Maria-leque-do-sudeste residente e muitas palmeiras jussara ao redor da sede

  • Fim de semana em Tapiraí – SP, a 160km da cidade de São Paulo
  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: Claudia (Nikon D800 com Sigma 50-500 VR e Nikkor 300 f4 com tele 1.4), Cristian Andrei (Nikon D800 e Nikkor 300 2.8 com tele 1.7), compartilhamos a Nikkor 105 2.8. Desta vez, por ideia do André, incluí fotos de outras pessoas do grupo, então este post também conta com as belas imagens do André Inidio (Canon Powershot SX50), Leonel Barbosa (Nikon P500) e Rodrigo Hauser (Nikon D5100, Nikkor 70-300). As do Luiz Trevizan não estão porque ele ainda não tinha editado.
  • Reservas e mais informações: http://trilhadostucanos.com.br/
  • Post no Virtude sobre a Trilha dos Tucanos: http://virtude-ag.com/hospedagem-e-day-use-trilha-dos-tucanos-trilhas-ecologicas-e-observacao-de-aves-em-tapirai-sp/

O que é a Trilha dos Tucanos, estrutura

A Trilha dos Tucanos é uma propriedade particular, pertence ao Marco e à Patrícia há muitos anos. Por incentivo do Tomas Sigrist e do Luiz C. Trevizan, eles decidiram abrir para visitação de birdwatchers e outros amantes da natureza. O Marco e a Patrícia são muito simpáticos, sempre gostaram da natureza, é graças a eles que aquele pedacinho de mata ainda é porto seguro para várias espécies. Se não fosse a presença deles, os palmiteiros da região já teriam devastado as palmeiras, haveria muito menos alimento para os bichos.

(Ou seja: não compre palmito se você não tiver certeza da origem. Pode ter vindo da extração ilegal, que acaba com uma fonte importante de alimento para aves como jacutinga, pavó e araçaris).

Há uma boa mata na propriedade e nos arredores. Na verdade, 80% de Tapiraí é de Mata Atlântica (secundária ao que me parece, mas já com árvores altas). Eles estão começando agora, então por enquanto há 3km de trilhas auto-guiadas, mas com potencial de abrir mais alguns quilômetros de trilhas. Há trilhas íngremes e planas (felizmente a da maria-leque-do-sudeste é plana, fica a uns 600m da sede – pelo meu chute de distância).

A proposta principal é de day use com almoço (atualmente, R$ 50 / pessoa). Também há um chalé em que cabem até 6 pessoas. É um chalé pequeno, desses com uma cama de casal, um beliche, e no andar de cima mais duas camas, uma pequena salinha com mesa e duas cadeiras, e o banheiro. É importante deixar claro que não é uma pousada: tudo limpo e arrumado, chalé reformado, há lençol e toalha, mas as acomodações são bem simples, e não haverá alguém para limpar e arrumar seu quarto. Em compensação, você está no meio da mata, o capitão-de-saíra e o sabiá-una cantam na frente do chalé. O preço é R$ 120 / pessoa com pensão completa.

As refeições são servidas na sede. Tanto a sede quanto o chalé foram reformados há pouco tempo. O refeitório é espaçoso, e a comida é feita pela própria Patrícia, bem no capricho. Café da manhã com frutas, pão e bolo caseiros, frios, suco, café. Almoço de frango com gengibre, farofa de banana, saladas.

Oportunidades fotográficas

A Trilha dos Tucanos tem uma lista bem interessante de aves, você pode ver neste post. Mas é preciso ter em mente: é Mata Atlântica, e ainda não há bebedouros e plantas atrativas ao redor da sede – exceto as grandes palmeiras jussara, que no inverno trazem até a jacutinga, além de araçaris, pavós.  O Marco pretende instalar bebedouros, mudar o comedouro para um local mais próximo da mata, ter plantas atrativas para beija-flores e pássaros, mas tudo isso ainda será feito.

O verão não é a melhor época para ver aves. Com playback e um bom guia, ainda dá para ver algumas. Estávamos sem guia ornitológico, mas contávamos com a preciosa ajuda do Luiz C. Trevizan, que frequenta a propriedade há muitos anos, tem trilha favorita, e descobriu a maria-leque-do-sudeste a algumas centenas de metros da sede. Além disso, o André estava com um Ipod, e tocou algumas vezes.

Maria-leque-do-sudete, êh bicho maravilhoso

Um bichinho do porte de um sanhaçu, um pouco menor. Discreto e tranquilo. É capaz de ficar horas no mesmo poleiro, indo e voltando enquanto caça insetos. Se ele tiver pousado em algum poleiro mais escondido, depois de alguma espera você conseguirá vê-lo no momento em que ele voa pra caçar o inseto, e voltar pro poleiro. Com alguma sorte, depois ele se muda para um poleiro com maior visibilidade.

É um casal, provavelmente com ninho. Não vi os dois juntos (na verdade, tenho uma foto do macho, e aparece o rabo de outra maria-leque, mas não vi as duas juntas). O macho tem o penacho vermelho, o da fêmea é laranja. Normalmente o topete fica escondido, mas às vezes ela se espreguiça e pode mostrar aquele leque do outro mundo.

Como sempre, estão na beira de um córrego limpo. Se você tiver azar, na hora que chegar lá a ave estará em algum poleiro difícil de ver, mas provavelmente estará naquele território. Espere um pouco, que uma hora ela volta para a beira do córrego.

Importante: não toque playback! Nem da maria-leque, nem de outra ave. Provavelmente eles estão com ninho e o playback pode atrair a atenção de predadores. Já vi isso mais de uma vez: você toca o playback de uma ave, de repente aparece um gavião achando que é uma presa fácil. A gente não sabe onde está o ninho, mas talvez o gavião localize. Fora que o mais provável é ela não atender o playback e pelo o que eu saiba não é uma espécie que pousa próxima da fonte do playback. Então em respeito à ave, por favor não use o playback naquela área.

O bichinho abriu o leque numa hora que se espreguiçou. Na verdade, mais de uma vez. Isso foi logo depois do almoço, estávamos eu, o Leonel Barbosa, o André Inidio e o Rodrigo Hauser – um pessoal simpático e tranquilo de Salto – SP, que foram lá por indicação do Trevizan, iriam só passar o dia. O André conseguiu ótimas fotos com uma compacta, fiquei impressionada com a SX50, que dá um zoom como se fosse de 800mm numa DX e 1.200 numa full frame (claro, além da câmera tem o grande mérito do André). O Cris e o Trevizan ainda estavam na sesta. O bichinho espreguiçou, e de repente apareceu o leque. O coração bate aquele tun-tun-tun-tun. Ela ofereceu boas oportunidades, mas não consegui nenhuma foto boa com o leque aberto porque fui muito burra. Estava há mais de 2 meses sem passarinhar, e há vários meses sem passarinhar na Mata Atlântica. Não regulei direito a câmera pra conseguir uma boa velocidade com menos luz. Pior: peguei sem querer a câmera do Cris, não chequei a regulagem, e estava regulado para fotografia de cassino. Ou seja, fiz várias burradas possíveis, e assim não reparei que estava com 1/60 de velocidade e perdi uma oportunidade que não sei se terei de novo.

Outras aves

Bom, eu só queria saber da maria-leque, ainda mais depois de olhar as fotos à noite no notebook e ver a grande c… burrada com a regulagem da câmera. Então no dia seguinte fiquei a manhã toda, das 7h20 às 13h30 em frente ao poleiro favorito do bichinho, eventualmente peguei uma cena num poleiro diferente. Ela caçou bastante, mas nada de dar aquela espreguiçada bonita e mostrar o leque de novo. Fiquei lá, não fui almoçar. O Cris voltou pra sede e trouxe um lanchinho que a Patrícia preparou pra mim. Comi tudo – entenda, não é que os birdwatchers não sentem fome, a gente sente muita fome, afinal o dia começa às 5h30, mas muitas vezes escolhemos não comer pra ficar atrás das aves – e ficamos mais um tempo por lá, mas por fim desistimos. Não foi dessa vez.

Apesar de só ter olhos pra maria-leque, nesse fim de semana também peguei umas fotinhos de sabiá-una, choquinha-carijó, arapaçu-de-garganta-branca, benedito-de-testa-vermelha, meu melhor bico-chato-de-orelha-preta num ramo lindo de samambaia, um guaracavuçu bem ruim, mas lifer. Os garotos pegaram boas fotos do barranqueiro-de-olho-branco, pica-pau-de-cabeça-amarela, beija-flor-preto, tangará, pimentão. E na verdade, consegui lindas fotos da maria-leque parada em 1/60, 1/80, a dor no coração é só de pensar o que eu perdi. Sei que acontece com qualquer um, mas que fica uma dor inesquecível, fica.

Conclusão: Tapiraí tem uma ótima mata, a uma distância razoável de São Paulo. A Trilha dos Tucanos tem um grande potencial. No inverno, as palmeiras jussara oferecem espetáculo garantido. E, pra quem tiver paciência, as marias-leque também são outro show, esse mais independente da estação. Fora do inverno, com certeza há muitas aves típicas de boa Mata Atlântica, mas será naquelas condições: em geral pouca luz, e dependência de boa audição e playback, ou de muita sorte.

Se o Marco e a Patrícia continuarem investindo, em pouco tempo a Trilha dos Tucanos pode se tornar um ótimo local para fotografar. Com plantas atrativas ao redor da sede, e comedouros e bebedouros bem posicionados, o local tem todas as oportunidades para atrair diversas aves, oferecendo aquela mordomia de poder fotografar de um local coberto, enquanto se toma um café e come um bolo. Recomendo!

Como chegar

Chegamos na sexta perto das 22h. Tapiraí fica a 160km de São Paulo, seriam umas 2h30 até a cidade, mais uns 30 minutos para chegar até a Trilha, que fica a cerca de 16km da pequena cidade de Tapiraí. (Levamos mais tempo porque paramos na estrada, e depois na Padaria do Bigode – a maior padaria de Tapiraí, não lembro qual foi a última vez que nosso jantar saiu por R$ 16, com bebidas). Continue na estrada, assim que acabam as casas da cidade, marque 11 km, logo você verá a placa do km 164. A saída para a estradinha de terra é no km 164,5. A outra dica do Marco é reparar na descida e subida: o km 164,5 é logo que a estrada começa a subir. Há placas indicando a trilha dos tucanos. Em menos de 4km de terra você chega, é a propriedade no fim da estrada. A estrada é boa e não precisa ter carro especial.

 

Mata Atlântica (+)