Foco, nitidez, contraste, saturação de cores, tudo isso é alcançado hoje de uma maneira que seria considerada ficção científica no passado. Com isso, porém, não quero dizer que a fotografia de aves tenha se tornado “fácil”. Não, ela continua desafiadora, envolvendo sorte, conhecimento ornitológico e muita, muita paciência.

Galo-da-serra (Rupicola rupicola) Guianan Cock-of-the-rock (M)

 

João Guilherme Quental (JQuental) é fotógrafo de aves brasileiras. Além disso, é professor de fotografia na Associação dos Amigos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e suas fotos de mais de 900 espécies de aves brasileiras fazem parte de diversas publicações nacionais e internacionais.

Recentemente, um aluno de um dos meus cursos de fotografia, sabendo da minha atividade como fotógrafo de aves, perguntou-me se eu não teria interesse em ver alguns livros dos quais pretendia se desfazer, jogando-os no lixo, mas que talvez me interessassem. No meio dos previsíveis e ultrapassados manuais do gênero “como fotografar” ou “fotografia descomplicada”, uma pequena pérola: publicado pela editora francesa Hachette, em 1971, de autoria de Jean-Marie Baufle e Jean-Philippe Varin, “La chasse photographique”, ou, simplesmente, “a caça fotográfica”.

O livro é particularmente interessante por pelo menos dois motivos. O primeiro deles está no próprio título, identificando – muito corretamente – a fotografia de natureza com a ideia de “caça”. Não é à toa que muitos pacotes turísticos de observação de fauna utilizam o termo “safári fotográfico” para descrever o tipo de atividade que será realizado. De certo modo, é como se houvesse ocorrido uma benéfica evolução, passando-se das armas para as câmeras e suas lentes. Mas seriam mantidos os objetivos primordiais da “caça”: a emoção, a busca de “troféus”, as emboscadas… Não são poucos os fotógrafos que adotaram as aves como tema que buscam esse tipo de atividade, embora outros haja que desejam, na fotografia, algo mais do que uma mera (e talvez bastante superficial) emoção de “caçador de imagens”.

Nesse sentido, o livro dos franceses é uma aula sobre como mudou a nossa maneira de encarar o que seria uma “bela foto de aves”. Uma das questões que salta aos olhos é, com certeza, o modo como o equipamento fotográfico evoluiu nesses últimos 40 anos. A fotografia digital, contrariando os pessimistas que, em um primeiro momento, viam nela apenas uma curiosidade, sem ambições estéticas, levou a produção de imagens de natureza a resultados que, pelos padrões dos anos 70, seriam impensáveis. Foco, nitidez, contraste, saturação de cores, tudo isso é alcançado hoje de uma maneira que seria considerada ficção científica no passado. Com isso, porém, não quero dizer que a fotografia de aves tenha se tornado “fácil”. Não, ela continua desafiadora, envolvendo sorte, conhecimento ornitológico e muita, muita paciência. Porém, o equipamento moderno deu aos fotógrafos resultados que muitas vezes nos fazem perguntar: ainda haverá alguma maneira de melhorar ainda mais a qualidade de nossas imagens? E a resposta é “sim”, se deixarmos de lado as questões técnicas, e passarmos a focar aspectos mais (por que não?) metafísicos desse tipo de fotografia.

E é isso que nos leva a outra questão: por que desejamos essa qualidade? Pode parecer uma pergunta tola, com uma resposta óbvia: ora, para mostrar a imensa beleza de nossas aves. Mas essa resposta esconde, muitas vezes, outras um pouco mais nebulosas… Muitas vezes, a beleza de nossas fotos é apenas uma forma suave de exibicionismo, mostrando como fomos capazes de estar no lugar certo, na hora certa, com o equipamento certo e com a técnica certa… O que não é uma vaidade totalmente censurável, a menos que nos esqueçamos de outras missões que uma bela foto de ave pode vir a ter: mostrar a diversidade de nossas aves, emocionar as pessoas e sensibilizá-las para a necessidade de preservar essa beleza, registrar o que, muitas vezes, está escondido dos olhos da maioria, o instante fugaz, aquela espécie arisca que vive na brenha, quase sempre oculta da nossa observação, mas que guarda, ela sim, a verdadeira beleza desse tipo de fotografia, fazendo com que nós, fotógrafos, sejamos apenas um instrumento da sua revelação.