Snorkeling em Bombinhas: direto da praia e muita vida marinha

  • Texto e fotos: Claudia Komesu. Olympus TG5 para fotos subaquáticas, macro e paisagem. Nikon D750 e Sigma 150-600 para birdwatching.
  • Viagem de casal com o Cristian Andrei

Eu e o Cris estamos apaixonados pelo fiswatching. No ano passado fomos ver peixinhos em Peruíbe, Ubatuba, Paraty (e um pouco na Austrália, mas não na Grande Barreira de Corais). Lamento não ter aproveitado mais o Nordeste antes da chegada da zika e chikungunya. Confesso que sou bem medrosa e conservadora, fico lendo notícias e tenho medo de fazer uma viagem de lazer e correr o risco de pegar uma doença que pode deixar sequelas por anos, às vezes pro resto da vida.

Procurando um destino pra snorkeling, li sobre a Praia da Sepultura, em Bombinhas – Santa Catarina. Fomos agora do dia 2 a 7 de março, e foi uma das viagens mais legais que fizemos.

 

Por que vale a pena fazer snorkeling em Bombinhas

– Praias fáceis de chegar em que você pode fazer snorkeling direto da praia, sem precisar contratar barco. Além da famosa Praia da Sepultura, a Praia do Embrulho foi ótima, nunca vimos tantas tartarugas. Praia do Embrulho é o nome segundo o Google Maps, mas popularmente o pessoal chamava de Lagoinha, que é a praia ao lado. De qualquer forma, é a praia onde fica o trapiche, não tem como errar.

– Você não depende da maré baixa. A geografia das praias, com várias rochas altas, faz com que seja possível ver e fotografar mesmo na maré alta. Quando a praia é no estilo piscina,  horizontal, (como a Praia do Forte em Salvador), na maré alta a vida marinha fica muito no fundo.

– Como passeio pago, vale a pena ir para a Ilha do Arvoredo. Fica a 1h30 de barco de Bombinhas, é Reserva Biológica mas com visitação pra mergulho permitida na parte sul. Fomos com a Pata da Cobra. Você precisa combinar o passeio no dia anterior, não pode chegar na hora no trapiche e dizer que vai. Eu fiz snorkeling, o Cris mergulhou de cilindro. Água límpida, muitos peixinhos. Os mergulhadores não viram nada impressionante dessa vez, mas nos falaram que na semana anterior viram tubarões-martelo e arraia-manta. O passeio custa R$ 266 pra quem vai mergulhar, com todo equipamento, roupa, e dois cilindros. E R$ 110 pra snorkeling. Só recomendamos levar um lanche extra. No barco eles ofereceram frutas, bolachas, bolo, mas ficamos contentes de ter levado uns sanduíches de pão com salame.

– Há várias opções baratas de hospedagem e também muitos restaurantes, mas preferimos fazer nosso esquema favorito: alugar um apartamento ou casa com cozinha e preparar nossas refeições todos os dias. Tinha uma boa peixaria onde podíamos comprar peixe e camarão fresco. Fizemos moqueca de garoupa e camarão, risoto de camarão, penne com camarão, ceviche de peixe, filé de garoupa grelhada com farofa de banana, omelete de camarão. Achamos uma loja que vendia vinhos, mas do que mais gostamos foram as cervejas especiais, a gaúcha Sunset Brew tem ótimas no estilo norte-americano, recomendamos a APA e IPA (rótulos vermelho e verde).

– A cidade estava cheia e nos sentimos seguros.

– As praias eram bem limpas, não vimos lixo nem na areia nem na água. Mérito da taxa ambiental, de R$ 27, que todo carro precisa pagar sempre que sai da cidade. A placa é fotografada e se a pessoa não paga na hora, tem que pagar na hora de licenciar o carro. Parece que está sendo muito bem aplicada. O taxista nos disse que eles limpam as praias todas as noites, e que o próximo passo será melhorar a pavimentação.

– Bombinhas não é plana e não tem ciclovias, a avenida principal é de paralelepípedo e pra chegar na Praia da Sepultura há umas três ladeiras que exigiram descer e empurrar a bicicleta. Mesmo assim gostamos dessa sensação de sair de bicicleta com o equipamento de snorkel na cestinha, voltar do passeio e passar na peixaria, sentir o sol e o vento. Ou então sair à noite de bicicleta pra comprar cerveja.

 

Sobre o transporte em Bombinhas

Bombinhas é uma cidade grande, com vários trechos íngremes, sem muito transporte público. Para conhecer outras praias, é melhor ir de táxi ou então alugar carro em Navegantes.

Apesar de termos gostado bastante da bicicleta, talvez na nossa próxima ida a gente acabe alugando carro em Navegantes, pra poder conhecer outras praias. Na questão de custos, alugar carro fica só um pouco mais caro do que ter que pagar Uber, táxi e bicicleta. Navegantes Bombinhas de Uber sai por R$ 110 + R$ 27 de taxa ambiental. Bombinhas – Navegantes precisa de táxi. Parece ter Uber, mas não é confiável. A gente agendou a corrida pra ir embora, recebi um email confirmando que estava agendado, mas chegou na hora, o carro não chegava, e 15 minutos depois do horário marcado, aparece uma mensagem dizendo que não havia carros disponíveis. O Cris já tinha ido atrás de um táxi. Tem vários táxis em Bombinhas, mas a corrida  custa R$ 200. Nossas bicicletas saíram por R$ 320 pra quatro dias (valor com desconto, a diária é R$ 50). Ou seja, gastamos R$ 677 com transporte, e há carros pra alugar por menos de R$ 100 / dia.

 

Quando ir

Há muitos posts sobre Bombinhas, e o pessoal recomenda de fevereiro a abril. Eu acredito que é possível ir na baixa temporada, se você vai sabendo que muitos restaurantes e lojas estarão fechados, a ponto de vários hotéis oferecem pacote all inclusive no inverno. Pro snorkeling, acho que dá para aproveitar se for disposto a passar um pouco de frio, em junho e julho a água estará uns 17 C (agora estava em torno de 26 C). Em Sydney pegamos água a 18 C, eu estava tão curiosa que entrei na água mesmo só com lycra (foi antes de comprar minha roupa). Era bem frio, mas suportável. Com neoprene de 3mm, meias, luva, é tranquilo.

Perguntamos se chove muito no inverno, o taxista nos falou que chove pela manhã, e na hora do almoço abre sol. Nos dias que estivemos lá a previsão era de chuva todos os dias, mas pegamos três dias de céu azul e muito calor.

O mais importante é não ir em janeiro e dezembro. Bombinhas é um destino popular, inclusive pra estrangeiros. Alto verão lá é como Ubatuba: muito trânsito, acaba a água doce. Bombinhas – Navegantes são 65km, em geral 1h30, mas que no verão podem virar 3h.

 

Sobre os locais de Bombinhas bons para snorkeling

– Não deixe de ir pra Ilha do Arvoredo, vale a pena. Fomos com a Pata da Cobra, e a HyBrazil também é bem recomendada.

– Na Praia do Embrulho vimos uma quantidade incrível de tartaturgas marinhas. Chegamos numa sexta à tarde, não fomos fotografar, só andamos pelas praias e agendamos o passeio pro sábado. Voltamos do Arvoredo umas 15h30, e estávamos nos sentindo sortudos por termos visto e fotografado uma tartaruga. Saindo do barco, ouvi um cara que estava no trapiche falar “está cheio de tartaruga”. Fomos olhar, e do trapiche dava pra ver duas. Estávamos cansados e com fome, mas falei pro Cris que eu ia pra água fotografar as tartarugas. Infelizmente minha bateria acabou depois de umas 50 fotos (já tinha tirado mais de 1.400 no passeio no Arvoredo), e tive que ir embora, mas realmente, vi umas quatro. Voltamos pra Praia do Embrulho mais dois dias, num deles o Cris viu umas 10. Eu vi umas oito. O Cris tem foto de três juntas. Sabíamos que eram indivíduos diferentes porque os tamanhos, cascos e cores eram diferentes.

– A Praia da Sepultura não é tão fácil de chegar se você está sem carro. Do nosso apartamento eram 2km, mas com trechos íngremes. Mesmo pra quem está de carro, os estacionamentos ficam a 350 metros da praia, os 15 metros finais são uma rampa que você tem que descer com cuidado pra não escorregar. Mas vale muito a pena. Não vimos tartarugas, mas havia vários cardumes com centenas e um deles com milhares de peixinhos. A água estava mais calma e mais límpida do que na Praia do Embrulho. Vi pela primeira vez um peixe-cachimbo (um parente do cavalo-marinho), vários caranguejos. Os cenários com as algas eram muito bonitos. Só não fotografei mais porque minha bateria acabou, me arrependi de não ter dado um jeito de colocar a bateria sobressalente no porta-treco à prova d´água que a gente leva no pescoço.

– A Praia da Sepultura tem lanchonete e lojinha que aluga caiaque, paddle, equipamento de snorkel. Na Praia do Embrulho também tinha lojinhas que alugavam.

 

Dificuldades da fotografia submarina

No Arvoredo pegamos águas límpidas, mas na Praia do Embrulho a água estava bem turva. Pelo pouco que entendo, não é uma questão de locais que têm água límpida, e sim das condições do mar naquele dia, parece que o vento é o fator que mais influencia, e não céu azul ou nublado.

Na Praia do Embrulho em vários momentos a água estava tão turva que parecia algo sólido, você tinha que tirar a cabeça pra fora da água pra ver pra que lado estava indo. Pra fotografar era preciso estar bem perto do tema.

A correnteza da água também varia. No Embrulho estava mais forte, na Sepultura estava mais tranquilo. Além da dificuldade pra estabilizar a câmera, tem os machucados. Eu voltei com vários roxos nas pernas e no braço, dos momentos que a água te joga contra as pedras ou, em lugares mais rasos, de repente a correnteza te arrasta por cima das cracas. Sei que parece mico entrar na água vestido da cabeça aos pés enquanto todo mundo está de biquíni, mas além de proteger do sol, também protege nessas horas. Sem as roupas de lycra, teria me cortado. Mas se estivesse com neoprene, teria machucado menos.

Testei alguns modos da câmera e acabei deixando no modo peixinho, em que a câmera decide as regulagens. Concluí que ela acertava a maioria das vezes, e fotos ruins não tinha jeito mesmo porque eram situações com pouca luz e aumentar o ISO não resolvia.

Nos dias de sol usei compensação de -0,7, ou até -1.

 

Riscos pra saúde pra quem vai pro mar

Não entre na água depois de chuvas fortes porque as águas estarão mais poluídas, você corre mais risco de pegar doenças. A gente leu placas com essas mensagens nas praias da Austrália, e só depois fui pesquisar e passei a prestar atenção.

O maior risco é ingerir água contaminada, algo que é comum no snorkeling. Mas mesmo de estar com a mão contaminada e levar à boca, já pode se contaminar. No mar você pode pegar viroses, hepatite A, salmonela. Pessoas que frequentam o mar também têm mais risco de infecção de ouvido. E na areia, independente da chuva, há risco de micoses e bicho-geográfico

Espero não estar desanimando ninguém. Eu adoro praia, mas pra qualquer passeio que a gente faz, é importante ter consciência dos riscos. Por exemplo, eu não sabia dos riscos de entrar no mar depois de chuvas fortes. Os médicos recomendam esperar 24h antes de entrar no mar depois de uma chuva forte.

https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/bicho-geografico-larva-migrans-cutanea/

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2017/12/27/sp-e-rio-tem-72-praias-improprias-desrespeitar-alertas-e-um-risco-a-saude.htm

http://dc.clicrbs.com.br/sc/estilo-de-vida/noticia/2016/01/medico-explica-doencas-que-a-pessoa-pode-contrair-se-entrar-em-aguas-improprias-para-banho-4949216.html

https://vejario.abril.com.br/cidades/praia-limpa/

 

Birdwatching em Bombinhas

É claro que também levei a DSLR com a tele. Saí de bicicleta em duas manhãs. Na primeira fui em direção aos morros com vegetação. Numa rua sem saída, com um pouco de mata, encontrei alguns acaracuãs-escamosos, uma ave bem comum na região, mas que era lifer pra mim. Também tinha belos bicos-de-lacre, pica-pau-anão-de-coleira, saíras-militares, suiriri.

Quando estava fotografando os bicos-de-lacre, um senhor saiu da casa dele pra perguntar por que eu estava filmando a casa dele (e a câmera nem estava apontada pra lá, e sim pro outro lado da rua). Expliquei que estava fotografando passarinhos, e ofereci pra mostrar pra ele no visor da câmera. “Fotografando passarinhos??”, naquele tom de voz “que mentira”, e continuou falando que não queria imagens da casa dele na internet. Eu fui perdendo a paciência, e falei “o senhor está dizendo que não tenho o direito de estar na rua fotografando natureza?”, ele “só estou falando que é muito estranho você estar aí na chuva”. Era uma garoa, mas como eu estava na garoa há um bom tempo (a câmera com capa, mas eu sem capa), eu já estava lá, de cabelo encharcado. Por dentro fiquei rindo, pensando que era mesmo estranho, mas que ele não tinha o direito de me chamar de mentirosa, ainda mais depois de eu oferecer pra mostrar a câmera pra ele. Uma mulher, talvez a esposa, também estava falando coisas que eu não conseguia ouvir, provavelmente reforçando que era um absurdo eu estar com uma câmera na rua. Fui embora de lá meio triste.

No dia seguinte também acordei cedo, mas fui pra outro lado, pros lados da Praia da Sepultura. Mariquita, saíras-militares, pica-pau-anão-de-coleira macho e, acho que era gaturamo-verdadeiro, a fêmea e um jovem mudando de cor. Estavam comendo aquelas bolinhas cor-de-rosa tão estéticas. Além das aves, flores e folhagens bonitas, bromélia florida, borboleta, insetos interessantes. E, o mais importante, ninguém importunando.

É uma região com bastante Mata Atlântica, não só em Bombinhas, mas o caminho todo, desde Navegantes, você vê muitos morros cobertos de mata. Só é assustador passar em frente ao Balneário Camboriú, a Dubai brasileira, é uma loucura a quantidade de arranha-céus em construção. Conversando com nosso motorista de Uber, perguntei “mas essa quantidade de construções devem atrair um monte de trabalhadores temporários que depois não têm mais o que fazer, não?”, ele “sim, essa é uma cidade dividida em duas: do lado da praia ficam as pessoas ricas, do outro lado da rodovia é a parte pobre e violenta. Tem uns bairros ali daquele lado que eu não entro de jeito nenhum”.

 

Custos da viagem

Apartamento com cozinha 5 diárias pelo Booking: R$ 1.125

Transporte: R$ 110 + R$ 27 + R$ 200 (uber e táxi Navegantes-Bombinhas e vice-versa), R$ 320 (bicicletas) = R$ 677

Passagens SP – Congonhas – Bombinhas: R$ 828 duas pessoas, compradas com um mês e meio de antecedência

Passeio pra Ilha do Arvoredo: R$ 266 + R$ 110 = 376

Alimentação: nós gastamos mais porque compramos vinho, cervejas especiais, comemos peixe e camarão todos os dias, e no primeiro dia comemos num restaurante de frutos do mar, que são caros. Mas há várias opções self-service a R$ 25. Ou seja, sem muitas extravagâncias dá pra estimar uns R$ 180 / R$ 200 por dia com alimentação pra um casal, que daria R$ 1.000.

Custo total para um casal: R$ 4.000 incluindo o trecho aéreo São Paulo – Bombinhas.

Chegamos numa sexta à tarde e voltaríamos na quarta à noite, mas a quarta amanheceu fria e chuvosa, então não fomos pra praia e adiantamos o voo da volta. Se soubéssemos que o tempo estaria assim poderíamos até ter ido embora na terça à noite.

 

Indicações de mercados

Mercados, todas na Av. Vereador Manoel dos Santos:

– n. 1836: Peixaria do Marcus (ao lado tem uma quitanda)
– n. 1.600: Veratoni Supermercados
– n. 1310: Smoke Beer Tabacaria (pra comprar cervejas especiais, recomendamos as de rótulo verde e vermelho da Sunset Brew)

http://www.bombinhas.com/bombike-aluguel-de-bicicletas/

 

Conclusão

Bombinhas é um super-destino pra snorkeling, um lugar que pretendemos voltar mais vezes. Muito mais vida marinha do que nas praias de Ubatuba ou Peruíbe. Sei que há ilhas de São Paulo bem faladas – ainda que haja tragédias, como a Ilha das Couves em Ubatuba, que era um paraíso mas foi destruída por excesso de visitação e falta de controle.

Talvez em algum momento eu considere que os riscos de zika e chikungunya estão baixos os suficiente pra voltar pro Nordeste, mas por enquanto, Bombinhas é uma das melhores opções.

No passeio pro Arvoredo conversamos com uma mergulhadora que foi pra Fernando de Noronha, e nos falou que Noronha é muito bom pra snorkeling direto da praia. Ela foi com uma amiga que não mergulhava de cilindro, e acha que essa amiga, que ficou só no snorkeling, viu mais coisas do que ela. Também recomendou ficar hospedado nas casas dos moradores locais, disse que são boas, com diárias na faixa de R$ 200. Quem sabe a gente consiga ir pra lá ainda neste ano.

 

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