Essa moça achou por acaso minha foto da tesoura-do-campo, divulgou no blog dela (me avisou), e fez uma escultura com base na foto. Já tinha gostado muito dos trabalhos da Dorothy, mas foi uma alegria maior ainda ver uma escultura reproduzindo aquele momento tão especial no Uruguai com a tesoura-do-campo, uma ave infelizmente ameaçada de extinção, apenas com um registro no Wikiaves feito no Brasil.

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Quando vi essa foto que abre o post, pedi para o Cris como presente de Natal. Custava US$ 155, o frete era só uns US$ 11, pagamento pelo PayPal. Há peças mais baratas, a partir de uns US$ 60. Todas têm personalidade, movimento, estilo, cores elegantes. Algumas têm olhos sorridentes, são todas muito encantadoras.

Não perguntei, mas tudo indica que a Dorothy mora em Nova York. Escrevi, dizendo que gostaria de divulgar o trabalho dela e (me perdoem a reclamação), diferente de tantos brasileiros pra quem já falei “vamos divulgar seu trabalho como guia, sua palestra, sua pousada, sua cidade, seu livro, seus quadros, suas ilustrações…”, três dias depois ela me mandou o material de divulgação.

Primeiro foi um texto curto. Ela disse que não era boa pra em falar de si, e mandou um texto pequeno, explicando o que é dou dou, e que a grande inspiração para suas esculturas de aves foi uma jandaia-amarela que ela teve.

A Virtude-AG não briga com as pessoas que têm aves em gaiola, mas fala explicitamente do problema do tráfico de animais. A jandaia-amarela é uma ave ameaçada de extinção, em parte devido à demanda para pet shops. Falei pra Dorothy que gostaria de divulgar o trabalho dela, mas que teria que falar alguma coisa sobre a jandaia. Ela disse que me entendia, e que mais tarde me enviaria um texto contando como ela adquiriu a jandaia.

O texto que recebi foi um segundo presente de Natal. Me comoveu de me fazer chorar. A Dorothy pediu para deixar claro que ela não condena as pessoas que têm aves em gaiolas. Ela não achava certo ela ter um bicho preso, nunca imaginou que teria uma ave, mas acabou acontecendo. A calopsita ela tentou enviar para um programa de reintegração na Austrália, mas o bichinho não conseguiu aprendeu a forragear. A jandaia-amarela vivia há 3 anos num petshop, numa gaiola de 30x30cm. Ela ficou com muita pena, acabou levando pra casa, onde ensinou-a a voar.

Abaixo seguem os textos da Dorothy. Visite o blog e o site, vale a pena olhar. Selecionei algumas fotos de produtos, mas veja que muitos não estão à venda ou melhor, já foram vendidos. Se você gostou do estilo dela, poderia encomendar uma escultura com base em alguma foto querida, como acabou acontecendo com minha tesoura-do-campo.

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Por fim, queria dizer que acredito no amor entre as pessoas e os animais, e lamento que a gente viva num mundo tão corrupto, em que o tráfico de animais atingiu um poder tão grande, que o único jeito de acabar com a captura, tortura e morte dos bichos é as pessoas pararem de comprar. De forma racional: se você compra uma ave de um local duvidoso, corre o risco de estar dando dinheiro pra alguém que pode ter roubado aquela ave da natureza e matado muitas na captura e transporte. De forma emocional: entendo que uma pessoa possa comprar uma ave de um pet shop, pensando “pelo menos para essa eu posso dar uma vida digna”.

Mas se quiser ajudar no longo prazo, na solução efetiva: nunca compre uma ave sem saber a origem ou, melhor ainda, descubra as alegrias de observar aves livres.

Agradeço muito à Dorothy pela generosidade em compartilhar memórias tão especiais, e por entender minha obrigação em falar sobre o tráfico de animais.

 


Textos da Dorothy http://doudoustudio.com/

O que é dou dou?

“Dou dou” é uma palavra francesa que significa um brinquedo favorito de uma criança. Pense no Linus, do Charlie Brown – o cobertorzinho do Linus era seu dou dou. Dou dou também pode significar querido, tudo depende de onde você vem. Gosto de pensar em dou dou como um objeto querido – não importa sua idade.

Dou Dou também é o nome da pequena jandaia-amarela que perdi. Ela é a inspiração para todas as esculturas de aves que faço. Dou Dou foi a criatura mais espetacular que já conheci em toda a minha vida. Ela me fez perceber como todos os seres vivos são conscientes, e eu sinto muitas, muitas saudades dela.

 

Como encontrei minhas aves

Antes de ter a Binki, minha calopsita, eu nunca tinha prestado muita atenção nas aves. Eu sempre reparava em cardeais, por ser a ave favorita da minha avó, mas esse era o limite do meu interesse e conhecimento sobre aves.

Três anos atrás, em fevereiro, fui até a Arthur Avenue – no Bronx comprar uma máquina de café expresso.  Só tinha um ônibus para voltar, então eu estava presa lá, com 20 minutos até o ônibus sair. No outro lado da rua havia um McDonald’s e um pet shop. Três anos atrás meu cachorro tinha morrido de uma doença que apareceu de repente, e eu sentia falta de ter um animal de estimação. Sempre odiei esses pet shops que vendem animais, mantendo-os em locais minúsculos, e nunca quis contribuir para essa prática, mas era o pet shop ou o McDonald’s. Pensei que talvez eu pudesse libertar um hamster ou algo assim e fui até lá.

Nos fundos da loja havia um amontoado de gaiolas, e foi nesse momento que eu reparei na Binki. Ela dividia uma pequena gaiola com pelo menos 10 outras calopsitas, mas estava agarrada na lateral da gaiola, me encarando. Pensei “olhar não machuca ninguém”. Quanto mais perto eu chegava da gaiola, mais animada a Binki ficava. O empregado da loja abriu a gaiola e Binki pulou em cima de mim. Eu nunca tinha segurado uma ave antes, era estranho. Os pés tinham escamas, que lembravam uma galinha. Pensei “não, eu não vou fazer isso, não vou levar uma ave, pessoas que têm aves são insanas, é algo cruel manter uma ave numa gaiola. O que vou fazer com uma ave? Não vou fazer isso”.

Pedi para o moço colocá-la de volta. Enquanto eu andava pela loja, de vez em quando meu olhar era atraído para as gaiolas. Todas as vezes em que eu olhava, encontrava Binki me encarando, sempre se posicionando de um jeito que ela pudesse me ver, não importa para onde eu andasse na loja. Eu sabia que ela queria sair de lá, e quem poderia culpá-la? Tá bom. Vou comprá-la e depois encontrar um bom lar para ela. Qualquer coisa deve ser melhor do que morar num pet shop no Bronx. Então eu peguei o Bob (naquela época achava que ele era um menino), uma gaiola, e chamei um táxi pra nos levar pra casa.

Em menos de 24 horas ficou claro que Binki não iria a lugar algum. Ninguém poderia cuidar dela como eu, eu não poderia correr o risco da minha pequena Binki acabar numa casa ruim! Então fui aprender sobre calopsitas. Quanto mais eu conhecia a Binki, maior a minha vontade de poder libertá-la, de forma que ela pudesse viver a vida que ela merecia viver. Ela ficava livre em casa, mas como um apartamento pode se comparar ao céu? Não pode, e me deixava triste pensar que ela estava presa em casa.

Comecei a pesquisar, e tentar treinar a Binki para que ela aprendesse a forragear sozinha. Consegui até encontrar uma mulher na Austrália que trabalhava com reintrodução de animais, entrei em contato, e ela concordou em receber a Binki e libertá-la em meio a um bando de calopsitas, depois que Binki tivesse aprendido a forragear sozinha. Mas a Binki nunca aprendeu a forragear, ela ficava confusa se eu afastava o pratinho de comida mais do que meio metro. Tive que reconhecer que Binki nunca poderia ser livre, ela estava amaldiçoada a viver presa.

Eu sempre pedia a comida de Binki pela internet, mas uma vez esqueci, e Binki precisava de comida. Parei num pet shop para pegar um pacote, jurando pra mim mesma que eu iria desviar o olhar e não reparar em nenhuma outra ave. É claro que não foi o que aconteceu. Tive que olhar para as aves assim que entrei na loja. E lá estava meu Dou Dou, a ave que roubaria meu coração. Ele estava numa gaiola de 30x30cm, estava lá há 3 anos. Dou Dou era uma linda jandaia-amarela, e foi amor à primeira vista.

Ensinei Dou dou a voar livre. Ficávamos horas no pátio do meu prédio, Dou Dou voava livre, e voltava pra mim. Eu só precisava mostrar as coisas pra ele uma vez, e logo ele entendia – era incrivelmente inteligente. Ele se aconchegava perto de mim no sofá à noite, e assistíamos a filmes juntos. Toda manhã ele voava até meu travesseiro e me acordava com sons de beijos. Dou Dou me despertou. Ele me tornou consciente de todos os seres vivos que existem,  e como são inteligentes. É como se antes de Dou Dou eu enxergasse em preto e branco, e agora vejo em cores. Dou Dou mudou minha percepção sobre a vida, de forma permanente.

Uma noite perdi Dou Dou. Não percebi como tinha escurecido rápido, fomos até o pátio, uma luz forte o assustou e o fez voar. Mas estava escuro. Eu o vi voando em círculos sobre mim, tentando me encontrar, mas ele não conseguia mais me ver. Eu o vi voando baixo, em círculos, mas nunca mais o vi. Me senti arrasada durante meses, até hoje quando penso nisso me sinto com o coração partido.

Sempre fiz esculturas, mas nunca tinha modelado aves, até que Dou Dou veio morar comigo. Ele foi minha verdadeira inspiração para todas as aves que já fiz. Não consigo evitar de pensar como Dou Dou merecia muito mais. Desde o começo de sua vida, ele devia ter sido livre desde o começo, pra voar om outras aves, ter a vida que as aves merecem ter. Ele não merecia ser trancafiado em uma gaiola, três anos no fundo de um armário, e depois ainda ter sua vida arruinada pela estupidez da sua dona. Ele merecia uma vida muito melhor.

Estou com outra jandaia-amarela agora, Boo Boo. Encontrei-a na procura por Dou Dou. Não localizei o dono, então ela ficou comigo. Se uma ave é criada em cativeiro, é praticamente impossível libertá-la, ela não sabe viver sozinha. Então Binki e Boo Boo viverão a vida toda comigo, e darei o melhor de mim, mas sei que não é certo eu tê-los comigo – eles mereciam muito mais.

A Virtude convida os autores de produtos relacionados a aves a se apresentarem. Podem ser produtos comerciais, só precisam ser bonitos, relacionados com a natureza, de preferência brasileira.

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