Guará e outros bichos na Ilha do Cardoso

O guará (Eudocimus uber) é uma ave ciconiiforme da família Threskiornithidae. Também conhecida como íbis-escarlate, guará-vermelho, guará-rubro e guará-piranga, é considerada por muitos uma das mais belas aves brasileiras por causa da cor de sua plumagem, segundo o WikiAves.

Já tinha visto essa ave em zoológicos e em fotos. Quando fui bicado pela fotografia de aves, tive como sonho de consumo clicar essa maravilha em liberdade.

Nas andanças à procura de fotografar novas espécies (lifers, segundos os aficionados, palavrinha para mim meio enigmática que prefiro substituir pelo bom e claro português), nunca o guará se empoleirou à frente da minha lente.

Modelo fotográfico bonito e famoso cobra caro para posar. Assim é o guará, se quiser que ele se mostre é preciso enfiar a mão no bolso. Para certos gostos não se pode ter pena (sem trocadilho!) dos caraminguás que entram muito timidamente em nossas algibeiras. Mais adiante explico o porquê.

Procura daqui, pesquisa dali, fiquei sabendo que bandos de guarás estavam se apresentando na Ilha do Cardoso. Essa ilha, que também é um Parque Estadual, pertence ao município de Cananéia e fica no extremo sul do litoral paulista, na divisa com o Estado do Paraná.

Na ilha há vários pequenos povoados, um deles é o Marujá, onde se concentram as pousadas e os campings. Para chegar à ilha, só de barco. O carro fica em um dos estacionamentos na cidade. O DERSA faz o trajeto que dura 3 horas em uma embarcação que vai num dia e volta no outro e não funciona nos finais de semana.

Uma alternativa é contratar um dos barqueiros que fazem a travessia em cerca de 50 minutos. Muito mais cômodo, rápido e… caro! O preço é cobrado por viagem, portanto quanto mais gente para rachar, menos caro fica.

No Marujá, há uma pousada com cara de pousada e várias casas de moradores adaptadas para receber hóspedes, tudo muito simples, porém muito simpático e acolhedor. A eletricidade é artigo de luxo, pois não há rede elétrica que venha do continente. Uns poucos locais têm geradores a gasolina, enquanto que praticamente todas as casas são abastecidas com energia captada por painéis solares.

A energia assim obtida precisa ser economizada ao máximo para que as baterias aguentem o tranco. Chuveiros, geladeiras, lâmpadas e outros eletrodomésticos requerem uso parcimonioso. Quanto ao carregador de celular, não é preciso preocupar-se, pois o sinal não chega à ilha. Não se apoquentem os citadinos, para as emergências há um telefone comunitário que funciona o tempo todo.

A energia costuma ser desligada às 10 da noite. Depois disso, só banho gelado, que pode ser na praia limpíssima e linda que fica bem pertinho. Ou de cachoeira, bem mais longe e só acompanhado de guia local. Então, caro amigo birdwatcher, não se esqueça de levar lanterna e baterias extras para a câmera, carregadas, além de energia nas pernas para aproveitar as belas trilhas do lugar.

Ficou explicado por que o guará é um modelo caro? Ele não cobra cachê, mas para chegar até ele…

Para chegar até ele, na ilha, é preciso contratar um barqueiro no próprio Marujá, que o levará até o extremo sul, já na divisa com o Paraná, onde o canal se encontra com o mar aberto. Ali estão os ninhais, as árvores ficam vermelhas, movimentadas e barulhentas. Os guarás são maioria, mas aceitam a companhia de garças-azuis, savacus-de-coroa, garças-mouras, entre outras espécies.

Da ponta da ilha, logo ali perto, dá para avistar o Paraná, onde está a ilha vizinha. Não tenho certeza disso e não recomendo, mas na maré baixa, acredito que, com os devidos cuidados, dá para ir a pé até lá. Melhor tirar essa dúvida com quem conhece. Melhor ainda é não correr riscos, pois uma foto do guará já é cara o suficiente.

Peça para o barqueiro chegar bem pertinho da ilha paranaense. Lá, o amigo poderá ver e fotografar um enorme bando de trinta-réis-de-bando, se tiver a sorte que eu tive.

Voltando ao Marujá, você terá tempo para fotografar saíras-sete-cores, tiês-sangue, pica-paus-de-cabeça-amarela, atobás, tesourões, urubus-de-cabeça-vermelha, batuíras e tanta coisa mais. Entre essas coisas mais está o caranguejo chama-maré (Uca maracoani), de cor vermelha e que é a base da alimentação do guará. Essa cor vermelha, dada pelo caroteno, pinta as penas da ave.

Creio que vale uma última recomendação. A ilha possui capacidade de acolher cerca de 1.300 visitantes, portanto, se o objetivo é fotografar aves, evite ir nos feriados prolongados ou na temporada de férias. E não se esqueça: da natureza nada se tira além de fotos, nada se deixa além de pegadas e nada se leva além de lembranças (na memória, claro!).

Então, colega passarinheiro, se ficou interessado, entre em contato pelo WikiAves e passarei informações mais detalhadas sobre meus lugres favoritos para fotografar.

 

Preços e segurança na Ilha do Cardoso

Eu sabia da presença dos guarás em Cubatão, porém nunca cogitei ir até lá. A poluição da região me afugenta, os demais riscos também. Na Ilha do Cardoso a poluição é praticamente zero. A população cuida adequadamente do lixo, não há veículos motorizados na ilha, a não ser uma viatura oficial do parque. Em terra, os moradores e visitantes se movimentam a pé ou de bicicleta.

Problemas de assalto e coisas assim parece não existir, é tudo muito tranquilo. Os preços são altos, mas não são abusivos, pois tudo o que não se produz lá vem do continente de barco, com custo muito elevado. Pelo transporte de Cananeia até o Marujá, em uma voadeira de 12 lugares, paguei R$ 260,00 na ida e outro tanto na volta, já que estávamos apenas eu e meu filho e não tinha com quem dividir. O passeio até os guarás ficou em R$150,00 e teve ainda a visita a outros locais de interesse na mesma viagem.

A alimentação é à base de peixes, principalmente, pescados ali mesmo e não sai tão caro. A hospedagem também tem preços razoáveis.

 

Litoral

 

Observação de Claudia Komesu, editora do Virtude-ag: Os guarás também podem ser vistos nos mangues de Cubatão. A Náutica da Ilha faz o passeio, mas cobra bem caro. Em junho de 2012 paguei R$ 400 por 2h30 de passeio. Mais informações aqui: http://virtude-ag.com/birdwatching-guaras-cubatao-jun12-claudia-komesu/. Pra você ter uma ideia, em março de 2017 paguei R$ 250 por uma manhã inteira (4h de passeio) no Tanquã, em Piracicaba – SP.  No Tanquã não tem guarás, mas há muitas aves aquáticas. Em Cubatão há uma profusão de aves, mas pode haver questões de segurança. Se tiver interesse, por favor leia o post e, se marcar o passeio, peça à náutica informações atualizadas sobre o risco de assalto.