De repente, centenas de garças e talvez mais de mil biguás

  • Texto e fotos: Claudia Komesu. Câmera Nikon D800 e lente Sigma 50-500
  • Passeio com o Robson Bento, a Tatiana Pongiluppi, e acompanhados pelo Raul Serricchio

Passarinhar de caiaque se tornou um dos meus passeios favoritos. Estar no meio de uma grande extensão de água, quase no nível da água, o silêncio, a mobilidade. É tão gostoso que mesmo que não houvesse aves, ainda assim seria bom. Mas qualquer lugar com água atrai aves, e a Guarapiranga tem muitas.

Desta vez fui sozinha. 36km da Vila Madalena até o local, mas o Waze não me falhou, e cheguei em 50 minutos. Logo o Robson e a Tatiana chegaram, entramos no condomínio, o Raul já nos esperava com os caiaques na água.

Entramos na água eram 6h45. Fechado, escuro, chuva fina, mas água morna e nenhum vento, estava uma delícia remar. Desta vez não começamos pela ilha dos macacos, fomos em direção à ilha das formigas. Biguás, martins-pescadores – o grande e o verde, gaviões-caramujeiros, garças-moura, garças-brancas-grandes, garças-brancas-pequenas, pé-vermelho, lavadeira-mascarada. Uma família de irerês com muitos filhotes pequenos, foi a primeira vez que vi filhotes de irerês, uma fofura geral. Jaçanãs, frangos-d´água-comuns, suiriri, carão, e uma surpresa: um cabeça-seca.

O Raul foi o primeiro a ver. Ele não estava com binóculo ou câmera, mas apontou “aquela é uma garça mesmo?”, olhei na direção, falei “não, é um cabeça-seca :o)”. O Robson e a Tati estavam mais pra trás, chamamos, e o bichão se permitiu ser observado e fotografado. O Raul disse que nunca tinha visto um cabeça-seca por lá. No dia seguinte descobrimos que ainda não havia registro na Guarapiranga, e então o Miguel Magro me contou que na verdade não havia registro na cidade de São Paulo na lista do Wikiaves. Ficamos contentes em saber, é sempre bom aumentar a lista de espécies de um local.

Chegamos num trecho mais degradado, que se aproximava das áreas invadidas, e os avistamentos rarearam. Voltamos, chegamos até a margem de onde partimos. A Tati tinha que trabalhar à tarde – não parecia, mas eram mais de 11h30, estávamos há quase cinco horas na água, mas ainda havia tempo para olhar umas beiradas das margens. Mais uma vez, o Raul foi o primeiro a ver uma marreca-caneleira, que ele teve que me apontar várias vezes até eu ver. Falei que ele podia ser passarinheiro. Ele é agrônomo especializado em plantas medicinais, e disse que quando sai a campo a procura das plantas, também é preciso ter visão aguçada. Também vimos pernilongos-de-costas-brancas. O Raul, o Robson e a Tati seguiram remando, eu fiquei num trecho, tentando descobrir quem eram os barulhentos. Parecia ser uma família de sabiás, um sabiá-barranco imaturo, sanhaçus-cinzentos, suiriri, bem-te-vi, juruviara, todos em volta de uma árvore que devia estar com frutos.

Eles começaram a voltar e o Robson me falou “olha aquela concentração de garças”. Olhei pra linha do horizonte, e ela estava branca. Elas estavam bem longe, mas eram centenas de garças. Como podiam ser tantas? De onde elas surgiram? Onde estavam até agora? Também foram aparecendo muitos biguás, muitos. Um barco passou perto delas e fez os biguás levantarem voo. Não dava para ver exatamente a que distância estavam as garças, mas o estranho é que elas não se mexeram, e não pareciam tão distantes do barco.

É claro que queríamos chegar mais perto. Mas tinha dado o horário da Tati, e ela e o Robson tiveram que ir embora.  O Raul os acompanhou e voltou depois, eu fui remando em direção ao bandão. Já estava com os braços doloridos, mas como todos sabem, nessas horas a gente esquece qualquer cansaço ou dor e só quer saber de ir atrás das aves.

Não sei se como seria se eu não estivesse lá, mas parecia que elas não ficavam muito tempo num lugar só, iam mudando de ponto. Enquanto ainda estava longe, elas mudaram para um outro ponto, e quando me aproximei desse ponto, tive tempo de fotografar a interação entre algumas garças-brancas-pequenas que pareciam estar em plumagem nupcial, foram poucas fotos, mas que me deixaram muito contente, parecia um ballet aéreo. Aos poucos elas foram voando para pousar num trecho mais próximo da margem de onde eu tinha saído. Lá fui eu de novo.

E os biguás. Se havia centenas de garças, talvez houvesse mais de mil biguás. A ilha dos macacos é um ninhal de biguás, tínhamos visitado da outra vez, pelo fedor do local e pelo barulho das aves dá pra saber que tem muitas, mas nunca pensei que pudessem ter tantas juntas. Não sei se eram todas do ninhal, se vieram de outro local. Na verdade, não sei exatamente por que elas se reuniram nesse grupo tão grande. Alimentação é o mais provável, mas elas não estavam comendo o tempo todo, algumas pescavam às vezes, em geral peixinhos bem pequenos.

Reparei que nessa concentração grande, elas também se sentiam mais seguras. Era possível se aproximar mais antes delas voarem, e na verdade algumas nem voavam.  Os biguás eram mais ariscos, mas as garças estavam bem tranquilas. Não descarto que o motivo da concentração fosse rolezinho.

Perguntei, e o Raul me falou que não é incomum ver bandos grandes de biguás, mas que um bando assim de garças foi a primeira vez. O Vinicius Neves, que foi quem me apresentou o passeio de caiaque e vai lá com frequência, também tinha me falado que perto da hora do almoço ele via bandos grandes, mas eu não pensei que pudessem ser tão grandes.

No Pantanal há bandos grandes de aves, mas ver um bando desses de dentro de um caiaque é uma outra emoção. Apesar de saber que não era algo raro, me sentia participando de um fenômeno da natureza. Totalmente privilegiada por estar no meio de tantas aves.

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