Só use para observar e fotografar, se você usar o playback para aprisionar ou matar a ave, será uma pessoa amaldiçoada

(Recado para quem tem animais em gaiola: não critico quem cria aves legalmente, mas se você compra aves precisa ter certeza de que veio de um criador honesto. Todo ano milhares de aves silvestres morrem durante a caça ou o transporte para alimentar o comércio ilegal e criminoso de aves. Nunca compre animais silvestres sem ter certeza da origem. Leia mais.)

O playback é a gravação da voz de uma espécie. Em alguns casos essa gravação pode atraí-la, geralmente porque ela acha que é um “inimigo” invandindo seu território. Algumas espécies respondem melhor do que outras, e nunca é uma certeza.Há dias em que as aves apenas ignoram o playback, não há regra. O playback pode ser obtido por uma gravação própria, ou baixado em sites como o Xenocanto e o Wikiaves.

Quando dá certo, parece até mágica, o guia toca a gravação e a ave aparece. Mas é claro que todos ficam pensando até que ponto esse “engana passarinho” atrapalha a vida da ave.

Use o playback com moderação, responsabilidade, sem insistir muito. Se ela quis vir, veio, senão, siga o caminho.

Em discussões no fórum do Wikiaves, há um certo consenso nas seguintes práticas:

– nunca toque perto de ninhos com ovos ou filhotes porque pode atrair predadores, como aves de rapina.

– não tocar em volume muito alto, tente tocar em um volume que seria compatível com o canto natural de uma ave, e depois ir baixando o volume quando ela se aproxima.

– interrompa se a ave parecer estressada. Geralmente ela vai embora sozinha ou só para de responder, mas se ela não para de cantar, ou está com penas eriçadas e se movendo sem parar, interrompa.

– não tentar atrair uma ave que você já tem foto se há poucas chances de melhorar a foto. Por exemplo, se a luz não está bonita, se não há galhos mais baixos e abertos em que haveria chance da ave pousar, não chame a ave “à toa”.

– toque a gravação por alguns segundos. Espere a resposta. Toque por mais alguns segundos. Espere. O processo todo não deve durar mais do que poucos minutos.

Atualização em out/17. Uma prática que observo os bons guias fazerem: o guia experiente conhece o comportamento da ave, se ela costuma vir por terra ou pelos galhos, que tipo de ambiente gosta. Esse guia tem uma caixinha de som bluetooth, e a coloca no lugar que ele acha que será mais provável a ave aparecer. É comum as aves gostarem de um poleiro, então o guia encontra um galho caído na trilha (ele nunca quebra um galho de uma árvore), finca o galho na terra, coloca a caixinha próxima, pede pras pessoas se afastarem alguns metros, e aciona o playback. Nos casos em que a ave quer responder ao playback, é comum ela pousar nesse galho, todos podem fazer boas fotos, e assim o playback só é tocado por um tempo mínimo.

Nunca vi uma ave “hipnotizada” pelo playback. Ela pode se aproximar, circular, muitas vezes come algum bichinho enquanto está por perto e depois vai embora ou apenas para de responder. Algumas espécies, principalmente do gênero synallaxis cantam alto e por bastante tempo (mas não hipnotizadas, de algum local protegido e geralmente escondido).

Os guias mais experientes têm seu próprio conjunto de gravações que eles gravaram, testaram e viram que funcionam melhor. As aves costumam “enjoar” de uma voz rapidamente. Algumas espécies só se aproximam uma vez, e depois não atendem mais naquele dia. É preciso passar alguns dias para ela “esquecer” a gravação e voltar a tratar como algo interessante.

O playback permite que as pessoas vejam aves que dificilmente seriam vistas ao acaso. Ele aumenta as oportunidades de um passeio e, portanto, torna o birdwatching no Brasil mais interessante, principalmente para iniciantes – que de outra forma poderiam ter experiências mais para o frustrante do que o emocionante, e para estrangeiros que querem ver uma grande quantidade de espécies.

Depois de um tempo alguns birders enveredam por um caminho de diminuir bastante o uso do playback. Contratam um guia principalmente para que ele o leve aos pontos em que é mais provável ver as aves, mas querem encontrar as aves naturalmente. É um sabor a mais pensar que aquele avistamento ou foto foi sem playback, e também é verdade que o playback torna as aves mais agitadas.

Imagino que algum impacto o playback deve causar às aves, assim como a presença de pessoas em trilhas ou em campos. Mas, parafraseando palavras usadas pelo Robson Czaban (uma das pessoas com mais registros de aves brasileiras, mais de mil)  é melhor o impacto de dezenas ou centenas de pessoas numa trilha do que o impacto da moto-serra destruindo tudo.

Infelizmente o fato é que no Brasil a situação de proteção às áreas naturais é tão precária que nem cogito apoiar a proibição do playback. Ver uma ave de perto é uma experiência marcante, capaz de fazer a pessoa se interessar pela natureza e quem sabe se engajar pela sua defesa. Considero comedouros e playbacks ferramentas fundamentais para atrair defensores da natureza.

Quando contrato um guia ornitológico, vejo muito mais aves do que se estivesse sozinha. Ele sabe onde ir, ele sabe usar os sons para atrair as aves. Observo aves há mais de cinco anos, mas nunca quis investir em playback para usar sozinha, porque quando saio sozinha, considero um prazer a mais do passeio ver com quem vou topar ao acaso.

Até hoje nenhum estudo comprovou que o playback faz mal às aves, mas nosso bom senso recomenda usar com moderação. Para ler mais sobre o tema, recomendo este artigo de uma das maiores autoridades ornitológicas dos Estados Unidos:

The Proper Use of Playback in Birding