• Texto e fotos: Henrique Coelho com Canon 7D II e Sigma 150-600

De 2 a 5 de Novembro estivemos passarinhando no Amazonas e, nesta viagem, tive a grata felicidade de topar com a Claudia Komesu e o Cristian Andrei, que também são de São Paulo, dentro das matas de Novo Airão na Ilha de Anavilhanas! Era nossa primeira incursão no mato na viagem ao Amazonas e não deu tempo pra muita prosa mas recebi um gentil convite da Claudia de que fizesse um relato da viagem o que agradeço muito.

Pensando no que contar aproveitei e li o relato da Claudia que você confere aqui e vi que detalhes mais do que bem descritos estão no relato da viagem dela e assim não tenho aqui a pretensão de repetir um volume de informações que pode acabar ficando meio parecido e vou tentar deixar o meu recado contando os “causos”, as sensações e os encontros da nossa viagem.

Quem não quiser ler sobre o contexto desta viagem e os perrengues que passamos pra conseguir ir pode pular para a parte intitulada “A Viagem”.

Eu e a Rita, minha esposa, passarinhamos há alguns anos sendo basicamente uma “atividade de casal”. Nem eu nem ela mexíamos com fotografia ou mesmo com aves antes de começarmos a passarinhar. Criamos a atividade por algumas razões. Eu tive um infarte em 2010 de lá pra cá convivo com a necessidade de desestressar e, também, nós temos uma filha que precisou de cuidados maiores por um problema de saúde e estas situações nos moveram a querer tirar um tempo para espairecer, aliviar o estresse e nos dar a oportunidade de sair de São Paulo nem que fosse só para respirar um ar puro.

Começamos andando pelo condomínio e vendo as aves que apareciam. Um certo dia resolvi andar com a câmera que eu tinha. Já saíram as primeiras fotos. Mas eu não sabia nem quem era o tico-tico. Depois que descobri o Wikiaves e vi que poderia controlar meus registros lá, nos animamos a fazer passeios de um dia (vai e volta) em locais próximos a São Paulo. Neste ponto o nosso Estado é matador. Quando vimos pela primeira vez uma saíra-sete-cores, uma saíra-militar e vimos o que era uma mata nativa, seus sons, seu cheiro, suas marcas, sua luz… e principalmente toda a gente que frequentava estes lugares, isto nos enganchou. Era o que queríamos. Sair de São Paulo (quando podíamos, respirar o ar puro, ver as matas e desligar das nossas batalhas do dia a dia).

Esta breve introdução é mais pra dizer que nós não somos grandes fotógrafos e nem super experientes no assunto. Mas ao avaliar o leque de oportunidades de viagens que se abriam para nós, principalmente depois de dar uma estudadinha no Wikiaves e ver a infinidade de aves que tem pelo nosso Brasil nós vimos que era este Brasil maravilhoso das aves que a gente queria ver.

A ideia seria sair pra conhecer os diferentes biomas, o espetáculo da natureza e de todo o benefício físico e mental que tudo isso poderia nos proporcionar foi o que nos fez decidir cair na estrada e conhecer esse Brasil que acho que de outra forma não conheceria. Agradeço demais às passarinhadas, os amigos e aos maravilhosos guias que conhecemos nestas andanças.

Quando pensávamos em equipamento, a pergunta era o que seria mais em conta para eu poder chegar lá perto das aves e poder de fato vê-las. A foto poderia ser uma mera lembrança, mas a gente queria chegar perto. Daí saiu o plano de ter lentes que poderiam não ser as mais claras e de ótica esmerada mas pelo menos que fossem as que nos permitissem ver os bichos mais de perto. Assim optamos pelas Lentes Telefoto Sigma 150-500. (Eu já tinha uma 100-400 comprada da Claudia ) mas a Rita já optou pela Sigma e quando vi a diferença de distância focal eu acabei trocando também. O que isto tem a ver com a viagem à Amazônia? Tudo.

A gente queria viajar. Tendo juntado os recursos financeiros para tal, ficamos “na fissura” pra ver as grandes aves do interior como araras, tucanos, os grandes gaviões e sabíamos que estes bichos não são de chegar muito perto. Escutamos muita gente falando que se fotografam esses bichos de longe e nós, armados de lentes 500mm começamos a viajar e percebemos que mesmo com lentes 500mm as vezes era “pouco” em determinadas situações. Com as 500mm fomos, dentre outros lugares, a nossa primeira vez em Floresta Amazônica quando fomos ao Cristalino Jungle em Alta Floresta. Lá conhecemos o que é fotografar em grandes torres de observação e as oportunidades que se abrem ao fotografar de lá. Mas, óbvio, as aves não vem pousar na torre, mas nós poderíamos buscá-las com as nossas Sigmas. Gostamos tanto que repetimos a dose lá no ano seguinte e também marcamos de ir a Manaus uma primeira vez. Marcamos com a guia Vanilce de Souza e viajamos com dois amigos de São Paulo, Ivan Marques de Campos e André Silva. Nesta viagem o Ivan Marques foi com a então novíssima Sigma 150-600. E ficamos maravilhados com a ótica da nova Sigma. E dito e feito. Trocamos as nossas lentes pelas novas 150-600 e então era hora de marcar a grande estreia para estas lentes: mais uma viagem ao Amazonas!

Mas aí, a vida nos prega peças… Marcamos com a Vanilce para junho de 2016 e chegando na data, por conta da saúde da filha, não pudemos ir. Guia contratado, passagens pagas, etc. Foi frustrante. A Vanilce é bastante experiente e obviamente sua agenda é bem concorrida. Marcamos com quase 8 meses de antecedência e não conseguimos ir. Reagendamos para o fim do ano. As Sigmas que esperassem. Em novembro, com tudo comprado novamente nós acabamos por não poder ir de novo pela mesma razão. E o investimento nas passagens foi para o ralo de novo. Duro de acreditar, mas assim foi. Pagamos a Vanilce  e demos “no show” de novo… Ficamos muito frustrados. E as passarinhadas não eram para isso. Eram pra descontrair, mas estavam se tornando um problema também.

Pensamos em desistir. Passamos um período muito ruim e ficamos 14 meses sem passarinhar. Mas esperança é uma coisa que não se perde. E a vida deu uma estabilizada, a menina melhorou e nós voltamos a querer ir pro mato.

Obviamente voltamos na nossa lista de prioridades e fomos nós contratar a Vanilce. Mas dessa vez teríamos um “plus”. Teríamos não só a Vanilce mas também o marido o Luiz Fernando Carvalho em 100% do tempo pois na primeira viagem a Manaus ele só esteve conosco na Torre do Musa. Em Presidente Figueiredo foi só a Vanilce. E pensamos: “Excelente. Um casal de guias para o nosso casal. Há de ser produtivo!” E faltava só esperar o mês de Novembro.

No dia da viagem, ocorreu um fato que nos deixou muito triste: perdemos o Lucka, nosso Golden Retriever, com 12 anos que se foi doente com um grave tumor no fígado. Ele se foi no exato dia marcado para viajar e todos estávamos um caco. Nossas filhas estavam um caco. A vontade de arrumar as malas era zero. Pensamos “não podemos fazer isso de novo”. E vai que a viagem nos ajudaria a esquecer um pouco a tristeza da perda de nosso “filho de 4 patas”.

Respiramos fundo, arrumamos as malas e fomos para o aeroporto ainda entre lágrimas.
As meninas ficariam bem se a gente ficasse bem. A vida continua. E quando começamos a nos concentrar na viagem …

Hora de embarcar no voo da Azul e?  E?   “Atenção srs passageiros do Vôo da Azul (blá, blá, blá) o seu voo foi cancelado. A estimativa é que os srs sejam alocados em um voo amanhã pela manhã. Favor aguardar instruções para que sejam acomodados em hotéis para o pernoite”.

Olhamos um pro outro e pensamos. “acho que não é pra ir…” Tá tudo dando errado. Tínhamos uma viagem de quarta a noite até domingo e então a ideia era começar a passarinhar na quinta de manhã pois o tempo era curto. E saindo na quinta de manhã… Meio dia já iria embora. Mas fomos dormir em Hortolândia ( o voo era por Campinas ) no hotel indicado pela Azul. Jantamos e fomos dormir sem querer pensar muito em nada. O dia já tinha sido muito complicado de manhã.

No dia seguinte chegamos no aeroporto e estava lá o voo no painel do Aeroporto marcado para as 10h30. Chegando na hora de embarcar aviso “Atenção srs passageiros do voo da Azul, o seu voo está atrasado. A ANAC está fazendo uma inspeção na aeronave”. Claudia, pode soltar um palavrão aqui no Virtude AG ? Melhor não né? [Comentário da Claudia: pode sim] Mas a situação merecia. Whatsapp para Vanilce pedindo desculpas e recebo deles uma senhora dose de ânimo. “Não esquentem. Venham. Vamos fazer uma viagem proveitosa. Vai ser ótimo”. E enfim com 2h de atraso decolamos. Estávamos indo para o Amazonas ! Poderíamos enfim aproveitar alguma coisa apesar de termos perdido praticamente um dia inteiro.

 

A viagem

Muitas expectativas. Já vínhamos acompanhando o Wikiaves e os registros feitos por outros passarinheiros nos últimos meses e nosso roteiro incluía Novo Airão, Manacapuru, Iranduba Presidente Figueiredo e Manaus. Será que teríamos de cortar algo pelo atraso no voo? Ficamos de conversar com os guias e decidir o que cortar. Mas enfim decidimos por não cortar nada e fazer o que tiver em Manacapuru apenas o que estiver mais próximo sem perder muito tempo pois já deveríamos dormir em Novo Airão no dia 2.

E assim fomos. Carro alugado na Movida do Aeroporto, o Luiz Fernando solicitou dirigir para que os deslocamentos fossem mais produtivos. Então foram na frente o Luiz e a Vanilce e atrás eu e a Rita. Montamos as máquinas no aeroporto e tocamos pra Novo Airão. Começava assim a tão sonhada passarinhada no Estado do Amazonas. Em particular esta era uma viagem bastante aguardada pelas possibilidades e objetivos da viagem. Em Novo Airão poderíamos ver o famoso Rabo de Arame, versão de cores sólidas do Uirapuru Laranja, rsrsrr mas sendo uma ave de rara beleza e que ocorre numa área tão limitada, a expectativa era enorme. Além do Rabo de Arame tínhamos também a expectativa de ver o sonhado e famoso Uirapuru Verdadeiro. A minha fissura com esta ave não era nem tanto pela sua beleza mas por ouvir o seu canto flautado, melancólico e doce. Algo que muito diziam ser difícil de descrever.

E, como não poderia deixar de ser, seria mais uma oportunidade que estávamos nos dando de conseguir um registro de uma Harpia ou um Uiraçu. E além de outros tantos lífers sonhados como anambé-pompadora, anambé-militar entre outras. E como a gente gosta é de ver bichos bonitos, quem saber ver um anacã de mais perto do que a gente tinha visto até hoje. Pedir pra ver com leque aberto e tudo seria demais. Se visse um razoavelmente de perto para conseguir um registro já estaria super feliz.

Ao longo do caminho para Novo Airão vi o quanto o casal de guias é produtivo. Um está olhando um bicho e o outro já está prestando atenção no próximo. Eles também vão se corrigindo e lembrando um ao outro o exato lugar onde já viram, qual lugar que é mais provável das aves pousarem além de os dois terem demonstrado habilidades auditivas e visuais absolutamente impressionantes.

Aquela coisa assim. Você está na estrada e de repente eles falam: olha ali o bicho tal. Naquela curva ali tem o fulano, mais pra frente tem chances de outro e assim foi. Na passagem por Manacapuru até Novo Airão fizemos andorinhão-de-rabo-curto, cantador-amarelo, cantador-sinaleiro, andorinha-azul, beija-flor-verde, rouxinol-do-rio-negro, andorinhão-do-buriti e quase deu um uirapuru-de-chapéu-azul.

Chegamos praticamente à noite na Pousada Novo Airão já felizes por não ter perdido o primeiro dia totalmente. No dia seguinte fomos pegar o barquinho para Anavilhanas. Uma sensação extremamente prazerosa de andar de barco no Rio Negro. Nossa como isso nos faz bem. Ir olhando as matas nas margens, o dia clareando. Mas o tempo não estava muito firme.
Do barco avistamos um gavião-de-cabeça-cinza no alto de uma árvore na beira do rio e já nos rendeu as primeiras fotos do dia.

Desembarcando na Ilha logo fizemos a irrequieta choca-de-crista-preta, a pintadíssima choquinha-do-tapajós, ariramba-de-cauda-verde e nos pusemos a caminhar ela trilha em mata fechada que levaria a arena dos rabo-de-arame. “É no fim da trilha” dizia o Luiz Fernando. Essa coisa de final da trilha é um cano. Você fica pensando… não chega nunca… cadê o bicho? Mas fomos em frente. Rita fez a choca-da-várzea e um arapaçu-pardo. Logo adiante fizemos o bonito arapaçu-riscado. Até que chegamos na área deles e só o que vimos foi uma máquina em cima de uma mochila. Opa! Tem mais gente aqui. E quem era? A Claudia e o Cris guiados pelo Gabriel. Que legal. Encontrar gente de São Paulo no meio do mato e tão longe de casa.

Mas estávamos todos lá atrás das belas endêmicas do local. Vanilce comentou que deveríamos esperar por eles (rabo-de-arame) pois eles, nesta época, vão e voltam daquela arena diversas vezes e pousam em determinados galhos que lhes servem de poleiros e neste momento que dariam então oportunidade para fotos.

Enquanto esperávamos o rabo-de-arame dar as caras, apareceu um rabo-branco-do-rupununi. A Rita fez foto e eu não. Paciência. Vamos em frente. E não demorou muito começaram a chegar os danados com as suas cores vivas contrastando com a mata fechada e escura. Subi o ISO pra 2.500. Na Canon 7D Mark II eu já sabia que estava meio que abusando do ISO. Mas era o jeito para ganhar alguma velocidade. E eles vieram, se empoleiraram e deram show. Sim deram show. Não pra nós. Mas os machos para uma fêmea que acompanhava o grupo. E numa destas dancinhas para a fêmea eu consegui pegar uma foto dele já começando a eriçar as penas das costas e o registro saiu bacana e eu reputo ser uma das melhores fotos que já fiz. Não pela qualidade, mas pelo momento de alcançar o objetivo depois de dores, encrencas, dificuldades e frustrações. Deu quase aquela vontade chorar, misto de nervoso, relaxamento, alegria e torpor pela imagem que fui presenteado.

Pudemos fazer várias, neste meio tempo, apareceram um picapauzinho-chocolate perto de seu ninho e uma maria-sebinha. Fotos feitas, o comentário era que devíamos nos apressar por conta de chuva forte que se aproximava. Mas eu não tinha feito o rabo-branco-do-rupununi e o Luiz não se conformou e falou para a Vanilce e a Rita aguardarem um pouquinho que ele tentaria me mostrar o beija-flor de novo. Uma última chance.

Gastamos um tempinho, nos embrenhamos no meio do mato mas eu consegui o registro!
Voltei feliz e já estava trovoando quando chegamos de volta no grupo. E quando eu chego de volta na arena do rabo-de-arame o que a Rita estava fotografando? Um rabo-branco-do-rupununi que estava pousadinho bem em frente a ela!

Mas corre que lá vem chuva. Ainda bem que levamos capas descartáveis conosco. Protege o equipamento. Eu posso molhar, o equipamento não! E caiu o maior toró. Chegamos no barco ensopados. No tempo doido da região, nem bem aportamos de volta em Novo Airão o tempo abriu…

Fomos almoçar num restaurante bem legal de um gaúcho. Comemos tucunaré e tambaqui ao molho de tucupi. Vendo que eu gostava de molhos condimentados, o dono do restaurante ainda me trouxe outras pimentas para eu experimentar com o peixe. Uma delícia. Voltamos então para a pousada pra pegar as coisas e voltar à Manaus. Na pousada ainda topamos com um caraxué-de-bico-preto.

Na estrada, na volta para Manaus, iríamos passar por Iranduba e tentar ver o que tinha de aves de várzea na margem do Rio Solimões. Mas bem antes disso ao sair de Novo Airão, passamos num ponto da estrada onde a Vanilce informou ter um buritizal que tinha comida e 4 ninhos de maracanã-do-buriti. Opa, gostei da idéia. Eu me tornei um grande fã de psitacídeos. E só tinha uma foto muito ruim da maracanã-do-buriti, enfiada no meio das folhas e no contra-luz, foto feita em Porto Nacional no Tocantins.

Chegamos no local e já ouvimos a algazarra do bando que estava no buritizal. Voaram e depois pousaram de novo. Neste momento eu atravessei a estrada e fiz outra foto que encheu meu coração de alegria. Uma sensação de vitória, de liberdade, eu não sei bem dizer, mas me senti novamente presenteado. Duas maracanãs estavam num galho seco de buriti de frente uma para a outra. Logo ao lado tinham mais duas. Enquadrei para pegar as quatro aves e fiz algumas fotos. Ao olhar como ficou me vi rindo à toa com a cena que eu peguei. As duas maracanãs que estavam de frente uma com a outra estavam próximas de tal forma que a máscara clara de suas faces junto com o bico preto sobreposto pareciam formar o desenho de uma borboleta! Gratidão. Foi o que eu senti.

Mais pra frente ainda próximos Novo Airão vimos uma cena agressiva da vida como ela é. Dois tucanos-de-papo-branco predando um ninho de xexéus. Eu fiz uma foto desta predação. Cena forte. Tadinho do xexéuzinho. Mas é a vida.

Chegando em Iranduba o tempo estava melhor. Chegamos no final da tarde. Ainda tinha um solzinho. Custava a acreditar que de manhã eu estava enfiado nas matas da Ilha de Anavilhanas em Novo Airão e agora já estava ali pertinho de Manaus. Em Iranduba fizemos registros bem legais. Começamos com uma ave que eu já tinha, mas não havia conseguido com uma pose tão bem feita. Uma polícia-inglesa-do-norte. Ficou com um bom fundo na foto. Seguimos a margem do Solimões e mais pra frente a Rita fez um lifer pra ela o casaca-de-couro-da-lama. Eu já tinha feito aqui no Embu das Artes, SP. Logo depois o joãozinho, um parente do casaca-de-couro também deu as caras e boas fotos. Ainda conseguimos no mesmo local um pica-pau-de-peito-pontilhado e mais pra frente periquitos-testinha-e-de-asa-branca.

Falando de periquito-de-asa-branca, tinha comentado com a Vanilce que queria saber como era o negócio dos Periquitos em Manaus quando eles vem dormir. Marcamos para o dia seguinte ao voltar de Presidente Figueiredo. Obs! Vou ver trocentos psitacídeos !

E já que falamos de psitacídeos, conseguimos lá em Iranduba um papagaio-da-várzea que pousou na árvore no meio de um monte de periquitos.

Enfim, sexta feira dia 3/11 encerrada com louvor. Fomos para o hotel Thalyssa descansar.
No dia seguinte (depois de perder a hora…não ouvi o despertador…) saímos apressados para Presidente Figueiredo. A expectativa era conseguir o uirapuru-verdadeiro. Como era um bate e volta, não passamos na Mari Mari pra ver os galos pois já os tínhamos fotografado da primeira vez que a gente foi a Manaus e Presidente Figueiredo.

Na estrada, no caminho de PF a Vanilce deu um aviso pro Luiz diminuir. Eu não tinha visto nada e saí do carro sem achar nada e ela me mostrou um araçari-miudinho lindo numa árvore seca. Massa. Como ela viu esse bicho do carro andando na estrada eu não sei. E fomos pra frente até chegar na RPPN onde eles costumavam guiar.

Fomos andando nas trilhas e de novo escuto “O uirapuru é no final da trilha”. Ri amarelo. De novo? Calma, disseram eles. Tem muito bicho bacana no caminho. E não é que tinha? De cara um maú carregando gravetos para construir um ninho.  Depois ainda fizemos o estalador-do-norte e abre-asa-da-mata. Arapaçus passaram pra lá e pra cá mas não estavam colaborando e então chegamos no local. O coração começou a acelerar. E aqui eu peço licença para contar um pouco sobre esta ave, o uirapuru-verdadeiro e um pouco do porquê ela tem tanta fama.

O uirapuru-verdadeiro é uma ave que remonta a lendas contadas pelos índios nos primórdios do nosso Brasil. Uma ave bastante difícil de localizar pois é marrom e ela não sai das matas fechadas da Floresta Amazônica.

O uirapuru é uma ave endêmica do norte do Brasil que ganhou fama através de lendas indígenas que envolvem a ave. O uirapuru é uma ave marrom, de porte pequeno e com marcas preto e brancas no pescoço como se fosse um colar.

Uma ave assim muuuuito bela? hmmm…. não. Mas o canto…

O canto do uirapuru-verdadeiro é algo muito difícil de descrever. É um som de flauta. Purinho purinho. Um som doce, suave, melodioso que pode ser entoado de forma curta para a defesa de território ou de forma longa para atrair fêmeas. Este canto era usualmente escutado pelos indígenas sem que a ave pudesse de fato estar sendo observada. Isto aguçou a mente dos indígenas e naturalmente começaram a aparecer lendas em torno da ave que produzia aquele som.

A Lenda

A Lenda do uirapuru tem uma enormidade de variações dependendo de quem conta.

Consta que em uma tribo indígena do Rio Grande do Sul (Tapimirins) um cacique chamado Abaetê deveria casar-se e ele estava muito dividido entre o amor de duas índias. Esta contenda amorosa envolveu as índias Paraí e Obirici. Sem saber o que fazer para escolher sua amada, Abaetê recorreu aos deuses e então Sumá, a deusa guerreira, lhe teria dito que Abaetê pedisse uma disputa de arco e flecha entre as índias.

E dito e feito, fez-se a disputa entre as silvícolas Paraí e Obirici. Obirici, muito nervosa errou o alvo e viu seu amado Abaetê ir embora com Paraí. Obirici então começou a chorar copiosamente rios e rios de lágrimas. Destas lágrimas formou-se um riacho chamado Ibicuiretã (Córrego das Lágrimas). O córrego que levava este nome foi canalizado e, hoje, no local, tem um Shopping na cidade de Porto Alegre!

Mas voltando a índia Obirici, diz-se que a índia ficou tão inconsolável que ela teria pedido ao Deus Tupã que lhe retirasse a vida. Entretanto, Tupã achou que isto não seria razão para fazê-lo. Ela pediu então que ele a transformasse numa ave para que ela pudesse visitar Abaetê sem que ele a reconhecesse. Danadinha a Obirici…

Tupã aceitou conceder este desejo mas ela deveria voar  para bem longe e deixar Abaetê em paz com Paraí. Esse Tupã, hein? Evitando a discórdia!

E assim Obirici foi transformada numa ave que voou para o norte (para a Amazônia) bem longe de Abaetê. E a ave foi então batizada de “waipu-ru” (uirapuru) ou “O pássaro que não é um pássaro”. E lhe foi dado um canto melodioso para que Obirici pudesse expressar sua saudade, seu infortúnio e sua sina.

Teria lhe dito Tupã: “Quando o uirapuru cantar nas matas outras aves se calarão em respeito a sua sina” (de Obirici).

Um prefeito em Porto Alegre ergueu uma estátua para a índia OBirici.

Enfim chegamos no “fim da trilha”, mato fechado, praticamente sem luz do sol, apenas alguns raios que entravam por algumas fendas entre galhos de árvores de 30/40 metros de altura. Chegamos perto de um tronco tombado que se dividia em dois. “É aqui”. Disse a Vanilce.

Os guias então estenderam um “blind”, um pano verde entre duas árvores para que ficássemos atrás dele e assim não estressássemos o uirapuru. O blind foi posicionado e meros 2 metros deste tronco caído. “ se ele aparecer ele vai subir neste tronco pra cantar“. O quê? Vou ver o bicho a pouco mais de 2 metros? Nossa, o coração começou a acelerar. A Vanilce emendou “e ele já está vindo”. “É o território dele.” Continuou. Máquinas preparadas e o Luis Carvalho entoa o canto do uirapuru assobiando! Um breve silêncio. E a Vanilce emenda “Chegou. Olhe por cima do blind”. Eu olhei e o ar faltou. Lá estava o uirapuru em cima do tronco e não deu uns 20 segundos e ele começou a cantar. E ele andava pra direita, para a esquerda. Parava e cantava. E cantava. Subia no tronco de cima e cantava. Descia e cantava. Ia no chão e cantava aquele canto doce flautado.

A mata num silêncio constrangedor… e o uirapuru lá entoando seu melodioso canto.

Saí encantado. Agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade e condições de ver este bicho. Agradeço a minha esposa por ser minha grande companheira nestas passarinhadas Brasil a fora e agradeço demais a Vanilce e ao Luiz Fernando por me apresentarem esta magnífica ave que talvez para quem não conheça e entenda a dificuldade de achá-la não consiga compreender a razão por que digo que bambeei as pernas ao vê-la e ainda mais assim tão de perto.

Voltamos para a trilha. Já podia encerrar que eu estava travado no sorriso… Mas ainda fizemos o uirapuruzinho-do-norte, o surucuá-violáceo e o cantador-da-guiana. No fim da tarde, passando pelo ramal do Pau Rosa chegando em Manaus, fizemos o belo toróm-carijó, o belo formigueiro-ferrugem com sua máscara azulada, o bem-te-vi-da-copa, o arapaçu-bico-de-cunha e a choca-murina.

E então fomos para Manaus ver os periquitos.

É uma cena que eu recomendo a todos que forem a Manaus. Um espetáculo da natureza. Milhares de periquitos-de-asa-branca vindo dormir em algumas poucas árvores no canteiro central de uma movimentada avenida em Manaus. Uma beleza. Chegam em bandos de dezenas por vez. E transformam árvores secas em “Pé de Periquito”.

Então a sexta 4/11 foi também um grande dia. Mas calma. No dia seguinte tinha Torre do MUSA e mais surpresas nos aguardariam.

Chegamos cedo na Torre. Ultimo dia de passarinhada mas as expectativas ainda grandes. Afinal um grande rapinante sempre poderia aparecer ou um psitacídeo ou cotingídeo qualquer.

Subimos e começamos ver a agitação de sempre. Bandos de papagaios-diadema e papagaio-moleiro passavam a uma distância razoável e por sorte pousaram a cerca de 70/80 metros mas ainda assim deu foto. Olha aí a Sigma 150-600 mostrando seu valor.

Um caneleiro-pequeno se aproximou e fizemos fotos. Depois tivemos o momento do pica-pau com a chegada de um pica-pau-de-colar-dourado e também uma fêmea de pica-pau-chocolate embora um pouco mais longe. Até que ficamos de olho num bando de chora-chuva-de-asa branca. Eles não se aproximaram muito mas esquecemos deles rapidinho quando a Vanilce avisou: “Olha os anacãs vindo!”. Para tudo. Esquece de tudo e olho nos anacãs que num grupo de 3 indivíduos pousaram graciosamente em uma árvore a oeste da torre a cerca de 50 metros. Começamos as fotos. E passado um tempinho eles voaram para o lado leste da torre e depois voltaram e ainda foram para uma 4ª árvore. Os anacãs simplesmente resolveram passear em volta da Torre!

A cada pouso do anacã botávamos os dedos nos disparadores e na mente uma única ideia… abra o leque…abra o leque…. Na segunda ou terceira vez que eles pularam entre árvores em volta da Torre finalmente vimos por uma fração de segundo um anacã abrir o leque olhando pra gente. Bem chapado. Bem de frente.

Eu não estava acreditando. Minutos depois um voou para uma árvore que não tinha galhos secos. Eu pensei. “puxa não vai dar pra fotografar ali”. E ele abriu o leque de novo !

E ficamos nós fazendo dezenas de fotos deste lindo psitacídeo. Eu que gosto “pouco” estava extasiado. Apareceu então um tem-tem-de-topete-ferrugíneo e fomos melhorar a foto do tem-tem que só tínhamos de muito longe. No momento em que eu a Rita estávamos fazendo fotos do tem-tem a Vanilce falou “Olha aqueles dois anacãs ali. Ele vão abrir o leque. Parece ser um casal”. Eu disse: “Peraí que estamos fazendo o tem-tem”. Neste segundo os dois anacãs fizeram o “trick”… Ficaram num galho um ao lado do outro mas em direções opostas. Aí eles se largam e ficam de cabeça pra baixo só que agora ficam um de frente para o outro. E abrem os leques gritando olhando um para outro… Nós perdemos a cena… Só pudemos ouvir da Vanilce o que nós perdemos…

Mas não dá pra reclamar não é?

E aí quando nos demos conta aquele bando de chora-chuva-de-asa-branca veio para uma árvore mais próxima. E deu foto!

Encerramos a passarinhada com um último lifer, um papa-formiga-barrado, ave que parece a borralhara-assobiadora que temos aqui no Sudeste. Enfim, com todos os percalços iniciais, com o corre-corre de passarinhar com quase 1 dia a menos num programa de 3,5 dias o resultado foi pra lá de satisfatório.

O meus agradecimentos vão para o casal de guias Vanilce de Souza e Luiz Fernando Carvalho. Além de muito experientes formam uma dupla de altíssima performance. Com um guia é bom, imagina com dois?

Vale cada centavo.

Eu respeito, agradeço e recomendo o trabalho dos guias de aves. Sem eles não seria possível ter o resultado que tivemos. E o lugar continua maravilhoso e Manaus ainda tem 280 espécies pra nos revelar !

Perdoem pelo longo texto. Mas eu tentei lhes passar um pouco do sentimento de passarinhar naquela terra abençoada que é a região de Manaus. Obrigado à Claudia pela oportunidade de escrever no seu blog. Leitura obrigatória pra quem gosta de aves livres.

Até a próxima!

 

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