• Texto e fotos: Geiser Trivelato. Geiser é guia ornitológico e fotógrafo profissional.
  • Uma versão deste texto, e várias fotos, foram publicadas na Revista Terra da Gente.
  • Passeio em out/2009 na Fazenda San Francisco, em Miranda – MS, um dos melhores lugares para ver a onça-pintada.

 

Não escondo de ninguém o meu fascínio pelas onças, e se alguém me perguntar qual a espécie animal de que mais gosto, a resposta já esta na ponta da língua: onça-pintada (Panthera onca).

Cresci ouvindo histórias sobre elas, muitas com certeza nem verdadeiras eram, mas o fato é que o bicho reina nas Américas. Relatos de ataques a seres humanos não faltam, mas pouquíssimos realmente foram confirmados no Brasil. O fato é que as onças são animais inteligentes e vão evitar a qualquer custo um confronto assim. Mas não há como negar, um misto de admiração e respeito tomará conta de qualquer pessoa que tiver a sorte de ver um animal como este cruzar seu caminho.

Sempre tive a obsessão de ver a onça-pintada na natureza e já havia realizado cinco viagens pelo Pantanal e nada de ver o bicho. Ficava sempre imaginando se algum dia esta oportunidade viria a acontecer realmente e qual seria minha reação diante dela.

 

A fauna atraída pelo arrozal

Outubro de 2009, depois de muito pesquisar, decido ir pela primeira vez ao Pantanal Sul, na região conhecida como Pantanal de Miranda. O lugar tem a fama de ser um dos melhores para se avistar felinos e, na vegetação, predominam as florestas, ao invés da típica área aberta comum em outros locais do Pantanal. Estou na “San Francisco”, a cerca de 250 km de Campo Grande, uma fazenda produtiva com um total de 14.800 hectares, onde 3300 ha são reservados para a criação de gado, outros 4500 ha são para as plantações de arroz irrigado e os 7000 hectares restantes são áreas de preservação, com vegetação do Pantanal intocadas. De início, o que impressiona é o fato de a plantação de arroz atrair grande quantidade de animais. Muitas são as espécies de aves e mamíferos que deixam as matas e são avistadas nos arrozais. O fato é que pequenos roedores vivem e se alimentam nas plantações; também peixes, anfíbios, insetos e moluscos são encontrados nos canais de irrigação ou nas lâminas d’água rasa que banham a lavoura quase o ano todo, e com isso, aves aquáticas e mamíferos herbívoros são atraídos para o local, em busca dessas presas ou para se alimentarem do próprio arroz e, por conseqüência, os carnívoros também acabam aparecendo atrás dessas presas maiores. Aliado a isto, esta o fato do arroz ter baixa estatura, o que facilita a visualização da fauna que transita em seu meio. E tudo se confirma quando realizamos os safáris fotográficos em carros e caminhões modificados pelo pessoal da fazenda para facilitar a abordagem da fauna, já que a “San Francisco” também explora o ecoturismo, levando turistas para conhecerem a rica fauna e flora do local. Durante o dia, capivaras, cervos-do-pantanal, jacarés, gaviões, cegonhas, íbis e garças variadas são avistados com freqüência. À noite, jaguatiricas, cachorros-do-mato, tamanduás-bandeira, lobos-guará e corujas fazem a festa dos observadores atentos. Tudo realizado em silêncio para não espantar os animais que já estão acostumados com o barulho dos motores, mas não com as vozes dos humanos.
O projeto Gadonça

A Fazenda é sede do projeto Gadonça, que estuda as Onças e a relação da espécie com os ataques ao gado, procurando soluções para minimizar as perdas econômicas ao rebanho e também a conscientização dos fazendeiros, visando orientá-los para soluções práticas, que reduzam os ataques e, por conseqüência, que acabe com a caça as onças do Pantanal. Palestras são realizadas por biólogos do projeto para os turistas, sobre este assunto. Muitos dados interessantes já foram coletados durante os quase sete anos de estudos. Segundo Henrique Villas Boas Concone (Biólogo), dá para se dizer por exemplo que, “As onças-pintadas (Panthera onca) se alimentam de todas as outras espécies que habitam a região, desde pequenas presas como tatus, cutias, aves, até as maiores como antas, cervos e grandes sucuris. Foi constatado que as principais espécies predadas pela onça-pintada na área do estudo são as capivaras em 1º lugar, os jacarés em 2º e os cervos-do-pantanal em 3º lugar. Os ataques aos rebanhos ocorrem realmente, mas correspondem a apenas 1% das perdas, sendo as causas naturais como acidentes, doenças e outros, os principais motivos da morte do gado na região.

Uma das soluções encontradas consiste em um simples manejo do rebanho, deixando sempre os animais afastados das áreas de mata, cerca de 200 metros já são suficientes para diminuir sensivelmente os ataques das onças,” complementa o biólogo. Nas lições aprendidas, constata-se o fato de é que o homem que esta invadindo o espaço dos bichos e que, portanto, deve respeitar o direito à vida de todos os seres vivos, principalmente no Pantanal, que é um dos últimos redutos preservados da vida selvagem!

 

O primeiro encontro com a onça-pintada

Sinto que estou realmente no local certo, quando, logo depois de uma noite de chuvas fortes, ao fazer uma caminhada pela manhã, em uma estrada de chão próxima a Sede da Fazenda, encontro enormes pegadas de felino, no meio do caminho. Mais tarde, pergunto para o experiente guia Jacir de Araújo Lelles, se ele já havia visto aquelas pegadas e ele me confirma, são mesmo de onça-pintada e ela passou por ali durante aquela noite, depois da chuva. Fico um pouco ressabiado em continuar fazendo caminhadas naquele local, pois afinal o pessoal da fazenda havia me orientado a não me afastar muito, mas me empolgo em fazer fotos da abundante fauna pantaneira e continuo a teimosamente sair sozinho pelas estradas próximas.

Passados quatro dias, minhas esperanças em ver uma onça já estavam se acabando, pois afinal me restavam apenas mais algumas horas no local. Novamente contrariando o pedido do pessoal da fazenda, resolvo ir até aquela estrada onde avistei as pegadas anteriormente. Caminho sozinho, em silêncio, fotografando as aves que aparecem ao alcance de minhas lentes e olhando aquelas pegadas enormes no chão, já bem duras e ressecadas pelo sol forte dos últimos dias. Apesar de saber que estou dentro de um provável território de onça-pintada, continuo a caminhada tranqüilamente, pois acredito que naquele horário, eram por volta das 16h30, as onças não estariam ativas, pois felinos têm hábitos noturnos. Esqueço-me, porém, de uma sábia dica deixada pelo guia Jacir, em nossa conversa de alguns dias atrás, quando falávamos das pegadas. Ele me disse: “Em dias quentes, as chances de ver uma onça, à tardezinha, aumentam, pois os insetos perturbam tanto no final da tarde que elas começam a andar antes mesmo de escurecer”.

Paro à sombra de uma árvore para descansar, e percebo então que já estou bem distante da pousada, calculo uns 2 kms, ocasião em que mais me afastei até então! Aguardo por alguns minutos à sombra e resolvo voltar devagar e em silêncio na esperança de encontrar algum bicho para fotografá-lo. Caminho alguns metros e resolvo olhar para trás. Não acredito no que vejo, ao longe, um grande animal vem caminhando no meio da estrada em minha direção a cerca de 200 metros. Miro minha câmera e disparo duas vezes apenas. O suficiente para a confirmação do que desconfiava. Olho o visor de minha câmera digital e dou um zoom ainda maior na imagem.

Ainda sem acreditar meu coração dispara como nunca. Fico paralisado. O bicho que eu tanto procurava se materializa na imagem, uma onça-pintada das grandes aparece no visor da câmera! Volto o olhar para estrada e ela continua lá, ao vivo e a cores caminhando lentamente em minha direção, com a cauda levantada e ondulante.

Tudo o que sempre sonhei acontece no momento em que eu menos esperava. Fico sem reação, preciso tomar uma decisão rápida, ou me arrisco e escondo aguardando a aproximação do felino para realizar boas fotos, ou aproveito ainda a longa distância entre mim e a fera, para fugir dali o mais rápido possível. Nestes meus segundos de indecisão, a onça resolve entrar na vegetação das margens da estrada e desaparece aos meus olhos. Confesso que deu medo, não pensei duas vezes, virei imediatamente na direção oposta ao bicho, e comecei a correr os praticamente 2kms que me separavam da sede da fazenda. Vez ou outra mesmo correndo, dava uma olhada para trás para me certificar que ela não me perseguia. Chego ofegante a sede após uns 15 minutos e procuro pelo guia Jacir. Voltamos com um dos carros usado nos safáris ao local onde vi o bicho alguns minutos atrás, mas nada de encontrá-la. Depois ficamos sabendo que a mesma onça que vi cruzou na frente de um funcionário da fazenda, o qual conduzia uma motocicleta pela estrada, e com isso, ela se assustou e voltou a se esconder na mata, o que explicava o nosso desencontro com o bicho, quando retornamos ao local, na segurança da caminhonete.

Uma sensação estranha toma conta de mim, um misto de euforia e desapontamento, pois afinal tinha visto a onça que tanto procurava, mas ao mesmo tempo tinha fugido dela ao invés de tentar fotografá-la e as duas únicas fotos que fiz na ocasião não ficaram boas. Nunca poderia imaginar que o destino colocaria uma onça-pintada na minha frente justamente na ocasião em que me encontrava sozinho e caminhando longe da segurança de um abrigo ou de um veículo. Penso bem na decisão que tomei de não esperar ou ir atrás da onça e chego à conclusão que tomei a atitude mais coerente naquele momento, apesar da frustração de não ter realizado as fotos que desejava!

 

O encontro com o casal de onças durante a focagem noturna

Mas o encontro me anima para a focagem noturna, algo me dizia que se tinha visto aquela onça durante à tarde, que elas também iriam aparecer naquela noite, ainda mais que o guia Jacir, animado com o meu encontro, decide ir dirigindo e avisa a todos que irão participar do passeio à noite, cujo objetivo principal será achar as onças, mesmo que, para isso, ele tenha que colocar o caminhão da focagem em caminhos tortuosos e esburacados e com prováveis atoleiros causados pelas condições precárias das estradas, nesta época de início das chuvas no Pantanal. Todos os turistas participantes concordam e com isso partimos por volta das 20h, com o sinal de tempestade anunciado pelos trovões e relâmpagos, no horizonte.

Logo de início, Jacir pega o mesmo caminho onde eu havia avistado a onça, poucas horas atrás. Expectativa de todos: será que o mesmo animal continua nas proximidades? De longe dois olhos brilham refletindo a luz da potente lanterna Silibim do focador Elmo da Silva Santos. Jacir acelera, o local era exatamente o mesmo onde eu vi a “Pintada”, mas ao chegar mais próximo, frustração geral, um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) nos enganou! A focagem segue, com Jacir cumprindo o prometido, caminhos difíceis são vencidos pelo caminhão brilhantemente guiado por ele. Percorremos alguns kms, a chuva parece estar cada vez mais próxima, uma mensagem de rádio é passada pela sede da fazenda para a cabine do caminhão de focagem, dizendo para apressar nossa volta, pois a previsão era de chuva de granizo. São aproximadamente 20h30 e estávamos andando a cerca de 30 minutos apenas. Jacir insiste mais um pouco. De repente, Elmo que procura pelos bichos “facheando” com a potente luz do silibim tudo a sua volta, diz as palavras que todos estavam ansiosamente aguardando: Olha lá a onça, silêncio pessoal!

Dois olhos brilham na escuridão, Jacir acelera novamente. Preparo minha câmera fotográfica. Quando chegamos à cerca de 30 metros, surpresa geral, duas onças-pintada são iluminadas e atravessam a estrada na nossa frente.

Elas estão no arrozal, tentam voltar para mata, mas Jacir fecha o caminho delas, colocando o caminhão da focagem na frente e fazendo que as onças recuem e se mostrem por inteiro para todos. E as onças dão um show. Uma delas vem caminhando em nossa direção em meio à plantação e sem demonstrar medo nenhum, para a poucos metros do caminhão, olha diretamente para nós e só depois vira na direção oposta e volta a se juntar a sua companheira.

São cerca de 10 minutos de pura emoção, faço dezenas de fotos! No final, as duas onças pulam no canal de irrigação, atravessam nadando e voltam lado a lado para a mata. Não consigo conter a emoção, lágrimas rolam pelo rosto. A chuva já anunciada vem com força, molha todos inclusive a mim, mas não ligo para mais nada, estou em êxtase e literalmente de “corpo e alma lavados”.

Posteriormente, o pessoal do projeto “Gadonça” analisou minhas fotos e, através das malhas ou pintas das onças fotografadas, foi possível saber que se tratava de um casal adulto. O macho, um pouco maior, era um animal desconhecido pelos biólogos na região. Mas, para a surpresa e alegria de todos, a fêmea era uma velha conhecida que não era avistada desde 2007.

Ela foi batizada pelo pessoal do projeto com o nome “Rosina”, é filha de uma outra onça que foi muito estudada, chamada “Dora”. A fêmea “Rosina” nasceu em 2005 e foi acompanhada desde filhote até desaparecer em 2007! Nas fotos, ela esta com 4 anos e no auge de sua forma, e a expectativa de todos, daqui para frente, é que, com um macho acompanhando-a, novas oncinhas nascerão em breve, na maior planície alagável do mundo.