Você está sendo movido pelos motores que garantem felicidade ou eterna insatisfação?

  • Texto e fotos: Claudia Komesu. A pessoa na foto é o Cris, estávamos em Tavares, com o Batista.

Um blog que eu sempre olho é o do Eric Barker. Toda semana Eric aborda algum tema, em geral relacionado com reflexões sobre como viver melhor, e sempre tem como estrutura do texto referências a algum livro que ele achou bom. Os textos são bastante objetivos, curtos pro tema que abordam, e no final tem resumo. A única desvantagem é que estão em inglês, mas se precisar, acho que o Google translator ajuda bastante.

O post desta semana do Eric fala sobre felicidade, com base no livro de Johann Hari “Lost Connections: Uncovering the Real Causes of Depression”. O resumo é que se você quer ser feliz você (1) deveria manter conexões com pessoas especiais, gente com quem você pode compartilhar assuntos íntimos e importantes, (2) ser movido por valores intrínsecos, e – esse todo birdwatcher entende bem: (3) viver em contato com a natureza.

https://www.bakadesuyo.com/2018/04/how-to-be-happy-2/

Acho que todos entendem o item 1. Imagino que pra leitores do Virtude, o item 3 também não é nenhuma surpresa, a gente sente isso na pele, mas talvez nem todo mundo saiba que há várias pesquisas que comprovam a importância da natureza. Gente com problemas físicos ou mentais se curam mais rápido ou no mínimo se sentem melhor se estiverem num lugar em que podem ter contato com a natureza.

O item 2 não é surpresa pra ninguém, mas em geral as pessoas não fazem afirmações tão categóricas assim. Mas Johann Hari faz. Ele diz que viu muitas pesquisas que mostram que quanto mais você estiver movido pela busca por dinheiro ou status, mais deprimido e ansioso você vai ficar.

 

Por que o problema da busca por status é um tema pro Virtude?

Porque eu acho que a busca por status, ser movido por ego-e-vaidade, é algo que envenena o birdwatching. Em vez de camaradagem, alegria, encantamento pela natureza, ações a favor da preservação, nosso mainstream está dominado pela busca da maior quantidade possível de lifers, por uma posição cada vez mais alta no ranking do Wikiaves, pela necessidade de conseguir fotos incríveis de espécies incomuns, pelo tráfico de elogios, a necessidade de likes e congratulações.

Eu falo isso todas as vezes e falo de novo: não tem nada de errado em adorar lifers, nem mesmo em ser competitivo. Mas se você para aí, se você acha que a síntese do birdwarching é lifer e fotão, e fecha os olhos pro quanto a natureza está sendo destruída, se você não entende que deveríamos ser uma comunidade, um ajudando o outro, todos a favor da proteção da natureza – você está sendo pequeno, pra dizer o mínimo. Do post de Eric:

“Você persegue valores intrínsecos quando faz algo apenas porque ama fazer aquilo. Você persegue valores extrínsecos quando está atrás de status ou de dinheiro” (…)
“Quando você fica contando likes nas mídias sociais, você permite que outros controlem sua auto-estima. E isso coloca sua própria felicidade fora do seu controle. Isso não é nada bom”.

A maioria dos birdwatchers brasileiros adora fotografar, amamos fotografar, amamos estar no mato. Acho que a maioria das pessoas, pelo menos muitas vezes, experimenta aquilo que Eric descreve como “Flow”. Fluxo. Perder a noção do tempo, de tão entretido e feliz que você estava fazendo aquilo. Mas veja só como é fácil a coisa deturpar (outro trecho do post do Eric):

“Imagine se, quando Tim está tocando o piano todos os dias, ele ficasse pensando: Sou o melhor pianista de Illinois? As pessoas vão aplaudir minha apresentação? Será que serei pago por essa apresentação? Quanto vou ganhar?”

Acho que fica claro a metáfora com os pensamentos extrínsecos que podem dominar a cabeça dos birdwatchers durante um passeio.

Faz vários anos que falo desse tema, e gente querida e influente no meio já me falou “cada um faz o que quer da vida, mesmo que a gente não concorde não tem o que possamos fazer”. Eu discordo! Tem sim. Somos uma comunidade. Podemos conversar entre nós. Assim como lutamos por campanhas morais internas pelo uso ético do playback, e sempre pedimos pra Fundação ou ICMBio não instituírem proibições por regulamentos, poderíamos fazer campanhas internas pra virar a mesa: tirar o foco dos valores extrínsecos: status, ego-e-vaidade, likes, elogios, e dizer que o foco do birdwatching deveria ser “amamos estar no mato passarinhando”. E não existe passarinhar sem natureza, precisamos ajudar e apoiar ações de proteção, esse deveria ser nosso foco.

 

“Vou subir no ranking? Vou ultrapassar fulano? Meu nome ficará registrado no Wikiaves como o primeiro a subir a foto pra cidade tal? Minha foto vai receber muitos likes e elogios?” = ansiedade, às vezes frustração.

Mas se você vai passarinhar simplesmente porque ama estar no mato passarinhando (ou nem é passarinhando, é olhando o cenário, vendo luz, orvalho, insetos, flores), não tem como você voltar pior de um passeio, ou se decepcionar porque não conseguiu lifers, likes, elogios. Quando você passarinha movido por algo intrínseco, cada saída só pode trazer felicidade.

 

Ninguém precisa parar de ir atrá de lifers, nem mesmo tirar sarro do colega ou criticar porque o colega adora lifers. De jeito nenhum. As pessoas têm o direito de fazerem o que quiserem. Mas a gente precisa dar um outro passo, a gente precisa tirar o foco de ego-e-vaidade. Ranking e elogios não deveriam ser o cerne do birdwatching.

A natureza precisa desesperadamente de ajuda. Pesquise. Veja o quanto o desmatamento cresceu nas últimas décadas. Já viram o que aconteceu no sul da Bahia em apenas 40 anos? Mapa do desmatamento da Amazônia, do Cerrado?

Passarinhar deveria ser indissociável de preservar. Vamos manter isso na cabeça o tempo todo. Milhares de pessoas pensando e agindo juntas podem fazer uma grande diferença.

 

Como ajudar a proteger a natureza?

Algumas coisas são mais fáceis e óbvias.

1 – Doe dinheiro pra ONGs em quem você confia. Todo mundo sabe: não é o governo brasileiro que vai instituir políticas públicas a favor do meio ambiente, muito pelo contrário, a maioria dos políticos lucra com desmatamento e outras atividades extrativistas e só quer saber de aprovar formas de ser cada vez mais fácil destruir. ONGs e outros grupos que lutam pela natureza são a única forma de minimizar essa tragédia, porque ajudam a fiscalizar, reflorestar, criar relatórios e fornecer informações pras mídias ajudarem na pressão da opinião pública.

2 – Divulgue a natureza o máximo que você puder. Fotografe, compartilhe suas fotos, divulgue no jornal e no portal da sua cidade, mantenha um blog sobre locais especiais da sua cidade. É muito mais fácil destruir um local que as pessoas nem sabiam que existia, mas fotos bonitas são capazes de chamar atenção e criar um movimento para impedir a destruição daquele local.

3 – Manifeste apoio público ao meio ambiente. Posts sobre lifers ou fotonas sempre ganham muitos likes e comentários. “Assuntos chatos” de preservação costumam ser ignorados. Vamos mudar isso. Vamos mostrar que não somos fúteis e superficiais, que entendemos que é nossa obrigação cuidar da natureza.

4 – Alie-se a gestores de parques da sua região. Qualquer gestão de áreas verdes brasileiras é extremamente carente de recursos, de equipe. O que pudermos fazer pra ajudar sempre faz diferença.

 

O que mais você pode fazer pela natureza?

Tem gente que leva saco de lixo quando vai passarinhar, e costuma catar o lixo que encontra. Alguém como a Daiane Barros via a praça em frente à casa dela sempre cheia de lixo, e um dia tocou a campainha de todo mundo dos arredores e falou “sábado vamos dar um jeito nessa praça?”, e fizeram um mutirão de limpeza. E depois disso, as pessoas se acostumaram a cuidar mais do local. Muita gente sabe o que o Gustavo Pinto fez pelos mochos-dos-banhados de Americana, não só pela sobrevivência dos bichos, como em movimentação na cidade, pra fazer tanta gente se importar mais com a natureza. O Ivan Cesar faz palestras em escolas sobre birdwatching. O Geiser Trivelato, com ajuda do Luiz Ribenboim, fizeram vários folders sobre as aves de Jacutinga, e o Geiser e o pai dele foram distribuir em escolas. O Luiz é conhecido por diversas ações do bem a favor da natureza, de guias, de iniciantes. O Renato Rizzarro e a Gabriela Giovanka rodam o Brasil todo, fotografando aves, fazendo cartazes, e divulgando o birdwatching em inúmeras cidades. A Tatiana Pongilluppi e o Caio Brito rodaram 10 mil quilômetros, em busca do registro de aves ameaçadas de extinção, e também pra divulgar a natureza por onde passavam. O Paulo Guerra promove concursos de fotografia, exposições de fotos. A Juliana Diniz une moda e natureza, e divulga a natureza brasileira pra gente que provavelmente não ficaria conhecendo os bichos de outra forma. A Ágatha Coquetti trabalha pra que animais apreendidos tenham a chance de voltarem a viver na natureza. O Eduardo Franco e a Ecoavis contribuem pra diversas ações de divulgação do birdwatching em parques de Belo Horizonte. O Luciano Lima lidera o #VemPassarinhar, do Instituto Butantan, atividade mensal gratuita em que tantas pessoas têm a chance de conhecer a natureza mais de perto. Gente como o João Sérgio Barros, Cláudio Lopes, Ivan César, Marcos Tonizza, Claudia Covolan sempre me apoiam. Qualquer coisa que eu peça de fotos pra uma publicação, um painel, ou pra divulgar algum assunto, eles sempre ajudam. Não tenho contato frequente com o Ciro Albano, mas ele me apoiou incondicionalmente na primeira campanha que fiz pela liberdade de fotografar, e sinto que posso contar com ele. O Alessandro Abdala criou, de graça, o logo do Virtude, fez a diagramação de uma revista que distribuí num dos Avistares, também de graça, e ele sempre se coloca à disposição pra projetos que ajudam a natureza (além de ter publicado um dos livros mais legais que já vi sobre um parque, o livro sobre a Serra da Canastra). O Thiago Carneiro faz várias ações a favor da natureza de Campos, inclusive ir trabalhar de voluntário pra apagar incêndios. Assim como o Jonathas Rocha, que anda até com abafador no carro. A Lis Leão pesquisa como as fotos de natureza podem ajudar as pessoas a se sentirem melhor e talvez até se curarem mais rápido. O Luccas Longo quando foi gestor do Parque Fazendo do Carmo fez um projeto super-legal de birdwatching pra comunidade do entorno, que foi aprovado pela SOS Mata AtlÂntica, e ele também dá aulas de desenho (imagino que de aves principalmente) pros garotos do bairro. O José Carlos Weiss reflorestou o sítio dele, na Serra da Canastra. A Tietta Pivatto e a Silvia Linhares mantêm blogs famosos que ajudam a registrar e promover a natureza.  A Dina Bessa fotografou um aracuã no noroeste paulista em 2011, ninguém nunca tinha fotografado um aracuã no Estado de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Ela passou anos vasculhando a região, tentando reencontrar. Desde o ano passado a SAVE tem feito um trabalho de levantamento e provavelmente haverá compra de áreas importantes. A foto da Dina, os trabalhos do ornitólogo Edwin Willis  e da SAVE contribuíram pra que uma espécie de ave pudesse ser estudada, e se tudo der certo não será extinta. A Rosemarí Julio pagou a impressão de uma publicação sobre caboclinhos pro CEO. Sei que a Hideko quer muito ajudar a ciência cidadã, ela me contou que acha bem mais emocionante saber que está contribuindo pra ciência do que só pela glória da Life List. Vocês sabiam que a Martha Argel, além de bióloga, birdwatcher, autora de guias ornitológicos, também é escritora de ficção em que ela divulga a natureza? Um dos títulos bem conhecido é O Vampiro da Mata Atlântica. O Fabio Barata fez o bairro todo dele se interessar mais por aves, aprender que não precisa matar uma cobra, que tem pra quem levar um bicho machucado ou um filhote caído do ninho. E quando comecei a falar sobre os guias atrelarem seus trabalhos a apoio a ONGs, em poucos dias ele já pensou num esquema, e decidiu doar 20% do valor das guiadas pra ONG que cuida dos papagaios-de-cara-roxa.

E esses exemplos são os que sei, mesmo sendo misantropa-introvertida, e não participando das redes sociais. Se participasse, com certeza saberia de muitas outras histórias bonitas de gente agindo a favor da natureza.

A maioria das pessoas que citei tem posts no Virtude, se quiser ver mais sobre o trabalho deles, só pesquisar os nomes.

Todo mundo pode ajudar a natureza. Não só com as ações mais óbvias como apoiar ONGs, mas também pensando o que a gente tem de especial, qual é o nosso talento que pode unir capacidade e ideal por um mundo melhor. Todos podem. É só uma questão de escolha.

 

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)