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Um grande destino para passarinhar no Cerrado

  • Texto e fotos: Claudia Komesu, com Nikon D800 e Nikkor 300 f4 com tele 1.4. Fotos de cenário com celular Sony Xperia.
  • Passeios passarinheiros na companhia dos amigos Tancredo Maia, Margi Moss, Mishka, Patricia Silva e Jonatas Rocha.

Acho que entrei para o circuito brasileiro de poker. Como alguns sabem, meu marido, o Cristian, a pessoa que me apresentou pra fotografia de natureza e a observação de aves, degenerou-se e hoje em dia sempre que pode, em vez de acordar cedo e ir passear no mato, passa a madrugada num salão repleto de gente (jogando e fotografando) e usa as manhãs pra dormir :o)

Depois de muito lutar, me rendi, e vamos tentar uma vida de dançarina e funcionário (dá-lhe, Chico Buarque). O BSOP – Brazilian Series of Poker, 4a etapa em Brasília foi a primeira tentativa. Decidi em cima da hora, mas Brasília é uma cidade cheia de birdwatchers, e tive sorte. O querido Tancredo Maia, um gentleman que conheci em 2011 numa passagem pela cidade voltando da Chapada dos Veadeiros, se ofereceu pra me acompanhar no sábado. No domingo marquei saída com a Patrícia Silva, indicação da Martha Argel. Para a segunda-feira combinei com o Jonatas Rocha.

Parque Dom Bosco e Jardim Botânico – festa nos mulungus

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O Tancredo chegou no hotel às 7h e fomos para o Parque Dom Bosco. Era para eu ter conhecido a Moema, a esposa do Tancredo, com quem converso online, mas não deu certo dela ir. Chegando ao parque descobrimos que não é mais permitido entrar com o carro antes das 8h. Por causa dos bêbados! O pessoal ia pro parque depois da balada, então tiveram que proibir a entrada de carros às 6h. E realmente, na entrada do parque tinha gelo, restos de vômito, e uns dois carros com uns bêbados, inclusive um cara urinando numa árvore.

O segurança do parque nos chamou, e disse pro Tancredo que poderíamos colocar o carro dentro do parque. Mal demos alguns passos, e topamos com tico-tico-rei e choca-de-asa-vermelha. Aves comuns naquela região, mas raras pra mim. Especialmente o tico-tico-rei, que tem um topete do outro mundo que ele ergue de vez em quando. Ainda vou pegar esse bicho com o topete bem erguido.

A guaracava-de-barriga-amarela também apareceu em vários momentos e cenários, alguns bem artísticos. Tico-tico-rei e choca-de-asa-vermelha voltaram a aparecer. Bom casal de joão-de-pau construindo ninho. Casal de balança-rabo-de-máscara. Fomos caminhando pelo parque, mais no pique de admirar a paisagem. O Tancredo me mostrou alguns dos lugares favoritos dele, inclusive uma pontinha que tem vista para o lago, um lugar de muita paz.

O lugar é bem bonito, apesar de uma inexplicável construção feia que fizeram logo na entrada, tapando a vista para o lago, e que deixa o Tancredo muito bravo. Já estava bem quente, sem nenhuma árvore com frutos ou flores atrativas para as aves, e então decidimos ir para o Jardim Botânico.

Assim que chegamos ao Botânico, uma visão maravilhosa: um grupo grande, várias bicicletas duplas, e o Tancredo me explicou que os ciclistas tiveram a iniciativa de levantar dinheiro para conseguir aquelas bicicletas, e agora organizam passeios regulares no parque. A pessoa de trás é alguém com deficiência visual. Ficamos alguns minutos admirando aquela cena, pudemos ver um dos ciclistas ajustando o banco e checando o pedal para um homem que parecia ter deficiência visual completa.

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Mais alguns passo, outra visão bonita: em frente ao bistrô, várias toalhas de piquenique, fitas coloridas e brilhantes amarradas de uma árvore à outra, balançadas pelo vento. Descobrimos que era uma festinha de alguém, organizada pelo bistrô. A ideia é muito legal, mas não aprovei a mesinha baixa no meio da toalha, os garçons, talheres e pratos pra todo mundo. Pra mim piquenique com infra demais não é piquenique.

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O Tancredo me mostrou a árvore em que o topetinho-vermelho costuma ficar. Não estava lá, mas resolveu aparecer no dia seguinte (quando eu não estava lá). Fica para a próxima.

Nos mulungus, essa árvore incrível, havia muitas flores, beija-flores e, é claro, alguns birdwatchers. Conheci o Rogério e o Eduardo Fernandes. O mulungu tinha beija-flor-preto, bico-reto-azul (macho adulto e macho jovem), beija-flor-de-orelha-violeta, beija-flor-tesoura, beija-flor-de-garganta-verde, besourinho-de-bico-vermelho. Saíra-amarela e sanhaçu-cinzento também apareceram.

O Tancredo tinha que ir embora, compromisso com o filho. O Rogério também foi. Eu falei que ficaria por lá, e que depois me virava pra ir embora. O Eduardo Fernandes ficou, almoçamos juntos no bistrô – era Restaurant Week em Brasília, comemos uma truta muito boa com farofa de banana, e a filha do Eduardo, a Silvia, se juntou a nós no almoço. Depois do almoço o Eduardo me mostrou algumas trilhas do Botânico. Bando de tico-tico-rei, mas inquietos como sempre, pica-pau-anão-escamado, choca-da-mata, saíra-de-papo-preto, mas que só vi e não consegui fotografar, fogo-apagou, casal de tucanos, canário-do-mato, pula-pula, algum rapinante que só vimos de relance. Na hora de ir embora, o Eduardo me deu uma super-carona, me levando até a porta do hotel (eu me despedi do Tancredo achando que teria que andar da área do bistrô até a portaria, onde chamaria um táxi). Esse povo de Brasília é muito gentil.

 

Passarinhando no Altiplano Leste – campainha-azul, corruíra-do-campo, ariramba-preta

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No domingo a Patrícia foi me pegar às 6h30 e seguimos para a região de São Bartolomeu, no altiplano. A Margi encontrou com a gente, estava com uma amiga que é do Irã, a Mishka. Nos juntamos no carro da Patrícia, e seguimos em frente.

Fomos para uma região em que urubus-rei são vistos com uma certa frequência, mas eles não estavam lá. As meninas lamentavam o dia estar tão quieto, disseram que uns dias antes havia muito mais movimento de aves. Mas pra mim estava ótimo. Na estrada havia bando de baianos, naquela luz de início do dia, comendo sementinhas. Eu seria capaz de ficar um bom tempo tentando captar aquela luz, com aqueles bichinhos, mas não é fácil – eles são bem arredios. Tocamos em frente.

Minhas fotos que não deram certo, mas dá para ter uma ideia de como é tentador, veja que luz

Vimos campainha-azul nuns três pontos, consegui boas fotos numa das oportunidades, e encontramos uma corruíra-do-campo que entendia a linguagem dos humanos. A Margi tinha acabado de dizer “vou pra lá, tentar mostrar a corruíra-do-campo pra Claudia”, e demos alguns passos, o bichinho pulou na nossa frente! Ficou se exibindo, bem boazinha, saltando de uma planta pra outra. Que coisa linda.

Tico-tico-do-campo, canário-do-campo, patativa, bico-de-pimenta. O sol já estava muito quente, então fomos para uma região de mata de galeria, onde havia a chance de ver a ariramba-preta. Parece que foi descoberta do Marcelo Monteiro, que mora não muito longe, e começou a explorar a região.

Quando chegamos nessa área de mata, havia um carro estacionado. Era o próprio Marcelo, mais a Fernanda Fernandex e a Cida. Na hora que eles se encontraram com a gente eu estava vendo um soldadinho que a Patricia tinha chamado, mas muito no alto. Vi que tinha chegado gente, mas fiz aquela coisa mal educada dos birdwatchers de aves primeiro, humanos depois, e só quando desisti do soldadinho me virei pra falar com o Marcelo. Um cara muito simpático, a primeira coisa que ele quis me falar é que gosta muito do Virtude-AG (o que me doeu mais um pouco a minha falta de educação, mas acho que ele perdoa). Falei que ele devia participar, que ele tem muitas fotos e informações pra compartilhar, e me prometeu um post.

A Patrícia é casada com um gaúcho, e a Margi disse que essa é a explicação pra infra de lanches que a Patrícia carrega :o) Tinha levado bolo de dois tipos, banana, mexerica, água, e água quente mais filtro e coador de café, e fez café ali, na hora. Enquanto comíamos o lanchinho, um fura-barreira sentiu o cheiro do café e veio espiar. Infelizmente foi só uma espiadinha mesmo, e lá se foi.

Depois do lanche seguimos até o fim da trilha, o ponto das arirambas-pretas. Estavam lá, mas longe, não quiseram chegar mais perto. Bastante atividade na trilha. Bentevizinho-de-penacho-vermelho, saí-azul, saíra-viúva, teque-teque, trinca-ferro. A Patrícia tinha um compromisso à tarde (contratei-a sabendo disso), e era hora de ir. Na volta ainda paramos num trecho com árvores mais altas, para ouvir um pouco a mata. Um arapaçu-do-cerrado em cima de um cupinzeiro bonito, mas não podíamos ficar muito, e voltamos para o ponto onde estava o carro da Margi.

A Patrícia não é exatamente uma guia ornitológica. Ela sabe onde são os pontos mais prováveis de ver os bichos, mas ainda não tem audição de reconhecer o canto das aves. Algumas ela sabe. Quando pedi informação pra Martha, ela tinha me explicado isso, e a Patrícia também fez questão de dizer quando fiz o primeiro contato. Ela não costuma guiar brasileiros, é principalmente guia turística para estrangeiros em Brasília. Mas é uma companhia muito agradável, tem uma Land Rover, leva lanche, conhece os locais. Recomendo!

Nos despedimos da Patrícia. A Margi me convidou pra ir pra casa dela, que tem um quintal famoso entre observadores de aves e aves. Contando o que já pousou, ou só passou voando, a Margi já viu 130 espécies de aves no quintal. Deixamos a Mishka no Jardim Botânico, onde estava o carro dela, e fomos pra casa da Margi. O marido da Margi, o Gérard, estava lá. Almoçamos nós três, depois dei uma volta pelo jardim, mas não queria ficar passarinhando, e sim papeando com a Margi.

A Margi e o Gérard já viajaram pra tudo quanto é país. Um dos trabalhos legais deles é o envolvimento com o projeto Rios Voadores, em que, de dentro de um aviãozinho, eles coletaram amostras de vapor de água e com isso ajudaram nos estudos que demonstram a importância da floresta amazônica, especialmente árvores grandes, no regime de chuvas do Brasil. Para terem uma ideia, durante todo o ano de 2011, mais de 40% da umidade recebida nas regiões sudeste e centro-oeste veio da região Amazônica. http://riosvoadores.com.br/o-projeto/  / http://mundomoss.com.br/

A Margi nasceu no Quênia, mas veio pro Brazil há muitos anos, e já é naturalizada. Engraçado que umas semanas atrás eu estava morrendo de banzo, e essa viagem pra Brasília ajudou a diminuir essa saudade. Andar pela paisagem seca do cerrado, e depois ficar umas horas em frente ao gramado verde do quintal da Margi (outra lembrança dos parques da África do Sul, em vários campos havia um pedacinho verde irrigado com grama)… um privilégio.

Estávamos esperando a Patricia ligar, talvez ela pudesse passarinhar com a gente à tarde. Mas acabou não dando certo, então fomos para o Jardim Botânico, mas não para a área do mulungu, e sim para rodar pelas trilhas. Logo na entrada, ao lado direito da portaria, havia um pássaro tomando banho numa poça de água, numa depressão de cimento. Fotografamos sem saber o que era, mas depois identificamos como uma fêmea de soldadinho. No dia seguinte soube pelo Jonatas que essa poça de água é famosa entre as aves. Se você ficar um bom tempo parado lá tem chance de pegar várias aves de perto, tomando banho. Pergunte para o guarda se você pode abrir um pouco a torneira, o som da água atrai as aves que conhecem aquele ponto.

Na estrada de terra em direção ao mirante havia alguns sabiás-pocas em árvores frutíferas, saí-azul. Mas sem nenhuma moleza das aves. O Botânico fecha às 17h, saímos e fomos para a casa da Margi. De lá peguei um táxi e voltei para o hotel.

 

Flona – cenários incríveis e festinha de beija-flores nas lippias

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Segunda-feira foi dia de conhecer a Floresta Nacional de Brasília, a Flona, tendo como guia o Jonatas Rocha. Eu ainda não conhecia o Jonatas, e não foi muito fácil combinar com ele, mas todos os colegas de Brasília me falaram “vá com o Jonantas, ele conhece muito bem a Flona, vale a pena”, então eu fui.

A Flona fica a 20km do setor hoteleiro. No caminho fomos papeando e já deixei pra trás a má impressão causada pelas dificuldades para agendar. E chegando na Flona pude comprovar que o Jonatas é mesmo um ótimo guia. Ele mora perto, vai lá há anos, os funcionários o conhecem e ele tem permissão para ir de carro em estradas que são fechadas ao acesso normal. A primeira ave que fomos atrás foi o ui-pí, lifer pra mim. O Jonatas ouviu o bichinho cantar, colocou a caixinha numa galhada, nos posicionamos, e veio um casal, uma lindeza.

Fomos então para uma vereda, um dos vários cenários incríveis da Flona. Sanhaçu-fogo, mas muito longe. Chegando na vereda, num ponto depois dos troncos de madeira que servem de ponte improvisada, chegamos numa floração de lippias. Besourinho-de-bico-vermelho, macho e fêmea, estrelinha-ametista fêmea, e uma rápida passagem da fêmea do chifre-de-ouro. Passamos um bom tempo por lá, vendo o besourinho bancar o beija-flor-tesoura do pedaço pra cima do estrelinha. Logo o besourinho! É tudo uma questão relativa. Acho que o estrelinha é o menor beija-flor do Brasil, então ele não tem em quem bater… será que bate em besouros e mariposas?

Além dos beija-flores, um filipe e um garrinchão-de-barriga-vermelha apareceram por lá. Ficamos bastante tempo nessas flores, então decidimos mudar de ponto. Fomos até um trecho do lado de um rio lindo, onde poderia haver mais floração, mas havia poucas flores. No caminho tínhamos tentado maxalalagá, mas nada do bichinho responder. Já eram umas 11h30, sol bem quente, decidimos parar para almoçar. Fomos a um restaurante por quilo, bem perto da Flona – na verdade, o bairro onde o Jonatas cresceu é muito perto da Flona.

Na volta à Flona, fomos para uma mata de galeria em busca do limpa-folha-do-brejo, outro fofucho que eu nunca tinha visto. Caminhamos um pouco dentro da mata, o Jonatas ouviu o bicho cantar, tocou o playback, ele respondeu longe. Esperamos, nada, então ele mudou a posição para um pouco mais perto da direção do som, e aí sim o bichinho sentiu o território invadido, e veio em cima. No primeiro galho que pousou por alguns segundos nem cabia na lente. Depois mudou para um outro ponto, em que ficou um tempo, fazendo um som incrível, como se fosse um bater de penas, ou algo meio gutural. Pelas fotos dá pra ver que é com a garganta. Eu queria ter filmado, mas fiquei com receio de me mexer pra pegar e posicionar o tripé, e assustar a ave. Então ficamos só olhando.

Saímos de lá. Mais tentativas do maxalalagá, mas nada dele responder. Mais algumas voltas procurando floração de lippia, mas sem sucesso, o melhor ponto era mesmo o de manhã. No caminho de volta para aquele ponto, algo no chão: era um pica-pau-de-banda-branca, ciscando, voou quando o carro se aproximou. Ainda se deixou ser fotografado.

A busca pelas lippias era por beija-flores em geral, mas especialmente o macho do chifre-de-ouro. Teve um ano em que o Jonatas chegou a ver três machos no mesmo cantinho de lippias, mas não tivemos essa sorte desta vez.

Também fomos no ponto da sanã-castanha, ao lado de um pequeno laguinho com uma água azul-leitosa sensacional. A sanã respondeu ao nosso lado, a menos de meio metro, mas não quis sair no aberto.

O Jonatas queria que eu corujasse, que seria fácil ver o curiango-do-banhado. Mas em geral estou imprestável à noite, além de ter prometido pro Cris que ia ficar um tempo com ele no torneio, então decidimos ir embora no fim do dia.

Vimos o por-do-sol num campo, um lugar tão tocante quando um campo rupestre. Lamentei o dia todo estar sem a Sigma 50-500, e sim com a 300 f4, ou nem ter uma câmera melhor pra registrar a paisagem. Todas essas fotos de cenário são com celular. Um campo é um lugar aberto assim, com uma infinidade de flores delicadas, e lar de bichinhos como este, o papa-moscas-do-campo. Como vocês podem imaginar, é um dos primeiros a ser destruído pelo homem, que vê nesse ambiente um local fácil pra construir casas ou virar plantação.

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A Flona tem vários pedaços ocupados por chacareiros. E o pessoal vai tentando pegar mais pedaços, é comum irem colocando fogo num trecho, sistematicamente, pra depois ficar mais fácil não ter briga sobre o valor ambiental da área ocupada. O Jonatas já trabalhou como brigadista, e na época dos incêndios até anda com o abafador no carro.

A volta para o setor hoteleiro foi em meio à hora do rush. Levou uma hora, quando o normal seria meia. Mas fomos conversando o caminho todo, e quando o Jonatas me deixou no hotel, me despedi de um novo amigo.

A Flona é um lugar incrivelmente bonito. Os campos com tantas canelas-de-ema que você olha ao longe e nem reconhece, parece plantação. Os cenários com água, matas de galeria, as áreas descampadas com muitas flores de macela, os campos e suas flores delicadas, as veredas. Já vale a pena ir à Flona só pela paisagem.

Mas recomendo ir com o Jonatas, porque ele que conhece os pontos, e é ele que tem autorização para entrar de carro. Senão é a pé ou de bicicleta, e as distâncias são grandes. É um lugar para levar bastante água e, pelo menos nessa época, saber que tem muito carrapato. Eu voltei com uns 10, mesmo com calça e manga longa, e meia por cima das barras da calça. Tenho uma camisa comprada em loja de pescador, com sistema para refrescar nas costas, mas eu fui idiota e ainda não costurei. Alguns dos carrapatos entraram por aí, outros pelas frestas entre os botões. Também é recomendável ir de perneira, porque é um lugar com jararacas, e você não anda só em trilhas limpas.

O Jonatas passou uns meses afastado do birdwatching, mas agora está voltando. Além da Flona, ele conhece RPPNs e outros lugares de Brasília bons pra passarinhar. O Jonatas tem uma super-audição, sabe usar o playback de forma responsável, pergunta sobre seus lifers ou objetivos pro passeio (ele pediu minha lista de lifers, eu mandei, mas expliquei que não precisávamos focar neles. Que eu queria lugar com flores ou frutos pra fazer fotos boas, e assim focamos mais nas áreas com lippias). Ele não levou câmera, só o binóculo. Tem o grande defeito de fumar, e muito, mas disse que está tentando parar :o) Pra combinar o passeio não foi muito fácil, ele demorava pra responder, mesmo eu vendo ele fazendo outras coisas no Facebook. Quase desisti dele, só não desisti porque os amigos de Brasília tinham recomendado bem. O Jonatas tem seus motivos pra ser enrolado assim, mas está se esforçando pra melhorar, e minha recomendação pra quem quer contratá-lo como guia é essa: tenho um pouco de paciência se ele enrolar para combinar, porque vale a pena. É um guia muito competente e dedicado, desses que inclusive se preocupa em te posicionar no melhor lugar em termos de visão ou de luz, ou dá dicas do tipo “fica já com a câmera em punho”, “se aproxime delas com a câmera na frente do rosto”, “dá dois passos pra frente pra tirar essa moita do caminho, caso ele pouse pra cá”.

Considero Brasília um grande local de Cerrado. Tem toda a infraestrutura da cidade, volta e meia tem promoções de passagens aéreas. Seja aproveitando algum outro compromisso, ou seja para diversificar da Mata Atlântica e andar um pouco pelo Cerrado, recomendo bastante o destino. Os contatos do Jonatas e da Patrícia são: jonatasavifauna@gmail.com / patriciasilvabrasilia@gmail.com

 

 

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