Por hora nossos corações estavam plenos, satisfeitos e felizes com a nossa boa sorte e pelas coincidências que nos levaram até aquele pequeno boteco na estrada, que nos levou a até àquela pousada em obras e que nos trouxe até esse local abandonado onde há APENAS TRÊS DIAS esses homens haviam encontrado a mãe-da-lua-gigante com seu filhote. (…)

Araçari-castanho (Pteroglossus castanotis) Chestnut-eared Aracari

 

Faltavam ainda dois dias no Pantanal antes de partirmos para a Chapada dos Guimarães e embora já tivéssemos registrado dezenas de espécies faltavam ainda os três lifers mega desejados nesta viagem.

Nosso próximo destino era promissor, afinal neste local haviam sido registrados dois deles.Estamos falando da jacurutu e da mãe-da-lua-gigante e o local era a Pousada Piuval…

 

3º DIA – A POUSADA PIUVAL

Da mesma forma que nos outros locais visitados, saindo da Transpantaneira após a placa de entrada da Fazenda Piuval, segue-se por 2 km em uma pequena via de acesso até a sede do local e neste pequeno percurso pudemos avistar diversas espécies de aves, parando sempre para fotografá-las.

Logo no início fomos contemplados com a visão de maracanãs-de-colar, tico-tico rei, falcão-de-coleira e outros gaviões que não soubemos identificar.

Chegando ao receptivo do local encontramos uma estrutura turística bem montada e com um padrão de atendimento um pouco acima de nossas necessidades e expectativas. Após nos identificarmos à recepcionista – havíamos feito a reserva por e-mail antecipadamente – pretendíamos cumprir com as formalidades exigidas rapidamente e seguir logo para as trilhas em busca de novas espécies e dos tão desejados mega-lifers ali encontrados anteriormente pelo amigo Luciano Monferrari.

Infelizmente as coisas não ocorreram como esperávamos pois a a atendente nos informou que não poderíamos circular pelas trilhas sem a companhia de um guia do local e que só haviam nos agendado para sairmos com este guia a partir das 10h, devendo retornar ao local até às 11h30.

Como tais informações NÃO haviam sido descritas na resposta dada pela Pousada, pela ocasião de nossa reserva – descrevi detalhadamente nossa intenção em conhecê-los e qual a nossa meta – sendo descrito que em nossa reserva de Day-Use ESTAVAM INCLUSOS visita ao local, almoço e caminhada pelas trilhas, além de uma saída acompanhado por guia local, protestamos junto a atendente e foi-nos autorizado caminharmos pelas redondezas da Pousada e voltarmos às 10h para sairmos com o guia.

Seguimos por uma pequena passarela junto ao pasto que faz fundo a piscina e começávamos a cogitar a possibilidade de cancelar a diária e voltar a Transpantaneira quando uma pick-up nos alcançou trazendo até nós o tal guia, que acabara de ter sua saída com alguns hospedes cancelada, portanto antecipariam o nosso passeio.

Voltamos à recepção e deixei claro à atendente – nesse momento haviam substituído a anterior- nossa intenção de deixar o local, caso não pudéssemos circular livremente pelas trilhas. Após um breve momento de tensão chegamos ao acordo de que iriamos com o guia para conhecermos os principais pontos do local, voltaríamos para almoçar e após o almoço poderíamos circular pela fazenda, mas em nosso carro.

Nosso guia era o Benedito, um pantaneiro que nasceu e viveu toda a sua vida no local, por isso mesmo profundo conhecedor da região e dos hábitos de seus “moradores” ilustres. Ele nos falou muito sobre a Fazenda, a fauna e a flora e sobre os ciclos do Pantanal, em uma belíssima aula de “biologia popular”.

Levou-nos ao ninho das araras-azuis-grandes mas, ao chegarmos ao local, encontramos outro guia acompanhado de alguns norte-americanos e elas (as araras) pareciam já estar incomodadas com o movimento, portanto conseguimos poucas fotos delas, antes de voarem para a mata fechada.

Em seguida o Benedito nos levou até as margens de um pequeno rio que passa pela propriedade e pudemos avistar imediatamente algumas espécies que por ali se encontravam, além de algumas iguanas descansando na copa de uma árvore, na margem oposta do rio. Pudemos também ver alguns rastros que saíam da margem do rio e entravam mata adentro. Pelas marcas e algumas pegadas no local poderia ter sido uma onça que capturou e arrastou um jacaré pela areia, até desaparecer pela mata. Infelizmente não pudemos comprovar isto!

Em seguida nosso guia começou a imitar um Caburé com uma perfeição incrível e o resultado foi instantâneo! Um casal de arirambas- de-cauda-ruiva se aproximaram e tentaram muito encontrar o invasor.

Partimos então para uma nova área da Fazenda onde anteriormente havia sido avistada a jacurutu, mas não a encontramos. Fomos presenteados com a visão maravilhosa de uma família de macacos bugio.

Enquanto nos concentrávamos em fotografar o filhote e sua mãe, não nos atentamos para a localização do macho e isto quase foi um grave erro… pois o mesmo se encontrava acima de nossas cabeças e por muito pouco não fomos atingidos por uma artilharia pesada de fezes e urina – acredito que fazia isso para nos afastar da família.

Mais algumas aves foram encontradas – um casal de choró-boi parecia estar nos seguindo – e voltamos para a sede da pousada, desejando almoçar logo e voltar rapidamente as trilhas.

O almoço servido foi muito gostoso, mas ainda assim, um pouco simples para os padrões do local. E nesta parte tenho também que expressar nosso sentimento sobre o mesmo, pois ficou muito claro para nós a predileção aos turistas estrangeiros – ou mesmo para aqueles que se hospedam- por parte da maioria das pousadas da região. Acho muito mais correto que se posicionem e – a exemplo da Pouso Alegre – admitam não ter interesse ou mesmo não aceitarem day-use. Os valores praticados pelas pousadas da região são para mim extremamente altos para os padrões de conforto e alimentação que pudemos conhecer, tornando-se assim interessantes apenas para turistas estrangeiros e uns poucos afortunados das terras tupiniquins.

Mas se abrem a opção de day-use acredito que devam dispensar o mesmo atendimento e atenção oferecidos aos hospedes, afinal estamos pagando também.

Para nós a experiência vivida não nos motivou a indicar a opção de day-use a ninguém que pretenda conhecer a região, sendo muito mais produtivo se concentrar na Transpantaneira e em alguns locais anexos a mesma, mas com entrada livre.

Após o almoço acabamos conhecendo uma simpática família de Santa Catarina que visitava sua filha – uma jovem jornalista, em Cuiabá- e nos envolvemos em uma boa conversa e troca de experiências, seguidas por uma chuva rápida que acabou minando a nossa determinação em voltar a mata.

Vencido o torpor resolvemos arriscar mais uma tentativa de encontrar a mãe-da-lua-gigante seguindo as informações dadas pelo guia Benedito… e que besteira fizemos!

Mesmo saindo de carro e seguindo o trajeto feito pela manhã, acabamos não encontrando as referências dadas e chegamos até a nos sentir perdidos pela fazenda. Sorte que conseguimos avistar uma das torres de observação do local e por ali nos guiamos na volta.Voltamos à sede cansados e frustrados, afinal nada ainda da jacurutu e da mãe-da-lua-gigante e o próximo dia seria o nosso último dia no Pantanal.

No caminho de volta a nossa pousada conseguimos ainda algumas fotos interessantes, mas tenho que admitir que nossa moral estava bem baixa. Cogitamos até a possibilidade de anteciparmos nossa ida a Chapada dos Guimarães, trocando nosso último dia no pantanal por um dia a mais neste local. Ainda bem que não fizemos isto…

 

4º DIA – A SORTE FOI NOSSA COMPANHEIRA

Seria injusto reclamarmos de nossa boa sorte nesta viagem afinal conseguimos em poucos dias, sem o auxílio de um guia ornitológico experiente – felizmente tínhamos os ouvidos aguçados e os conhecimentos ornitológicos do Peterson – e, sem conhecermos nada sobre o local, ouvir, avistar e fotografar mais de uma centena de espécies de aves, sem contar os mamíferos e os insetos.

Mas nesse último dia no Pantanal as coisas não pareciam estar bem para nós, pois o Marcelo havia sido atacado por uma gangue de carrapatos (eu falei para não ficar de bermuda e camiseta cavada) mesmo com o uso de repelentes, eu não havia dormido nada durante a noite por conta de um problema digestivo – provavelmente devido a um dos tais “lanches suspeitos” degustado na noite anterior- e o Peterson encontrava-se totalmente desmotivado para mais um dia andando pela estrada.

Literalmente arrastados pelo Marcelo saímos após um café da manhã espartano (no meu caso) e começamos a encontrar algumas surpresas pelo caminho, como algumas araras-canindé e um tuiuiú.

Seguimos lentamente parando algumas vezes até chegarmos a um pequeno restaurante por volta do Km 64, no local havia além de uma pousada um pequeno boteco e resolvemos parar para buscar algo de comer.

Não sabíamos que nossa boa sorte estava nos preparando uma série de surpresas…

Enquanto fotografávamos alguns visitantes do local – um joão-pinto e um cardeal que resolveu atacar o retrovisor de nosso carro – o Peterson perguntou ao jovem atendente do local se havia algo para comer e recebeu a resposta de que teria alguns poucos salgados para fritar.

Como não estava bem ainda recusei educadamente (blaaarrghhhhh) mas aguardamos enquanto o rapaz esquentava o óleo da fritura, pois o Peterson achou chato sairmos dali sem comprarmos nada.

Fugindo do calor infernal do meio-dia sentamos no boteco e aguardávamos a comida, quando o rapaz nos perguntou se éramos “passarinheiros” e quais aves estávamos procurando. Respondemos que sim e falamos sobre nossa intenção de fotografar a jacurutu, quando o rapaz nos surpreende com a seguinte afirmativa: ” Mas aqui tem jacurutu, ela fica toda noite pousada bem aí no corrimão, na sua frente!”

O Peterson resolveu confirmar se estávamos falando da mesma ave e ele afirmou categoricamente.Perguntamos então se ele já havia avistado ela durante o dia e respondeu-nos que havia ouvido ela em uma grande figueira, nos fundos do local,distante uns 200 mts pasto adentro.

Após o nosso amigo ter engolido seus salgados entramos no pasto e rapidamente recebemos a confirmação do Marcelo (com seu mega binóculo) que havia dois indivíduos na tal árvore. Ao nos aproximarmos um pouco mais descobrimos que tratava-se de um casal (eram dois indivíduos adultos) e um filhotão que já voava.

Não conseguíamos acreditar em nossa sorte, afinal quando iriamos imaginar que aquela parada neste local totalmente improvável nos traria um dos mega-lifer de nossa viagem!

A família de Jacurutus não facilitou a nossa vida e voavam de uma arvore a outra assim que nos posicionávamos para fotografa-los, até que não tínhamos mais como avançar para dentro da mata e resolvemos então deixa-los em paz, mesmo com poucas fotos feitas o registro estava garantido.

Voltamos ao boteco para agradecer o rapaz quando tive a inusitada ideia de perguntar pela mãe-da-lua-gigante… e não é que deu certo!

Nosso guia iluminado nos disse ter trabalhado por quase 5 anos em uma pousada chamada Puma e por todo este tempo havia uma mãe-da-lua-gigante que morava por lá. Ele – o guia – havia deixado o emprego há menos de 1 ano, mas acreditava que a ave ainda estava lá. O problema é que a tal pousada ficava a uns 40 km de onde estávamos – e ele não tinha certeza desta distância – além do fato de estarmos sem almoço e eu com os reflexos de uma noite sem dormir e sem comer nada ainda.

Inspirados pela sorte com a jacurutu resolvemos arriscar e combinamos de apertar o passo, parando o mínimo possível e com a intenção de almoçarmos na tal pousada.

Demoramos quase 1 hora e 40 minutos para percorrer esta distância- se bem que eu dormi quase todo o tempo- e quando conseguimos encontrar a tal pousada… surpresa! O local estava fechado para reformas há vários meses.

O Marcelo era o mais animado de nós e resolveu entrar no local e ver se descobria algo sobre o paradeiro da mãe-da-lua-gigante, depois de um longo tempo voltou dizendo que encontrou o dono do local e ele disse que estávamos com sorte, pois as obras estavam paradas e ele só passou por ali para ver como andavam as coisas, quase não encontramos ninguém…

A mãe-da-lua-gigante tinha desaparecido dali quando as obras se iniciaram, mas ele havia recebido a notícia de que um outro indivíduo podia ser visto a alguns quilômetros dali – lá vamos nós de novo – , sendo que deveríamos procurar por uma porteira na beira da estrada a mais ou menos 1 km de uma outra pousada que veríamos no caminho, esta chamada de pousada Jaguar.

Achamos a tal pousada – lotada de motociclistas em uma animação excessiva – e logo a frente a tal entrada e não uma porteira como citado, seguimos pela via de terra e depois de algumas centenas de metros achamos uma construção parcialmente abandonada, com apenas uma casa com sinais de ser habitada. Não conseguimos entrar pois o local era cercado e havia uma corrente com um cadeado no portão.

Voltamos a pousada pela qual havíamos passado – os trilheiros já haviam partido – para pedir alguma informação e quem sabe conseguir almoçar (agora eu estava realmente com fome), mas um furacão parecia ter passado pelo restaurante devastando as panelas e travessas com comida, sendo que as últimas porções estavam agora sendo degustadas pelos funcionários e por três homens – eram com certeza de alguma etnia indígena- sendo dois rapazes e um senhor na faixa de uns 45 anos.

Perguntamos sobre o local que havíamos encontrado e sobre a mãe-da-lua-gigante e descobrimos que os três homens eram brigadistas do ICMBio e estavam morando e reformando aquela que era uma antiga estação usada para remanejamento de onças, mas que havia sido desativada há alguns anos. Um dos rapazes veio nos mostrar uma foto da mãe-da-lua-gigante, feita com uma pequena câmera compacta e se dispôs a nos mostrar o local, mas só depois que terminasse o horário de almoço… ou seja… depois de uma hora e meia!

Achamos melhor ficarmos em algum local com sombra e degustarmos um delicioso lanche que haviamos trazido – pão de forma com salame fatiado – e com a fome que estávamos isso parecia uma iguaria. Montei meu lanche e abocanhei com gosto quando o Peterson me chama e fala que o pão estava mofado!!! Foram quase 1 litro de Coca-cola quente para limpar o estrago…

Enquanto ficamos ali aguardando pudemos fazer algumas fotos e o Peterson pode testar sua rede camuflada com sucesso, fotografando um martinho que estava entocado em uma pequena mata atrás de um alagado.

Um tempo depois vimos um dos homens – o mais velho e desculpem mas perguntamos o seu nome várias vezes, só que ele nos respondia em seu idioma nativo, portanto não conseguimos entender – caminhando em nossa direção pela estrada e nos informou estar indo abrir a estação para que pudéssemos ver a mãe-da-lua-gigante.Terminamos de arrumar as coisas e de recolher o nosso lixo e seguimos para lá, onde ele já nos aguardava com a porteira aberta. Estacionamos logo na entrada e descemos com o equipamento prontos para caminharmos mata adentro quando ele aponta para uma árvore ao nosso lado…

Parecíamos crianças em loja de brinquedos tal era a nossa agitação, pois na nossa frente e a poucos metros acima de nossas cabeças não estava apenas uma mãe-da-lua-gigante, mas sim uma mãe com seu filhote…vai ter sorte assim lá em casa!!!!

Dezenas de fotos e um pequeno vídeo gravado resolvemos seguir viagem, afinal tínhamos muito chão e ainda não havíamos comido direito. Demos uma pequena gratificação ao senhor – que nesta hora já tinha um nome em português- e este nos convidou para voltarmos no dia seguinte logo cedo, pois poderia nos guiar pela mata e mostrar muitas espécies que existem ali e que sabem onde encontrá-las, mas nossa viagem ao pantanal estava terminando, ficando então a promessa de voltar aquele local e explorar as suas surpresas.

Durante o trajeto de volta mais algumas paradas e mais alguns lifers, mas já estava bom até aqui.

Por hora nossos corações estavam plenos, satisfeitos e felizes com a nossa boa sorte e pelas coincidências que nos levaram até aquele pequeno boteco na estrada, que nos levou a até àquela pousada em obras e que nos trouxe até esse local abandonado onde há APENAS TRÊS DIAS esses homens haviam encontrado a mãe-da-lua-gigante com seu filhote.

Será que foi coincidência???

 

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