O Hostel Mochileiros no Guaraú (Peruíbe – SP) é um dos lugares mais famosos de Mata Atlântica no Sudeste

especialmente no inverno, quando os comedouros ficam lotados de aves coloridas e beija-flores. No verão é um lugar incrível para insetos, aranhas.

Conheci o Mochileiros e o Fabio Barata em outubro do ano passado. Gostei muito do lugar, do Fabio, da esposa dele – a Elen. O Fabio é um guia excelente, que conhece muito bem a região, mas do que mais gostei foi o comprometimento dele com a comunidade. Conhece todo mundo, fala com todo mundo, participa de conselhos municipais, tem diálogo com gestor de parques estaduais, as pessoas levam animais feridos ou filhotes caídos do ninho pra ele cuidar. É uma pessoa que realmente ama a natureza e trabalha pela valorização e preservação da natureza de Peruíbe.

Neste ano quando o Gabriel Leite disse que viria pra São Paulo (tirar o visto americano), perguntei se ele não queria aproveitar e emendar com algum passeio nos arredores. Foi assim que combinamos de ir pro Guaraú.

Chegamos no Guaraú na segunda-feira às 15h e pouco. Tínhamos falado que chegaríamos no fim do dia, mas conseguimos sair mais cedo, e o Fabio parou o que estava fazendo pra começar o passeio antes. Fomos pra Itanhaém ver os papagaios-de-cara-roxa. Vi pela primeira vez em outubro do ano passado, um casal. Dessa vez foi o privilégio de visitar uma área de dormitório. No fim da tarde, diversos casais chegando, o Fabio contou 130 indivíduos no tempo que ficamos lá (e não ficamos muito, logo já ficou muito escuro pra fotografar), e falou que há uma época que chegam a contar 500. É um espetáculo da natureza ver aqueles bichos lindos cruzando aquele céu de fim de tarde. Fabio falou que os ninhos do Paraná foram 100% predados no ano passado, ou seja, além de inimigos naturais, os traficantes conseguiram roubar os filhotes de todos os ninhos.

Nunca compre um animal silvestre sem ter certeza absoluta da fonte. Anilha e documentação não são o suficiente (eles falsificam anilhas e documentos, quebram a pata da ave para enfiar anilha falsificada), pesquise a reputação do criadouro. Melhor ainda: em vez de ter um animal preso, descubra o enorme prazer que é poder observar os bichos livres na natureza. Acho que se as pessoas pudessem ver como é lindo os papagaios voando livres, não teriam mais coragem de manter um bicho preso dentro de casa.

Em Itanhaém o CEB – Centro de Estudos Biológicos está fazendo um trabalho de monitoramento, reflorestamento e comprando áreas de preservação pra os papagaios. Recentemente eles começaram uma parceria com o SPVS. Este link não é da parceria, mas para saber um pouco sobre o trabalho do SPVS: http://www.spvs.org.br/projetos/projeto-de-conservacao-do-papagaio-de-cara-roxa/

http://mochileiroshostel.com.br/censo-populacional-do-papagaio-de-cara-roxa-amazona-brasiliensis-2017/

A página do CEB no Facebook não tem conteúdo ainda, mas o Fabio disse que eles fazem um trabalho sério, e vi que de outubro pra cá, conseguiram uma nova área de preservação. Assim como fiz em outubro, deixei uma doação de dinheiro pra eles, e gostaria que todo birdwatcher fizesse o mesmo. Não só pro CEB, mas sempre que visitar uma área onde é possível contribuir pra preservação ou uma ONG ou grupo que está lutando pela preservação. Tenho falado disso com alguns guias, que eles poderiam falar disso pro cliente quando ele contrata o passeio. “No lugar que vamos a ONG tal cuida de … Você gostaria de fazer uma doação para contribuir pra preservação da natureza?”. Se essas ações se espalharem, talvez daqui a um tempo até seja possível que o birdwatching seja menos ego-e-vaidade, e passe a ser uma atividade que valorize mais cuidar da natureza.

O Fabio teve uma iniciativa muito legal: a partir de abril de 2018, nos passeios em que a pessoa quer ver os papagaios, 20% do valor da guiada será doado para o CEB.

Se você já foi fotografar os pa pagaios, ou ainda não foi mas entende a importância de projetos de reflorestamento, compra de áreas, campanhas de conscientização, faça uma doação pro CEB. Contatos: Gabriel Borali ou José Gabriel 11 9 6710-7900 e 11 9 4600-5851. https://www.facebook.com/cararoxaitanhaem/

No dia seguinte passarinhamos um pouco de manhã e depois fomos pra Ilha do Guaraú, tentar um snorkeling. O dia estava lindo, mas não tivemos sorte com a água, turva demais. Perguntei pro barqueiro, o Eduardo, um mergulhador experiente, ele disse que na região a água é bastante imprevisível, que pode estar clara de manhã, e à tarde já muda. Eduardo falou que no verão é mais comum ter dias de águas límpidas.

Apesar do fiswatching não ter dado certo, aproveitamos bastante o passeio. A vista do continente a partir da Ilha do Guaraú é linda, e ficamos deitados nas rochas conversando, nem vimos o tempo passar. De repente já tinham dado as 2h que havíamos estimado pro sr. Toshio, o dono da Marina. Antes de irmos embora, fizemos algo que o Fabio sempre faz: ele tinha levado um saco de lixo, e recolhemos o lixo que encontramos: várias latinhas de cerveja, papel alumínio que cobre a tampa da latinha, anéis da latinha, papéis de Bis, o Fabio achou até um pedaço de uma cadeira de metal. É revoltante como as pessoas têm coragem de jogar lixo em qualquer lugar, até mesmo numa ilha maravilhosa como aquela.

A Ilha é perto, cerca de 10 minutos de barco, e o passeio custou R$ 30 por pessoa (o Fabio não pagava, cortesia do sr. Toshio pelo Fabio ser tão conhecido na região). Eduardo nos levou e foi nos buscar 2h depois. Na volta o Fabio ainda pediu pro Eduardo dar uma voltinha a mais, em volta da Ilha, pudemos ver uma pedra que tinha várias gaivotas e alguns trinta-réis-reais.

Nesse trecho de mar aberto a água estava bem turbulenta, mas foi aí que pude fazer mais um teste sobre a eficácia do meu tratamento de microfisioterapia: consegui fotografar e mexer na câmera sem enjoar. Antes do tratamento, por muito menos eu já teria vomitado. Eu nunca consegui ler dentro do carro, não conseguia mexer no celular, e depois de uma sessão, passou tudo. Meu microfisioterapeuta apertou um ponto na minha nuca, me falou “às vezes as causas são físicas, e eu não consigo ajudar, mas se for algo só energético-emocional pode funcionar”. E tive a sorte de ser o meu caso. Agora consigo ler dentro do carro, mexer no celular. Ainda não tinha testado o barco – na verdade tinha feito um passeio de barco em Bombinhas, mas tomei um Dramin antes por via das dúvidas. Como esse passeio em alto mar no Guaraú não estava previsto, foi bom pra testar. Em 2016 fui pra Califórnia e topamos com um bando de 2 mil golfinhos, mas não consegui fotografar muito porque logo enjoei, vomitei e tive que dormir na volta. Se tudo der certo não vou mais passar por isso. Se tiver curiosidade pesquise no Google microfisioterapia. Há vários depoimentos de gente que conseguiu curar depressão e ansiedade.

Voltamos do passeio, fizemos um almojanta às 15h30, chegamos cedo no Mochileiros e não saí mais do quarto. O Fabio tinha oferecido pra corujar, tenho vários lifers noturnos, mas à noite eu não presto – e na verdade, nem gosto muito de corujar, o que gosto nos passeios é poder olhar tudo ao redor, corujar é pescaria com um objetivo só.

Na quarta-feira tínhamos que ir embora na hora do almoço. Passamos um tempo buscando o jaó-do-sul, um dos bichinhos da lista do Gabriel. Tentamos alguns pontos nos arredores do Mochileiros, não respondeu, o Fabio falou de um outro ponto mas que exigia pegar um trecho de estrada ruim. Meu carro é um Grand Vitara 4×4, e eu conhecia a estrada, no início do ano passado fiquei num Airbnb na região e sabia como era. A estrada estava muito melhor do que no ano passado. Fomos pra uma propriedade particular que o Fabio conhecia, um lugar na base do morro, com trilhas que subiam, mata linda. O jaó-do-sul até respondeu, mas muito baixo e longe, o barulho do riacho também prejudicava, então o Gabriel não conseguiu gravar.

Saímos da propriedade e fomos pela estrada tocando o playback do jaó-do-sul, pra ver se algum mais perto da estrada respondia. Sem sucesso. Mas eis que a gente ouve uma vocalização de rapinante. O Gabriel falou “ouviram? Será que é um pega-macaco? Mas está estranho”. O bicho cantou de novo, depois o Gabriel procurou nos playbacks e concluiu que o canto que mais se assemelhava era do gavião-de-penacho. O Gabriel lamentou muito não ter gravado o som, mas disse que pra ele era o de-penacho. Fabio falou “se você falou, então eu vou colocar aqui na lista do Ebird”. E colocou. Bichos incomuns causam polêmica, mas Iporanga, o local que todo mundo fotografa o ninho, fica a apenas 150km de Peruíbe. E Peruíbe tem uma grande área de mata, portanto não era absurdo um gavião-de-penacho ter passado por lá. Eu sou bem lorpa pra vocalizações, mas posso dizer que o que ouvimos realmente parecia com o som que depois o Gabriel tocou no playback.

O Fabio fez as listas dos passeios, os links seguem abaixo. Do que consegui fotografar, destaque pro gaturamo-verdadeiro comendo um frutinho laranja, lindo, ferro-velho nessa mesma moita de frutinhas laranja, vários encontros com saíras-sete-cores, o encontro com a saíra-sapucaia, que chegou a pousar a 3m da gente, pena que não no limpo, minhas melhores fotos de tiê-galo (um dos lifers do Gabriel… gente que tem foto de mais de 950 espécies, mas ainda não tinha foto de tiê-galo, garça-vaqueira), limpa-folha-coroado. Fotos boas de garça-azul, barranqueiro-de-olho-branco, chorozinho-de-asa-vermelha, arapaçu-de-garganta-branca, tiê-sangue, bem-te-vi-pequeno, gaivotas, teque-teque, pica-pau-anão-de-coleira. Os papagaios-de-cara-roxa foram um show. Também vimos um bando de macacos-prego, vi mas não consegui fotografar uma pequena cobra, talvez fosse uma cobra-d´água, fotografei insetos bonitos, uma pequena perereca, e pela primeira vez vi ao vivo um casulo prateado, lindo, só tinha visto em fotos. Destaco também a beleza cênica dos cenários do Guaraú ao amanhecer, o lugar é maravilhoso, provavelmente esse dia deve ter tido um nascer do sol lindo. Fabio falou que é possível combinar com antecedência na marina, pra fotografar nascer ou por do sol na Ilha do Guaraú.

O inverno é alta temporada no Mochileiros, de junho a setembro fica bastante lotado de birdwatchers, então se quiser conhecer, é melhor reservar com antecedência. O Fabio também organiza passeios pelágicos, acompanhe pelo Facebook.

http://mochileiroshostel.com.br/

https://www.facebook.com/mochileiroshostel

 

Listas no Ebird feitas pelo Fabio

https://ebird.org/view/checklist/S44501673

https://ebird.org/view/checklist/S44501684

https://ebird.org/view/checklist/S44501689

https://ebird.org/view/checklist/S44501699

https://ebird.org/view/checklist/S44501707

https://ebird.org/view/checklist/S44501713

 

Litoral

 

Mata Atlântica