O Brasil tem umas das mais ricas biodiversidades de aves do mundo, e quando se trata de grandes aves de rapina, temos também uma quantidade e diversidade bastante representativas. Para entender melhor, antes de tudo, as “aves de rapina” são um agrupamento genérico, ou seja, a denominação de um grupo aves que não necessariamente são parentes. Nesse grupo encontramos aves raptoras (caçadoras ou comedores de animais mortos), com bicos e pés potentes, e corpos adaptados para vôos rápidos, mudança brusca de direção ou longos deslocamentos, e visão e olfato muito aguçados. Entre as aves de rapina, encontramos as águias e gaviões (família Accipitridae), os falcões (Falconidae), corujas e mochos (Strigidae) e os urubus (Cathartidae).

Uiraçu-falso (Morphnus guianensis) Crested Eagle

 

Felipe Bittioli Rodrigues Gomes é biólogo e doutorando do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

As aves de rapina apresentam um valor importantíssimo no meio ambiente, seja como predadores de topo de cadeia alimentar, controlando comunidades e retirando das populações indivíduos mais fracos, seja como comedores de restos, limpando o ambiente e acelerando o retorno dos nutrientes ao solo. Entretanto, a grande maioria destas aves é pouco estudada, principalmente quanto aos aspectos básicos de sua biologia, e merecem atenção especial dos pesquisadores.

Em especial para as águias e gaviões, temos grandes e interessantes representantes, e podemos citar entre eles:

A maior e mais poderosa, a harpia ou gavião-real (Harpia harpyja) – habitante de florestas, pesa até 9 kg e, tem uma envergadura de mais de 2 metros. Alimentando-se principalmente de bichos-preguiça e macacos.

Os gaviões do gênero Spizaetus – o gavião-de-penacho (S. ornatus), o gavião-pato (S. melanoleucus), e o gavião-pega-macaco (S. tyrannus) – todos possuem plumagem e coloração dos olhos bastante marcantes, tamanho médio a grande, e como característica mais marcante, os tarsos (pernas) emplumados. Habitam desde áreas abertas a florestas, e alimentam-se de pequenos mamíferos, aves e répteis.

A raridade ameaçada dos campos, a águia-cinzenta (Urubitinga coronata) – águia de grandes proporções, habita campos abertos naturais e pastagens. Pode ser observada planando em térmicas com urubus, e se alimenta de grande presas, como médios mamíferos, com especial preferência por tatus.

A espécie Morphnus guianensis, chamada de uiraçu-falso ou gavião-real-falso (nome utilizado pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos), ou Crested-eagle, em inglês, foi descrita em 1800, por Daudim como Falco guianensis e, inicialmente denominado de Petit Aigle de La Guiane.

Após sua descrição poucos estudos foram desenvolvidos sobre a espécie. Existem algumas contribuições sobre os ovos provenientes de indivíduos cativos, e também um estudo sobre o desenvolvimento de filhotes. Além desses há um relato sobre um uiraçu-falso alimentando um filhote de gavião-real e outras notas sobre a detecção da espécie em alguns levantamentos de avifauna ou de primatas. Vale citar também algumas observações sobre uiraçus-falsos atacando bandos de macacos, mutuns, jacamins e galos-da-serra. O trabalho mais completo de detalhado sobre o uiraçu-falso foi desenvolvido na Amazônia na década de 1980 e, anos mais tarde, um novo ninho foi encontrado e monitorado por dois anos.

Devido à dificuldade de acesso aos ninhos, e em especial a raridade de se encontrar um, a maioria dos pesquisadores tentou obter o máximo de informações possíveis. Entretanto, ainda faltam muitas informações biológicas importantes para serem obtidas. Com base nesta premissa é que resolvemos desenvolver o estudo sobre a espécie.

Ao longo de anos de existência, o Programa de Conservação do Gavião-real tem desenvolvido monitorias em ninhos de harpias, contudo, outros gavião e águias constroem grandes ninhos e, com o passar dos anos foram sendo encontrados, e acumulados registros de ninhos de outras espécies, em especial de uiraçus-falsos e gaviões-de-penacho. E essa seria uma boa oportunidade de algum pesquisador estudá-los. É ai que eu entro!!!

Cheguei a Manaus em 2009 para desenvolver o doutorado, estudando anfíbios, mas com alguns acontecimentos inesperados, tive que me adaptar a uma nova realidade, e conversando com outros pesquisadores, acabei abraçando o uiraçu-falso, e a necessidade de estudá-lo, como alvo do meu projeto.

Atualmente monitoramos cinco ninhos da espécie, e acabamos de receber a notícia de outros dois prováveis. Temos ninhos, bolsistas e monitoramentos nos Estados do Amazonas, Roraima, Rondônia e Pará. As monitorias são feitas por mim, ou por algum membro do grupo de pesquisa e, nos auxiliando, estão bolsistas locais. Estes são moradores próximos aos ninhos, que recebem um auxílio em dinheiro e, que são treinados para realizar algumas atividades de monitoria. Dessa forma conseguimos desenvolver um acompanhamento mais contínuo dos ninhos, promovemos uma capacitação e auxiliamos na captação de renda dos moradores, geralmente muito humildes.

O desenvolvimento das atividades do Programa de Conservação do Gavião-real (PCGR) só é possível devido ao apoio de diferentes instituições e patrocinadores, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), A Fundação de Amparo a Pesquisa do Amazônas (FAPEAM), ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o IBAMA, o Instituto Chico Mendes, a Fundação VALE, entre muitos outros.

Para o desenvolvimento do Projeto Biologia e Ecologia do uiraçu-falso, além do apoio constante do PCGR e do INPA com a estrutura e logística, do Projeto de Experimentos em Larga Escala da Atmosfera e Biosfera (LBA-INPA) com a logística, e do CNPq pela minha bolsa de estudos, uma empresa privada, a Atend Serviços Ltda, tem dado suporte financeiro ao projeto à dois anos, e a esta empresa sou especialmente grato! Ressalto que qualquer apoio ao projeto é bem-vindo, e que todo valor investido tem retorno para a conservação e o conhecimento do uiraçu-falso, e de outras espécies que convivem com ele.

Plumagem – Sabemos que além da plumagem comum da espécie (padrão claro), onde o ventre é claro com estrias bege, cabeça levemente acinzentada, e dorso escuro pode variar em duas formas escuras, totalmente negro (padrão negro extremo), ou então, com as regiões claras substituídas por negro, mas mantendo o padrão de estrias e tons (padrão negro). Descobrimos que, em todos os casais observados, a fêmea possui coloração mais escurecida (padrão claro) do que o macho, e esse fato pode estar relacionado com a idade, onde as fêmeas ficam sexualmente maduras quando são mais velhas, diferente dos machos, que são mais precoces.

Alimentação – Sabemos que a espécie se alimenta de pequenos mamíferos, como macacos, gambás, cuícas e juparás, além de aves, serpentes e anfíbios, mas todos esses itens foram apontados de forma geral, sem especificações de quantidades e freqüências. Descobrimos que a espécie tem uma leve preferência por pequenos e médios marsupiais, em especial cuícas e gambás, descobrimos uma alta taxa de predação em ratos arborícolas, além de reconhecer uma nova espécie de macaco e de serpente.

Reprodução e deslocamento – Sabemos o formato aproximado do ninho que a espécie se reproduz, mas descobrimos uma preferência na escolha das características das árvores, além de termos agora um período aproximado de uso do mesmo ninho e, tempo de construção. Sabemos que o período aproximado de desenvolvimento do filhote (a confirmar) é de aproximadamente 3,5 a 4 meses, até o filhote aprender a voar e deixar o ninho. Descobrimos que mesmo sabendo voar, o filhote permanece ao redor do ninho por pelo menos um ano. Temos observações sobre a mudança da plumagem de filhote para jovem. Ainda faltam algumas análises, mas conseguimos apontar aspectos antes desconhecidos.

Vocalização – Sabemos o tipo de vocalização geral da espécie, e sua descrição de forma onomatopéica (a tradução escrita do som ouvido). Descobrimos pelo menos 6 tipos diferentes de vocalizações, e podemos relacioná-las com diferentes comportamentos. Descobrimos também uma variação e modificação da vocalização do filhote ao longo do período de desenvolvimento.

O uiraçu-falso é uma espécie importante no meio ambiente, atuando como um predador de topo de cadeia, e regulando populações. Além disso, é uma espécie pouco conhecida, e já foi apontada como em risco de extinção, extinta regionalmente ou em perigo. Esses dois fatos somados reforçam a necessidade de se conhecer melhor a espécie e, assim, apontar os verdadeiros inimigos e ameaças da espécie, e no futuro poder embasar estratégias de conservação. Como costumo falar (provavelmente plagiando alguém que não me lembro): A gente só conserva o que conhece, e a história natural é o conhecimento básico para qualquer espécie.