3x4-Sensacao

 

Qual a relação entre o 3×4-Sensação e os padrões de beleza?

  • Texto e foto: Claudia Komesu, que não está escrevendo essas coisas para antagonizar com ninguém, e sim pra incentivar consciência, reflexão, e que a gente possa ser uma comunidade com diversidade, criatividade, que não produz só um tipo de imagem, e que se sabe que ser birdwatcher não pode se resumir a lifers e likes.

Você sabe o que é um padrão de beleza? Como falei no outro post, o belo depende de fatores culturais, mas sabe como é que as mulheres jovens esguias de cabelos longos e lisos, ou com cintura fina, peito e bunda grandes, bem brancas ou bronzeadas de sol se tornaram um ideal?

Martelando muitas fotos com ótima produção, desfiles de moda, propagandas, filmes, seriados, novelas em que mulheres assim aparecem sempre lindas, elegantes, sedutoras, vivendo romance e aventura. É verdade. Talvez você duvide, fale “não! esse padrão estético é lindo por si só, qualquer um pode ver”, mas faça uma pequena pesquisa de quadros de mulheres em museus e você poderá ver que o que os artistas consideravam bonito a ponto de imortalizar já variou bastante. Variava conforme a época, conforme o país. Mas agora é bem padronizado e importa muito, é motivo pra bullying, depressão, suicídio.

Não sei se de propósito ou não, mas foi um jeito extremamente eficaz de fazer muita gente acreditar que ou você tem aquela aparência, ou não tem como ser feliz. Ou no mínimo, que pessoas com aquela aparência têm uma vida bem melhor do que a nossa. Foi uma boa forma de fazer as pessoas gastarem dinheiro, tempo, energia correndo atrás de um formato que muitas vezes não tem nada a ver com o corpo delas.

Mas fazer o quê? Imagens bonitas têm poder, propaganda, filmes, livros fazem parte da nossa cultura e ajudam a formar nosso julgamento. Os meios de comunicação, principalmente o que lida com ficção, sonhos, entretenimento, têm uma grande força pra influenciar a sociedade.

Você entende que o 3×4-Sensação é um padrão de beleza? Ele é lindo, impactante, vistoso, e muitas vezes vem acompanhado de relatos emocionantes de passeios ou viagens pra lugares incríveis, com direito a muita aventura, adrenalina, lifers-lifers-lifers, espécie rara, qualquer perrengue ou dificuldade é pequeno comparado com as alegrias da viagem, com a foto obtida. Ele é divulgado nas redes sociais em meio a muita alegria e elogios.

Ah, quem me dera poder ir pra Amazônia… quem me dera ter uma 300 2.8… ah, o dia que eu puder fazer viagens assim, conseguir fotos assim…  minhas fotos são tão sem graça comparadas com as dessas pessoas…

Não se arrepie: não estou falando que ele é maquiavélico, duvido que ele tenha sido inventado por um grupo com o propósito de tornar os excluídos infelizes. Mas o fato é que ele é dominante. O 3×4-Sensação é tão amplo e influente, é o único que dá centenas de likes e dezenas de comentários, ele é tão forte que faz qualquer outro formato parecer o caminho errado. Ele pode chamar atenção sim, mas também mata nossa criatividade, torna nosso olhar fotográfico tapado, e desincentiva quem não tem câmeras capazes de produzir 3×4-Sensação. Quem publica o 3×4-Sensação tem um caminhão de elogios e incentivos pra passear, fotografar e compartilhar cada vez mais. Quem não publica (em geral porque não tem o equipamento necessário, porque não pode fazer os passeios pros hotspost), essas pessoas têm que cultivar muita determinação pra serem capazes de passear e fotografar sempre, sem cair pra um lado de um pouco de tristeza e desmotivação*.

Já falei várias vezes, mas terei que falar sempre, porque só de tocar nesse assunto tem gente que acha que estou falando que as pessoas não podem ou não deveriam ir atrás de lifers e likes. Vou falar de novo: não tem nada de errado em ir atrás de lifers, fotos incríveis, viajar, compartilhar, comemorar. Não estou sendo hipócrita, já fiz isso muitas vezes, já fui pra Amazônia, pro Tocantins, tenho uma câmera cara, durante três anos corri atrás de lifers, no final de 2011 eu tinha mais de 600 espécies registradas no Wikiaves.

Não há nada de errado em passarinhar movido por lifers.

Mas o que você faz além disso? Você atua pela natureza? Que valores te representam, o que você promove?

Faz anos que penso e escrevo sobre esses assuntos, mas a decisão de publicar este post teve influência de uma conversa com um colega birdwatcher, um cara de quem eu gosto muito. Ele é franco, direto, sem frescuras, ama a natureza, trabalha em divulgação e educação ambiental. E de repente descobri que ele é super-competitivo e adora lifers. “Adoro lifers, amo lifers. Eu entro no ranking do Wikives todos os dias pra ver como está a minha posição”.

Achei isso tão legal, porque o discurso público e o trabalho dele não transparecem, eu nunca diria que ele é do tipo. “Eu amo lifers, eu amo fotografar. Mas no trabalho que eu faço… quanto custa uma câmera? Com o dinheiro de uma câmera dá pra comprar uns quatro binóculos bons. Quando vejo os iniciantes chegando com binóculo em vez de câmera acho super legal, apoio. Porque se a gente quer o birdwatching se dissemine pelo país, é muito mais fácil com binóculo. Uma coisa é o que eu gosto pra mim, na minha intimidade. Mas e a minha responsabilidade social?” Comentei como as fotos 3×4 eram vistosas, sedutoras, como é fácil um iniciante acreditar que pra ser birdwatcher precisa ter DSLR e conseguir fotão, ele e outro colega concordaram, e comentaram “Quando comecei a passarinhar o pessoal me falava ‘você precisa ter a câmera tal, esquece essa que você está usando, junta dinheiro e compra logo a tal’ “.

Não me importa do que você gosta de verdade, cada um pode gostar do que quiser, curtir o que quiser. Mas nas suas ações públicas, na sua participação na comunidade, o que estamos fazendo? Como pessoas conectadas em redes sociais, com milhares de amigos, centenas de seguidores, o que a gente quer disseminar e incentivar? A gente se importa com inclusão, com diversidade, com preservação da natureza?

 

O que podemos fazer?

Quero que a gente reconheça que somos seres humanos vivendo em comunidade, que nossas ações públicas influenciam os outros, que tudo que a gente fala importa. Quero que a gente abandone o  discurso de “cada um é cada um, cada faz o que que quer” – que é algo que eu concordo totalmente no terreno particular, como por exemplo, sexualidade. Mas nas nossas ações na comunidade, queria que a gente assumisse que tudo que falamos importa. Podemos ser um grupo que só promove o 3×4-Sensação – afinal ele é lindo e dá muito retorno. Ou podemos dizer que conteúdo importa.

De novo e de novo: não é errado correr atrás de lifers e likes. Mas eu acho errado correr atrás de lifers e likes.

O que significa ser birdwatcher? Life List sempre crescente, fotos bonitas, elogios pras fotos bonitas? E se a gente promover a ideia de que ser birdwatcher pode ser tudo isso (ou não, tem gente que não é movido por lifers e não busca os elogios), e também trabalhar pela natureza?

Não existe birdwatching sem natureza. Não importa o quanto você ame lifers e likes, no nosso discurso público em vez de só celebrar os lifers e divulgar os 3×4-Sensação, vamos falar sobre preservação. Vamos apoiar os projetos das outras pessoas, vamos fazer doações, vamos contar que doamos. Não vamos só dar likes e elogiar os 3×4-Sensação, e sim dar likes e elogiar as pessoas que estão trabalhando pela natureza.

Se você sentir que há espaço pra isso, crie os seus projetos pessoais. Fotografar as aves do seu bairro e falar sobre birdwatching e natureza pra associação do seu bairro? Fazer palestras em escolas? Cartazes com fotos das aves da cidade pra distribuir em padarias, bares? Folhetos pra motoristas de táxi e de Uber, talvez tenha gente que goste da natureza e vá querer colar no vidro do carro, falar pro passageiro como tem aves na cidade. Promover um concurso de fotos? (De preferência com um júri heterogêneo, no mínimo com uma quantidade equivalente de homens e mulheres, porque isso faz diferença.). Se importar mais com circulação de fotos, divulgação da natureza, e menos com direitos autorais e pagamento por uso de imagem? Montar um blog sobre as aves da sua região? Entrar em contato com a prefeitura e combinar de alimentar uma seção do site municipal com imagens da natureza da cidade? Plantar árvores na pracinha perto da sua casa, instalar e manter comedouros e bebedouros lá? Criar uma coleção de roupas, ou bolsas, ou mochilas que divulga a beleza da natureza brasileira? Esculturas? Bichinhos de modelar? Livro de ilustrações pra crianças (ou pra adultos?).

*Trabalhar pela natureza, fazer o bem, é uma forma de vencer a tristeza e desmotivação por não receber likes e elogios. Melhor do que isso: fazer o bem, criar um propósito pras suas fotos pode te ajudar a se libertar da necessidade de elogios e aclamação pública, um vício bem comum nas redes sociais. Já pensou se em vez da meta ser “que foto linda, que ótimo fotógrafo você é, como você é incrível”, a gente almejasse “parabéns pelo seu trabalho, é inspirador, estou pensando o que eu posso fazer”, ou “parabéns pelo projeto, já doei e estou divulgando”? Não seria incrível?

Há várias formas de divulgar a natureza e encontrar mais sentido e motivação pros seus passeios e/ou suas fotos. Tudo que a gente precisa fazer é reconhecer que ser birdwatcher é algo que vai além dos lifers e likes.

 

Destaque para mais posts sobre o tema:

Apenas Blogando: o que realmente importa na observação de aves? maio/14, por Claudia Komesu

“O que eu não entendo é que as pessoas viajem pelo menos duas vezes por mês, gastem bastante com equipamento, passem muito tempo editando, postando e comentando suas fotos. E não façam nada pela sobrevivência das aves. Nesse caso a pessoa está mergulhada na observação de aves, mas não consegue sentir que têm qualquer ligação ou responsabilidade com a vida das aves, que após ticadas e fotografadas de perto, perdem qualquer valor .”

 

Apenas Blogando: O Big Day de uma slowdirdwatcher, e meu reencontro com o álbum de figurinhas, out/15, por Claudia Komesu

“Na questão dos lifers, não é que eu não goste de ver uma ave que eu nunca tinha visto, de passarinhar em um bioma novo. Eu gosto, é lindo. Mas também é caro, em vários sentidos. Não é só pelo preço do passeio, há um custo humano alto. Descobri que pra mim, mais importante do que ver uma espécie nova era ter momentos de puro prazer na minha atividade favorita. Eu não tenho religião, mas acredito em coisas que não são materiais, e quando passarinho é como me sentir mais próxima de Deus, da bondade, da pureza. Por isso no geral ou passarinho sozinha, ou na companhia de pessoas pra quem passarinhar também é essa leveza.”

 

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Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)

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