A Lagoa do Peixe, no litoral do Rio Grande do Sul, um dos principais destinos das aves migratórias de longas distâncias, já começa a sentir os efeitos das mudanças climáticas, mas ainda engatinha na união da conservação da biodiversidade com o ecoturismo.

Flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis)

 

  • Texto e fotos: Geiser Trivelato.  Geiser é guia ornitológico e fotógrafo profissional.
  • Fotos realizadas em duas ocasiões: maio de 2010 e outubro de 2011.
  • Matéria originalmente publicada na Revista Terra da Gente, que gentilmente permitiu a divulgação neste site.

Nas idas e vindas anuais pelos continentes atrás de comida e calor, aves de todo o mundo encontram no Brasil portos seguros para curtas ou longas temporadas. Essa realidade é observada principalmente entre as aves limícolas, que fazem extensas migrações até áreas lodosas. O paradeiro desses animais foi mapeado por pesquisadores canadenses que viajaram em pequenos aviões por todo litoral da América do Sul. Os registros mostraram que, no País, o Rio Grande do Sul é o segundo destino das aves limícolas, atrás das Reentrâncias Maranhenses.

Nos países do Cone Sul, o Brasil fica em terceiro lugar, depois da Terra do Fogo – entre a Argentina e o Chile – e de uma baía no sul do Chile. Em território gaúcho, as aves migratórias se concentram no litoral médio (90%). Só o Parque Nacional da Lagoa do Peixe recebe 56% delas. Levando-se em conta o tamanho gigante do litoral gaúcho, ter mais da metade das limícolas contadas em pouco mais de 34 mil hectares mostra a importância da Lagoa do Peixe para estas aves. As não registradas no Parque estavam nas proximidades dele. O Parque Nacional, criado em 1986 e administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é um paraíso que lembra o Pantanal, tamanha variedade de aves aquáticas. Na região de Tavares, município com 6 mil habitantes, há oceano e praia, dunas, campos de dunas, lagoa, marismas (terrenos alagadiços ao redor da lagoa), campos úmidos com depressões, floresta úmida no nível da lagoa, outra faixa elevada com floresta arenosa e campos arenosos secos com depressões úmidas nas partes mais altas. A sensível variação de ambientes justifica a grande diversidade de aves numa faixa estreita entre Tavares e a cidade de Mostardas.

E que espetáculo são os bandos alimentando-se nas águas rasas da Lagoa do Peixe! Vez por outra, o que se vê são os flamingos-chilenos colorindo o céu de rosa em revoada. Essas aves vêm do sul do continente – Argentina e Chile. Com facilidade também são avistados maçaricos, talha-mares, trinta-réis, batuíras, cegonhas, colhereiros, íbis, entre outros.

Em uma faixa estreita, o Parque da Lagoa do Peixe recebe mais da metade das aves migratórias no RS

Todos os ecossistemas dessa área protegida no Sul e arredores são explorados como lugares de invernagem. O maçarico-de-sobre-branco ocupa as lagoas rasas; o maçarico-branco (Calidris alba) prefere praias litorâneas e faz do entorno do Parque um dos principais sítios de ocorrência e área essencial para a sua conservação. Os campos litorâneos das margens da Lagoa do Peixe são procurados pelo batuiruçu-do-campo (Pluvialis dominica). É onde a espécie se mostra
mais abundante na América do Sul. O maçarico-acanelado (Tryngites subruficallis), ameaçado de extinção, também se agrupa nos campos litorâneos e encontra no Rio Grande do Sul um dos três locais de maior concentração da espécie. Alguns números das contagens recentes no litoral brasileiro apresentados por pesquisadores canadenses preocupam quando comparados com os dados levantados pelos americanos nas décadas de 1980 e 1990. Os maçaricos-de-papo-vermelho, por exemplo, eram 10 mil na Lagoa do Peixe em 1984. Em pesquisas recentes, foram contados de 5 mil a 7 mil indivíduos. Na praia do Cassino, nos arredores do Parque, havia 6 mil maçaricos-de-sobre-branco na década de 1990 e nenhum indivíduo recentemente.

Para preservar as aves é preciso cuidar de todos os pontos de parada na longa distância percorrida por elas

Em toda a Lagoa, porém, foram registradas 15 mil aves da espécie. População estável é a do maçarico-branco: 6 mil em 1986, na Lagoa do Peixe, e 8 mil em outubro de 2008. Por que a conservação das aves migratórias de longas distâncias é importante? Em 2003, diante do declínio das populações, pesquisadores de várias nacionalidades concluíram que não bastava preservar um ou outro ponto de migração, mas todas as áreas de passagem das aves pelo globo deveriam estar em bom estado de conservação. Assim, para tentar evitar a extinção, foi criada uma rede internacional de reservas. O Parque Nacional da Lagoa do Peixe foi incluído como sítio de importância internacional porque abriga 10% das populações mundiais do maçarico-de-papo-vermelho, do maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica) e  provavelmente também do maçarico-acanelado. O maçarico-de-papo-vermelho, a espécie mais bem estudada, exemplifica o declínio mundial das populações migratórias. Na década de 1970, somava 68 mil indivíduos; em 2000, caiu para 50 mil e foi diminuindo em 10 mil por ano, em média. Entre 2005 e 2010 variou de 16 mil para 14 mil  exemplares e quando se pensava que a população fi nalmente se estabilizaria, na contagem mais recente, em 2011, não chegou aos 10 mil. A causa do declínio pode estar relacionada a problemas em um ou mais locais de parada da espécie durante a migração. Já se sabe que na Baía de Delaware, nos Estados Unidos, o maçaricode-papo-vermelho se nutre quase que exclusivamente dos ovos do caranguejo-ferradura (Limulus polyphenus), que passou a ser capturado em grande escala para a alimentação humana. Sem a quantidade de ovos necessária, as aves não conseguiam engordar e se fortalecer para continuar o voo do Sul para o Norte, até o local de reprodução, no Ártico.

Na Lagoa do Peixe, lugar de engorda do maçarico-de-papo-vermelho, que deixa o Hemisfério Norte durante o inverno, não há estudos da infl uência do ecossistema sobre esta população. O biólogo Rafael Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), informa que o que se sabe é que existe um ponto ao sul, de difícil acesso, apelidado de “baía dos canutus” por concentrar grande número deles, alimentando-se para a longa migração. Em abril de 2005, foram contados 5 mil indivíduos. Mas quem é capaz de garantir que problemas como o da Baía de Delaware também não vêm ocorrendo no Rio Grande do Sul? Para o pesquisador, isso mostra a urgência de se pesquisar as aves que fazem do Brasil rota de sobrevivência.

Turismo sustentável

A observação de aves na Lagoa do Peixe pode ser fonte de renda para os moradores de Tavares, segundo Guto Carvalho, criador do Avistar Brasil, Encontro Brasileiro de Observação de Aves. O observador lembra a experiência bem-sucedida de conservação com benefícios para a comunidade em Boa Nova (BA), onde os moradores se uniram para salvar o raro gravatazeiro (veja “Boa Nova e o gravatazeiro”, edição nº 45. Em Tavares, que há nove anos sedia, em outubro, o Festival de Aves Migratórias, já há quem aposte no turismo sustentável na Lagoa do Peixe. João Batista Cardozo,
por exemplo, investiu num hotel que é centro de referência para os observadores de aves, com guias e veículos apropriados. Na edição recente do evento, o fotógrafo Edson Endrigo realizou palestras sobre como observar e
fotografar aves. Em uma atividade de campo, os participantes, entre eles muitos fotógrafos amadores, tiveram a chance de registrar – e valorizar – as espécies que sempre estiveram no quintal de casa.

Cima e migração
Além da escassez na oferta de alimento para as aves nos sítios, por infl uência direta do homem, as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global também interferem nos movimentos migratórios. Estudos recentes mostram que a temperatura média mundial subiu 1°C, provocando mais chuva e menos dias secos. No Rio Grande do Sul, a incidência de chuvas torrenciais aumentou, principalmente no outono, observa o biólogo Glayson Bencke, da Fundação Zoobotânica gaúcha. Com as mudanças climáticas, várias espécies migratórias começam a mudar sua distribuição pelo mundo. A diminuição do frio extremo em algumas cadeias montanhosas e nos polos faz com que algumas aves “subam” as montanhas – num ritmo médio de 11 metros por ano – e se desloquem mais aos extremos dos hemisférios, onde desfrutam temperaturas antes só encontradas em outras altitudes e latitudes. Seguindo o raciocínio, podem estar em contração de distribuição, que é quando as áreas de destino vão fi cando cada vez mais distantes e escassas até o ponto em que não têm como ir para o Sul ou para o Norte. Muitas vezes, as barreiras naturais do Planeta contribuem para isso. Mesmo no caso de aves alpinas, quando não tiverem mais como continuar subindo para altitudes mais elevadas, perderão espaço e terão suas populações diminuídas, explica o professor Bencke.

As mudanças climáticas vêm alterando a distribuição das espécies migratórias no mundo

No Brasil, conforme a temperatura média for aumentando, a tendência é de que o deslocamento seja feito cada vez mais para o Sul. Mas quando trocarem a “quente” Lagoa do Peixe por outro ecossistema do litoral gaúcho, as aves encontrarão no novo sítio de migração a mesma oferta de alimentos? As espécies migratórias de longas distâncias estão entre as mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global. Isso porque precisam de ambientes marinhos e de áreas úmidas e, ao longo da migração ocupam diferentes ecossistemas, todos sujeitos a mudanças climáticas: no Hemisfério Norte, reproduzem-se na tundra – vegetação que se desenvolve sobre solos rochosos e sob frio intenso –, passam por áreas costeiras e vêm invernar no Hemisfério Sul, na área úmida da Lagoa do Peixe. O que pode ocorrer nas áreas de reprodução com o derretimento das grandes geleiras “eternas” do Norte? Projeções indicam que a tundra será invadida por espécies vegetais lenhosas e arbustivas e, com isso, as aves perderiam hábitat e teriam as populações diminuídas.

Tamanha variedade faz com que a pequena área, no município de Tavares, se assemelhe ao Pantanal

Um futuro incerto
Chama atenção o fato de o Rio Grande do Sul e a Lagoa do Peixe estarem geograficamente em uma zona de transição climática do Planeta entre tropical e temperada, justamente onde barreiras históricas de temperaturas vêm sendo quebradas. E é aí que pesquisadores preveem as maiores mudanças nas distribuições das espécies. Em vários municípios gaúchos, a temperatura mínima média no inverno ficava abaixo dos 10°C na década de 1970; hoje está abaixo dos 15°C. Mudanças na temperatura provocam perturbações ecológicas, alterações na cadeia alimentar e nas relações entre as espécies. Aves que têm interdependência ecológica teriam estas conexões rompidas, o que poderia levar a extinções em cadeia. Não há estudos sobre tal situação nas comunidades no Sul do País, mas com base em registros históricos e observações recentes, oito espécies que não ocorriam no Rio Grande do Sul já foram confirmadas no estado na última década. A hipótese dos pesquisadores é que estas aves estariam ampliando sua área de distribuição pelo estado brasileiro rumo ao extremo Sul. Exemplos são os primeiros registros de bigodinho, savacu-de-coroa ou socó-caranguejero (Nyctanassa violacea) e garça-azul (Egretta caerulea). O sabiá-barranco, que há algumas décadas só ocorria no noroeste, hoje pode ser visto em boa parte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre e até na fronteira com o
Uruguai.

O sabiá-barranco, em especial, hoje é avistado em parte do RS, em porto alegre e no Uruguai

A Lagoa do Peixe tem muitas marismas, banhados salobros infl uenciados pelas marés. Por isso, o aumento do nível dos oceanos, outro efeito das mudanças climáticas, pode ser desastroso. Medições em portos no Sul do Brasil, no Uruguai e na Argentina mostram que o aumento saltou de 1 milímetro por ano (há um século) para 4 ou 5 milímetros por ano medidos nos últimos 15 anos. Pela projeção dos pesquisadores, se o nível do mar aumentar 50 centímetros, mais de 80% das marismas sumiriam e, com elas, importantes fontes de alimentos das aves migratórias. Vale lembrar que algumas zonas do Parque Nacional estão abaixo do nível do mar. O rompimento de algumas barreiras de areia que as isolam do oceano Atlântico pode representar, até o final do século, o fim daquele ecossistema.