• Texto e fotos: Claudia Komesu
  • Câmeras: Nikon D800 com a 300 f4 VR, e Canon 7D II com 300 f4 e tele 1.4 (mas apanhando da Canon, preciso do Marco Cruz). Canon S120 e Iphone 5s para paisagens e macro

Nos dias 12 e 13 de março fui passarinhar em Campos do Jordão com a queridíssima Rosemarí Júlio, tendo o amigo Thiago Carneiro como guia.

A gente queria passarinhar, mesmo com a previsão de chuva, mesmo sendo março (tenho a impressão de que março e abril são os meses mais difíceis para passarinhar). Eu, a Rosemarí e o Thiago já fomos proibidos de fotografar no Horto de Campos do Jordão. Com a publicação da portaria em 2 de março, a gente tinha que ir lá testar. Ficamos tão contentes que na verdade a gente estava torcendo pra um segurança tentar nos proibir, só pelo gostinho de finalmente poder tirar de dentro da mochila um papel que garante nossa liberdade.

O Horto abre às 9h. Teoricamente você pode entrar em contato com a gestão e pedir permissão para entrar mais cedo, mas o Thiago achou que era melhor aproveitar as primeiras horas da manhã na estrada lateral, a que vai para o Bosque Vermelho, onde o Demis Bucci e o Henrique Moreira foram ameaçados de prisão no ano passado.

Chegamos na guarita com as câmeras bem à vista, falamos com um segurança que o Thiago não conhecia mas que não se importou quando dissemos que íamos fotografar na estrada lateral e que às 9h voltaríamos lá para comprar o ingresso. Nem era possível comprar o ingresso antes, aquele funcionário era só segurança, a pessoa responsável pela venda de ingressos só chegaria às 9h.

O dia estava fraco de passarinhos, mas pros slowbirdwatchers isso não é problema. Muita conversa, risadas, contemplação da paisagem, flores, insetos. Sanhaçu-frade, saíra-amarela, beija-for-de-topete-fêmea, rabo-branco-acanelado, cigarra-bambu. Às 9h e pouco voltamos pra guarita, compramos meu ingresso e finalmente entramos. Estacionamos o carro e naquele brejinho que fica logo na entrada, à direita, havia uma movimentação de passarinhos: arredio-pálido, quetes, ticos-ticos, ótimo verdinho-corado. Mais pra frente, uma boa mariquita, borboletinha-do-mato e uma gralha-picaça bem de longe. Depois fomos até o viveiro onde muitos anos atrás eu já vi caneleirinho-de-chapéu-preto e pavó, mas dessa vez só topamos com uma fêmea da maria-preta-de-bico-azulado. O Thiago ainda não teve oportunidade para mapear as aves do Horto, ele nem tem certeza do potencial passarinheiro da área central, que é um lugar com muitos pinheiros (uma árvore exótica, que não favorece as aves silvestres). Mas a gente precisava testar se a portaria estava funcionando mesmo, por isso quisemos passear por lá com as câmeras e ver se algum segurança viria falar com a gente.

A portaria passou no test drive! Não tivemos qualquer problema na estrada do Bosque Vermelho, nem na área central. Andamos pra lá e pra cá com as câmeras e nenhum segurança veio nos proibir. Vimos pelo menos mais umas três pessoas com DSLRs, mas lentes pequenas, um deles até pediu pro Thiago tirar uma foto do casal.

Depois de 7 anos sem querer passear no Horto, foi uma delícia andar por lá sabendo que agora não podem mais me tratar como criminosa só porque tenho uma câmera grande. E foi mais gostoso ainda por estar na companhia da Rosemarí e do Thiago, dois amigos queridíssimos e que também já tinham sofrido proibições absurdas. Que sorte a nossa ter os srs. Mauro Castex e Carlos Beduschi como nossos interlocutores na Fundação Florestal, sei que se tivéssemos topado com pessoas retrógradas essa portaria não teria saído.

Saímos do Horto e fomos pro Canyon. Um lugar de paisagem incrível, e uma estrada lamacenta e íngreme que só com 4×4. O valente Pigmeu (o TR4 da Rosemarí) provou seu valor, e descemos e subimos sem problemas. Da outra vez que eles foram havia um bando de taperuçus-de-coleira-falha. Eles não estavam lá, mas o cenário valeu a visita. Também nos divertimos com duas borboletas que eram quase verde-limão. Teríamos ficado mais tempo, mas havia ameaça de chuva, então logo subimos a estrada.

Pegamos a outra estrada lateral, a que vai para o ponto da Tijuca atra. No caminho, sanhaçu-fogo, risadinha, verdinho-coroado, maria-preta-de-bico-azulado, carrapateiros, gaviões-carijó, bando de peito-pinhão, sanhaçu-frade, trepador-quiete, piolhinho-serrano, bico-grosso e um grande registro, a choquinha-carijó, que era lifer pra Rosemarí e não é um bicho muito comum de se ver.

Umas 17h20 recebemos uma ligação cruel: o Thiago havia pedido para o pai dele avisar caso o gavião-pega-macaco aparecesse (tem um que sempre aparece na região onde a família do Thiago mora). O bicho apareceu, mas num momento em que estávamos muito longe, seriam uns 50 minutos até chegar lá, achamos que era melhor continuar passarinhando na estrada e aproveitar o fim da luz. Mas foi doído, o Thiago ia recebendo as mensagens “venham logo. Ele ainda está aqui. Caçou um rato. Caçou uma preá. Está andando no gramado”. Ah, se estivéssemos mais perto.

O pessoal que tem a sorte de estar por perto quando esse pega-macaco aparece consegue fotos incríveis, bem de perto. Ele aparece com frequência, mas sabem como é, passarinhar não é a Disneylandia, não existem atrações com hora marcada. Engraçado que mesmo assim o Thiago já recebeu um telefonema de um outro guia pedindo pra agendar um passeio com o Thiago pra ver o pega-macaco, e esse guia perguntou se o Thiago garantia que o gavião iria aparecer (!). O Thiago respondeu “eu já fui ao Zoológico ver o leão e não consegui, ele estava dentro da toca dele e não apareceu. Não posso te garantir que o pega-macaco estará lá no dia que você for”.

Sei que pra algumas pessoas o birdwatching tem metas e objetivos, mas a natureza é viva, você nunca tem certeza de como será seu dia e pra mim isso é um dos grandes prazeres da atividade: o imprevisível. Se você quer ter certeza de que vai ver o bicho e fotografar de perto, é melhor ir pra um zoológico (e ainda assim corre o risco do animal ficar em algum cantinho escodido).

O Thiago faz um trabalho importante de conscientização ambiental. Toda vez que ele vê o pega-macaco, ele sai com a câmera dele, as pessoas param pra perguntar, ele explica sobre o gavião, fala que é um bicho importante, que ajuda a diminuir a população de ratos. Agora o bairro inteiro sabe o que é um gavião-pega-macaco, e com isso diminuem as chances do bicho levar um tiro de espingarda.

Jantamos na casa da Rosemarí, que além de ser uma amigona é uma super-anfitriã. Meus sogros têm uma casa em Campos, mas nesse fim de semana não fiquei lá, dormi sexta e sábado na casa da Rosemarí e aproveitamos pra papear muito. Depois do jantar ainda saímos pra tentar corujar, mas estava uma neblina daquelas que você não vê um palmo na frente do carro. Uma pena, porque numa noite boa o Thiago consegue mostrar seis espécies de corujas pro pessoal.

No domingo a Rosemarí não ia passarinhar porque tinha combinado com a família de participar da manifestação. Já eu, apesar de ser totalmente a favor, saí com o Thiago (sou misantropa, medrosa, e traumatizada com histórias de gente que apanhou da polícia, então apoio e defendo as manifestações, mas não vou).

Fomos pra estrada pro pico do Imbiri. Caneleirinho-da-chapéu-preto, mas bem no alto, gaturamo-bandeira, pula-pula-assobiador, tapaculo-preto, estalinho, beija-flor-rubi, gaturamo-rei, choca-da-mata, arapaçu-escamado. Depois fomos pra outro ponto onde vimos choquinha-da-serra, maria-preta-de-bico-azulado, rabo-branco-acanelado, saíra-amarela, tangará, e um incrível falcão-caburé que atendeu ao playback do Thiago. Só faltou o bicho pousar 30cm pra esquerda. Depois de 8 anos sem vê-lo, teria conseguido uma foto linda, se não fossem as infames folhinhas no lugar errado.

Fomos pro Auditório, um lugar muito tranquilo, bem cuidado, e que sempre recebeu bem os fotógrafos. Lá o Thiago fez a mágica dele e de repente estava cheio de passarinhos à nossa volta. Fiz minha melhor foto de arredio-pálido e de grimpeiro, e ótimas fotos do pula-pula, piolhinho e do alegrinho. Quando o grimpeiro apareceu tão baixo eu nem acreditava. Estávamos com a sorte de ser uma araucária bem baixinha, e de ter grimpeiros bem simpáticos. A única coisa chata era e neblina, indo e voltando. Mas foi lindo.

Depois do almoço no ótimo Cacerola https://www.tripadvisor.com.br/Restaurant_Review-g303607-d4763590-Reviews-Cacerola-Campos_Do_Jordao_State_of_Sao_Paulo.html fomos ver as saracuras-sanãs. O Thiago conhece um ponto em que costuma ter um casal, e agora eles estavam com um filhote, que apareceu depois de um tempo que ficamos lá sentados observando.

Num dos brejos favoritos do Thiago, encontramos um casal de tico-tico-do-banhado, uma ave linda e não muito comum de aparecer, e recebi um bom elogio. O Thiago me falou que o tico-tico-do-banhado só aparece quando ele está com pessoas zen.

Também apareceu o sabiá-do-banhado, um tuque nos arredores, e um pia-cobra.

Ainda eram 4h30, mas eu tinha um jantar com meus sogros então precisava pegar estrada.

Campos do Jordão é sempre um destino incrível, melhor ainda na companhia de amigos tão queridos.

Se você quer contratar o Thiago pra guiar, é bom saber que ele anda com a agenda concorridíssima. Ele tem guiado mais de 20 dias por mês. Consegui vê-lo neste fim de semana, marcando em cima da hora porque teve uma desistência. Agende com antecedência. Tem gente que já agendou pra agosto.

Você pode falar com o Thiago pelo Facebook ou por 12 9773-2654, ele tem WhatsApp. Ele costuma demorar pra responder email ou mensagem do Wikiaves. Melhor ligar, mandar mensagem pelo WhatsApp ou pelo Facebook.

Se você quer indicação de pousada, o Thiago recomenda o Recanto das Araucárias: https://www.tripadvisor.com.br/Hotel_Review-g303607-d2527773-Reviews-Recanto_das_Araucarias-Campos_Do_Jordao_State_of_Sao_Paulo.html

 

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