Este é um post que talvez interesse a pouca gente. Mas escrevi, na esperança de que algum dia um estilista tope com ele e se interesse em desenvolver roupas para birdwatchers, capazes de conjugar conforto, tecnologia, beleza, camuflagem e estilo. Ou pelo menos que haja mais roupas cotidianas com aves (brasileiras, reais e com os nomes certos) como tema.

O que nos identifica como birdwatchers é carregar uma câmera ou um binóculo.

O que nos identifica como birdwatchers é carregar uma câmera ou um binóculo, mas nas nossas roupas não há elementos que exponham nosso amor pelas aves.

 

  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: diversos autores
  • Neste post faço referências à caça pensando nos Estados Unidos, onde essa atividade deprimente, sádica e covarde é legalizada e bastante popular. No Brasil, na teoria, aprisionar ou matar animais silvestres é crime.
  • Fazia tempo que queria escrever algo sobre isso, mas a conversa pelo Facebook com a Silvia Linhares inspirou numa direção
  • Quem vai ao Avistar SP, não perca http://www.avistarbrasil.com.br/index.php/congresso/programa/32-observadoras
  • E esse mesmo link das meninas fala de um bate-papo com um estilista de uma grande marca de roupa outdoor. Pena que não poderei participar.

Acreditem ou não, esse é um dos assuntos que me chateia: não existe moda para birdwatchers. Não como há para ciclistas, esquiadores, alpinistas, praticantes de trekking e hiking, skatistas, corredores, tenistas, surfistas, motociclistas, jogadores de futebol. Outras atividades contam com roupas capazes de aumentar o conforto, o desempenho, o prazer e o orgulho de fazer parte de um grupo, mas não a gente.

Pelo contrário: vestir-se para praticar a atividade é um exercício de humildade, especialmente para as mulheres. Quer fazer um passeio de uma manhã num parque, ainda dá pra arriscar ir de calça jeans e camiseta regata ou de decotes bonitos, ou calça de coton e camisetas grandes. Mas vai para uma passarinha mais séria de alguns dias, com trechos de mata fechada, e você terá que escolher entre a beleza ou o conforto-praticidade-segurança. Não sei se consegui explicar: as roupas de tribo têm uma aura, fazem você se identificar com o grupo, em geral as pessoas têm orgulho de usar e exibir e se sentem até mais bonitas. Nós, pobres birdwatchers, não temos isso. As roupas mais apropriadas para a mata são aquelas típicas de estrangeiros: bege, azul claro, marrom, cinza, verde, tecido mole, camisa de manga longa fechada no punho e abotoada até o alto. São as mais apropriadas, mas são antiquadas, sem estilo, sem graça. Veja:

Muitas pessoas têm usado roupas camufladas, que são mais estilosas e em muitos momentos estão na moda. Mas até hoje não vi roupas camufladas de tecidos tecnológicos: ou são roupas no estilo militar – tecido forte, encorpado, mas desconfortável, ou são roupas de modinha – tecido barato, bonito, mas frágil e impróprio para as caminhadas. Ah, e me recuso a comprar de marcas que fazem roupas para caçadores norte-americanos, tenho preconceito.

Depois de provar uma dessas camisetas feitas para caminhadas, é difícil querer usar outras. As primeiras que compramos foram para uma viagem para a Patagônia em 2005. As roupas nos mantinham aquecidos no frio, e quando o dia esquentava não era nada desconfortável. Num dos dias experimentei colocar uma regata comum embaixo da de tecido tecnológico: no meio de uma caminhada num dia mais quente comecei a transpirar, mas só na área da regata. Tirei a regata e acabou o desconforto.

Minhas camisetas favoritas são da Solo, e talvez sejam essas Ion Lite (arranquei a etiqueta faz tempo, então não tenho certeza). Não é merchandising, mas veja depoimentos de maratonistas sobre a a camiseta: http://www.solobr.com/ion/depoimentos/depoimentos.html Depois dessa experiência com roupas tecnológicas logo no começo da minha vida de fotógrafa, vi como as roupas especiais fazem diferença no conforto do passeio.

Mas aí temos o seguinte desafio: as roupas feitas para passeios no mato geralmente não têm estilo. As roupas comuns bonitinhas, de cores aceitáveis ou camufladas, podem parecer que vão dar certo, mas em geral estragam rápido ou no mínimo serão muito mais desconfortáveis do que as roupas feitas por marcas especializadas.

Por que não há roupas bonitas feitas especialmente para quem anda no mato?

– O mercado é pequeno. Principalmente comparado com pescadores, praticantes de trekking e hiking. – Quem não precisa andar camuflado pode usar aquelas cores lindas e até brilhantes, calças justas, golas estilosas. No nosso caso só podemos usar verde escuro, verde médio, cinza, bege, marrom. Algumas pessoas usam preto ou azul marinho, eu evito, porque sob o sol é escaldante, e em lugares com muita poeira a calça fica horrível, e também é mais provável ficar marcada se você senta no chão ou ajoelha pra fotografar. Outros tons de azul geralmente não são recomendados, porque o azul não camufla no verde.

Olha o poder das roupas coloridas - Em Torres del Paine, Patagônia chilena, 2005.

Olha o poder das roupas coloridas, luxo de quem não precisa da camuflagem. Em Torres del Paine, Patagônia chilena, 2005.

– No Brasil a situação padrão é estar preparado para o calor, não para o frio. Temos que estar preparados para o calor, mas não temos direito de expor a pele, nada de decotes bonitos. Já vi fotos de mulheres com lindas calças militares e camisetas de alcinha ou decote nadador. Estiloso, mas e quanto ao sol, insetos, galhos? É bonito, mas não é prudente. – Obviamente, pelo mesmo motivo, só calça comprida. Nada de Lara Croft. E se sua camisa ou camiseta não for fechada quase até o pescoço, sempre há o risco de cair um bichinho dentro da sua blusa, até em momentos quando você precisaria de concentração para fazer a foto.

Mas há os pescadores e os que gostam de caminhadas, trilhas, cachoeiras. Por que não podemos aproveitar algumas das roupas feitas para eles?

Podemos. Tenho camisas da MTK (desenvolvida para pescadores), da Columbia (também recomendada por pescadores), minhas camisetas da Solo são pra hiking. Mas das 6 camisetas da Solo que tenho, na verdade só tenho usado 2: as outras são brancas ou pretas. Se uso as brancas, apanho do resto do grupo, se uso as pretas, passo calor desnecessário. E apesar do tecido ser muito bom, elas são curtas, não têm comprimento para enfiar por dentro da calça, e assim aumenta o risco de carrapatos. As roupas pra hiking geralmente têm cores e comprimento impróprios. As camisas de pescadores servem, mas são um tanto desengonçadas, e nunca vi uma fashion ou estilosa.

O birdwatching está mais próximo da caça e da pesca do que dos esportes. Por que nossas roupas seriam diferentes?

Porque somos um público diferente.

Na caça (nos Estados Unidos), o item que mais importa no vestuário é camuflagem total. Dê uma olhada no Google (hunting clothing, pesquisa de imagens), é tão horrível como a atividade: camuflagem da cabeça aos pés, em alguns casos só com os olhos de fora, parece coisa de psicopata e, realmente, alguém que sente prazer em dar tiros em bichos deve se sentir confortável nessas roupas.

A pesca é uma atividade muito popular, inclusive no Brasil. Mas aparentemente quem vai pescar considera a questão estética das roupas um dos últimos itens pra se preocupar. Provavelmente conforto e proteção contra o sol e os insetos sejam os itens mais importantes. Ter roupas mais bacanas talvez seja até mal visto pelo grupo. A MTK fez uma camisa com estampa de peixe, mas algo conservador e discreto.

Imagino que caçadores e pescadores se dirijam para as áreas específicas de suas atividades e tenham pouquíssimo contato com outras pessoas que não esteja fazendo as mesmas coisas.

Já os birdwatchers raramente estão isolados. Estamos em parques, em áreas rurais, nas estradas, em praças, em sítios, podemos parar num boteco ou até num restaurante pra comer. Raramente vamos para uma mata tão fechada que exigiria camuflagem da cabeça aos pés.

As roupas outdoor que temos no Brasil parecem ser ditadas pelos Estados Unidos e Europa. 66% dos observadores de vida selvagem norte-americanos (birdwatchers e interessados em outros animais, ainda que o interesse pelas aves seja o principal) têm mais de 45 anos de idade. Possivelmente esse padrão de  roupas formais de cores lisas são o que esses norte-americanos e ingleses estão acostumados a usar.

Você já deve ter ouvido falar que 20% da população adulta dos Estados Unidos é birdwatcher. Bom, é mais ou menos isso. 1 em cada 5 adultos é considerado birdwatcher, por querer se aproximar da ave e identificar que espécie é aquela. Mas apenas 1 em cada 14 adultos (17,8 milhões dos 239 milhões de norte-americanos com mais de 15 anos) viaja para ver aves. A grande maioria dos birdwatchers pratica a atividade no jardim. Ou seja, as roupas de campo de tecidos tecnológicos que existem hoje parecem boas para um senhor ou senhora norte-americano ou inglês na faixa dos 55 anos, tradicional, conservador, branco, faculdade ou pós-graduação, padrão no mínimo razoável de renda, não muito aventureiro (perfil geral do birdwatcher norte-americano).

No Brasil o birdwatching é uma atividade de pessoas mais jovens, ou de mais de 60 anos mas que se identificam com a juventude e sentem animados para passear, viajar e fotografar. A atividade é praticada em lugares em que haverá contato com outras pessoas o que aumenta a vontade de usar roupas que não são apenas úteis, mas que sejam bonitas e exponham o orgulho por ser birdwatcher. E talvez o birdwatching no Brasil possa ser uma inspiração para outros países. Que hobby não gostaria de atrair pessoas jovens? As roupas que os praticantes usam passam uma imagem do que é a atividade.

Se um dia surgir um estilista disposto a salvar os birdwatchers da triste sina de ser um povo sem identidade no vestuário, aqui vão minhas considerações:

Desafios

– Cores neutras: verde, bege, cinza, marrom. Não pode ser branco, e preto tem o inconveniente dos momentos sob o sol.

– Considere que se a pessoa for um birdwatcher mais dedicado, ele vai querer sentar no chão, se ajoelhar ou até deitar de bruços para poder observar ou fotografar melhor a ave. No geral as pessoas não têm coragem de fazer isso na lama, mas em mato molhado ou terra úmida é possível, e o ideal é que sejam tecidos apropriados para essas situações.

– Calças: as mais justas e acertadas são mais bonitas, mas menos práticas. Bolsos grandes, inclusive com bolsos especiais com zíperes são importantes para guardar itens como bateria, cartão de memória, a chave do carro. Bolsos largos e profundos também são bons para carregar o minifrasco de repelente. Quando o tecido fica colado na pele, é bem mais fácil para os insetos picarem por cima da roupa.

– Blusas: o melhor é camisa, abotoada até o penúltimo botão, e nos punhos. Para proteger contra insetos.

– Camisetas de manga longa em geral podem ser mais legais, fashion e baratas do que camisas. Mas elas não terão os bolsos para carregar coisas (muitas vezez não precisa, porque as calças têm muitos bolsos), e é mais fácil os insetos picarem por cima do tecido.

– Claro que haverá camisetas de manga curta ou até regatas. Mas elas protegem menos contra insetos e, especialmente, contra o sol. Costumo usar camisetas de manga curta, mas só porque não consegui achar camisetas da Solo de manga longa, cores boas, e compridas o suficiente para enfiar por dentro da calça. Em São Paulo há algumas lojas que vendem, mas o verde escuro só existe na teoria.

– Tecidos tecnológicos, confortáveis e resistentes, capazes de enfrentar bem frio, calor, transpiração, caminhadas, galho, atrito no ombro e no peito com equipamento.

– Questões com insetos: não pode haver entradas. Muita gente tem vergonha de fazer isso, mas o certo é colocar a meia por cima da barra da calça. Faça isso, ou se arrisque a muitas formigas ou carrapatos subirem pela perna acima. O certo também é a camisa / camiseta por dentro da calça, pela mesma razão.

– Roupas bonitas, mas não sedutoras. Tanto pela proteção contra sol, insetos, durabilidade da roupa, mas também por questões morais. O birdwatching não é um momento de azaração, pelo contrário. No Brasil há mais homens do que mulheres, ainda que a porcentagem de mulheres esteja crescendo rapidamente. A maioria das birdwatchers que eu conheço têm namorado ou marido, mas que geralmente não são do hobby. Recebemos o aval do parceiro pra ir pro mato com um outro cara, às vezes com um grupo de homens. É um motivo a mais para ter uma conduta irrepreensível, inclusive nas roupas. O birdwatching no Brasil é um mundo  pequeno, todos se conhecem. Nunca soube de meninas oferecidas ou cantada em gente comprometida, mas sei de outras histórias. Quem pisa na bola, logo fica falado.

Oportunidades

– Estampas bonitas relacionadas a aves podem salvar muitas roupas do tédio.

– As estampas podem ser de padronagem pequena – um sonho é ver um tecido camuflado em que, em vez de manchas, são silhuetas de diversas aves.

– Nas estampas em camisetas é preciso ir além do amadorismo da foto impressa na frente da camiseta: é preciso agregar valor de moda para a peça, que seja algo que a pessoa tenha vontade de usar inclusive em ambientes urbanos. Ilustrações bonitas, ou fotos alteradas, ou algo com desenhos grandes.

– As aves, e as asas, têm elementos positivos fortes, relacionados com beleza e liberdade. O mercado da moda poderia se apropriar disso.

– O birdwatching no Brasil é uma atividade identificada com juventude de idade ou de espírito. É possível ser mais ousado nas estampas, se inspirar em moda surf ou esportiva, ter peças com estampas grandes, pequenas listras ou faixas.

– O mercado para birdwatchers que não querem as roupas monótonas dos ingleses e norte-americanos é pequeno hoje. Mas o fato é que roupa bonita, se aproveitando do tema das aves, pode vender para qualquer um. Não é preciso ser birdwatcher para querer usar uma roupa com estampas de aves.

– As estampas e padrões poderiam ser usados em coleções de roupas urbanas, não tecnológicas. Birdwatchers e não birdwatchers se interessariam.

Roupas para ir a campo, idealmente de tecido tecnológico, são caras. Não tenho muita esperança de ver uma marca como a Solo ou a Nike querer desenvolver uma linha legal para birdwatchers. Conforme os tecidos tecnológicos vão ficando mais populares, quem sabe logo surjam formas viáveis de fazer sob encomenda. Por enquanto ficaria contente só de ver as aves brasileiras mais presentes na moda cotidiana. Com os nomes certos, é claro.

Lojas em São Paulo especializadas em roupas de aventura http://www.arcoeflecha.com.br/ http://www.mundoterra.com.br/ Sempre compro na Arco e Flecha. Eles têm a loja online, mas também têm uma loja física na Pompéia. Prefiro ir à loja, experimentar, conversar com os vendedores. Se você digitar “roupas de aventura” no Google verá lojas que vendem para o país todo, e talvez encontre lojas físicas na sua cidade. As roupas são caras mas valem a pena: as marcas boas aumentam muito seu conforto, são feitas para transpirar melhor, secar rápido, não desfiar fácil com galhos ou espinhos, não amassar, serem muito leves, ocuparem pouco espaço na mala. E duram bastante.  

 

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