Tudo começou quando recebi uma mensagem do Octávio Salles dizendo que havia um ninho ativo do gavião-de-penacho em Iporanga-SP. Na ocasião era praticamente impossível ir até o local e parecia que o bicho estava incubando ainda, o que me fez postergar a realização do antigo sonho de encontrar o lendário Apacanim para as férias, em janeiro, quando, se tudo corresse bem, o filhote já estaria crescido, favorecendo melhores registros, que eternizariam aquele tão aguardado momento.

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  • Texto e fotos: João Sérgio Barros
  • Câmera: Canon 60D, lente Canon 300 2.8 e tele 1.4

Estava de férias no Rio, terra de minha esposa, então dali partimos, eu e o grande amigo Gabriel Mello, que, maníaco como eu, topou um insano bate-e-volta que propus.

Mas no longo caminho que trilharíamos, havia uma grande possibilidade. Vale o parênteses:

Uma semana antes de nossa partida, estava passarinhando em Ubatuba quando conheci o Fábio Souza, guia local, gente finíssima, que estava levando um amigo, o Constantino Melo, gente da melhor qualidade também, a um local onde os raríssimos apuins-de-costas-pretas estavam se alimentando. Infelizmente, para tristeza de todos, eles não apareceram. Mas comentei com o Gabriel que conhecia o tal local e que este ficava próximo à estrada, então marcamos nossa saída para as 4h da manhã com o intuito de chegarmos em Ubatuba ainda num bom horário.

Conforme combinado saímos às 4h e por volta das 9hs chegamos ao local. Incrível… eu nem havia percebido a presença deles, o Gabriel quem viu. Apesar de ser um bando de no mínimo 26 indivíduos (contados numa foto do bando em voo), se alimentando em uma árvore de pequeno porte, eu não os percebi, tal o silêncio e o mimetismo perfeito daquelas aves. Ficamos eufóricos, e por um momento o penachudo saiu de nossas cabeças. Ficamos observando e registrando o bando por um bom tempo, até que eles partiram, ainda aguardamos um possível retorno à árvore (pois eles já haviam partido, e pouco tempo depois retornaram), mas os muitos kms que ainda faltavam falaram mais alto, e então resolvemos partir, com a satisfação de observar e registrar uma ave que até 6 anos atrás não havia nenhum registro fotográfico.

A viagem transcorreu relativamente tranquila, digo isto porque pegamos um bom trecho sob chuva, o que, numa estrada muito sinuosa e estreita, deixa as coisas mais temerosas, além de nos causar certa aflição: será que o tempo lá estaria ruim?

Antes de acabar a luminosidade do dia ainda demos uma parada providencial para descansarmos e, sedentos por uma passarinhada, tentarmos algum bicho naquelas terras promissoras, afinal estávamos próximos do maior continuum de Mata Atlântica que ainda resta.

Bem, partimos para a reta final de nossa viagem, após a tentativa frustrada de encontrarmos algum lifer naquela rápida parada.

À medida que nos aproximávamos do nosso destino a estrada ia ficando menor e menos movimentada, até pegarmos uma estrada de terra, já na cidade de Iporanga, rumo ao bairro da Serra, onde se concentrava a maioria das pousadas, porta de uma das entradas do PETAR. A sensação era que estávamos na região mais isolada do desenvolvido Estado de São Paulo.

Já era noite quando encontramos o Júnior Petar, que nos anestesiou de todo o cansaço com seus relatos incríveis das maravilhosas aves que habitam a região. Então pensei, o gavião-de-penacho pode ser um abre-alas para que Iporanga se torne definitivamente um dos grandes destinos para a observação de aves, pois a pujança de aves magníficas e raras e a facilidade de observá-las, conforme nos relatou o Júnior e pudemos comprovar em alguns casos, realmente nos maravilhou. Que lugar você observa o socó-boi-escuro da beira da estrada? E a certeza de encontrar a incrível araponga em um mirante deslumbrante? E o que dizer dos sabiás-cica que frequentam os pomares atrás das mexericas da estação? Sem falar, claro, das condições únicas do famoso ninho (que esperamos prosperar por muitos anos). Bem pessoal, de uma coisa estou certo, tenho que voltar àquele lugar.

Enfim o esperado dia havia chegado, depois de um pequeno contratempo (que não é digno de menção) chegamos, enfim, à famosa fazenda onde fomos muito bem recebidos pela Diana, que nos guiou até o ninho. No caminho um encontro com o encontro (Icterus pyrrhopterus), lifer para mim. Ainda no curto caminho que separa a casa da fazenda do ninho encontramos um curió, que não deu muita chance para fotos, também nesta altura dos acontecimentos a ansiedade era tão grande que nem fizemos questão de insistirmos com o grande cantor e continuamos a caminhada morro acima.

Quando avistamos a árvore do ninho saquei o binóculo e pude me certificar que a fêmea estava lá! A sensação não consigo descrever, teria que ser um habilidoso poeta, daqueles que sabem colocar a alma no papel. Fácil perceber só a nossa felicidade, estampada em largos sorrisos.

Nesse primeiro encontro a grande fêmea me fitou por rápidos instantes, mas a partir de então era como se a gente não estivesse lá, o que nos confortou, porque tudo que não queríamos era atrapalhar a rotina do ninho. O que de fato não aconteceu, ela estava tão à vontade que depois de uma pancada de chuva, voou até um galho mais baixo e mais próximo da gente para secar a plumagem(momento que rendeu as melhores fotos). Depois ainda flagramos uma cena de predação. A fêmea voou até uma pequena árvore próxima do ninho e se alimentou do conteúdo de um ninho de suiriris, depois alçou vôo até um galho próximo e apesar dos rasantes dos suiriris, limpou calmamente o bico, e, após alguns instantes, sumiu na mata próxima.

Acho que para um dia de observação não poderia ser melhor. Fomos agraciados com cenas que, creio eu, poucos tiveram a chance de presenciar. Se apenas tivéssemos visto aquele magnífico rapinante o dia inteiro dentro do ninho já seria maravilhoso, então, com tudo que aconteceu, que dizer?!

Bem, só posso dizer muito obrigado a todos envolvidos na realização deste sonho de infância: à Janine, minha esposa, que me deu o apoio necessário, ao Gabriel Mello, estimado e corajoso parceiro nesta viagem, ao Júnior Petar, pelas informações e ao Octávio Salles, pela consideração e confiança.

 

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