Na mesma noite vi e consegui registrar um corucão, um urutau, uma corujinha-do-mato, várias corujas-da-igreja, e a coruja-buraqueira.

luar_sivonei_pompeo_06

Sempre disse e continuo a afirmar que meus conhecimentos sobre ornitologia são escassos, portanto não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre o comportamento das aves e quais fatores afetam estas maravilhosas criaturas. Mas sou fotógrafo e uma das características mais importantes – pelo menos para mim – para aqueles que assim pretendam ser reconhecidos é a ATENÇÃO!

É preciso estar atento a todos os elementos que irão compor uma cena, a posição da luz, as cores e texturas… enfim a tudo que nos cerca.

E foi isto que ocorreu nesta minha última aventura fotográfica noturna!

Bem, na verdade ela começou um pouco antes… no crepúsculo (por favor, não confundam com aquele filme sobre vampiros brilhantes) – após vários dias de chuva – resolvi sair para realizar algumas fotos de aves em um pequeno lago, que já havia visitado antes e que também já havia me rendido boas fotos.

Como de costume o local não me decepcionou e passei um bom tempo ali, fotografando revoadas de irerês contra o poente e outros visitantes ilustres

A luz já havia quase se extinguido e começava a desmontar meu equipamento quando percebi uma ave passar voando graciosamente acima de minha cabeça.

A princípio achei que fosse um pombo – devido as cores das penas – mas depois achei tratar-se de algum tipo de gavião, agora devido ao padrão de voo apresentado. Montei o equipamento novamente – desta vez apenas a lente 120/300mm na Canon 7D – priorizando a velocidade (TV) e comecei a disparar.

A ave fazia voos circulares mantendo um padrão de altitude, mas variando o raio da circunferência do voo e apesar do peso do equipamento, aliado ao fato de estar sem o tripé, consegui boas imagens da ave misteriosa até o momento em que ela interrompeu o seu voo e pousou em um fio, num poste próximo ao lago.Somente neste momento é que me dei conta da lua quase cheia que surgia no lado oposto ao que o sol se punha. Me aproximei do local onde a ave estava pousada e pude então identifica-la – iluminada agora pelos últimos raios de sol e pela luz da lua – tratava-se de um corucão.

É claro que isto me alegrou muito, afinal o máximo que já havia visto desta ave era a sua silueta, sobrevoando a pequena praça no centro de Poconé, em minha viagem ao Pantanal.

Neste momento recebi uma mensagem de minha esposa, pedindo para encontrá-la em um local próximo dali onde existe um pequeno quiosque usado para festas e churrascos.Mas a mensagem havia chegado com mais de 30 minutos de atraso e cheguei ao local já totalmente escuro e deserto.

Ao parar com o carro percebi um vulto passar voando baixo, bem ao lado do quiosque e pelo tamanho das asas imaginei tratar-se de uma coruja bem grande – talvez um mocho-dos-banhados – e motivado pela lua brilhante que iluminava o quiosque um pouco acima de sua cobertura, desci do carro munido apenas da lanterna do “Light Owl Segurator” para tentar localizar e identificar a “coruja”.

Quase tive um treco quando vi dois olhos gigantescos passarem a poucos metros de mim e serem iluminados pela lanterna, antes de pousarem em uma pequena escora de madeira usada para apoiar uma muda de arvore recém plantada no local. Agora quase tive “dois” trecos… tratava-se de um mãe- da-lua!

Voltei pro carro para buscar o equipamento agora acoplado ao LOS (de agora em diante é como irei chamar o Light Owl Segurator, ok???) e voltei ao local, mas a ave havia voltado a fazer voos rasantes e pousou em uma antena (???) a algumas dezenas de metros dali. Subi em uma pequena encosta para tentar fotografa-la mas não pude me aproximar mais, pois era o quintal de uma casa. Consegui apenas uma foto para registro e mesmo não sendo das melhores já valeu a noite,pois logo em seguida a ave desapareceu de vista.

Voltando ao carro comecei a por atenção nos detalhes e acabei vendo um novo espetáculo pois dezenas de vaga-lumes estavam a sobrevoar o local, agora parcialmente iluminado pela luz da lua que passava por entre algumas árvores (será que foi isto que o atraiu?).

Voltei para a casa onde estávamos sem poder conter minha alegria por ter tido a oportunidade de ver e fotografar estas duas belezas, inéditas para mim, além do espetáculo daquela noite enluarada. E pensando nesta lua com sua magia que de alguma forma conseguia mexer com o coração dos homens e com os animais da noite, resolvi tentar sair mais tarde e ver se encontrava as corujas-da-igreja que já havia fotografado anteriormente em uma pequena estrada próxima do local, afinal a noite estava promissora.

Por volta de 23 horas estava pronto para sair quando recebo uma ligação de minha filha, dizendo que estava junto com alguns amigos em um quiosque, próximo àquele citado anteriormente e que uma coruja estava no local, dando alguns rasantes nos usuários perplexos, que intimidados pelo atacante estavam se retirando do local. Parti rapidinho pensando nas possibilidades, seria o mãe-da lua ou alguma outra coruja com ninho no local, talvez uma suindara…

Ao chegar no local pude ouvir o som da “agressora” de jovens e reconheci imediatamente, tratava-se de uma pequenina corujinha-do-mato! Foi impossível não rir da cena que se passou em minha mente – rapazes e moças em seus 18 anos, se gabando de suas conquistas e vitórias, fugindo assustados de um predador implacável medindo quase 20cm!

Após a foto realizada com sucesso parti em busca da suindara e ao chegar no local novamente me encantei com a cena, pois o luar era tão intenso que – mesmo sem iluminação pública- não necessitava de faróis para enxergar a estrada e os morões que a cercavam. Comecei então a percorrer o local usando apenas a lanterna do carro e não demorou nada para que encontra-se a minha primeira coruja-da-igreja… isso mesmo primeira pois havia pelo menos uns 6 indivíduos em um pequeno trecho de uns 500 metros! Havia corujas de vários tamanhos e tons de plumagem indicando serem indivíduos de idades diferentes, acredito que fossem de uma mesma família, talvez filhotes que ainda não tenham abandonado os pais.

Novas fotos…com flash, sem flash, pousadas, voando e resolvi voltar para casa, nesta hora pude vislumbrar um novo espetáculo: uma das suindaras resolver voar pela estrada acompanhando o carro pela lateral, totalmente iluminada pela luz da lua, que nesta hora para mim já era a Lua Mágica – é serio gente, eu não havia comido nenhum prato a base de cogumelos ou ingerido qualquer outra substância alucinógena.

A poucos metros de casa passei por um alambrado e… mais uma coruja! Agora era uma pequena coruja-buraqueira, que fez pose para a foto e voou rapidamente do local.

Foi impossível não ficar espantado com o saldo desta noite maravilhosa, afinal tantas espécies diferentes – algumas de difícil observação – em um intervalo de tempo e em uma área tão pequena de ocorrência! Seria algo decorrente da lua? Seria a soma dos fatores: pós-chuva + calor + lua ? Ou seria apenas o fato de que sempre estiveram ali, mas desta vez eu estava com minha atenção voltada para isto?

Sempre achei que era sorte quando coisas assim ocorriam mas como me disse certa vez a amiga Claudia Komesu, editora do site Virtude-AG: “A sorte acompanha aquele que está preparado”.

Uma Boa e Mágica noite para todos!

 

 

Relatos de passeios (+)