossa lente e atrapalharam o ensaio da belezinha na passarela…Mas fazer o quê, né…Ficamos um tempão sentadas no chão, ISO lá em cima, dói aqui, dói ali, arrasta prá cá, deita prá lá, mas enfim, conseguimos ver e registrar a fofurinha do Torom-do-nordeste, o que foi o mais importante.

No fim do dia fomos visitar a sede do Projeto de Conservação do Soldadinho-do-araripe com o Weber Girão e o Fabio Nunes, onde pude conhecer mais detalhes do Projeto e adquirir uma linda camiseta com um belo aplique e bordado. Essa eu tive que negociar, pois não tinha no estoque e a única estava vendida. O Fabio ligou para a pessoa que disse esperar a próxima leva e que podia ceder essa para mim. Fiquei feliz que só!

Estação Biológica de Canudos/BA

03/10/2014 (sexta-feira) – Canudos/BA

Pela manhã, ainda em Crato, a Claudia havia acordado com cara do Sloth dos Goonies. O Weber Girão, nosso amigo e um dos gestores do Projeto de Preservação do soldadinho-do-araripe, indicou um médico amigo dele, Dr. Alexandre, oftalmologista, que receitou um colírio lubrificante e disse que mesmo ela estando uma monstrinha (palavras da Cláudia), o vírus tinha parado e não chegaria aos olhos.

Orientou que ela fugisse do sol, porque “senão ele poderia resolver brigar com o remédio (adora sol) e poderia deixar o rosto dela marcado”. Ele garantiu que o pior já tinha passado e que a Cláudia podia continuar viagem. De acordo com ela, a pior parte foi abdicar da cerveja, disse que doeu mais do que o inchaço do rosto…bem ela mesmo rs rs rs.

Passamos o resto do dia todo nos deslocando em direção a Canudos, quase 400 km. No caminho (Abaré/BA) pude registrar o pernilongo-de-costas-negras (Himantopus mexicanus) em solo brasileiro, pois eu tinha uma única imagem tosca feita na Flórida (EUA).

Atravessamos o Estado de Pernambuco e chegamos ao nosso destino, a Estação Biológica de Canudos – EBC. Ficamos hospedados no Biodiversitas.

A Estação Biológica de Canudos é uma reserva biológica particular, com área de 1477 hectares, localizada no sertão do estado da Bahia. Pertencente à ONG Biodiversitas, a reserva foi criada em 1989 com a finalidade de garantir a preservação da Arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari).

É uma das espécies de aves menos conhecidas e mais ameaçadas de extinção no Brasil. Estima-se que atualmente existam apenas cerca de 450 indivíduos na natureza, além de 38 em cativeiro. Esta ave é endêmica da caatinga baiana, e encontra-se protegida na EBC. Ver último censo aqui.

O quadro de funcionários permanentes na Reserva inclui uma bióloga, responsável pela administração local da EBC, e três guarda-parques em tempo integral, cujas funções incluem a fiscalização da área e a coleta de dados biológicos sobre as araras. Estes quatro funcionários são pessoas nascidas em Canudos, o que confere à EBC maior integração com a comunidade local e maior acesso da população às informações sobre a espécie e a reserva.

A Estação abriga os paredões que servem de dormitório e área de nidificação para a espécie. Entre as causas de ameaça à arara-azul-de-lear, destacam-se a captura para o comércio ilegal de animais silvestres e a destruição de seu habitat, especialmente as palmeiras licuri, cujo fruto é a principal fonte de alimento da espécie. Nos períodos de baixa produtividade de licuris, elas atacam as roças de milho causando prejuízos aos pequenos agricultores que utilizam o milho para subsistência e para alimentar seus animais. Como consequência dos ataques aos milharais, os agricultores chegam a atirar nas araras, por vezes ocasionado a morte da ave ou, em alguns casos, a amputação de partes do corpo, impossibilitando sua sobrevivência em vida livre.

Recentemente foi desenvolvido um Programa de Observação de Aves na EBC, integrando o Programa de Conservação da Arara-azul-de-lear, onde observadores oriundos de todos os lugares do mundo hospedam-se na própria Reserva com a finalidade específica de ver as araras. O alojamento possui seis suítes, muito confortáveis e amplas, com capacidade para receber até 12 pessoas e uma casa de convivência, onde são oferecidas refeições matinais e os hóspedes têm a oportunidade de conhecer os sabores da culinária local. Toda a infraestrutura do alojamento foi construída sob a ótica socioambiental. A obra priorizou a utilização de matéria prima local, tijolos ecológicos – sem queima e, conseqüentemente, sem emissão de C02 – e mão de obra local. Esta obra foi realizada com o apoio da American Bird Conservancy. A Estação é mantida pelo Fundo Judith Hart.

Na EBC conhecemos a simpática bióloga Tania e seu esposo Genivaldo Macedo, mais conhecido como Caboclo – um dos três guarda-parques. Embora a EBC não disponha de energia elétrica, portanto, o banho é frio e falta energia para recarregar as baterias dos equipamentos, Tania nos ofereceu uma estadia digna de princesas. O café da manhã preparado pela bióloga é algo de outro mundo. Só isso já valeu a viagem.

O cenário parece pertencer ao Planeta Marte. Mas o espetáculo todo fica por conta das araras-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), que ao amanhecer o dia partem em bando para se alimentar, deixando os espectadores extasiados. Foi o lugar onde menos espécies eu avistei, mas que deixou uma marca profunda e prazerosa na minha memória. E quem nos acompanhou aos vermelhos paredões foi o Caboclo, nascido e criado nessas terras, onde também fincou suas raízes, construindo com a bióloga Tania o seu pequeno núcleo familiar.

Logo que chegamos, num rápido reconhecimento do terreno fiz meu primeiro lifer, o intrépido Papa-moscas-do-sertão (Stigmatura napensis). Já estávamos ficando quase sem luz no local, o que nos fez encerrar a observação de aves do dia.

É para ir dormir depois com a alma lavada, e lavada rapidamente, eh eh eh, até porque sem energia, o banho foi gelado e à luz de velas … Jantamos na pequena cidade de Canudos e caímos na cama, ansiosas pelo dia seguinte.

Últimos raios de sol refletindo sobre os paredões

 

04/10/2014 (sábado) – Canudos/BA

De manhã cedinho, ainda escuro, com o tempo um pouco fechado, visitamos os paredões de nidificação/dormida da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari).

Às 5:10h da matina comecei meus primeiros cliques. Às 6:42h fiz a última foto das araras num total de 532 (essa conta só contempla as fotos boas, fora as deletadas). Essas araras não tem para ninguém. É um espetáculo do outro mundo. Você fica horas apreciando e não enjoa… Elas vão e voltam aos paredões diversas vezes, numa algazarra medonha. Coisa mais linda do mundo. É surrealista.

No início ficamos longe para fazer as fotos. O Ciro, cavalheiro como sempre, me cedeu sua lente 500 mm (que na Canon 7D vai para 800 mm) para que pudesse fazer fotos mais bacanas do que minha pequena 300 mm era capaz de fazer. O céu foi clareando e fomos nos aproximando. Fizemos belíssimas fotos. O duro é o tempo por ali, que é muito instável. De repente começou chuviscar e engrossou. Tivemos que interromper nossa farra arara-ornito-fotográfica.

Voltamos à Reserva para nos deliciar com o maravilhoso café da manhã preparado pela Tânia. Depois saímos caminhar ao redor da sede a procura de mais alguns bichinhos. O único digno de nota a se apresentar para nossas lentes foi o alegrinho-balança-rabo (Stigmatura budytoides), um bichinho miudinho e gracioso. Parece uma bolinha de penas.

A Caatinga nos presenteia com cenas espetaculares, um visual estonteante e um colorido ímpar. Sejam aves, paisagens, flores, insetos, tudo é muito bonito e diferente. A flora da Caatinga é tão marcante na paisagem que dela derivou o próprio nome do bioma (caatinga, do tupi = mata branca), assim chamada pelos índios pela sua característica, a de perder as folhas no período de estiagem, exibindo um emaranhado de troncos tortuosos e esbranquiçados.

Em seguida, não sem dor no coração, partimos, iniciando uma longa jornada (+ de 7 horas) para a Chapada Diamantina. Foram 500 longos km até lá. No caminho, uma paradinha para admirar um espetáculo às margens da estrada. Centenas de garças-vaqueira (Bubulcus íbis) pousadas no mato, proporcionando um verdadeiro deleite aos olhos. Um bando gigante, como eu nunca tinha visto. Isso foi em Lamarão/BA.

Chegamos tarde na cidade de Lençóis. Jantamos e fomos nos preparar para no dia seguinte conhecer a famosa Chapada Diamantina.

Continuação: http://virtude-ag.com/vg-chapada-diamantina-e-boa-nova-ba-parte-34-out14-por-silvia-linhares/

 

Mais passeios no Nordeste