Com o Wikiaves e o Avistar temos aprendido que uma foto boa é uma foto boa ornitologicamente. Será que o domínio dessa ideia está podando nossa capacidade de fotografar de outra forma?

 

  • Texto e fotos: Claudia Komesu

É o tipo de questão que preocupa a mim e não sei a quem mais, talvez quase ninguém, mas vou tentar explicar: o Wikiaves tem ensinado às pessoas que uma foto boa é uma foto boa ornitologicamente. Os resultados e o perfil dos jurados do Avistar mostram a mesma tendência. O Wikiaves é uma Wikipedia, não há qualquer problema no critério do que é uma boa foto. Mas a escola do Wikiaves, mais os resultados do Avistar, e a ausência de um outro fórum nacional fazem com que hoje a fotografia de aves no Brasil tenha uma tendência principalmente ornitológica e científica. Há pouco espaço para a arte.

Quantas pessoas, entre esses milhares de fotógrafos de aves, se interessam por livros de fotografia artística da natureza? Ou mesmo sabem que existe esse tipo de livro? Quem já viu fotos do Jim Brandenburg, Steve Bloom, Ansel Adams, Art Wolfe, Frans Lanting?

Com certeza uma porcentagem bem pequena. A maioria das pessoas que fotografa não recebeu nenhum conhecimento sobre composição, luz, estética. Seus valores estão se formando no Wikiaves, na base de comentários assim “boa foto, pena que não mostra um pouco mais do peito da ave, que é uma característica importante na identificação”, “pena que essa folha encobriu um pedaço da asa, senão estaria perfeita”, “a definição das penas está perfeita!”, “bonita, mas o foco não ficou na cabeça” (sei que poucos discordam dessa, mas eu já vi várias fotos bonitas, em que o foco não estava na cabeça, e não me incomodou nem um pouco).

Não tenho o que comprove, mas suponho que esses comentários, mais os resultados do Avistar, estão desenvolvendo uma mentalidade coletiva em que a arte é algo subjetivo demais para ser considerada.

 

Por que a arte deveria importar?

A arte torna nossa vida melhor. Ela nos faz olhar o mundo com horizontes mais amplos, olhos mais ternos e ao mesmo tempo mais argutos. A arte e a beleza são capazes de nos tirar da sintonia da rotina e da mesmice para nos jogar em uma dimensão em que lembramos de valores importantes ou desejamos viver de uma forma menos automática.

Uma boa foto de ave poderia nos fazer refletir sobre fragilidade do ecossistema, ternura, amor paternal, liberdade, medo, amplidão. Uma imagem carregada de beleza é capaz de nos tornar introspectivos, de nos inspirar, de nos trazer reflexões.

Ah, então estou querendo dizer que uma foto de natureza ou de uma ave pode ser como uma obra de arte? Claro que sim. Com mais raridade do que em quadros ou esculturas, por razões óbvias, mas não é difícil encontrar um livro ou uma exposição que, pela inteligência e harmonia de seu conjunto, é capaz de nos inspirar ou consternar como uma obra de arte é capaz de fazer.

Jim Brandenburg, Ansel Adams, Art Wolfe, Frans Lanting têm várias fotos com algumas coisas em comum, que me parecem fundamentais na fotografia não-científica de natureza:

– a luz é o fator mais importante. Não necessariamente luz do amanhecer e entardecer, ou plena luz. Eles também sabem lidar de uma forma artística com pouca luz, especialmente o Jim Brandenburg

– possuem um grande senso de composição

– tentam obter ângulos que incluem informações sobre o cenário

– as fotos conseguem passar sensações, um clima. Você pode imaginar que estava frio, ou ventando, ou pensar na escuridão da floresta ou na claridade daquele dia

– valorizam texturas de troncos, folhas, terra, água

– evitam a abordagem científica de maximizar a exposição das características importantes para a identificação da espécie. Pelo contrário: usam contraluz, sombras, silhuetas, partes do corpo escondidas entre folhas, subexposição, bicho pequeno em meio a um grande cenário, ou um recorte inusitado sobre um bicho grande.

– há várias fotos com velocidade baixa, o fotógrafo não queria uma ave congelada no ar, queria passar a sensação do movimento

Esse tipo de fotografia que valoriza cenário, sensações, experiências com velocidade é uma abordagem diferente do Arthur Morris, um ótimo e influente fotógrafo de aves norte-americano, e também um dos jurados do Avistar. Arthur Morris tem fotos ótimas, mas a diretriz de que a ave deve ser o principal assunto da foto. Quanto menos elementos fora a ave, melhor. E geralmente, quanto mais perto da ave, melhor. Faz sentido para aves grandes aquáticas ou aves de rapina, seus principais temas.

As fotos do Arthur Morris e das pessoas que seguem sua escola são muito bonitas e geralmente incontestáveis. Mas as imagens do Jim Brandenburg, e algumas do Frans Lanting e Art Wolfe, para mim são mais carregadas de clima, elas prendem mais meu olhar e minha imaginação.

Não é preciso escolher uma linha ou outra. As fotos ornitológicas têm muitos méritos. Mas é um treino desenvolver o olhar artístico, e acho que a ênfase na abordagem ornitológica nos embota para os outros aspectos da fotografia. Restringe nosso olhar, nossa criatividade. Pelo menos é como eu me sinto.

Na saída no Uruguai, quando fotografamos a noivinha-de-rabo-preto, o Alejandro falou “uma pena que a luz não esteja favorável”. Era um leve contraluz na ave, que resultava em uma pequena faixa de contraste de claro e escuro na cabeça da ave e no peito. Se ela estivesse pousada do outro lado da estrada a luz seria uniforme, sem áreas de contraste. Eu preferia esse contraluz, mas provavelmente a maioria das pessoas concordaria com o Alejandro.

Nas últimas horas do passeio apareceu esse sabiá-do-banhado, uma ave comum. Mas ela pousou nesse rabo-de-raposa, e começou a cantar, e ventava. Pra mim é uma foto linda, e eu queria ser capaz de treinar mais meu olhar a ponto de, no momento em que ela pousou lá, entender que era uma oportunidade que deveria ser recebida com a alegria de um lifer. (E que eu deveria ter falado para o Alejandro desligar o carro, mas nos segundos da foto, você pensa e fica na dúvida, não porque a foto não fosse importante, mas porque às vezes quando você desliga o motor a ave voa.)

Revendo fotos da Patagônia da viagem de 2007, encontrei várias imagens de que gostei, com luz interessante, não muito ornitológicas. Me deu o que pensar. Desconfiada de que, mesmo sem querer, a escola do critério ornitológico está me fazendo experimentar menos, não tentar uma foto se ela não está no aberto o suficiente, próxima o suficiente. Talvez eu esteja dando menos valor para luz e cenário.

A beleza de uma imagem ou sua capacidade de nos tocar é algo bastante subjetivo. E de forma geral não há com quem compartilhar, essas imagens não servem para o Wikiaves. Você pode ter uma conta no Flickr, que reúne pessoas mais ligadas na fotografia do que na ornitologia, mas também não é uma certeza do quanto vai conseguir compartilhar ou ser valorizado.

Um amigo me falou que às vezes coloca algumas fotos no Wikiaves com critérios mais artísticos do que ornitológicos, e depois acaba tirando, porque elas não recebem retorno algum. O Wiki não é o lugar certo para essas fotos, e o Flickr é incerto.

Por que você vai perder tempo tentando fotos artísticas? Porque a beleza está na sua frente, e você tem uma câmera, em muitos casos uma super-câmera. Não parece um tanto despropositado desperdiçar essas oportunidades focando apenas em um tipo de foto?

Experimente. Eu também vou me esforçar para conseguir olhar o mundo de outro jeito, um em que a ave está mais integrada ao mundo. Quem sabe no futuro exista um espaço para compartilharmos esse tipo de imagem, e as reflexões que as imagens mais artísticas do que ornitológicas nos trazem.

Exemplos de trabalhos de fotógrafos profissionais

  • Meu favorito nas aves sob uma visão mais artística é o Jim Brandenburg, alguém que fotografa como quem escreve um poema. Conheci o trabalho dele pelo livro Looking for the Summer. Você pode ver as fotos  no site dele, infelizmente bem menos impactante do que impresso em formato coffee table, mas dá para ter uma ideia.  http://jimbrandenburg.com/ no lado direito há uma palavra “View gallery”, vai mostrar um sumário. Looking for the Summer é um dos itens, pena que a visualização é ruim. Daqueles sistemas que você só vê a miniatura, tem que abrir, fechar, abrir outra.
  • Jim Brandenbug é o mais poético, mas quem me tira o fôlego é o Steve Bloom, um fotógrafo de vida selvagem que começou depois dos 40 anos, ex-economista. Digite “Steve Bloom” no Google e veja o que aparece. Você fica olhando e pensando “onde diabos ele estava pra conseguir essa foto???”. No excelente livro Untamed ele conta histórias sobre as fotos do livro. Em algumas foram duas semanas indo todos os dias para o ponto em que as araras poderiam aparecer. Em outra foram x semanas deitado no fundo de um barco, com dores musculares, segurando a câmera, esperando o momento do tubarão saltar para a isca. Ele tem fotos incríveis de tudo, sempre com luz bonita, muitas cenas de ação únicas. É uma pena que o site seja tão comercial, senti falta de achar fácil um mero Favoritas, ou seleções temáticas. Para se sentir menos perdido, comece pelo menu FineArtPrints. Se quiser comprar o livro Untamed (420 páginas de maravilhamentos), é este, e não este (uma edição em tamanho menor, não vale a pena). Comprei o meu na Livraria cultura por algo como uns R$ 120.
  • Arthur Morris revolucionou a fotografia de aves, e queria deixar claro que gosto muito do trabalho dele, só me parece equivocado o mainstream brasileiro seguir uma escola inventada por um fotógrafo de grandes aves aquáticas nos EUA. http://www.birdsasart.com/ o site do Arthur Morris é o mais amador e caótico. O site .com traz todos os tópicos, mas se quiser ver vários exemplos de fotos acesse http://www.birdsasart.org
  • Art Wolfe um grande fotógrafo de paisagens. Fotos de aves http://prints.artwolfe.com/#mi=2&pt=1&pi=10000&s=0&p=2&a=2&at=0. Muitos pingüins, mas as duas primeiras fotos de coruja são ótimas. A primeira está no limite, apesar das flores lindas, os filhotes estão um pouco assustados. As araras e os bee-eaters não estão bons.
  • Frans Lanting fez um livro muito impressionante e bem pessoal chamado Jungle, vale a pena ver. Em seu site, infelizmente não parece haver uma seleção de melhores fotos, a organização está mais para banco de imagens do que seleção de portfolio: http://www.lanting.com/stock/index.php?module=media&category=gallery/Birds&start=0

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