Estou ameaçando escrever sobre esse tema há alguns meses, então decidi fazer da forma simples e sem a pesquisa acadêmica que estava atravancando o negócio.

Um título mais bonito, a ideia original, era de que com o Wikiaves somos novamente cidadãos romanos. Mas decidi fazer uma pesquisa mínima, e vi que a noção da cidadania romana está embasada menos na igualdade, e mais na participação política da pessoa em decisões importantes, e não é esse o cerne pra mim. Eu queria apenas aproveitar a ideia de haver um espaço público, um reconhecimento de igualdade entre as pessoas e confiança. Ou seja, é mais para a aldeia global do Marshall McLuhan.

Não sei como foi com vocês, mas eu cresci em um mundo dominado pela desconfiança. Moro no Brasil, cresci no interior de São Paulo, moro hoje na capital. Se alguém tenta falar comigo, a primeira coisa que eu penso é em assalto ou golpe.

Meus avós diziam que antigamente um desconhecido podia bater à porta e ganhar um copo d´água, uma refeição, às vezes até um canto para passar a noite. Algo inimaginável pra mim.

Mas com o Wikiaves, na verdade é o que acontece hoje em dia. Não somos completos desconhecidos, porque temos um perfil, fotos, comentários em um site. Entretanto, a maioria das pessoas não se conhece pessoalmente. Mesmo assim, por temos esse espaço público comum, e pela suposição de que todas as pessoas que gostam de aves são gente boa, desconhecidos oferecem ajuda, dicas, companhia, às vezes abrem seus lares para pessoas que eles nunca viram na vida, mas com quem compartilham um gosto pessoal e a confiança de que aquela pessoa é um igual.

No ano passado eu queria passarinhar em uma região do cerrado. Pedi indicação a um colega do Wikiaves, que sempre se mostrou solícito e simpático, mora em Brasília. Me indicou um bom lugar e um bom guia na Chapada dos Veadeiros. Há muitas fotos feitas em Brasília, resolvi ficar um dia em Brasília na volta para São Paulo. Pedi indicações de onde eu poderia passarinhar na cidade. Ele mandou um e-mail para os passarinheiros da cidade, dizendo que eu estaria em tal data, e quem poderia me acompanhar. Arrumaram uma autorização para eu entrar em um parque restrito, foram me pegar no hotel, dividiram o lanche de trilha comigo, me levaram de volta. No dia seguinte meu voo era no início da tarde, e eu não queria pagar uma diária a mais no hotel então fiz o check out pela manhã. O colega que era meu “guia” naquela manhã ficou inconformado e me levou para a casa dele antes de me levar ao aeroporto, para me deixar tomar banho. Acho que ele ficou com pena de quem teria que se sentar ao meu lado. A situação não era tão grave, mas graças a essa gentileza a mais tive uma viagem muito mais agradável, e pude ir jantar num restaurante assim que cheguei em São Paulo. Senão, teria ido direto pra casa.

Quando vou pra Jacutinga fico na casa dos pais do Geiser, já fui lá quatro vezes. Eles me tratam como alguém da família, não me deixam nem levar lençol e toalha. Durmo na casa deles, faço as refeições com eles.

Às vezes troco mensagens e alguns poucos e-mails com um moço que mora no Nordeste, de quem gosto das fotos e do jeito. Não conheço nada daquela região. Ele me disse que há várias aves, que conhece aquele pedaço, e no dia que eu quiser ele pode me mostrar o lugar, e que posso ficar na casa dele.

Em alguns casos não precisa nem ser o Wikiaves. No Avistar do ano passado eu estava trabalhando no estande da Guainumbi, atendi uma senhora que ficou um bom tempo lá, fazendo várias perguntas, respondi todas com muita boa vontade. No final, fez questão de me deixar seu telefone, falou para eu ligar para ela, que eu poderia usar o apartamento dela na praia, que na região apareciam muitos passarinhos.

Quando eu morava em Limeira e íamos para a chácara do meu avô, em uma região rural, meu irmão me contou que ficava impressionado como meu avô conhecia todo mundo, porque ele cumprimentava todos que cruzavam o caminho. Éramos crianças, só depois ele entendeu que meu avô não conhecia todos, era apenas o costume civilizado de reconhecer o outro como um igual e acenar.

Participo pouco da vida social do Wikiaves. Não sei fazer aquelas centenas de comentários semanais que indicam ao outro “estou acompanhando o que você posta, admiro suas fotos, obrigado pelos elogios às minhas”. Mas tento responder sempre que me perguntam algo, e tento compartilhar com detalhes o que sei sobre os locais, como aumentar sua chance de ver as aves. Sempre que posso, tento retribuir uma pequena fração do tanto que aprendo e recebo

Tenho 35 anos. Estava na faculdade quando a internet começou no Brasil, e acompanhava o monte de baboseiras que os jornalistas escreviam, principalmente sobre os chats, como o anonimato incentivava a imoralidade, sobre as pessoas poderem fazer qualquer coisa, principalmente as mais sórdidas. Eu freqüentava vários chats, e o que vejo hoje no Wikiaves e em outros lugares não me surpreende. Mesmo com o anonimato, e talvez até reforçado pelo anonimato, as pessoas não queriam ser más e sórdidas, elas não queriam despirocar. Tendo uma oportunidade de se comunicar com o outro, as pessoas querem mostrar o que têm de bom e humano.

Sei que a desconfiança do outro não é geral no Brasil, é algo acentuado em grandes centros urbanos. E que mesmo em grandes centros urbanos, a gentileza pode surgir. Talvez esteja até aumentando, em comparação com os anos 1990 e 2000. Mas não deixa de ser um fenômeno social como a observação de aves aproxima as pessoas.

 

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