Tudo começou quando vi uma das esplendorosas fotos do Gabriel Mello clicada de uma torre de observação recém-construída na Reserva Ecológica de Guapiaçu, a REGUA. Era um tiê-galo (Lanio cristatus), bicho que sempre tentei fotografar no Jardim Botânico do Rio, mas nunca sequer tinha visto. Aquele registro aguçou minha vontade. Uma torre de observação em meio às árvores da Mata Atlântica foi uma tentação irresistível pra mim. Sempre tive vontade de fazer uso de uma destas, estar num ambiente diferente, onde muitas espécies típicas de copa das árvores passam grande parte de suas vidas.

saíra-galega

saíra-galega

 

  • Texto: João Sérgio Barros e Gabriel Mello
  • Fotos: João Sérgio Barros
  • Câmera: Canon 60D, lente Canon 300 f2.8 com tele 1.4
  • Passeio na REGUA nos dias 1 e 2 de dezembro de 2012
  • Guia: Gabriel Mello. Contato pelo Wikiaves.

Estar nesse mundo praticamente inacessível, na intimidade das maravilhosas aves que costumam habitá-lo, foi decisivo para combinar com o observador e guia Gabriel Mello uma visita àquele local, mesmo com o pouco tempo que eu tinha disponível. E lá fomos nós: eu, Gabriel e sua namorada, a sempre serena Maria, rumo àquele paraíso fluminense.  A viagem foi muito rápida (a REGUA fica a apenas 115km do Rio, aproximadamente), como sempre acontece quando o papo está bom. Mal chegamos e, como não poderia deixar de ser, subimos, eufóricos, os lances da escada da torre próxima ao Lodge.

Alcançando o topo, descortinou-se uma paisagem magnífica onde chamava atenção o famoso “pantanal” da REGUA, emoldurado pela imponente Serra Verde Imperial. A cena parecia um daqueles quadros pintados pelos primeiros artistas naturalistas que por aqui desembarcaram. Uma belíssima paisagem que acredito não ser muito diferente de antes da chegada do homem, que tanto destruiu aquele bioma, hoje severamente ameaçado e que a REGUA cumpre a importante missão de preservar e até mesmo recuperar, com projetos de reflorestamento. Inclusive, foi uma surpresa para mim quando Gabriel me disse que toda aquela mata que cerca o alagado e até de alguns morros próximos foi trabalho de reflorestamento feito pela Reserva.

Bem, neste primeiro momento, ainda com o sol bem quente, já pude observar e fotografar uma bela espécie de difícil observação (justamente por viver no alto das copas), a saíra-galega (Hemithraupis flavicollis), que resiste com relativa abundância na REGUA. Outras espécies que pude registrar neste breve momento que ficamos na torre: tiê-galo, saí-andorinha, tiê-sangue, um belo saí-azul imaturo, figuinha-de-rabo-castanho,  choca-listrada, um casal de pombas-galegas (que infelizmente pousaram longe demais), beija-flor-roxo e, para fechar com “chave de ouro”, um lifer muito festejado: quando estávamos começando a descer as escadas, satisfeitos, falando sobre o que ainda nos esperava, o Gabriel escuta a vocalização de um gavião-bombachinha (que passou totalmente desapercebida por mim). Voltamos e pouco depois de tocarmos o playback aquele belo acipitrídeo pousou numa embaúba próxima à torre. Uma pena que ele ficou num “contra-luz” bem chato, mas depois de um tempo voou para um local com condições de luz excelentes, apesar de mais distante, e foi onde pude fazer a melhor foto dele. Quem me conhece sabe que desde criança sou apaixonado pelas aves de rapina. Já havia observado rapidamente um destes em um fragmento de mata atlântica que ainda resta na minha cidade. Mas ver tão de perto um casal (detectamos dois indivíduos, muito provavelmente um casal), caçando, e ainda fazer um bom registro, foi demais!

É… a observação da torre valeu a pena, apesar do forte calor, típico da baixada fluminense, que fazia este mineirim que vos fala virar uma verdadeira bica humana. Mas tenho certeza que em condições melhores, como no amanhecer, a observação dali renderia ainda mais frutos.

Mais tarde, depois do jantar, encontramos o famoso Adilei, excelente guia da reserva e que sabe tudo sobre as aves da região. Ele deu algumas dicas e informou que a belíssima e rara coruja-preta (Strix huhula) continuava sendo vista no mesmo ponto de sempre, na estrada Onofre Cunha. Foi a confirmação que precisávamos para procurarmos com mais esperança aquele extraordinário estrigídeo, já que a busca pela coruja-preta estava em nossos planos e eu não costumo ter muita sorte em “corujadas”.

Pegamos o carro e em poucos minutos estávamos na mata. Percorríamos a trilha, o silêncio imperava. No ponto onde a coruja-preta normalmente é vista, tentamos o playback e nada! Continuamos então percorrendo a trilha até um ponto onde geralmente fica uma murucututu-de-barriga-amarela, a maior coruja da Mata Atlântica. Novamente tentamos o método de atração por playback e o silêncio continuava a reinar. Começou a me assombrar a lembrança de minha má sorte com estes seres noturnos que tanto admiro. A única coruja que já havia registrado à noite foi um caburé numa pracinha no centro da minha cidade. Nunca tive o prazer de registrar à noite uma coruja em ambiente selvagem, apesar de algumas tentativas, inclusive em locais muito bem preservados.

Resolvemos retornar e no caminho observei a lua que começava a apontar atrás da serra. Comentei com o Gabriel que a chegada daquele astro poderia nos trazer boa sorte, ele concordou e quando chegamos ao provável local da coruja-preta, no último suspiro de esperança, tentamos o derradeiro playback. E não é que para nossa alegria começaram a vocalizar não uma, mas pelo menos três corujas-pretas?! E o que é escutar aquele pio na mata escura?!!! Não à toa existe em alguns lugares o folclore de que quando a coruja pia alguém vai morrer. Mas para mim aquele som era presságio de grande sorte.

Com muito esforço consegui um registro satisfatório. Estas corujas são conhecidas por preferir a copa de grandes árvores, o que nada facilita a vida da gente.  Mas mesmo assim valeu muito a pena observá-la e fotografá-la. Sem falar de um momento no qual dois indivíduos pousaram no mesmo galho.

Bem, depois daquele encontro inesquecível, fomos embora satisfeitos. Já era quase meia-noite e no outro dia, como de praxe, acordaríamos bem cedo para “iniciar os trabalhos”.

O dia raiou e após um breve desjejum tivemos que pegar o carro para chegarmos em uma outra mata dentro da reserva, que diga-se de passagem, é bem grande: são milhares de hectares com matas em diversos estágios de regeneração. Logo na estrada que é caminho para as trilhas, Gabriel me chamou a atenção para o canto de uma cigarra-do-coqueiro (Tiaris fuliginosus), espécie que eu não tinha registro fotográfico. Atraída rapidamente pelo playback, deu alguns segundos de “moleza” e consegui uma boa foto.

Mal adentramos a mata e logo fomos surpreendidos pela vocalização de um entufado. O Gabriel disse que nunca tinha visto tal ave naquele ponto (próximo da água e muito antes de um bambuzal “exótico” onde a espécie às vezes aparece). O entufado é mais fácil de ser encontrado nas matas das regiões mais altas da reserva. Aproveitamos para usar o playback conectado a um cabo de 10 metros – era a primeira vez que o Gabriel fazia uso deste aparato – e o resultado foi um sucesso. O entufado atravessou a trilha, no limpo, e infelizmente não tive a técnica necessária para aproveitar bem a oportunidade, o registro ficou muito, mas muito aquém do que merecia a situação. De qualquer forma foi um prazer conhecer aquela curiosa ave.

A galinha-do-mato foi a mesma coisa, comprovando o sucesso da técnica do Gabriel e o insucesso da minha. A bem da verdade fico eufórico e acabo por me preocupar mais em enquadrar e focar o bicho, esquecendo de regular corretamente a câmera. Falta-me a frieza de um bom artilheiro, além de mais experiência em condições de pouca luz (evito usar o flash, além de não saber usá-lo manualmente, não gosto muito do resultado). Nesta trilha (chamada de trilha verde) ainda consegui registrar o abre-asa, o tiririzinho-do-mato e a choquinha-cinzenta. Posteriormente, antes de irmos embora, passamos rapidamente no início da trilha azul. A temperatura já estava bastante incômoda e poucos bichos cantaram. Ao menos deu para melhorar o meu registro do pintadinho (Drymophila squamata).

De volta à sede da Reserva, passamos no alagado e lá consegui ótimas fotos do frango-d’água-azul, um bicho que eu ainda não tinha fotos e é comum na reserva. Outra espécie que queria fazer uma foto à altura de sua beleza era o guaxe. Gabriel me levou até um ninhal que fica no meio de um dos alagados e me indicou uma brecha entre as folhagens onde pude pegar um indivíduo com o vermelhão bonito das costas aparecendo. Ainda apareceram mais espécies, como a freirinha, o japacanim, a garça-real, as marrecas asa-branca, irerê, o anu-coroca, entre outras. Acabando de deixar o Lodge ainda conseguimos encontrar uma polícia-inglesa-do-sul, ave que com sua beleza nos deu o “até logo”, pois é impossível não querer retornar àquele paraíso.

Bem, apesar do pouquíssimo tempo de que dispunha e do imenso calor que assola as matas de baixada do RJ nessa época do ano (o que reduz drasticamente as horas proveitosas de observação, principalmente quando o tempo está ensolarado) foram 15 lifers e muitos registros daqueles de nos fazer orgulhar, graças, claro, à imprescindível ajuda do Gabriel Mello. Aproveito o ensejo para agradecê-lo.

É isto! Realmente a Reserva Ecológica de Guapiaçu é um lugar magnífico, totalmente voltado à preservação e à observação de aves. É daqueles lugares imperdíveis para todo observador de aves ou àqueles que simplesmente amam estar em contato com nossa exuberante natureza.

 

 

Outros passeios na REGUA
Mata Atlântica (+)