Gonçalves fica em uma região montanhosa com araucárias. Mais rural e pacata do que Campos do Jordão, mas com diversos atrativos

Fazia tempo que eu queria conhecer a Pousada Bicho do Mato, da Isabel Lira. A querida Ju Diniz ia passar um fim de semana lá, convidou, e deu certo pra gente ir também. Além da Ju e Fernando, eu e Cris, também foram Tales e Mariana, e o Evaldo.

Gonçalves fica a 3h30 de São Paulo. O caminho mais tranquilo é ir pela Carvalho Pinto e já perto de Campos do Jordão, pegar a saída para Santo Antonio do Pinhal. Quando você sai da Carvalho vira pista única, mas a estrada estava boa.

Chegamos cedo na cidade e decidimos conhecer o Le Gourmet Bistrot, que o Cris tinha lido algumas resenhas. Fica um pouco afastado da cidade, mas não foi difícil chegar. O Waze indica só o início do caminho, depois o mapa desaparece, mas a partir desse ponto você vê placas nas bifurcações. Chegamos às 18h, o restaurante tinha acabado de abrir. Pedimos um ceviche de truta (interessante… mas era mais pra um vitello tonnato de peixe) e um pão italiano assado lá (bonzinho também, mas veja o problema de ser alguém que come pães da Julice e do Arturito). De prato eu peguei uma costelinha glaceada, acompanhada de cuscuz de quirera e legumes, o Cris pegou uma carne de sol. Pra variar, meu prato estava melhor. Local agradável com ótimo atendimento, sobremesa – cremé brulé de queijo e goiabada cremosa, muito boa… esperávamos mais dos pratos, por causa das resenhas, mas considerando que não estávamos em São Paulo, teve seus méritos.

Fomos pra Pousada Bicho do Mato, a uns 9km do Le Gourmet. Descansamos um pouco (eu tirei um cochilo mesmo), e fomos pro restaurante umas 21h. Tales e Mariana já estavam lá, perto da lareira, ficamos papeando e logo Ju e Fernando chegaram. Evaldo chegou mais tarde. A diária da pousada inclui café da manhã e jantar. Nessa noite o jantar foi creme de abóbora de entrada, havia duas opções de prato principal mas acho que todos foram de maminha acompanhada de algum legume. Eu e o Cris tomamos o creme de abóbora, estava bom. Ficamos papeando até mais de 1h, e lá se foram as três primeiras garrafas de vinho.

Ter ido dormir depois da 1h não era motivo pra não acordar às 6h30. O Cris ainda tentou “mas olha neblina que está lá fora”, eu “em algum lugar não tem neblina, vamos sair”. No dia anterior, quando perguntei das trilhas, a Fernanda havia falado de vários ambientes, me interessei por uma região de campos, o Mundo Novo. Fomos pra lá, mas o Mundo Novo foi decepcionante: eucalipto, plantações, pasto. Assim é o Mundo Novo? A região onde fica a Bicho do Mato tinha muito mais mata, na verdade há até uma diferença de temperatura. Depois a Isabel me explicou que essa parte com mais mata era desvalorizada, porque é ruim para gado e plantação, mas que há uns anos vários paulistas têm comprado terras lá (para ter um sítio, preservar a mata), e assim a mata da parte alta da cidade tem se recuperado.

A vegetação é parecida com Campos do Jordão. São os mesmos bichos: trepadorzinho, arapaçu-verde, sanhaçu-frade, arredio-pálido, piolhinho, borboletinha-do-mato, pitiguari, tiriba-de-testa-vermelha, maitaca-verde, abre-asa-de-cabeça-cinza, choca-da-mata, gavião-de-rabo-branco, alegrinho, maria-preta-de-bico-azulado, gralha-do-campo, tucano-de-bico-verde, quete, trinca-ferro, beija-flor-de-papo-branco, beija-flor-de-fronte-violeta, besourinho-de-bico-vermelho, tangará, gaturamo-rei, gaturamo-bandeira. A lista do Wikiaves tem 226 espécies.

Nesse fim de semana apanhei pra fotografar aves. Neblina, chuva, silêncio, pouca luz, sem playback. Ainda assim, alguns avistamentos muito legais: o casal de gaviões-de-rabo-branco, um deles era melânico. Os melânicos não são exatamente uma raridade, mas são incomuns. É a segunda vez que vejo um gavião-de-rabo-branco melânico, a primeira foi em Minas também, Jacutinga, 2011. Mas ele estava sozinho. Desta vez, fazia casal com um gavião de coloração comum. Até pensei qual seria a chance de ser o mesmo. Gostaria que fosse. Muito bom o pensamento de que ele formou uma família.

As fotos dos gaviões não ficaram boas como fotos, mas valeram pela emoção (posterior, na hora, estava tão na contraluz que não reparei tinha um melânico, só vi depois, no computador). Como foto pra se orgulhar, consegui um arapaçu-verde em tronco bonito, bem de perto, no limpo, um abre-asa-de-cabeça-cinza pendurado num galhinho – de longe, mas composição boa, e um quete em meio a lindas flores do campo brancas. Fiquei contente também com uma foto de sauá na contraluz e ISO em 3.200. Mas bem felpudinho, e com brilho nos olhos. Sempre penso que se voltar de um passeio com pelo menos uma foto pra me orgulhar, já estou no lucro.

A pousada mantém vários comedouros com frutas. Nesta época há pouco movimento, mas além de tico-tico, sanhaçus, quetes, saíras-amarelas, também vimos um trinca-ferro, e no site da pousada há fotos de gaturamos-bandeira e gaturamos-rei. O besourinho-de-bico-vermelho, o beija-flor-de-papo-bronca e o de fronte-violeta estavam sempre lá. Em frente à pousada, do outro lado da estrada de terra, há um terreno com mata em recuperação, que também é da Isabel. Lá você pode caminhar, um local bem bonito e agradável. Há área de campo, e também trechos de mata mais fechada, inclusive uma trilha íngreme que chega até um riacho que faz divisa com a outra propriedade. Encontrei com um casal que me falou de uma ave vermelha, provavelmente o sanhaçu-de-fogo, que também está na lista da cidade. Mas não tivemos a sorte de vê-los.

A Pousada Bicho do Mato tem uma estrutura muito acolhedora. Há mais de um tipo de chalé, ficamos no Onça, que é um sobradinho, com uma pequena sala embaixo e bastante vidro. Lareira no quarto e também nessa salinha.

A área das refeições é bastante confortável, com lareira, salão todo de vidro, onde é possível abrir os janelões e passarinhar. Ao lado da área do restaurante há uma piscina coberta aquecida, mas que estava em reforma no mês de março. Sauna seca, possibilidade de contratar massagem.

Funcionários simpáticos e atenciosos, café da manhã muito caprichado, com sucos naturais, frutas, pães, pão-de-queijo e bolos caseiros, chapa pra você fritar ovos. Só não gostei tanto do esquema do jantar. No sábado, quando havia mais gente, nossa comida demorou muito. E as porções são pequenas. Ainda que o chef diga que pode repetir, depois da espera você fica com receio de pedir mais e demorar. Eu preferiria um esquema de buffet – menos chique, mas sem receios de ficar tarde pra dormir, se eu estivesse num pique bem passarinheiro. O café da manhã oficialmente é às 8h30, mas você pode pedir, e eles deixarão uma mesa com café, bolos, pães, frutas.

A dona da pousada, Isabel Lira, é um amor de pessoa. Nos conhecíamos de trocar algumas mensagens, nos vimos ao vivo em Avistar, mas esta foi a primeira vez que tive oportunidade para ficar papeando. Ela me levou pra conhecer a trilha, ficou observando as aves comigo, esperando enquanto eu fazia as fotos de florzinhas, e também fotografou algumas. Me contou que se identifica com a ideia do slowbirdwatching, que gosta de admirar tudo da natureza. Isabel teve um problema de joelho no ano passado, mas agora quer retomar o incentivo ao birdwatching e à educação ambiental em Gonçalves. E ela é guerreira, dessas que organiza reuniões com donos de pousadas, liga pra Sebrae, procura associações, organiza atividades. Isabel também é artista: por toda a pousada você verá quadros, azulejos, objetos de decoração: tudo arte da Isabel.

Além do Le Gourmet, também fomos conhecer o Deméter na Roça, no almoço do sábado. O Deméter, como você pode imaginar pelo nome, é outra proposta: buffet de comida caipira, mas no capricho, e com o plus a mais de ter cerveja bem gelada e oferta de bolinhos fritos na hora. Naquele dia havia bolinho de arroz e croquete de carne. Tudo muito bom. Depois do almoço o pessoal queria café, e nos indicaram o Café com Verso. Era só passar a igreja azul e branca e virar à esquerda. Não tomei café, mas o chá de capim-limão que roubei um pouco da Ju estava delicioso. Reparei também num freezer com vários tipos de sopas e caldos congelados, com rótulos de produtos orgânicos.

Gonçalves é uma cidadezinha de 4 mil habitantes. A população não tem crescido, mas é interessante reparar que no Trip Advisor há 37 pousadas e 41 restaurantes. E você caminha pela cidade, vê várias lojas que não combinam com a ideia de uma cidade pequena. Na Bicho do Mato, quando o tempo começa a esfriar um pouco, é preciso fazer reserva com antecedência, e nos feriados, com bastante antecedência. Lojas chiques de decoração e cerâmica, café literários, feira de orgânicos. Parece uma alternativa bem simpática a Campos do Jordão. Torço para que o turismo de natureza, especialmente o birdwatching, floresça na região (ainda que o maldito Sebrae de Minas não acredite nisso, a Isabel tentou conversar com eles e disseram que observação de aves não é o foco de Minas). Recomendo bastante a Bicho do Mato, vale a pena conhecer.

Se alguém ligado ao Sebrae de Minas estiver lendo este post, atenção: é errado não dar bola para o turismo de natureza de Minas Gerais. Há cada vez mais brasileiros interessados no birdwatching, e cada vez mais estrangeiros vindo conhecer o país campeão em biodiversidade em quantidade de espécies de aves. Virar as costas para esse público significa perder dinheiro.

 

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