(…) Mas, obviamente, depois de ter terminado toda a escola por conta própria e ter feito manobras com a bicicleta dignas de um belo suicídio esperando mesmo que seus pais não tenham visto, você sabe que é apenas uma fase e que, uma hora ou outra, você saberá fazer escolhas mais diretas ou mais certeiras. Em outras palavras, quando você deixa de se preocupar, passarinhar por conta própria se torna a maior diversão. E, devo dizer, isso acontece assim que você avista uma ave bem bonita na mira de sua câmera.

Periquito-rico (Brotogeris tirica) Plain Parakeet

 

  • Texto e fotos: Tatyana Ferlin
  • Câmera: Panasonic Lumix FZ 35

Começar a passarinhar “com as suas próprias pernas” é algo que deveria ser relatado por todos os passarinheiros. Se não relatado, então guardado em sua memória para sempre. Igual aquela memória de quando seu pai deixou de segurar o banco da sua bicicleta pela primeira vez, ou quando sua mãe deixou de assistir às aulas do pré-primário no fundo da sua sala. A mãe de vocês fazia isso, certo? Alguma pelo menos? Bem, passarinhar sozinha pela primeira vez tem o mesmo sentimento.

Aprendi a passarinhar em maio com a grande amiga Claudia Komesu na capital paulista. No dia seguinte à experiência eu já estava na minha cidade natal, Penápolis, por conta própria. E enquanto eu passarinhava em São Paulo a Clau ficava atrás de mim dando os comando certos como “ajoelhe-se” ou “tente ir pelo outro lado da árvore”, ou, então, estava apenas atrás de mim mas olhando para outra direção, observando outras aves, mas, ainda assim, estava atrás de mim. Assim como os pais estão atrás da gente quando estamos aprendendo a andar de bicicleta; mesmo que eles estejam olhando para outro lado e só percebam que caímos, não quando a primeira parte do nosso corpo encosta no chão, mas quando já estamos deitados e chorando, eles estão ali atrás da gente.

Fotografando canários no Parque Villa-Lobos

Na foto acima a Clau está atrás de mim registrando o seu comando “ajoelhe-se”.

As minhas primeiras passarinhadas aqui em Penápolis já começaram incertas desde o início. “Será que acordei muito tarde? Ainda dá tempo?”. Outras grandes dúvidas acontecem no local em que escolhi para passarinhar: “Com copas de árvores tão grandes e uma máquina sem uma grande lente será que estou perdendo o meu tempo aqui? Para que lado da árvore eu tenho de ir para ter a melhor foto antes que a ave voe? Essa ave que estou seguindo há minutos é só mais uma pomba-de-bando? Faz sentido eu ficar tanto tempo nesse bosque tão escuro?”.

Mas, obviamente, depois de ter terminado toda a escola por conta própria e ter feito manobras com a bicicleta dignas de um belo suicídio esperando mesmo que seus pais não tenham visto, você sabe que é apenas uma fase e que, uma hora ou outra, você saberá fazer escolhas mais diretas ou mais certeiras. Em outras palavras, quando você deixa de se preocupar, passarinhar por conta própria se torna a maior diversão. E, devo dizer, isso acontece assim que você avista uma ave bem bonita na mira de sua câmera.

Como disse estou em Penápolis, situada no noroeste paulista. A cidade, com 60 mil habitantes e apenas 6 prédios, conta com uma grande quantidade de praças, inclusive umas muito próximas das outras. E estas praças são os meus principais destinos para passarinhar. No mapa abaixo vocês pode ver as praças que frequento, são 6 no total, e o quão próxima elas são entre si:

Sendo uma cidade muito pequena e bastante arborizada ainda conto com um grande quintal em casa, incluindo o quintal do vizinho repleto de pés de goiaba, tamarindo e mangueiras. Logo, antes de sair efetivamente de casa para passarinhar, posso encontrar minhas próprias belezas “caseiras” como o gavião-carijó e o ferreirinho-relógio a seguir:

Estas duas imagens do fundo de casa foram feitas no primeiro dia em que decidi sair para passarinhar por conta própria. Depois rumei à Praça Frei Cirilo e registrei um periquito-de-encontro-amarelo:

E esse belíssimo casal de tuins que não se importou nem um pouco com a minha presença, aliás, parecia que ambos eram modelos sendo fotografados no conforto de suas casas para alguma revista de moda. Sinto que tive muita sorte de ter aves tão generosas na minha primeira passarinhada penapolense:

Confesso que depois destas belas fotos nunca mais retornei à Praça Frei Cirilo, era como se esta já tivesse me dado o seu melhor e, portanto, deveria procurar o melhor das demais praças.

No dia seguinte, já na Praça Orentino Martins, topei com o único príncipe já visto por mim. Ainda hoje espero encontrá-lo novamente:

O gostoso de ter tantas praças tão próximas entre si é que cada uma delas se torna um pequeno mundinho diferente do outro. E em cada pequeno mundinho posso encontrar diferentes aves. Assim, as praças que são de todos se tornam meus pequenos mundinhos. As praças com nomes e sobrenomes comuns como Frei Cirilo e Orentino Martins, se tornam, para mim, a Praça dos Tuins e a Praça do Príncipe. E foi assim que a praça Antônio Martins de Barros se tornou, no dia do meu aniversário, a Praça do Fim-Fim:

Neste aniversário lembro de sair de casa desejando ver uma ave bem bonita. Foi como mágica, um verdadeiro presente, não havia nada nas árvores, nenhum movimento, somente os costumeiros bem-te-vis em um coqueiro próximo. Mas, quando retornei o olhar para a árvore bem acima de mim, vi uma ave de amarelo forte e bonito que nunca havia visto antes. Era o fim-fim me dando os parabéns. Obrigada, fim-fim.

A praça mais distante que fui até agora é a popular José Fuiza que, no meu mundinho, virou a Praça Sanhaçu-Cinzento. O sol estava forte e eu já havia caminhado bastante e sem sucesso algum; resolvi parar para descansar numa sombra antes de ir embora, e parei bem na sombra do sanhaçu-cinzento. Eram dois na verdade e pelos tamanhos diferentes atrevo dizer que se tratava de um casal, mas, a fêmea não era das mais atrevidas. A maneira como ele se aproximou e como ficou se exibindo para mim foi quase como se me dissesse: “Hey, e eu? Ia embora sem me fotografar?”:

Por fim as duas praças vizinhas: Julieta e Dr. Laonte. Estas ainda não tem um nome, aliás, até tem, mas não posso nomeá-las enquanto não encontrá-los. Seu futuro nome, e trato as duas como uma só, será Praça dos Tucanos. Desde que comecei a passarinhar e, portanto, desde que passei a caminhar olhando para cima, tenho visto diversos tucanos em movimento. Sempre entre 6h e 7h30 da manhã eu posso ver tucanos voando, mas sempre voando, nunca parados. Desconheço seus destinos. Cheguei a ver 5 tucanos juntos. Bem, e essas praças se tornarão Praça do Tucano por duas razões. A primeira é porque enquanto passarinhava em uma delas ouvi um som familiar vindo da outra. Não sei o motivo certo, não reconheço o som das aves com facilidade, mas pensei: “Esse som é de tucano”. Atravessei a rua e fui procurá-lo, porém, sem sucesso. Ao chegar em casa e pesquisar no wikiaves fiquei muito, mas muito contente de saber que estava certa, aquele era o som de um tucano. A segunda razão para o nome, e esta razão se mistura com a primeira, é que umas quatro pessoas que passaram por mim e reconheceram o que eu estava fazendo me perguntaram: “Você já viu os tucanos por aqui?”. Rá! Maravilha, descobri um de seus destinos, aquelas duas praças. Mas, até hoje ainda não os vi. No entanto, encontrei outras aves bonitas como o pica-pau-do-campo, que estava fazendo o ninho, e em agosto pude fotografá-lo alimentando os dois filhotes:

E, a minha foto preferida dos últimos dois meses, o irré:

Essa foto é tão bonita que o muro em que ele está merece ser nomeado. É, então, o Muro do Irré dentro da Praça dos Tucanos. Uma bela homenagem.

Bem, caros leitores, este é um não tão pequeno resumo dos meus 4 primeiros meses passarinhando sem a Clau atrás de mim. Tenho tido momentos maravilhosos, aliás, todos os dias em que saio para passarinhar são bons, mesmo que volte sem fotos boas, mesmo que não tenha encontrado nunca mais tuins generosos e suas poses de revista de moda , mesmo que só encontrei bem-te-vis e pombas, mesmo que aquela única ave que valha à pena saia desfocada ou escondida atrás das folhagens, é sempre muito bom sair para passarinhar.

Vale mesmo que a melhor foto do dia nem seja de uma ave:

Vale até quando a melhor foto do dia vai embora, quando o melhor momento se torna aquele que só você viu:

Esta foto, aliás, é muito boa para você que está começando. Não desista. Assim como nesta minha imagem, eu sei que você tinha na mira uma ave linda em uma pose inesquecível; eu sei. Mas, não desista. Ou a ave, ou a pose inesquecível ou este tronco irão voltar à sua mira em algum momento. Não tenha pressa.

Obrigada por me acompanharem até aqui, caros leitores e passarinheiros.

Um grande abraço,

Tatyana.

 

Abaixo as fotos do post, e mais algumas que eu (Claudia Komesu) selecionei entre as fotos da Taty, como o lindo beija-flor-tesoura se refrescando na água da mangueira com prismas coloridos pelo sol, o arapaçu-do-cerrado, o casal de periquitão-maracanã namorando. Adoro receber as fotos e os relatos da Taty, essa visão amorosa pelas aves em que todos os dias em que você sai para passarinhar são bons, não importam os lifers ou as fotonas. Só importam as aves.