Parcerias de birdwatching com uma RPPN na região de Itatiaia

O município de Itamonte pertence a Minas Gerais, mas está mais próximo das capitais do Rio e São Paulo do que de Belo Horizonte. Localizado na divisa entre os três Estados, teve no passado sua economia baseada na placa-circuito-terras-altas-mantiqueirapecuária leiteira. Atualmente, por estar localizado em área prioritária para a conservação da biodiversidade segundo as Nações Unidas e com inquestionável vocação para conservação da Mata Atlântica na Serra da Mantiqueira, tem 80% de seu território destinado a unidades de conservação, o que faz com seja bastante atraente para quem curte atividades ligadas à natureza. As UCs mantidas pelo poder público na região são: Parque Estadual da Serra do Papagaio, APA Serra da Mantiqueira e a mais conhecida, Parque Nacional do Itatiaia (parte alta). Além delas, desde 2011 mais uma unidade de conservação tem sua sede no município: a RPPN Alto-Montana. A reserva ocupa 672 ha dos 1.050 que constituem a fazenda Pinhão Assado, sede do Instituto Alto-Montana da Serra Fina, responsável pela gestão da mesma e pelas ações de pesquisa e educação ambiental na área. Cabe ressaltar que a criação da RPPN e a elaboração de seu Plano de Manejo foram efetivados com apoio do Programa de Incentivos a RPPNs da Mata Atlântica, coordenado pela Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica.

A fazenda abrigou desde os anos 50 até 2008 o tradicional Hotel Casa Alpina. Em 2007, quando adquirida pelo atual proprietário, foi recebida em condições de uso diversas, desde elementos em estado operacional, carentes de adequações e manutenção básica, até outros em estado bastante precário e até inoperantes. A partir de um novo olhar, os mais evoluídos conceitos de sustentabilidade estão sendo aplicados no planejamento da nova estratégia empresarial para a fazenda, de forma que a responsabilidade socioambiental de longo prazo é dimensão da sua visão de futuro. Os programas de ação que compõem a nova estratégia empresarial estão sendo construídos dentro dos seguintes Eixos Conceituais: (1) Preservação e Conservação Ambiental; (2) Produção Animal e Vegetal Sustentável; (3) Pesquisa e Desenvolvimento; (4) Educação e (5) Turismo integrado às demais ações. (fonte: institutoaltomontana.blogspot.com)

Nesse contexto, o Instituto/RPPN pretende estimular a observação de aves como ferramenta de educação e conservação ambiental, assim como modalidade de ecoturismo, dentre as atividades praticadas nas áreas sob sua gestão e adjacências. Parcerias estão sendo construídas e em visita recente o observador de aves Ricardo Mendes foi recebido por dois gestores do Instituto, Paulo Pêgas e Endy Arthur, e pelo biólogo Kassius Santos, que realizou um relevante trabalho de levantamento das aves que habitam a área durante seu trabalho para conclusão do curso de Biologia na Universidade Federal de Lavras e para o Plano de Manejo da RPPN. Segue abaixo o relato dessa visita, priorizando aspectos relacionados à observação de aves.

O primeiro local visitado foi a RPPN. Uma estrada de cerca de 8 km atravessa boa parte dela e permite que o visitante vá da sede do instituto, a 1.400 m de altitude, até os 2.200 m, onde já funcionou a rampa de vôo livre mais alta do Brasil.

A distribuição das espécies varia ao longo do gradiente altitudinal, o que torna possível encontrar surpresas a cada uma das várias curvas dessa estrada. Choquinha-da-serra, beija-flor-de-topete, pica-pau-dourado e caneleirinho-de-chapéu-preto são algumas delas…

No ponto mais alto da estrada, garrincha-chorona, gavião-pega-macaco e outros rapinantes, tapaculo-preto, sanhaçu-frade e (com sorte!) o pinto-do-mato podem ser observados.

A notícia ruim é que a estrada está em más condições de conservação e percorrer seus poucos quilômetros exige um veículo 4×4, perícia do motorista e paciência dos acompanhantes. Fica a expectativa para que a manutenção da mesma seja logo restabelecida, pois percorrer, contemplar e parar pelas curvas (pausas para passarinhar) quando ela estiver mais conservada certamente serão atrativos singulares para os visitantes. Em tempo, a responsabilidade legal pela manutenção da estrada é de empresas de telecomunicação, que mantêm antenas em uma torre no ponto mais alto, mas elas não cumprem com suas obrigações, o que leva a longas e morosas disputas judiciais.

Uma vez lá em cima, é impossível não reservar alguns minutos para contemplar o silêncio quase absoluto, não fosse pelo canto as aves :), e a vista, de tirar o fôlego, para qualquer lado que se olhe.

De volta à sede do instituto, reencontro com os que ficaram e uma pausa para o almoço em um dos vários restaurantes que servem trutas em Itamonte. A cidade é grande produtora desse peixe, exótico, que exige água pura e em temperaturas amenas para sobreviver. O impacto ambiental dessas criações é assunto para outra conversa e não será tratado aqui…

Na parte da tarde uma visita à parte alta do Parque Nacional do Itatiaia, cuja estrada de acesso fica a 5 km da Fazenda Pinhão Assado. Oportunidade imperdível para encontrar belas e interessantes espécies: saudade, com seu canto que lembra a microfonia, peito-pinhão, estalinho e várias outras. Pontes que permitem observar as aves nas copas das aves são grandes atrativos. Em uma das paradas obrigatórias ao longo da estrada um lek de beija-flores-de-topete! Vários machos da espécie vocalizavam e demarcavam seus territórios: período reprodutivo que se aproxima.

A última manhã foi dedicada a atividades no entorno das instalações do Instituto Alto-Montana. Apesar de não estar dentro da RPPN, essa área tem várias trilhas fáceis de percorrer, nas quais é possível a observação de outras tantas espécies: saí-de-pernas-pretas, piolhinho-serrano, verdinho-coroado, borralhara-assobiadora, grimpeiro, maria-preta-de-bico-azulado, pica-pau-rei, quete e, para nossa surpresa, o primeiro registro de águia-cinzenta (avistamento e gravação sonora realizados pelo Kassius) dentro da fazenda. Enfim, passarinho é o que não falta por lá!

O instituto disponibiliza um guia com as aves da RPPN, que pode ser baixado gratuitamente. Estão gradativamente melhorando a estrutura das instalações para recepção de hóspedes, mas as mesmas já se encontram em condições satisfatórias para recebê-los, uma vez que ali funcionou um renomado hotel até alguns anos atrás. A lista com as espécies está disponível em taxeus.com.br/lista/3136.

Gostou do lugar? Quer passarinhar por lá? Entre em contato e agende sua visita com um guia especializado.

 

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