Quero aqui fazer um pequeno relato não-realmente-ornitológico do (mini)passeio do COA-RJ de um dia e meio para a RPPN Bacchus, da Izabel Miller, em Macaé de Cima – RJ, organizado em forma impecável pela nossa querida Vanda Roxo e, claro, pela própria Izabel e a filha. Obrigado, Vanda!!

Estrelinha-ametista – M (Calliphlox amethystina) Amethyst Woodstar

 

  • Texto e fotos: Luis Florit
  • Câmera: Olympus E5
  • Site: http://luis.impa.br/photo/
  • Relato de passeio com o Clube de Observadores de Aves do Rio de Janeiro, em setembro de 2011. Enviado em outubro de 2012.
  • Site da Bacchus:  http://sitiobacchus.webs.com
  • Contato com a Bacchus: david.izabel@gmail.com
  • A RPPN Bacchus tem uma Casa Ecológica (não é uma pousada), e recebem apenas pessoas realmente interessadas na natureza.  Tradicionalmente recebem botânicos, pesquisadores, ornitólogos e orquidófilos, e agora estão começando a receber birdwatchers.

A RPPN Bacchus tem 120 hectares incrivelmente bem preservados com a casa não longe do topo da montanha. Situada quase a 1500 metros de altitude, a temperatura e obviamente bem mais baixa que no Rio. Tem dias que venta bastante, claro, mas outros que não. Nós pegamos um de cada pois uma frente fria passou pelo estado nesta semana. É um ótimo refúgio para o calor do verão, embora não sei se a estrada fica complicada quando chove. Izabel pode nos informar isto.

Como a área reservada para a casa é comparativamente pequena (uns 2.000 metros quadrados?), o jardim da casa é a própria mata, em boa parte mata primária, com grandes bromélias e orquídeas. É difícil descrever isto. Vocês acordam não só com o canto de bichos como corocochó (Carpornis cucullata) ou tororó (Poecilotriccus plumbeiceps), mas com saudade (Tijuca atra), falcão-caburé (Micrastur ruficollis) e até caburé-miudinho (Glaucidium minutissimum) cantando literalmente a poucos metros das suas janelas. A saudade então gosta da árvore que dá sombra à casa.

Aqueles que têm o dom de reconhecer os bichos pelo canto podem fazer levantamento de pijama e sem levantar da cama. Nunca pernoitei tão dentro de uma mata tão bela e tão bem preservada antes. Meu lugar preferido em Macaé de Cima era a fantástica pousada Amantes da Natureza, mas isto aqui é ainda melhor. Em mais de uma oportunidade nos vimos bem no centro de um concerto de corocochó cujos cantos vinham de muito perto e de todas as direções, sendo difícil contá-los. No pequeno gramado da casa ‘pastam’ cigarras-bambu (Haplospiza unicolor), enquanto pelos céus voam gaviões-pega-macaco… Eu sempre achei a mata de Macaé de Cima a mais bela que eu conheço, mas a casa de Izabel é ainda mais especial. Lá encima parece que nada mais existe no mundo senão mata preservada, você até duvida que exista desmatamento. Um sonho feito realidade.

A Izabel coloca garrafas de água para os beija-flores, que são um espetáculo à parte. Não só pela quantidade de bichos que vocês já devem imaginar, mas pela quantidade de um deles em particular que, pelo menos no meu caso, vi poucas vezes: o estrelinha-ametista (Calliphlox amethystina). Eu sempre vejo a fêmea, mas poucas vezes vi o macho. Bem visto e fotografado, apenas uma vez, no famoso sítio do Jonas, em Ubatuba, quem me disse que só teve 2 casais durante 2 anos seguidos e eu tive a sorte de pegar um desses anos. Pois bem, a quantidade de estrelinha-ametista no jardim é incrível! Eu vi vários machos brigando entre si, dando rasantes, perseguindo fêmeas, etc. Fotografei eles de todas as formas, filmei se espreguiçando, conversei sobre a vida com um deles há menos de um metro de distância… No final, ignorávamos o bicho de tantos que tinha. Que luxo.

A piscina estava obviamente vazia. Só que o ‘deck’ da piscina dá para um barranco absolutamente vertical, pelo que encontra-se na altura das copas das arvores(!!). Um falcão-cabure chegou relativamente perto, mas não respondeu ao playback. Dedicar tempo a ficar nesse deck deve valer a pena. Na verdade, se não quiser, um fotógrafo não precisa sair pelas trilhas na mata da casa, pois desde o jardim pode se entreter vários dias, já que a mata é colada na casa, e a luz é bem melhor que nas trilhas da mata atlântica, pois o gramado da casa praticamente não tem arvores. Por problemas nas costas e outros motivos, eu fiquei o tempo inteiro no gramado da casa fotografando ou simplesmente sentado curtindo, e foi ótimo.

No lugar dos Miller, qualquer pessoa estaria tentada a podar as árvores do lado da casa para ter uma vista deslumbrante. Em particular, desde o deck. Mas eles não. Da casa deles você só vê mata, e mata, e mata preservada… Imagino que, além da paixão pelo lugar, eles se contiveram pois basta uma agradável caminhada de 5 ou 10 minutinhos pela própria estrada de acesso a casa, onde topamos com vários beija-flor-de-topete (Stephanoxis lalandi) e várias tesoura-cinzenta (Muscipipra vetula), para ter uma vista de tirar o fôlego.

Assim fica fácil preservar, né?

Mas tudo isto é secundário (??!). Pois é.

O mais importante, o melhor da viagem, foi o sentimento que a Izabel nos proporcionou. Eu me senti em casa. Sim, eu sei que isso sempre se diz, mas é que eu REALMENTE me senti em casa!

A casa de madeira é muito aconchegante, num estilo rústico, mas justamente parece ser mais aconchegante por ser rústica. Tudo se ‘encaixa’, até a energia solar que dá eletricidade a casa. Possui uma lareira deliciosa que expulsa qualquer frio que o visitante tiver, fogão a lenha, uma biblioteca muito interessante, e 2 camas em cada um dos 3 confortáveis quartos de hóspedes. Além da casa, tem uma outra casa com alojamentos novos do lado, com mais 3 amplos quartos com 2 camas cada, mais um quarto de casal, e 2 banheiros. Tudo novinho, acho que sequer foi estreado. No inverno imagino que estes alojamentos possam ser um pouco frios, mas não os utilizamos. De qualquer forma, a Izabel esta pensando em colocar aquecimento neles para o inverno.

Agora, certamente um dos ‘highlights’ da viagem foi a comida feita naquele fogão pelas nossas anfitriãs: farta e deliciosa. E ainda o atencioso oferecimento de comida e frutas constante da Izabel durante o dia todo. E isso que eu já não sou magrinho… Depois do jantar, passarinheiro vai dormir logo, mas aqui estava difícil. Os papos dos visitantes com a Izabel e a filha foram tão interessantes e divertidos que acabamos indo dormir depois do que devíamos… porém felizes.

Emfim, tem mais coisas pra contar. Izabel me disse que está abrindo sua casa a observadores de aves. Mesmo um grupinho pequeno pode aparecer por lá, é só combinar. Uma coisa é certa: eu vou voltar. Pois um dia e meio foi muito pouco. De fato, um mês também e pouco… e um ano também não alcança… Deve ser por isso que Izabel decidiu ficar morando no paraíso.

Entrevista aos Miller na TV sobre a RPPN, onde se fala também sobre as muitas orquídeas da RPPN: